Fernández Mazas na lembrança

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Por José Paz Rodríguez (*)

Foi sempre a nossa cidade de Ourense recanto de grandes artistas. E ainda hoje continua a sê-lo. Embora assim fosse e seja, nom véu no seu dia para Ourense a Faculdade de Belas Artes. Que era como tinha que ser. Também aqui nasceu a ideia de criar um cinema galego naquelas jornadas dos anos 70 e, no entanto, o Centro Galego das Artes da Imagem foi para Corunha. É o eterno problema e destino da nossa cidade no seu devir histórico. Aqui tivemos maravilhosos artistas como António de Puga, da escola de Velázquez, cujo quadro “O Afiador” se conserva no museu L´Hermitage de Sam Petersburgo. Ou já mais tarde a Jesús Soria, Parada Justel, o escultor Failde, Conde Corbal, Prego e o genial pintor há pouco desaparecido, Jaime Quessada.

Ao fazerem-se os 75 anos da Missom Pedagógica por Galiza, realizada entre 11 de Agosto e 17 de Dezembro de 1933, dirigida por Rafael Dieste, vem-nos à memória outro excelente artista ourensano. Estamos a falar de Cándido Fernández Mazas (1902-1942). Outra das personagens ourensanas injustamente esquecidas. Ainda que a “Festa do Esquecimento” seja mais própria de Ginzo de Límia.

Mazas incorporou-se como colaborador de Dieste na Missom a finais de agosto de 1933. E posteriormente foi o desenhador dos decorados teatrais e dos bonecos para os títeres ou fantoches. O seu formoso cartaz para o “Retablo de Fantoches das Misiones Pedagógicas” terminou por ser o oficial do “Padroado das Missões”. É de justiça pois lembrar hoje este ilustre ourensano, pintor e literato de sensibilidade singular.

Filho dum oficial do exército no quartel ourensano, Cándido nasce na nossa cidade a 15 de Dezembro de 1902. Os seus primeiros anos infantis transcorrem entre a rua da Amargura, a pracinha do Corregedor e o Campo das Mercês. Aos doze anos já se revela como um excelente desenhador e pintor. Polo que frequenta as aulas de pintura ao óleo, aquarela e pastel do artista Virgílio. Despois de terminar o bacharelato consegue trabalho nas Fundições Malingre do Couto.

Participa também, de forma muito animada, nas tertúlias com Xavier Bóveda, Álvaro das Casas e Madrinhám. Mais tarde nas de Otero, Risco e Cuevilhas, com os quais discrepa muitas vezes de forma azeda, embora respeitosa. Eugênio Montes descobre o seu talento e anima-o nas suas leituras filosóficas. Apaixona-se pola filosofia de Kant, uma vez que lê a “Crítica da Razom Pura”. Que muito nos lembra o nosso professor Albendea, que explicava de forma maravilhosa a filosofia kantiana. A seguir lê os filósofos marxistas, Hegel e outros, e o seu pensamento termina por ser uma síntese entre o idealismo kantiano e o praticismo marxista, com leves toques anarquistas e troskistas.

A Deputaçom de Ourense concedeu a Mazas duas bolsas de estudos para viajar a Paris e estudar na Academia Grande Chaumière, nos anos 1925 e 1927. Na mesma Deputaçom conserva-se do primeiro destes anos um dos seus mais lindos quadros ao óleo, intitulado “Janela ao Campo”. Como caricaturista Mazas é genial, colaborando em muitas publicações como La Zarpa, Alfar, El Pueblo Gallego, Ronsel, Gaceta de Galiza, Galaxia, Nueva España, La República (jornal ourensano) e Umbral. Desenha também formosas capas de livros dos seus amigos.

Os jovens ourensanos deveriam conhecer a vida e a obra deste artista ourensano tam singular, que por algum tempo também foi mestre. E que morreu refugiado em Castro Caldelas, dum derrame cerebral, a 15 de Novembro de 1942. Com quarenta anos, deixando feitas as ilustrações para um poemário de Sebastiám Martínez Risco.


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.