Por José Paz Rodríguez
Na Índia, e em Bengala em particular, é onde te dás conta de que as crianças som enormemente felizes com um pequeno brinquedo ou enredo. Vir a esta formosa terra é para nós regressar à nossa infância feliz nas terras da Corna do concelho de Pinhor. Crianças bengalis, especialmente da zona rural, ainda que também na cidade de Calcutá e mesmo em Benarés, som felizes construindo os seus brinquedos.
Na nossa primeira visita aos povos “santales” que circundam o maravilhoso campus educativo tagoreano de Santiniketon, já ficáramos surpreendidos de que o jogo popular principal das crianças dos mais antigos povos índios era… a bilharda!. Denominada por eles «danguli» ou «tirguli», é o brinquedo mais presente no seu tempo de lazer. Feita com uma navalhinha por eles mesmos, ficavam assombrados de que nós também soubéssemos jogar a ela e tínhamos que explicar-lhes que quando éramos nenos como eles era nos recreios da escola da nossa aldeia o entretimento fundamental.
Esta primeira descoberta motivou-nos a continuar nas nossas seguintes visitas, pesquisando mais sobre os enredos tradicionais daquelas alegres crianças. Foi para nós apaixonante descobrir novos enredos. O segundo brinquedo em importância é a roda ou aro, também por eles construído. Com um pequeno pau no que cravam na sua ponta uma tampa redonda dalgum bote ou caixa. Com um ferro retorcido e um guiador. Com um pneumático de carro ou bicicleta…
Destacar também em terceiro lugar o jogo das andas em que som verdadeiros artistas, tanto para as fazer como para andar nelas. Recolhemos fotos de crianças jogando, e mesmo um jovem estudante da Faculdade tagoreana de Belas Artes, prévia encomenda, desenhou para nós variadas cenas de rapazes participando em jogos tradicionais. Olhar para as crianças bengalis do rural quando jogam e ver como desfrutam é um lindo prazer.
A variedade de jogos e enredos tradicionais é tal aqui que estamos seguros de que fariam felizes a investigadores galegos como Joaquim Lourenço, Ben-Cho-Shey, Vicente Risco, Arturo Romaní e o nosso amigo Brandim, e aos portugueses Pires de Lima e Leite de Vasconcelos. Porque ademais da roda e da bilharda, estas crianças brincam ao truco, que chamam «kitkitene», à turrassoga que denominam «dorilorai», à corrida de sacos ou «bostadour», às bolas ou berlindes de barro ou vidro que chamam «marbelene» ou ao «haribhanga», que é o nosso jogo de romper as olas.
Praticam também o tiro com arco e fam eles mesmos singelos brinquedos como fazíamos nós quando éramos pequenos: gaiolas para pássaros, flautas e assobios, bonecas chamadas por elas «putul», zoadeiras, cichotes de água, chapéus com folhas e palhas… Aproveitando todo o que a natureza oferece. Como os bugalhos ou carraboujos, que era um dos jogos de que mais gostávamos. Na Índia nom há carvalhos mas há outras árvores que dam frutos esféricos semelhantes e mais grandes, que som aproveitados para brincar. Outro dos jogos mais praticados na Índia é o dos papagaios ou papa-ventos. Em Benarés olhamos para as varandas e telhados das casas que dam para o rio Ganges e vimos multitude de crianças que sustinham a baraça dos seus formosos papa-ventos também elaborados e desenhados por elas mesmas.
Todo isto fai-nos reflectir sobre que em Ocidente colocamos erroneamente os rapazes num quarto cheio de brinquedos e nom som felizes nem sabem jogar. Na Índia as crianças som muito felizes jogando com uma pequena roda, com um pau dobrado ou com uma bilharda. Também nos lembramos do estado de abandonado em que está o parque ourensano de jogos do bairro de Velhe, para o que no seu dia nós redigíramos um projecto de uso com o objecto de que o concelho pudesse aceder às ajudas europeias, e o triste que foi o feche das ludotecas municipais. Se calhar é porque, ao contrário que na Índia, em Ocidente valoramos mais o ter que o ser.

