La Escuela de Doña Marujita

Partilhar

Por Edelmiro Momám

A expressão é dum professor de matemática que tive no liceu. Ele empregava-a de maneira sarcástica para ridicularizar o comportamento paternalista de determinados professores e as expectativas de muitos pais e alunos. “Esto no es la escuela de Doña Marujita” dizia, para sublinhar que ele esperava dos alunos independência, maturidade de carácter e capacidade para resolver problemas de maneira autónoma sem ter de ser guiados como ovelhas o tempo todo.

Por alguma razão, os debates linguísticos na Galiza amiúde me fazem lembrar essa mesma expressão, embora com umas conotações essencialmente distintas daquela com que era brandida pelo meu antigo professor.

Sim, porque em todos os bandos (já for no nacionalismo espanhol, no português ou no lusismo galego) semelha haver pessoal muito preocupado com a “pureza” da língua. Autênticos quixotes modernos que parecem fazer dessa cruzada pela sacrossanta pureza linguística a sua razão de viver.

Eu, se calhar por ser “de ciências”, sempre achei isto muito engraçado. Aliás, para além da distorção profissional, acho que o facto de ter morado em muitos países distintos, e particularmente em Luxemburgo onde moro há mais de cinco anos, tem-me ajudado se calhar a pôr esta questão um bocadinho em perspectiva. Sobretudo porque, antes de morar em Luxemburgo, morei na França que é precisamente o país onde nasceu o conceito que ainda hoje temos do que é “língua” e onde o tal conceito ainda se acha plenamente vigente, em vivo contraste com a realidade luxemburguesa.

Como já tenho falado do tema alhures, não me vou estender. Em Luxemburgo há três línguas oficiais (luxemburguês, alemão e francês) e um 50 por cento de estrangeiros de diversas procedências, mas, fundamentalmente, portugueses. Em Luxemburgo, todos falamos várias línguas na nossa vida quotidiana, frequentemente línguas estrangeiras. Que o taxista fale média dúzia de línguas ou que no pequeno posto de kebabs tenham mais duma dúzia de bandeiras, uma por cada língua que sabe falar o pessoal, já não admira ninguém.

Neste contexto, a “correcção” linguística é um problema absolutamente secundário. Quando eu tentava falar no meu pobre francês em Estrasburgo, a maioria do pessoal achava, imagino que de maneira subconsciente, que eu era uma pessoa de baixo nível cultural e como tal era tratado. A equação é simples: uma pessoa que fala mal francês apenas pode ser um imigrante e, portanto, pobre e inculto.

Já em Luxemburgo, muitos louvam a “qualidade” do meu francês. É uma língua oficial, sim, mas não é “a sua” língua, não quando menos na mesma medida em que é o luxemburguês. Porém, ninguém fala luxemburguês “correctamente” porque os critérios de correcção linguística para a língua “do coração” são bastante difusos. O mesmo acontece com o alemão. Os luxemburgueses falam alemão com um nível “quase” nativo. Quase mas não. Mas ninguém se importa por isso. É uma perspectiva inteiramente diferente.

Em Luxemburgo todos os portugueses acham que o meu galego é português. Com os seus erros e os seus castelanismos e o sotaque esquisito e tudo. Mas português. De facto, tenho comprovado que o meu mal galego (e, portanto, o meu mal português) tem menos gralhas do que o português escrito pela maioria dos portugueses nascidos no Luxemburgo. Mas ninguém se importa. Por que se haviam importar se eles falam, como média, cinco, seis ou sete línguas?

Na Espanha ou na França ou qualquer outro país monolingue e culturalmente monolítico, uma pessoa que fala seis língua é um “intelectual”. Aqui é raro ser nascido no Grande Ducado e não falá-las. Tanto faz que sejas professor, primeiro ministro ou peixeira.

Mas eu tenho para mim que Luxemburgo é o futuro e França, Espanha ou Portugal são o passado. Luxemburgo, na sua extraordinária pequenez e ruralismo, é uma sociedade moderna, dinâmica e cosmopolita. França, Espanha e Portugal ficaram na “escuela de Doña Marujita”.

Um exemplo. Em Luxemburgo está sediado o Tribunal de Contas da União Europeia. Nele trabalham advogados e juízes de muitos países. As línguas de trabalho são, como no resto das instituições europeias, o inglês, o francês e o alemão. Alguns têm uma delas como língua nativa, muitos não têm nenhuma. Durante um jantar, um advogado francês contou-nos que havia no Tribunal de Contas um juiz luxemburguês que tinha gralhas e erros nos seus escritos em francês. Ele achava inconcebível e vergonhoso. Na França não poderia ser juiz. Bom, nem ser juiz nem ter nenhuma outra profissão “respeitável”. Na França ele seria ridicularizado e tratado como um analfabeto. Como era possível que esse homem tivesse chegado a ser juiz? Nós achávamos normal. O nosso amigo tentou convencer-nos de que era uma aberração, mas o resto dos comensais continuou a achar normal.

Na verdade, a concepção de “língua” emanada da “escuela de Doña Marujita” é muito recente, como a própria instituição escolar. Nasceu com o estado-nação e, portanto, com a Revolução Francesa.

Quando deixei Irlanda para ir morar na França, como não tinha vontade de estudar, decidi aprender francês lendo romances. Eram as férias de Natal. Comecei por Le Petit Prince e rematei pelo pré-revolucionário Les Liaisons Dangereuses (já nem lembro o que li no meio). Já em Estrasburgo, contando a um amigo este meu périplo literário, ele não pôde evitar repetir o conto que aprendera na escola de Doña Marujita: “Terás reparado no pouco que mudou a língua francesa desde o século dezoito até hoje”, disse. “O francês literário”, matizei eu. Porque, é claro, o francês falado na rua é outra cousa… “Porém, prossegui, tens ideia de quantas pessoas falavam francês na França de Louis XVI?”. Ele não tinha ideia. Disse-lho eu: os 14 % da população. Ficou chocado.

No antigo regime, a lealdade ao monarca era o garante da unidade do reino. Desde que pagassem impostos e enviassem os filhos à guerra, pouco importava qual era a língua ou os referentes culturais dos seus súbditos. Decapitado o rei, a nova classe dominante, a burguesia, vê-se na obriga de impor um programa político e uns referentes ideológicos que evitem a desagregação do reino. Na realidade, esse programa e esses referentes foram-se gestando ao longo de muitos séculos, na dilatada pugna que deu lugar às revoluções burguesas em grande parte da Europa. Assim, a burguesia impõe um conceito de “nação” apanhado do romanticismo artístico, uma nação homogénea com as suas raízes na pré-história profunda: ein Volk, ein Reich, eine Sprache. Assim, na França revolucionária a língua tem uma importância política fulcral. Quem falar alemão, bretão ou basco pode ser considerado um traidor e perder a cabeça.

Já consolidado o novo regime, com a industrialização e a migração maciça de população rural para as cidades (processo que na Galiza não aconteceria na mesma medida até praticamente a segunda metade do século XX) a língua passa ter um papel de estratificação social: diz-me como falas e direi-te quem és. Assim, a brutal repressão linguística inicial, que foi repressão política, vai-se convertendo num processo, muito mais eficaz, de pressão socioeconómica: se queres que os teus filhos não sejam ridicularizados na escola e possam aceder a um trabalho de colarinho branco (a famosa miragem da “ascensão social”), já sabes qual é a língua que devem aprender e de que maneira deves falar essa língua.

Neste processo de “construção nacional”, a escola de Doña Marujita e a concepção de língua (entre outros muitos valores) dela derivada jogam um papel absolutamente fulcral.

Na Espanha, dominada por umas elites católicas rentistas absolutamente parasitárias e reaccionárias, a industrialização com o seu corolário de mudança de regime chegou de forma muito serôdia e incompleta (e à Galiza ainda mais). Por isso o processo de construção nacional espanhola é ainda um processo inconcluso. A indolência espanhola deu tempo a outros processos de construção nacional, os das chamadas “regiões periféricas”, a se organizarem e por isso a questão da língua está mais viva na Espanha do que em quase qualquer outro “estado-nação” europeu.

Em contraste com todos estes estados nações uniformizadores e homogeneizadores, que não são mais do que as ruínas dos velhos impérios belicistas europeus, o Luxemburgo destaca como um caso muito atípico. O dum minúsculo estado nação de gestação relativamente mais recente, que constitui um exercício de auto-afirmação face às pretensões anexionistas dos vizinhos, e que mostra com eloquência que as cousas podem ser doutra maneira, que é possível existirem outros modelos de construção nacional (outro debate seria se a construção nacional, qualquer construção nacional, é per se desejável). Modelos que questionam os dogmas estabelecidos é que semelham-nos particularmente interessantes precisamente numa fase histórica caracterizada pela crise do estado em si próprio, pelo questionamento da sua existência como célula politico-social fundamental e pelo esvaziado da sua “soberania” e da suas funções em favor de instituições internacionais que se acham sob o controlo directo dos lobbies financeiros globais.  

Voltando ao tema da língua, em Luxemburgo observamos que a língua própria se acha numa situação de diglossia estável (o luxemburguês é uma língua essencialmente oral, fazendo o alemão, e em menor medida o francês, as vezes de línguas tecto na escrita) sem que isso implique uma queda do número de falantes (todos os luxemburgueses falam a sua língua com grande orgulho) nem na transmissão intergeracional da língua (que também se verifica no caso dos imigrantes), sem que isso implique o questionamento político da sua “utilidade” social ou económica, sem que isso implique o questionamento do modelo de imersão linguística progressiva vigorante, e sem que isso implique uma degradação da qualidade da língua (embora, como dissemos acima, desde standards “doñamarujiles”, essa qualidade sempre foi questionável).

De facto, a mudança linguística mais importante no Luxemburgo não tem tanto a ver com o luxemburguês, o qual semelha o idioma mais estável nos estratos que ocupa, se não que tem a ver com o status do francês, que se está a ver lentamente deslocado pelo Globish (essa espécie de inglês abastardado que falamos quase todos) como língua por defeito nos negócios e nas finanças.

Às portas da previsível independência catalã, cri necessário, ainda sob o risco de resultar maçador, insistir mais uma vez no modelo luxemburguês, para não obviarmos um modelo de construção nacional e linguística que acho poderia ser particularmente interessante proveitoso para nós, os galegos, e bem mais adequado em qualquer caso para os novos tempos do que o obsoleto e caduco modelo de Doña Marujita.