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J.R. Pichel: «A diferença entre “Eu falo galego” e “Eu falo português” é só uma palavra»

PGL – José Ramom Pichel Campos (Santiago de Compostela, 1972), autor da coluna Medo aos Aviões, conhece como poucos as vantagens de termos uma língua de dimensão internacional. Precisamente graças a isso, no passado mês de novembro foi o coordenador da missão comercial ao Brasil do cluster de empresas TIC galegas.

No regresso desta missão contatamo-lo para conhecermos as suas impressões acerca do relacionamento luso-brasileiro, das possibilidades que pode ter a empresa galega no Brasil —onde nos próximos cinco anos haverá dous macro-eventos—, e também pola tradução automática, âmbito no qual é especialista, pois é responsável de imaxin|software, autora do Opentrad.

P: José Ramom, após esta viagem, reafirmas-te em que a língua portuguesa é uma vantagem competitiva para uma empresa galega?

R: Nestes momentos já é, mas no futuro imediato o português —e portanto o galego— é uma das línguas com mais projeção internacional. Dizer português e galego é o mesmo que dizer espanhol e castelhano.

O campeonato de futebol do Brasil no 2014 e as Olimpíadas do 2016 estão a fazer que o empresariado ibérico em geral e particularmente em Catalunha, Madrid e Extremadura, estejam a olhar como uma zona de grandes oportunidades económicas a lusofonia e especialmente o Brasil e também Angola.

As empresas galegas têm mais vantagens que uma empresa catalã, basca ou madrilena por causa do idioma, mas pouca gente o sabe —embora o experimente quando chega lá—. É curioso que se só vão galegos é mais difícil ser consciente dessa vantagem, cousa que vira clara quando se vai com empresários de outras zonas da península.

P: Agora que está tão na moda insistir, mesmo desde a Junta da Galiza, na potencialidade do galego para achegar-se a uma potência emergente como o Brasil, por que ainda som as empresas catalãs as que estão por riba —e muito— das galegas em volume de negócio e contatos com os países lusófonos em geral e o Brasil em particular?

R: Catalunha tem um tecido empresarial mais potente, para além de que sempre estão a procurar caminhos novos para os seus produtos e serviços. Se Catalunha, Madrid ou País Basco falassem galego seriam ainda mais potentes economicamente do que são.

O equivalente ao IGAPE na Catalunha (COPCA) tem uma sede importante em São Paulo na qual tivem a sorte de estar com outros empresários galegos e ali pudemos ver como têm locais para se poderem instalar durante um ano a preços muito baixos. O diretor do COPCA comentou-nos justo ao chegarmos: «Qué suerte los gallegos aqui en Brasil, ¿no? ¡Entenderéis todo!». Nos respondemos que sim, que mesmo estávamos surpreendidos porque compreendíamos tudo. O próprio diretor comentou-nos o seguinte: «Yo no quiero meterme en lo que no me llaman, pero yo creo que tenéis los gallegos dos opciones con el gallego: o hacer un gallego folclórico con lo cual va a desaparecer, o hacer un gallego global con Brasil con lo cual os comeréis el mundo».

No centro, J. R. Pichel recebendo o certificado da norma de qualidade CMMI

P: Em geral há muitas semelhanças, mesmo no método de trabalho ou as estratégias de organização, do Brasil com a Galiza quanto às novas tecnologias. Como acontece por exemplo em muitos dos grupos de voluntários que trabalham/traduzem software livre além e aquém o Atlântico, mas infelizmente não há quase contactos nem relacionamento. Por que essa situação e quais podem ser as soluções e mesmo os benefícios de uma coordenação e trabalho comuns?

R: Galiza foi pioneira em fóruns de software livre com o Brasil. Eis umas jornadas há bastantes anos com o grupo de OpenOffice do Brasil no Porrinho. E mesmo essa estratégia foi mantida por Mancomun.org, que priorizou a relação com a lusofonia. Já agora, a Real Academia Galega (RAG), seguindo os postulados reintegracionistas e falando de pragmatismo, está a desenvolver terminologia comum com o Brasil para um domínio concreto como é o do solo. Isso é um passo muito positivo dentro de um caminho que devemos dar todos juntos, reintegracionistas e normativistas.

A coordenação com o Brasil, ou seja, com um continente onde se fala o nosso idioma, com outra fonética, com outras expressões, com outros termos, mas o mesmo idioma, é imprescindível para dotar o galego de mais força e mais viabilidade.

P: Às vezes os contatos da Galiza com o exterior ficam lastrados polo intervencionismo do Estado, que mesmo subtilmente acaba por desviar as possibilidades de mercado para as zonas que lhe interessa. Pode a Galiza luitar contra isso apenas desde o compartilhamento cultural e lingüístico com o Brasil?

R: Os Estados têm pouca margem de manobra, está-se a ver com esta crise económica. Porém, é interessante ver como os estados mais periféricos mentalmente —isto é, sem iniciativas próprias e faltos de ideias—, copiam ideias de quem consideram referência sem fazerem adaptações ou mesmo sem pensar se isso vale a pena. Se Madri copia dos Estados Unidos ou Reino Unido e até França, os governos galegos copiam Madri ou como muito Barcelona, e nessa agenda até hoje nem Madri nem Barcelona têm como absolutamente prioritária a relação com a lusofonia. No entanto, começam a ver-se iniciativas que vão nessa linha.

Surpreende mesmo que em masters empresariais no nosso lugar do mundo ainda se diga que os galegos devemos aprender chinês porque é a língua do futuro. A nossa língua é já agora uma língua de futuro. No entanto, o único governo que está a fazer algo por isto curiosamente é o de Extremadura, que está a apostar polo sabor português do nosso idioma. Tenho a intuição que Madri e Barcelona estão e apostarão mais ainda polo Brasil e portanto a Galiza copiará sem refletir esta estratégia. O qual, neste caso, nos beneficiará a todos. A nossa estratégia depende de Madri e em menor medida de Barcelona… Eis onde temos que estar!

P: Se realmente os galegos e galegas temos mais oportunidades de negócio com o Brasil, não seria lógico potenciar o galego no ensino da Galiza cara a uma maior identificação com o português na sua dupla significação de língua própria e internacional?

R: Contava o Carlos Nunes que quando chegárom ele e o seu manager ao Brasil iam com um produtor catalão. Eles surpreendêrom-se muito ao ver que este não percebia o idioma. Isso é o que nos acontece na Galiza, não vemos o que temos diante ou debaixo… É como ter um outro filme na cabeça, é ver um carvalho e estar a pensar em sequoias. Infelizmente, o lógico não é o que acontece.

Gosto muito da frase «o fácil aborrece, o difícil atrai, o complicado seduz e o possível acontez». Temos de ser facilitadores do possível, porque ter duas línguas internacionais é possível, e podemos parar a desaparição do galego neste território usando fórmulas que conjugem identidade e utilidade. As aulas de galego devem incorporar unidades dedicadas ao falado no Brasil, Portugal, Angola, etc. Deveriam refletir os editores de livros de galego se nesta altura da história não deveriam começar a incorporar nos seus textos estas oportunidades para os galegos do futuro. Isto é possível com pouco esforço e cada um desde as suas possibilidades.

Pichel acompanhado por Sabela Fernandes, Valentim R. Fagim,
Carlos Nunes e Fernando Conde

P: Mas não só Brasil deve ser um referente, mas também Portugal que, aliás, está aí a carão. Porém, mesmo poderia parecer que Portugal está mais longe do que o Brasil…

R: Para muitos galegos, Portugal é como estar na casa, sobretudo o Norte. Cada vez há mais relação mas, ao contrário do que acontecia antes —onde mesmo família minha viguesa que ia a Portugal era só ali onde falava galego—, agora há muito galego que ali fala só castelhano. E muito português que ao sermos nós ‘Espanha’ se relaciona connosco num portunhol caraterístico. Estamos aprendendo entre portugueses e galegos a nos relacionarmos, a saber dos nossos interesses. O giro é que estão a aparecer nos mapas mentais de muitos galegos e de muitos empresários —e não só do sul da Galiza— lugares como o Porto, Braga, Ponte de Lima, Viana do Castelo… Estamos no início de um futuro muito emocionante.

P: No relacionamento luso-galaico, o que se pode fazer para podermos estar, no mínimo, ao nível da Extremadura, que tem o português como “objetivo estratégico”?

R: Eu faria várias medidas se é que tivesse essa responsabilidade, e acho que os responsáveis políticos e empresariais podem estar de acordo. Primeiro, o português tem de ser introduzido no ensino secundário como segunda língua estrangeira preferente por ser, de todas, a língua com mais projeção económica nos próximos anos.

Segundo, tem de haver nas cadeiras de língua e literatura galega materiais, unidades de aprendizagem da ortografia internacional portuguesa e também de cultura lusófona. Terceiro, deveríamos facilitar ferramentas de aprendizagem das variantes portuguesa e brasileira desde o galego. Quarto, deveríamos difundir materiais bibliográficos portugueses dos diferentes domínios do conhecimento.

Quinto, a relação audiovisual com Portugal tem de ser recíproca, e as pessoas que queiram ver a TV portuguesa deveriam poder ter acesso sem problemas, e para além de nos afazermos ao seu sotaque também melhoraremos o inglês, questão muito bem resolta ao sul do Minho. Sexto, relação preferente do IGAPE e de todos os organismos de promoção das empresas galegas para os próximos anos com a lusofonia —especialmente o Brasil)— para sermos nós a ponte entre a Europa e a lusofonia.

P: As empresas galegas alviscam o potencial do Brasil? São capazes de enxergar a vantagem competitiva de serem galegos e galegas?

R: Surpreende ver como empresas de gente de menos de 45 anos de Vigo não estão a pensar no Brasil, mas que ja estão lá e até em Angola, onde também há muitas oportunidades de negócios, mesmo  no setor das TIC. Os galegos enxergam esta vantagem sobretudo quando vão com madrilenhos, catalães, bascos e andaluzes fazer negócios na lusofonia. De súpeto, descobrem que têm uma língua útil e nunca lho ensinárom na escola, que só mudando um léxico muito castelhanizado, abrindo e fechando bem as vogais e com o sesseio, acedem a novos mundos.

Dizia um empresário de uma mediana empresa, também de Vigo, numa palestra sobre o Brasil —por sinal, departida em castelhano—, que em igualdade de condições ganhavam sempre os concursos públicos lá por causa de terem duas cousas em comum com os brasileiros: a língua e o gosto polo futebol. “Qual língua?”, perguntou uma pessoa no público. Ele respondeu: o galego.

TRADUÇÃO AUTOMÁTICA

P: A empresa Imaxin é uma ponta de lança na engenharia linguística. Que nos podias dizer a respeito da tradução de galego-português e galego-castelhano?

R: Pois basicamente que não existe tradução automática entre português e galego, é como traduzir entre mexicano e castelhano, diferente léxico, diferente fraseologia e diferente sintaxe, dependendo do domínio. A taxa de erro vê-se na falta de léxico nos dicionários e alguma estrutura mínima sintática caraterística. No entanto, entre galego e castelhano —ou ao contrário— já se está a falar de diferenças mais claras e a taxa de erro aumenta, embora sintaticamente e estilisticamente o galego escrito ao norte do Minho esteja muito influído polo castelhano, o qual facilita a qualidade de um tradutor automático baseado em dicionários.

Captura de ecrã do site web de imaxin|software

P: Recentemente tem saído do prelo um livro onde se questiona a tradução automática. Que tem a dizer ao respeito?

R: É muito bonita uma prova que fago quando dou cursos sobre estes temas. Digo-lhes aos presentes que apanhem um texto de galego na net ou mesmo num livro de literatura —o qual é muito esclarecedor— e que a traduçam ao espanhol palavra a palavra em voz alta. Todo o mundo damo-nos de conta então que esse espanhol resultante praticamente é perfeito, o qual indica que o galego está muito castelhanizado sintática e estilisticamente. É esta causa, a pouca distância em como escrevemos o galego a respeito do castelhano, e não uma questão tecnológica, o que fai que os tradutores automáticos que funcionam traduzindo palavra a palavra funcionem com tão pouca taxa de erro.

P: Há vantagens na transliteraçã direta, mesmo desde galego ILG/RAG, para o português a respeito à tradução automática desde o castelhano? Melhora a qualidade, eficiência e exatitude?Poupa trabalho de desenvolvimento o uso dos trabalhos e bancos de dados já existentes e em constante crescimentos feitos no Brasil para trabalhar no caso galego?

R: Vamos ver um exemplo.

Se traduzimos o seguinte texto extraido do jornal Público português —em português— ao galego normativo: «O Presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, reafirmou hoje a vontade de manter a porta aberta para o diálogo com a vizinha e rival Coreia do Norte, mas na condição expressa de Pyongyang desistir primeiro das suas centrais nucleares e do aventureirismo militar», o resultado é o seguinte: «O Presidente surcoreano, Lee Myung-bak, reafirmou hoxe as ganas de manter a porta aberta para o diálogo coa veciña e rival Corea do Norte, mais na condición expresada de Pyongyang desistir primeiro das súas centrais nucleares e do aventureirismo militar».

Se traduzimos também palavra por palavra um texto extraído do Público espanhol —em espanhol— ao galego normativo: «El presidente surcoreano, Lee Myung-bak, dijo este lunes, en un discurso televisado a la nación con motivo del Año Nuevo, que la puerta hacia la paz con Corea del Norte sigue abierta, aunque Pyongyang debe mostrar su disposición al diálogo», o resultado é o seguinte: «O presidente surcoreano, Le Myung-bak, dixo este luns, nun discurso televisado á nación con motivo do Ano Novo, que a porta cara á paz con Corea do Norte segue aberta, aínda que Pyongyang debe mostrar a súa disposición ao diálogo».

Vemos que qualquer uma das traduções é boa. Qual é a razão?

Que o galego pode ter bem um estilo parecido ao português e achamos que é correto e se o estilo for parecido ao castelhano também é correto, só que para os galegos em mais contato com o castelhano —99% dos galegos— a segunda é mais correta, embora é a mais castelhanizada estilisticamente. A primeira tradução é mais autenticamente galega.

A tecnologia demonstra o grande efeito mental que tem a ortografia. Uma ortografia próxima ao castelhano parece-nos galego e próxima ao português parece-nos português, seja qual for o estilo do que se escreve. Mas a língua vem sendo a mesma. Com outra fonética, sim. Com outras palavras, sim. Com outras expressões, sim. Mas a mesma.

A diferença entre “Eu falo galego” e “Eu falo português” é só uma palavra.

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