J. M. A. – O Jornal de Letras, Artes e Ideias de Portugal, mais conhecido polas iniciais JL, publicou para o período de 24 de Março a 6 de Abril o seu número 1.030, com o que completa 30 anos de presença no mercado. O facto é assinalado de diferentes maneiras: com grafismo renovado, umha nova imagem realizada por dous conceituados especialistas neste ámbito, Vasco Ferreira e Jonas Reker, e com o que visam “oferecer aos leitores um jornal graficamente com maior legibilidade e elegância, que reafirma a modernidade do projecto original, projectando-o para o futuro”; com a estreia de nova fonte tipográfica, de nome Glosa, responsabilidade do designer português Dino dos Santos, quem esclarece que o objectivo era atingir “um estilo austero e rígido, mas delicado”; ou novas secçons e a mudança de outras, entre as quais merece destaque a “Autobiografia”, que saia na contracapa e agora se inclui no interior, sendo substituída nesse privilegiado espaço final por um “Diário do Desassossego” que assina Inês Pedrosa, um dos nomes cimeiros da Literatura Portuguesa actual.
O director do JL, José Carlos Vasconcelos, assina um Editorial em que frisa a efeméride, a que se refere como “qualquer coisa que toda a gente ligada à comunicação social e/ou à cultura reconhecerá extraordinária”, e define o JL como “um espaço decerto modesto mas único da cultura e da língua portuguesa, na cultura dos povos que nessa língua de todos nós se exprimem, da comunidade que deve ligar esses países e povos, da lusofonia e tudo que ela significa”. Palavras estas reproduzidas de um contributo anterior seu, de Fevereiro de 2009, elaborado para assinalar na altura o número 1.000 da revista, na actualidade de periodicidade quinzenal, mas que foi semanal entre novembro de 1983 e abril de 1994.
Nom é tam modesto, certamente, esse espaço representado polo JL. A sua editora, a lisbonense Medipress, reconhece umha tiragem de 10.500 exemplares, cifra relevante para umha publicaçom especializada nas diferentes manifestaçons da cultura e das artes. Desde o primeiro número inclui informaçom respeitante à actualidade da Literatura, da Pintura, do Teatro, do Cinema, da Música, da Educaçom…, e da Política relacionada com essas realidades. Entrevistas, críticas, análises, apresentaçons de novidades, números especiais, informaçom de acontecimentos marcados, opiniom, crónicas, etc., conformárom progressivamente um produto de múltiplos atractivos, de interesse para o público geral mas também valioso para especialistas.
Um produto singular, que favoreceu a permanência e resultou estimulante para o investimento publicitário de instituiçons e de empresas, como o demonstra que neste número comemorativo, de um total de 52 páginas algo mais de 13 som de anúncios, muitos deles de página inteira, aos quais há de acrescentar mais 4 páginas monográficas de “Agenda Cultural” subsidiadas polo Ministério da Cultura: um terço das páginas, pois, pagadas directamente, o que garante a pervivência num mercado muito competitivo. Assim, nos trinta anos desta publicação, consolidou um importante prestígio, além de ser valorizada como um referente de Portugal para a informaçom e a actualidade cultural. Juntou para isso um leque de redactores e colaboradores (permanentes ou nom) entre os quais salientam produtores bem conhecidos em diferentes âmbitos culturais, representativos de diferentes geraçons, que confluem no interesse em promocionar este empreendimento.
Neste número encontra-se em destaque, na capa, umha fotografia de Hélia Correia, a quem se dedicam várias páginas no interior, com ensejo do lançamento de Adoecer, o seu novo romance, de que ela fala em extensa entrevista (pp. 10-13 e 16), para além de umha crítica do livro assinada polo professor Miguel Real (p. 14), e um depoimento de Jaime Rocha (parte da p. 13), figura ligada de longa data a Correia. Salienta também a capa o novo livro de Manuel Alegre, de que se ofrece pré-publicaçom; a “Autobiografia” de António Borges Coelho; a leitura que a professora e crítica Maria Alzira Seixo faz da fotobiografia de Camilo Castelo Branco preparada por José Viale Moutinho; umha entrevista com o brasileiro Nuno Ramos, com ensejo do lançamento de um novo produto; e as crónicas assinadas por Helder Macedo, Guilherme d’Oliveira Martins, José Luís Peixoto, o angolano Ondjaki, o luso-americano Onésimo Teotónio de Almeida e valter hugo mãe, nomes bem conhecidos da cultura e colaboradores habituais.
A celebraçom dos 200 anos do nascimento de Alexandre Herculano, a morte da escritora santomense Alda Espírito Santo; e outras entrevistas, artigos, notícias, referências de novidades, etc. contribuem para este número, de grande atractivo, que se encerra como o já citado “Diário” de Inês Pedrosa, salientado igualmente na capa, em que esta produtora relata as experiências de umha estada no Rio de Janeiro na primeira quinzena de Março, e onde afirma: “Aprendi a viver de sonhos, creio que por isso amo tanto o Brasil”. Acompanha também este exemplar o volume Contos Leya, com onze pequenas ficçons de Dulce Maria Cardoso, Fernando Pinto do Amaral, Inês Pedrosa, Manuel Alegre, Urbano Tavares Rodrigues, José Eduardo Agualusa, José Mário Silva, Mário de Carvalho, Ondjaki, Mia Couto e Patrícia Reis, num total de 62 páginas, igualmente de atractiva apresentaçom, relatos publicados polas várias chancelas desse grupo editor.
Capa do número 1.030 do JL
O JL e a Galiza.
A cultura de Portugal e dos povos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP) encontra-se espelhada de diversas maneiras nos milhares de páginas publicadas polo JL. Também a cultura internacional tivo e tem acolhimento nelas. E a da Galiza, embora o Norte do Minho merecesse, e mereça, umha maior atençom; mas houvo entrevistas, críticas, reportagens, crónicas, notícias… relativas à realidade cultural galega desde 1981, ano que justamente coincide com o da fundaçom da Associaçom Galega da Língua (AGAL).
Nom faltam, nas páginas já dedicadas, as referências à situaçom do conflito ortográfico na Galiza, e à posiçom do Reintegracionismo. A primeira vez que se esclareceu com destaque o problema da língua talvez fosse na entrevista que Fernando António de Almeida realizou a Ernesto Guerra da Cal, publicada no número 56 do JL, em Abril de 1983. Esse longo trabalho, que se estende em três páginas, homenageia Da Cal como cientista e poeta, por ter recebido na altura, em Portugal, o prémio Dom Manuel II como reconhecimento para a sua grandiosa e monumental Bibliografia Queirosiana (apesar de nom finalizada ainda na altura a ediçom dos seis volumes da mesma, publicados pola Universidade de Coimbra). Nessa ocasiom, nas duas epígrafes finais reivindicava-se Da Cal como “o primeiro escritor a utilizar o sistema gráfico português para transcrever o galego” e recomendava que “à semelhança do flamengo que se apoia no holandês, o galego deveria apoiar-se no português”.
Refere esse trabalho jornalístico, como resultado do diálogo com Da Cal, que “Uma questão básico é o da normatização e normalização do galego: ‘Por um lado [diz Da Cal] sujeita à anarquia de uma língua que perdeu a sua tradição escrita, por outro lado porque não ocupa o lugar na vida galega que é ocupado pelo castelhano’. Surge o fundo social e sociológico: ‘As classes superiores [acrescenta Da Cal] foram sempre avessas a aceitar o galego como uma língua em pé de igualdade com o castelhano. No melhor dos casos era uma língua familiar e de proletários, de camponeses e marujos, de labregos, uma língua de ilotas. Tudo isto faz ainda parte do complexo de inferioridade galego.’”. E após longo depoimento, em que esclarece os diferentes posicionamentos e o próprio de Da Cal, concluia afirmando-se: “Guerra da Cal põe em relevo o contributo positivo dado pela Associação da Língua Galega [sic, em referência à AGAL] que defende o escrever em reintegrado e a universidade que considera, ‘apesar de tudo’ como ‘um foco de resistência’”
Semanas depois, no exemplar de 28 de Maio a 3 de Junho de 1985, o crítico Luiz Fagundes Duarte1 assinava o artigo “Língua galega. O passado imemorial de uma cultura”, também ilustrado com fotografia de Ernesto Guerra da Cal. Recenseiava a publicaçom do poemário Futuro Imemorial. Manual de Velhice para Principiantes, o primeiro que Da Cal publicou em Portugal, e afirmava Duarte: “Ora, a língua galega está viva. Mas corre um grande perigo de morte. Na Galiza, os demónios do a-histórico estão a servir-se de uma arma terrível: a da confusão. A melodiosa língua de pescadores e pastores que resistiu tantos séculos como língua materna e falada, abandonada pelo ramo irmão que é o português fortemente apoiado numa literatura multinacional, e paralelamente assediada pelo primo rico e interesseiro que é o castelhano, a partir do momento em que começou a levantar a cabeça para reclamar o seu direito histórico de ‘sermo politus’ tem sido objecto de partilhas entre filhos desavindos: os ‘centralistas’, que encaram o galego como dialecto do castelhano, porque afinal o ‘castelhano’ que na Galiza se fala nem é castelhano nem galego; os ‘isolacionistas’, que branda e ingenuamente acreditam num galego com o estatuto de língua europeia; e os ‘lusistas’, que acham que o galego é afinal uma língua oral que tem no português a sua dimensão literária e histórico-cultural.
E, afinal, desta triste cena de partilhas, o único herdeiro eminente e lucrador, mas estranho, é o castelhano que jamais esqueceu ou abandonou a sua vocação de guerreiro conquistador”. E na continuaçom oferece destaque Luiz Fagundes Duarte para o “Antelóquio Indispensável” que Da Cal colocou nesse poemário, e que qualifica de “uma das mais lúcidas e informadas, mas também apaixonadas, análises da situação actual do galego: partindo da dimensão histórica da faixa linguística galego-português, o autor dá-nos um retrato da Galiza que hoje existe, e da ‘Portugaliza’ que se não cansa de sonhar” salientando igualmente, como acontecia na entrevista antes citada, que para Da Cal a melhor soluçom para a língua da Galiza a respeito da portuguesa era “Como, de certo modo, aconteceu já com o ‘neerlandês’, que representa uma solução para a defesa do flamengo face à prepotência do francês, na Bélgica”.
Som estes apenas dous exemplos, dos vários que se poderiam citar, em que o JL se ocupou nas suas páginas da língua e da cultura da Galiza; estes dous exemplos procedem do primeiro lustro de existência e tenhem a particularidade de favorecer o diálogo galego-português através do conhecimento mútuo, algo muito necessário também nesta altura, cinco lustros mais tarde.
Em definitivo, há de se parabenizar o JL por este andamento de três décadas. É uma publicaçom que merece ser conhecida, lida, respeitada e divulgada polos seus muitos, valiosos e proveitosos ámbitos de interesse que podemos partilhar. Almejar, pois, que continue a manter-se e a dar novos frutos para o entendimento da(s) cultura(s), própria e de outros mundos. Que favoreça e intensifique maneiras de dialogar mesmo entre galegos. Talvez um novo número monográfico, dedicado para a Galiza, focando desde Portugal a maneira como vem o nosso problema cultural, resultaria beneficioso para contribuir a entendermo-nos melhor entre os galegos e com os portugueses.
Compostela, finais de Março-inícios de Abril de 2010.
Nota:
1 Luiz Fagundes Duarte, professor universitário e crítico, é figura de relevo da cultura portuguesa. Pertenceu à Equipa Pessoa, que preparou a publicaçom da Ediçom Crítica da Obra Completa de Fernando Pessoa; e forma parte na actualidade da equipa internacional que publica a Ediçom Crítica da Obra Completa de Eça de Queirós, empreendimento que principiou em 1992 precisamente com o volume que ele preparou da narrativa A Capital! Luiz Fagundes Duarte notabilizou-se também nos últimos anos pola sua actuaçom política, nos Açores e na Assembleia da República de Portugal, sendo eleito deputado e pertencendo ao grupo do Partido Socialista Português. Participou num dos congressos da AGAL (o seu trabalho está recolhido nas correspondentes Actas), tendo enviado na altura crónica do mesmo também para o JL.

