Fios-de-contas, de Paula San Vicente

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“E naquele mesmo instante tantas camas cheias de mortos, tantas camas cheias de pessoas em ruínas chorando, que carecia de importância saber que naquele momento havia crianças a fazerem castelos nalgumha praia”
(Fios-de-contas, p. 36)


Por Joám Manuel Araújo
 

Nas vidas de todas as pessoas há continuados actos recorrentes. Fazem-se todos os dias muitas actividades semelhantes à(s) jornada(s) anterior(es), quer para solucionar necessidades do corpo ou exigências da integraçom social; e quando assim nom acontece pode ser mesmo causa de preocupaçom. “Saber a rotina tranquiliza. Repetir tranquiliza”, afirma Paula San Vicente neste volume1 (p.46), distinguido com o Prémio Carvalho Calero de Narrativa, convocado pola Cámara Municipal de Ferrol. O livro oferece-se-nos em 25 breves capítulos e um índice final.

Esse recurso da reiteraçom, assumido com normalidade no dia-a-dia de todo ser humano, nom tem bom acolhimento na literatura. A maioria dos produtores tentam ultrapassá-lo e tratam de provar um bom domínio do léxico procurando alternativas de sinónimos e recursos técnicos diversos que o evitem. Há, com certeza, excepçons, e escritores canonizados que tenhem demonstrado a sua eficácia, v. gr. Eça de Queirós. Mas de regra foge-se dele por julgar que resultam enfastiantes e contrariantes para um leitor as repetiçons desnecessárias. E assim pode ser, com efeito, sobretodo quando som desnecessárias.

Nom é isso o que depara este trabalho literário de Paula San Vicente, em que esse é um recurso estilístico propositado e central. E nom a repetiçom de umha palavra qualquer num ou em diferentes parágrafos: som mesmo trechos inteiros, com todos os seus termos ou quase, em várias partes do livro. Vejamos um exemplo:

Na página 37, o capítulo “Erundina fica ali”, finaliza destarte:

O cam nom acreditou no último dia e nom se levantou, apenas mexeu o rabo. O gato, no umbral da porta, fixo todas as perguntas que nom tinham resposta. O carro sem borboletas, sem perguntas, sem respostas, sob a chuva e o vento, sem mae e quase sem filho, desapareceu entre as pedras molhadas.

E na página 45, um terceiro capítulo mais para a frente, o segundo dos intitulados “O Filho” (de novo a reiteraçom!, que usa de modos muito diversos), inicia-se com a seguinte epígrafe:

O cam nom acreditou no último dia e nom se levantou, apenas mexeu o rabo. O gato, no umbral da porta fixo todas as perguntas que nom tinham resposta. O carro sem borboletas, sem preguntas, sem respostas, sob a chuva e o vento, sem mae e quase sem filho, desapareceu entre as pedras molhadas.

Tam só umha vírgula e o itálico, este justificado no segundo caso pola sua situaçom, diferencia ambos os parágrafos. Nas páginas anteriores há outros exemplos, e nas posteriores. Chega até tal ponto a insistência neste recurso, que a epígrafe com que se inicia o livro (p. 9) é quase coincidente com a que o finaliza (p. 69): as 13 linhas que se encontram no princípio do volume reproduzem-se, exatas, só que no final se precedem de “Aquela tarde a avó Erundina, a maior das três crianças, tivo umha ideia:”; e desse modo, o breve texto que introduz nesta narrativa ajuda para sair dela.

A autora nom trata de dissimular esta proposta da sua escrita: antes polo contrário, procura que o leitor bata com ela. Num primeiro instante resulta muito surpreendente, mas progressivamente consegue umha cumplicidade que pode converter-se em jogo entre produtora e consumidor, em repto para este ao propor-se descobrir as ocorrências, que nunca desagradam. A leitura deixa assim de ser passiva, e devém numha actividade, grata, e no reconhecimento deste achado, inovador nas letras galegas dos nossos dias.

Em Fios-de-contas há que pôr também em destaque o uso do léxico: as palavras de todos os dias predominam e imponhem-se, mas combinam-se com algumhas que se introduzem (v. gr. “contas de orixás”, “kanji de penas”, “aiyé”, “orún”, “ikó”, “miçanga”, e poucas mais) com o que, desta maneira a autora “empresta palavras” à língua galega com termos que, isoladamente, podem parecer incompreensíveis, mas que bem integrados na seqüência da narrativa, como ela faz, resultam mais um acerto. Todos esses vocábulos som utilizados em povos que, por causa do “mundo que o português criou”, hoje empregam na sua comunicaçom diária, a milhares de quilómetros da Galiza, outros (substantivos, adjectivos, verbos, advérbios…) que nascêrom, se desenvolvérom e pervivem na própria Galiza, e que permitem um entendimento sem dificuldades, com normalidade, sem necessidade de tradutores. O que supom um alicerce e argumentaçom central do Reintegracionismo, e a sua causa de ser, à qual Paula San Vicente soma destarte novos e valiosos contributos, ao dialogar com essas formas do mesmo idioma com que se quer confundir, na esteira do que defendia Castelao na década de 40 do século passado, e tantos outros.

Vale a pena salientar ainda o ritmo da prosa: nom é aquele a que a narrativa de consumo de massas porventura nos tem costumados, mas um ritmo pausado em que se nos refere a possibilidade da vida como um suceder de fios-de-contas, em que convivem os jogos de criança com a morte, a separaçom das pessoas, as diferenças de classe social, o racismo, a imigraçom, o “sexo vazio”, o “sexo e carcoma”; onde as “palavras sem sentido” se dam à par de “pessoas em ruínas” mas também da solidariedade, do amor, da inocência, dos animais que acompanham por muito que por vezes nom repare neles (os já citados cans, gatos e borboletas, mas também avelaínhas…); e em que a rotina, e reiteraçom, a recorrência, a repetiçom, som imprescindíveis, também para poder progredir e arvorar novidades. Observa-se igualmente como a construçom de Erundina, Armando, Matilde, Marta, Ana, Cláudia, personagens que fornece a leitura, progride aliciante, adeqüada para os objectivos propostos pola autora.

Paula San Vicente prova ser umha produtora experimentada no campo literário, apesar da sua juventude. A sua apresentaçom nele foi em 1998, com a publicaçom na editora Caminho, de Lisboa (a mesma que promociona José Saramago, certamente, entre outros muitos vultos), do poemário Gatos a Lápis sem Ponta, conjunto de 42 composiçons em que emerge a presença desse animal domêstico no título de todas elas (“Gato com infância”, “Gato com poltrona”, “Gato com janela”, “Gato com jardim” e assim por diante, até as duas últimas, intituladas “Gato com chuva” e “Gato com final”), onde já se evidenciava, pois, essa tendência ao uso deste recurso estilístico baseado na recorrência. Na Galiza também se apresentou como poeta, no festival do Condado. Foi ganhadora da XII ediçom do concurso de narraçons breves Manuel Murguia, convocado pola Cámara Municipal de Arteixo, com “As idades dela”2, em que em apenas 20 páginas também usa deste mesmo procedimento para se exprimir3. Carlos Quiroga contou com ela na antologia com que divulgou em 2004 a literatura galega actual na revista portuguesa Mealibra, a que contribuiu com um relato breve.

Assim, esta escritora galega, que se tinha apresentado publicando poesia em Portugal, confirma agora a sua revelaçom na Galiza como narradora premiada e com importantes achados estilísticos. Nom podemos dizer que seja umha produtora ignorada, pois de Fios-de-contas algo se tem ocupado a crítica galega; mas como acontece com outros escritores (v. gr. o citado Carlos Quiroga, ou João Guisán Seixas, Concha Rousia, Artur Alonso Novelhe, José Alberte Corral Iglésias, Ângelo Brea, Raquel Miragaia, Marcos Abalde, por citar apenas alguns outros nomes que também tenhem difundido nos últimos anos produtos literários de enorme interesse e valor, e que se situam na mesma esfera que ela no que diz respeito ao uso do idioma) está a ser secundarizada. E é pena, porque um trabalho tam invulgar bem merece maior reconhecimento.

É por isso que, desde aqui, recomendamos sem reservas este magnífico Fios-de-contas, para poder comprová-lo. E desfrutá-lo.

Compostela & Ferrolterra, 28 de Julho, 2008.

 


 
 

 

Notas

1 San Vicente, Paula, (2007), Fios-de-contas, Bertamiráns (Ames-Galiza), Laiovento, 75 páginas.

2 San Vicente, Paula, (2006), “As idades dela”, relato incluído no volume colectivo Contos da baiuca, O Burgo-Culheredo (A Corunha), Espiral Maior, pp.35-53.

3 Talvez fosse esse um dos elementos que convencêrom o júri, integrado segundo se nos informa por Dolores Vilavedra, Yolanda Castaño, Emma Pedreira e Henrique Rabuñal, para lhe outorgar o prémio. No “Limiar” do volume colectivo em que foi publicado, Henrique Rabuñal refere-se a essa narrativa breve (p. 11), entre outras valorizaçons com esta síntese: “Un compendio abreviado de boa literatura que contén as vibracións humanas máis engaiolantes”.