Galaxia, Xerais: umha modesta proposiçom

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Por Joám Lopes Facal

Galego só há um, o procedente do fluxo de transmissom oral espontánea e ininterrupta, ameaçado hoje polo colapso irreversível da sociedade rural, a mudança de comportamentos sociais e a pressom insuportável do idioma hóspede. O domínio deste sobre o galego lembra já o filme “The Servant” de Losey quando o servidor decide substituir o amo vista a sua irremediável impotência.

Dous paradigmas se disputam a salvaguarda do património linguístico. O primeiro tem raiz intransitiva (o galego como idioma confinado nas quatro províncias) e feitio subsidiário (mantenhamos o “x” para nom confundir à gente com o idioma dominante). O seu predomínio assenta no reconhecimento que lhe outorga unha instáncia legislativa (Parlamento) e outra legitimadora (RAG). A sua operatividade dimana do monopólio da potestade habilitante1, que constitui a portagem ineludível para o acesso à funçom pública -ensino, administraçom- ou à comunicaçom regular. O paradigma alternativo tem raiz transitiva e contextual, bem traduzida no sintagma que o individualiza: galego-português. Propugna como sabemos a integraçom do galego no seu tronco lingüístico internacional e advoga por um processo de reabilitaçom acorde.

A pugna entre ambos os paradigmas é recente em termos históricos -anos oitenta do passado século- mas acabou por cristalizar num empate irredutível sustentado quer polas rendas sociais derivadas da gestom do sistema de habilitaçom, quer polo incessante activismo lingüístico desenvolvido: presença em blogues e redes sociais, promoçom de plataformas sociais para a educaçom precoce em galego, clubes cívicos, elaboraçom de manuais para transitar ao padrom português. Convém afirmar que a discrepáncia entre ambos os paradigmas nom se reduz à divergência ortográfica senom que se alonga ao ámbito lexicográfico e estilístico. Dous paradigmas, em suma, inconciliáveis e perduráveis.

O enquistamento do conflito, o progressivo esgotamento do manancial que alimentou secularmente o idioma e a inevitável caducidade do ardor guerreiro que animou a guerrilha lingüística dos oitenta contribuem a revaloriçar hoje as funçons de arbitragem e mediaçom. A conectividade é um ícone dos tempos como a trincheira o foi da Grande Guerra. As virtudes da livre discrepáncia e o ánimo tolerante prevalecem amplamente sobre as ilusons da unanimidade. Boas-vindas, pois aos destemidos exploradores dos fenômenos de interface, tam decisivos para a precipitaçom de reacçons, tal como a físico-química explica.

Se conseguirmos suspender provisoriamente a atroz disjuntiva amigo/inimigo em que consiste a política (Leo Stauss), a mediaçom emergerá inevitavelmente. Um encantador exemplo de diálogo descontraído em meio da ponte dos paradigmas é o livro recém-saído às livrarias “Como ser reintegracionista sem que a família saiba2”. O autor é Eduardo Maragoto, prezado professor deste impenitente aprendiz de português e, por se isso fosse pouco, membro da Comissom Lingüística da AGAL. Eduardo, com Beatriz Bieites -outra professora deste indócil aluno- e Maurício Castro assinaram já um excelente manual de língua e estilo. O livro do professor Maragoto está redigido em irreprochável galego habilitante, imune portanto à censura familiar -sempre atenta ao imperativo de empregabilidade- e mesmo à ideológica, sempre mais autista e severa. O prologuista do livro é o excelente gramático e professor da UDC Freixeiro Mato, isento de mácula reintegracionista conhecida. Á parte do insuperável título -digno de caneta britânica e exemplo da cordial ironia que campa actualmente pola AGAL- tanto o prólogo como o texto oferecem amenos argumentos e frutíferos exercícios escolares para transitar do galego divergente ao convergente. Um livro que nom deveria faltar no botequim de urgências linguísticas de qualquer centro de ensino.

Falar de pontes é evocar a mais atrevida projectada até o momento, a ILP Paz Andrade: umha autêntica passagem arquitectada para resolver inúmeros problemas de tránsito, tanto local como internacional. O meu modesto conselho de engenheiro-economista veterano seria nom demorar o investimento vista a sua elevada taxa interna de retorno. A ILP Paz Andrade mereceu aceitaçom unánime do Parlamento Galego, signo certo de que a sobrevivência do idioma é problema assumido polos senhores deputados. Devemos congratular-nos da decisom embora nom devamos esquecer que o Parlamento adoece de certa fragilidade de memória e é mais proclive à proclamaçom retórica que a sua traduçom em texto normativo e orçamentário.

Há pouco, a galeguia ilustrada viu-se abalada pola vigorosa declaraçom de radicalidade reintegracionista formulada por Teresa Moure3. A proclamaçom da ilustre romancista tem ares inequívocos de manifesto epocal que o tempo, espero, confirmará. Há inquietaçom normativa entre os criadores de linguagem e um certo desacougo talvez perante os equilíbrios de circuito curto que impregnam o sistema cultural. Assomam aspiraçons cívicas e criativas em favor de um galego trans-autonómico e pan-atlántico.

Parece chegado o tempo de amanhar pontes. O ofício de aduaneiro, como o de faroleiro e sineiro, estám em crise a causa da globalizaçom. E agora, permitam-me a modesta proposiçom anunciada: seria aspiraçom excessiva esperar que as editoriais galegas de referência -Galaxia, Xerais- pudesssem tomar em consideraçom o lançamento de umha colecçom específica para criaçom literária em galego-português? Descartada a hipótese de autocensura por temor a represálias -incongruente com o carácter privado das editoriais e o regime constitucional de liberdades imperante- que obstáculo poderia impedir as editoriais explorarem um campo editorial potencialmente frutífero como este? Ofereço-lhes aos seus gestores um modesto argumento compostelano. Nesta cidade, a gente acomoda-se como pode -nom há alternativa- às salas de cine d´As Cancelas, mas é o ciclo Cine Europa, desenhado para os autênticos amadores da sala obscura, o que desborda atençom e concorrência. Nom há público, há públicos, e com frequência estes som criados por estratégias editorias.

A sugestom tem pouco de revolucionária. É mais umha etapa na tradiçom interrupta que deu à luz “Lua de além-mar” e “Rio de sonho e tempo” -Guerra da Cal, Editorial Galáxia, 1959, 1963- ou “Scórpio” – Carvalho Calero, Sotelo Blanco, 1987- este já in tempore belli. Naturalmente, umha colecçom consagrada à criaçom literária em galego-português requereria o concurso de umha equipa prestigiosa para a correcçom e homogeneizaçom de originais que, aliás, contribuiria a fixar um standard apto para satisfazer a demanda de um segmento exigente de leitores e para ensaiar um standard ortográfico com vocaçom internacional.

A diversificaçom da oferta para atender a procura particularizada dos diferentes segmentos de consumo é um imperativo mercado-técnico. A capacidade de antecipaçom é umha virtude da empresa inovadora. A flexibilidade um requerimento adaptativo. Qual será a primeira editorial galega em aceitar o repto e convocar autores e assinantes?

 

Notas:

1 Habilitação: formalidade jurídica a que é necessário satisfazer para adquirir determinado direito ou demonstrar certa capacidade legal. Dicionário Houaiss.

2 Eduardo S. Maragoto, 2013:Como ser reintegracionista sen que a familia saiba, Edicións do Cumio, Ponte Caldelas.

3 http://praza.com/opinion/981/sobre-encrucilhadas-normas-ortograficas-e-independencia/