Por Joám Manuel Araújo
A editora galega Laiovento incluiu na sua colecçom de narrativa este livro1 de Carlos Quiroga, ganhador do XIV Prémio Carvalho Calero na convocatória de 2004 realizada polo Concelho de Ferrol. Mais recentemente publica-se em Portugal.
Título mais comprido
Trata-se de duas ediçons muito bem cuidadas e apresentadas. Apesar do mesmo conteúdo, há algumhas diferenças que vale a pena salientar. A mais evidente está na capa, pois enquanto na ediçom galega encontramos só a única palavra do título; na portuguesa deparamos com Inxalá. Espero por ti na Abissínia. Quem nunca pensou em largar tudo de repente e partir? Quem nunca amou perdidamente? Um título mais comprido, pois, que tem como principal objectivo chamar a atençom do leitor e ajudar a convencê-lo para que compre o exemplar e mergulhe nas suas aliciantes páginas.
Pequena “revisão linguística”
Outro elemento que chama a atençom ao abrir as páginas deste muito recomendável trabalho literário é que a editora QuidNovi adverte que para o lançamento português o texto foi objecto de “revisão linguística”, labor que correspondeu a Maria do Rosário Pedreira. Som poucas, com efeito, as diferenças entre os dous textos, apenas as derivadas das escassas marcas caracterizadoras do cánone ortográfico da Associaçom Galega da Língua, o utilizado na ediçom príncipe, mas nom só. Vejamos exemplos dessa disparidade, na primeira página da narrativa:
a) Ediçom da Laiovento:
Estou olhando isto a perguntar-me agora com que olhos de anjo caído e rebelde terá olhado para a mesma praia desolada aquele rapaz raro há mais de um século. […] Porque estou a olhar isto e estou a querer ver-te. Porque te vejo apenas num esforço de imaginaçom. E o tempo passa e já nom sei adivinhar-te bem.
b) Versom da QuidNovi:
Estou a olhar para isto e a perguntar-me agora com que olhos de anjo caído e rebelde terá olhado para a mesma praia desolada aquele rapaz raro há mais de um século […] Porque estou a olhar para isto e estou a querer ver-te. Porque te vejo apenas num esforço de imaginação. E o tempo passa e já não sei adivinhar-te bem.
Com perspectiva galega nom passa isso despercebido. Em primeiro lugar, emerge a questom de se essas “emendas” (caso ser pertinente dizê-lo assim) estarám justificadas e se nom seria mais positivo deixar o original no belo e muito competente registo lingüístico de Carlos Quiroga. Isso serviria também porventura para que em Portugal se assumisse melhor a identidade do idioma galego-português. Vários autores galegos, entre eles o próprio Quiroga, tenhem publicado na normativa da Agal em Portugal nos últimos anos com normalidade e sem maiores problemas, polo que acrescentar esta tam interessante narrativa seria um avanço mais, sem sombra de dúvida, para a tam necessária aproximaçom entre os mercados do Norte e do Sul do Minho.
É discutível mesmo que resultasse prejudicada economicamente a empresa editora portuguesa: antes polo contrário, mesmo podería utilizar a singularidade em seu proveito, sem dificuldades de entendimento para os consumidores. Porém, isso “já foi”. Mas também nom deixa de ser gratificante verificar o escasso movimento efectuado no texto pola especialista portuguesa, o que demonstra o acerto (e a pertinência) dessa proposta ortográfica galega de 1983, revisada em 1989 e com muito pequenas alteraçons desde a altura.
Outra diferença entre as duas ediçons é que a galega está acompanhada de valiosas imagens, contribuiçom do próprio autor, condizentes ao texto, ausentes no produto da QuidNovi.
“O grito de um médico galego a trabalhar em Lisboa”
Em todo o caso, justo é dizer que as duas editoras se preocupárom de apresentar um produto muito bem acabado, realizado com gosto, de fácil leitura, para o que contribui um “ritmo hipnótico, com uma linguagem envolvente, compacta, lançada num jacto ora lírico, ora épico, por vezes erótico, que deixa no ar um perfume de mistério nunca inteiramente resolvido…”, como assinala esta acertada síntese que se encontra na contracapa da ediçom portuguesa.
A respeito do conteúdo, assim o define o próprio Carlos Quiroga, em entrevista2 recente publicada no Jornal de Letras de Lisboa:
“É um grito de uma pessoa, um médico galego a trabalhar em Lisboa, que deixou tudo para trás. Passou pela Arménia, pela Abissínia e depois de uma série de peripécias chega ao Gibuti. É aí que escreve esta narrativa de um jacto, que também é uma declaração de amor. […] há sempre uma história de amor pelo meio… Ao longo do livro vão-se revelando três histórias cruzadas. As recordações do médico em Lisboa, o que o levou a sair dessa cidade. Os dois crimes que o levaram a tomar a decisão de partir –um deles de uma antiga namorada, que aparece já morta no hospital onde trabalha. Tudo isso é contado numa espécie de confissão amorosa, dirigida a uma mulher com quem teve um caso”.
Ao mergulharmos na leitura encontramos, como é habitual em Quiroga, inevitáveis referências a Fernando Pessoa, mas também neste caso a Blas de Otero e a Rimbaud; e paisagens geográficas e humanas atraentes: o Mar Vermelho, Etiópia, Aksum, Harar, Lisboa, Compostela, Tiro, Alexandria, Abissínia (Habeschym-Habechi-Abexins), Eritréia, Somália, os Açores, Brasil, Java, o castelo de S. Jorge, Lalibelá, o padre Abba Tekelu, o filósofo Merópio, Edésio, Mateus, Salomom, Oriana Figueiredo, o doutor Cervanha, o inspector Oliveira da Polícia Judiciária, Urbano Bonner, Rufino, Frumêncio, S. Atanásio, Carlota Leite, Gabra, Masql, Ondina (personagem angolana que lembra outra muito célebre, de Pepetela)… mesmo o Livro dos Reis, a Arca da Aliança ou o Espírito Santo e o Juízo Final encontram lugar nesta narrativa que finaliza com referências a Adis Abeba e indicando para o receptor que “Um acaso extraordinário poderia fazer que nos encontrássemos, agora que tudo está escrito. Inxalá”. Umha leitura, enfim, que nom decepciona, e que deixa com vontade de ler novos trabalhos deste professor universitário e escritor, que demonstra uns domínios acertados de muitos registos e técnicas da mais exigente Literatura dos nossos dias.
Com antecedência a Inxalá, Carlos Quiroga demonstrou em volumes como g.o.n.g.—mais de Vinte Poemas Globais e um Prefácio Esperançado (1999), Periferias (1999), A Espera Crepuscular (2002), O Castelo da Lagoa de Antela (2004), O Regresso a Arder (2005) e Venezianas (2007), ser um dos escritores galegos com propostas mais arriscadas e inovadoras, que mais tem para dizer. E além disso, que sabe dizer, com investigaçom de novas fórmulas expressivas e conseguindo acertos que tenhem sido salientados pola crítica galega, portuguesa, brasileira, italiana e espanhola. Este novo livro continua esse feliz caminhar com segurança por trilhos muito difíceis na Galiza, conseguindo vencer já algumhas resistências e ultrapassar por vezes a censura que de regra se impom sobre os defensores do reintegracionismo. E com um reconhecimento exterior cada vez maior, de que este lançamento em Portugal é nova e clara evidência.
Notas:1. Quiroga, Carlos, (2006), Inxalá, Ames, Laiovento. Ediçom Portuguesa: (2008), Matosinhos-Lisboa, QuidNovi.
2. A entrevista, publicada no exemplar do 7/20 de Maio de 2008, está assinada por Luís Ricardo Duarte, quem por sua vez apresenta este livro de Quiroga destarte:
“É ao mesmo tempo uma confissão de amor, um livro de viagens e a discrição do dia-a-dia de um galego em Lisboa. Inspirado na figura mítica de Rimbaud, conta a história de um médico que deixa tudo para trás e segue viagem até ao Gibuti. É um ‘grito de liberdade’, que faz com que o protagonista abandone posses e afectos, rotinas e certezas, quotidianos e intimidades, em busca da sua própria identidade. E a urgência do momento reflecte-se nesta escrita torrencial, expressiva e intensa”.
