Texto escrito por Gerardo Uz
Anteontem, 19 de agosto, despedimos o patriota galego Luís Gonçales Blasco, conhecido por todas e todos nós como ‘Foz’.
Uma constante na sua trajetória foi que o Foz prestigiou tudo o que estava à sua volta. Prestigiou a sua vila natal, levando-a como sobrenome polo mundo adiante. Prestigiou as associações e organizações em que militou. Prestigiou as publicações que levavam o seu nome. Prestigiou, e de que maneira!, todas e todos nós que tivemos a sorte da sua amizade.
Ser amigo do Foz era muito fácil. O difícil — e nisso coincidimos anteontem — era não se dar bem com ele, mesmo quando havia discrepância estratégica ou ideológica.
Não lembro quando é que o conheci, nem exatamente o contexto. Pode ter sido nalgum ato na Faculdade de Filologia de Compostela, talvez nalguma palestra da Gentalha do Pichel, se calhar numa assembleia ou ato da AGAL…
Foi, com certeza, há vinte ou vinte e algo anos. O militante independentista, o teórico (e prático) do reintegracionismo, o professor de língua… na faceta que mais tempo e espaços partilhámos foi no ‘ludo-reintegracionismo’.
Porque o Foz, quando queria, era sério e rigoroso, como bom marxista. Mas, como bom marinhão e bom galego, era um verdadeiro brincalhão, com um grandíssimo senso de humor e facilidade para fiar memória, divulgação e retranca. Será que a sua derradeira brincadeira foi abandonar definitivamente a Pátria no mesmo dia em que se comemorava o seu nascimento?
Bem-prezado Foz, como lembrou teu filho Vreixo — a partir de um poema de Cunqueiro —, a 18 de agosto apagou-se a tua voz principal, mas fica o eco que deixaste em nós. No ato civil de despedida, a sala ficou lotada, prova do imenso carinho e das redes de afetos tecidas durante décadas. E isto apesar de muita gente não ter conseguido achegar-se por estar longe a tal hora!
Ao longo de toda a sua trajetória, por detrás do militante, do reintegracionista, do professor, do académico da Academia Galega da Língua Portuguesa, do divulgador, do galhofeiro e do amigo, esteve sempre o mesmo Foz: o independentista galego que fizo da libertação nacional da Galiza o sentido último da sua vida. E talvez seja esse o seu maior legado: ter conseguido que essa ideia impregnasse como o melhor verniz tudo quanto tocou, ora amizade, ora militância, ora cultura, ora humor… O Foz deixa-nos uma forte pegada, mas também uma responsabilidade: fazer com que o eco da sua voz continue a acompanhar-nos no caminho para construir a Galiza pola qual ele luitou.
