Joám Lopes Facal – Lim com grande interesse o artigo Artur Alonso Novelhe A língua que ninguém fala, como todo o que tem a ver com o futuro do nosso idioma e a sua envolvente social e política. A tese do decaimento irremediável da norma galega em vigor e a necessidade da sua substituiçom que Artur Alonso defende é amplamente partilhada, nom pode ser assim com o corolário que daí tira devido a um padrom interpretativo erróneo, na minha opiniom.
Para formular em forma breve e um bocadinho literária a minha posiçom ao respeito poderia dizer que o Artur nos convoca a umhas exéquias prematuras do galego-castelhano enquanto dá por desaparecido sem a menor justificaçom -numha espécie de lost in traslation– um actor bem vivo e operativo no drama doméstico do futuro do galego que podemos denominar simplesmente galego-reintegrado genuíno. O tempo que poda chegar a prolongar a sua vida o candidato ás exéquias antecipadas e o que poda demorar o pleno florescimento do agente reintegracionista é um assunto de índole estritamente política. A actual situaçom de bloqueio histórico na qual «o velho se resiste a morrer e o novo nom dá nascido» (Gramsci) mudará quando seja possível abrir esse debate social sobre o futuro do galego que o país necessita e acabará por demandar. Ninguém pode acreditar na extinçom do idioma próprio polo procedimento incruento da eutanásia passiva porque a sociedade galega nom o vai consentir.
Deixando á parte a constataçom da irrefreável invasom da Galiza polo castelhano -idioma ambiental de referência tanto nas áreas urbanas como nos círculos do poder social- o artigo de Novelhe dá por suposto que o cenário aberto às estratégias reabilitadoras do galego se limitam a duas antagónicas por ele denominadas galego-castelhano e galego-português. A minha discrepáncia com esse padrom interpretativo afinca na conviçom de existir um terceiro agente em plenitude de faculdades na pugna latente que se livra pola reabilitaçom do nosso idioma: o galego-reintegrado genuíno, tal como foi entendido por Carvalho Calero e pola AGAL na sua fase primordial. O erro analítico em que incorre o artigo de Novelhe e umha parte do activismo linguístico em prol do galego reintegrado estriba, a meu ver, na delimitaçom de umha linha de confronto pouco operativa para resolver o conflito: o par dialéctico galego-castelhano↔galego-português (galego degradado versus português) em substituiçom da linha de confronto realmente operativa: galego-castelhano↔galego-reintegrado, ler, galego degradado versus galego restaurado.
O campo de forças aberto ao galego realmente existente pode ser descrito com maior precisom, opino, como um confronto entre três paradigmas em liça -e nom dous- que poderíamos denominar assepticamente galego demótico-institucional, galego reintegrado e norma portuguesa. Três propostas disjuntas –se se me permitir tal tecnicismo da teoria de conjuntos- que podemos aludir mais sinteticamente como oficialismo, reintegracionismo e lusismo ou mesmo como graus 1, 2 e 3 do galego. O primeiro grau confina com o castelhano e o último confunde-se com o português padrom (as diferenças actuais entre ambos padrons som na actualidade tam ténues como enigmáticas). O segundo grau, ou reintegracionismo clássico, é de facto umha ponte -todo abismo reclama a sua ponte- entre os graus extremos 1 e 2, a maneira de proposta-charneira entre ambos. Nisso reside a sua potência. Escusado lembrar que, além das diferenças ortográficas defendidas por cada paradigma, estas comportam também propostas diferenciadas tanto no ámbito lexical como estilístico e mesmo fonético. Do tamanho do abismo existente entre os dous extremos do espectro, gostaria apresentar, como simples testemunho pessoal, o facto de que a mim me levou cinco anos de gozosa frequentaçom da EOI compostelana o manejo, digamos decente, do standard português. A pretensa soluçom “pratiquemos o galego existente e escrevamos em português padrom” é umha premissa que pouco pode contribuir a formular com racionalidade o problema da deteriorização do nosso idioma e mesmo poderia ser qualificada de capitulaçom.
Procuremos, a efeitos argumentais, um padrom de qualidade para cada um dos três graus em confronto. Polo que a mim toca, a proposta para o primeiro e o segundo grau na dinámica de restauraçom do idioma oferece poucas dúvidas: Freixeiro Mato para o primeiro e Carlos Garrido para o segundo. Plenamente justificadas ambas as candidaturas tanto polo rigor e competência técnica na formulaçom dos respectivos paradigmas como pola firmeza e flexibilidade com que sabem defendê-los. Nom será preciso lembrar os valiosos contributos de ambos os filólogos ao diálogo pendente acerca da reabilitaçom do nosso idioma. Quanto ao grau três do idioma … bom, talvez deveríamos concordar em que nom só carece de padroeiro como também que nom o precisa. Sobram-lhe padroeiros por toda a parte, Eças de Queiroz e Machados de Assis. De facto, possui o mais vigoroso argumento de autoridade: o imenso caudal literário do português em qualquer das suas variantes e os incontáveis textos que este a diário produz em todo ámbito de comunicaçom: jornalístico, científico ou qualquer outro que umha língua normal poda precisar.
A nossa norma internacional de referência nom precisa advogado defensor; os graus 1 e 2 do galego som outra cousa: campo aberto de confrontaçom, anfiteatro político. É por isso que o confronto levanta paixom cívica, demarca habilitaçons profissionais, delimita actitudes políticas e mesmo serve como marcador social: qualquer um pode ser tachado de “reintegrata” ou de “oficialista”, pode ser aludido como “um dos do çom” ou “um dos do xis”. E -o mais penoso- a confrontaçom pode chegar à iniquidade de ousar tracejar linhas vermelhas que separam o idóneo do excluído no pleno uso dos direitos cívicos. Por exemplo, nos concursos académicos; por exemplo, na disponibilidade editorial. Proibida a discrepáncia.
O desbloqueio da inércia imutabilista e corporativista que abafa o galego demótico-institucional para abri-lo a um horizonte transitivo e internacionalmente homologável requereu no seu momento um acto de afirmaçom cívica-política como o da promoçom da plataforma AGAL. Polo contrário, encorajar a qualquer galego instruído a praticar o português pertence ao ámbito das opçons culturais, sem mais. A perspectiva cosmopolita do uso de idiomas é um imperativo trivial dos tempos. Que os galegos tenhamos inusitadas vantagens comparativas na abordagem do português em vez do inglês, ao invés dos irlandeses, é umha mera circunstáncia histórica a nosso favor. A nossa posiçom de utentes legítimos de umha variante secular do português internacional coloca-nos numha situaçom privilegiada. Outra cousa som os problemas particulares que assediam a nossa variante. Em qualquer caso, o problema da reabilitaçom do galego nada tem a ver com processos de resgate in extremis como podem ser a revivescência do hebreu ou a construçom do euskera batua. Duas experiências, aliás, de indiscutível sucesso que se algo demonstram é que todo problema tem soluçom quando se unem lucidez e vontade.
A reabilitaçom do galego de uso habitual da situaçom de indigência social em que está sumido nom pode impedir reconhecermo-lo como o nosso idioma proprio, titular dumha riqueza comunicativa secular e umha potencialidade regenerativa incontestável por mais que precise de um processo de restauraçom improrrogável. O galego existente é o problema e nele reside a soluçom pola simples razom de que natura non facit saltus.
Finalmente, o problema do futuro do idioma que herdamos e estamos comprometidos a preservar é de índole estritamente política. Política, repito, nom filológica. O confronto entre as posiçons 1 e 2 desenvolve-se diante dos nossos olhos num campo de forças entesado por categorias como hegemonia (Gramsci) e circulaçom das elites (Pareto): pura matéria política. A instáncia que acabará dirimindo a questom nom vai ser a RAG mas o Parlamento embora a RAG ostente de momento o exorbitante privilégio de poder contribuir a avançar na soluçom do problema ou a atrapalhá-la sine die enquanto o idioma esmorece. No entanto, o seu par dialéctico e operativo, o reintegracionismo, nom fará mais que fortalecer-se. Nisso estamos, nascemos à intempérie há trinta anos, nom som muitos para processo histórico, é a idade da juventude.
