Isaac Alonso Estraviz, o nosso pastor da vezeira

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Por Carlos C. Varela

(23/12/13)

“…o ouro da língua, um tesouro oculto,
que brilha, porém, nos lábios dos falantes”

Joseba Ŝarrionandia

A “vezeira” era o nome que recebia na Galiza tradicional o rebanho comunal da aldeia ou paróquia. Ou cuidavam dele por turnos – por vezes –, ou escolhiam em concelho aberto um pastor da vezeira para que se encarregasse dele durante todo o ano. Em Larjantes, nos Ancares, mesmo tinham um cão da vezeira, um mastim que cuidavam entre todas as casas. Nessa mesma zona, cousa curiosa, o pastor da vezeira costumava ser um solteirão ao que chamavam – um tanto depreciativamente – “o verbo”. Isaac Estraviz tomou conta do nosso rebanho comunal de palavras há décadas, ajeitando-as, protegendo-as do lobo, e tendo tino para que não se perdam. Porém, ao reintegracionismo acontece um pouco o mesmo que a outras tradições subterrâneas nossas: é uma cultura oral. Vetada de cenários e praças públicas, a sua transmissão foi de boca em boca. Isto tem o encanto dos segredos na lareira, mas também a maldição de Sísifo: obriga continuamente a ter que começar de zero, porque a herança é difícil. Por isso em Ordes, quando uma nova geração de reintegracionistas foi conhecendo a gente da anterior, a da pioneira Associação Reintegracionista de Ordes, fomo-nos sentindo menos órfãos. Antes só tínhamos – e quanto lho agradecemos! – as palavras proibidas que apareciam de noite nas paredes, como petróglifos duma tribo invisível. Mesmo estivéramos já a remexer muito no Dicionário de Estraviz on-line, à procura das palavras descarriladas como ovelhas negras, e nem sabíamos que o pastor da vezeira fora professor na nossa escola secundária. Ainda menos mal que no-lo contou Manoel Salvado (‘Manolinho de Messia’)! Agora, com a publicação destas Conversas com Isaac Alonso Estraviz poderão ser muitas mais as pessoas a sentirem-se menos órfãs.

Este novo livro da coleção Através de Nós vem pola mão de Bernardo Penabade, que desde há anos reserva, entre o tempo que lhe tira o seu hiperativismo em prol da língua, um espaço para a conservação da nossa memória histórica. Ainda não há muito publicava umas outras conversações com Higino Martins, além de trabalhos na revista Agália sobre o arredista Ricardo Flores. Estas conversas arrancam em Vila Seca (Trás-Miras), e vão debulhando a vida do lexicógrafo desde a sua infância: a vida monacal em Usseira e primeiras repressões –aplicação de dispersão incluída –, a descoberta do galeguismo, os curas obreiros, o nascente movimento associativista galego, a nova igreja galega, etc. Para não alongar a resenha, só nos deteremos em dous aspetos importantes da sua vivência linguística: o dicionário e o relacionamento internacional.

A odisseia pola que passou a elaboração e publicação do Dicionário da Língua Galega recebe, como não podia ser doutro jeito, especial atenção. No médio da narração, uma anedota dessas que, como numa fábula, condensam toda umha explicação: saía um dececionado Estraviz da casa de Ramón Piñeiro, quem mudara de ideia e renunciava à grafia etimológica do Dicionário, e justo nesse momento entrava pola porta Ceferino Diaz, para incluir o de Galaxia nas listas eleitorais do PSOE.

A participação de Estraviz nas reuniões do Acordo Ortográfico do Rio de Janeiro em 1986 é outro momento destacável, sobretudo pola indiferença que ainda hoje oculta o que talvez fosse o maior reconhecimento internacional da Galiza como nação desde o da Sociedade de Nações da pré-guerra. Eis que começa um surpreendente caso de autogestão da diplomacia e relações internacionais que chega até a AGLP. Ainda, o relato dessa participação deita por terra muitos pré-conceitos nos que amiúde se escuda a passividade: longe da suposta indiferença lusa face à questão galega, foi o Coordenador do Departamento de Alta Cultura de Portugal, Fernando Cristóvão, quem facilitou aquela participação galega com completa naturalidade. Também se citam outros aliados da Galiza como os professores Lindley Cintra ou Rodrigues Lapa, e o ex-ministro da Educação e Cultura José Augusto Seabra. Continuar a berrar, como Unamuno, “que inventem eles!”, é um luxo demasiado grande para uma língua que entra na UCI.

No que diz respeito aos pontos fracos do livro, o principal quiçá seja a forma um tanto brusca com que se encerram as conversas: Estraviz acha-se em Londres dando uma conferência, recém chegado do Brasil, mas é 1986, e muito choveu desde então! Futuras edições deverão alargar as conversas para cobrir esse oco e, aliás, também seria desejável incluir uma bibliografia com a obra do limião.

Um magnífico livro, em todo o caso, que reconstrói a nossa memória com as palavras de conversação, muito mais cálidas do que as historiografias de documentos, datas e siglas. Por último, este livro será uma magnífica surpresa para quem se mova nesses esquemas que assimilam o reintegracionismo com o artificial e antirrural. Como se vai poder pensar que o reintegracionismo é incompatível com o enxebre ouvindo o sotaque do nosso pastor da vezeira e vendo-o, dicionário na mão, montando em burra na sua aldeia?

  • Bernardo PENABADE. Conversas com Isaac Alonso Estraviz, Compostela, Através Editora, 2013.

 

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