Eu confesso

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Por Edelmiro Momám

Confesso. Papei o debate Rubaljoy-Rajoycaba quase inteirinho. E sem anestesia. Quase me engasgam os morangos com nata que preparara como sobremesa. Quem ganhou? Fácil, o Madrid. Agora a sério, ganhar, ganhou o bipartidismo. E perdeu a democracia. Também perdeu o espetáculo televisivo, porque com um espetro de ideias “legítimas” tão estreito, com um estado como o espanhol castrado da sua soberania “nacional” e, portanto, com uma autonomia decisória tão minguada, e com dois indivíduos tão sem substância, o pseudo-debate que nos ofereceu a tele-PSOE nem como farsa valia.

A única das duas cabeças do monstro bicéfalo a qual, por um instante, pareceu tentada a desviar-se perigosamente cara o cerne da questão foi aquela que tinha menos cabelo e uma barba mais rala, a que se achava à esquerda do ecrã. Ela admitiu que, ganhe quem ganhar, vamos fazer o que mande o G20. Que bem poderia ter dito o G8, ou o FMI, ou a Comissão Europeia, ou qualquer outra das instituições antidemocráticas encarregadas de transmitir para o comum dos mortais os mandamentos e catecismos dos capitais especulativos que governam o mundo nesta nova era do feudalismo global corporativo. A outra cabeça, a que falava raro, obviou por inteiro esta questão, se calhar por não danar aquela miragem de nacionalismo patriótico que com tanto esmero alimenta o seu partido.

Assim, a final, o debatinho ficou restringido a se o PP vai ousar privatizar tudo a feito ou não, extremo que não ficou aclarado, e a se é melhor falarmos de “casamentos” ou de “uniões de fato” para nos referir às relações estáveis entre duas pessoas do mesmo género. Eis a diferença. Haverá quem diga vive la différence! Eu não vou dizer nada. Só que cada oito anos vai haver uma alternância das cabeças do monstro bicéfalo no “governo”, cada uma das duas cabeças beneficiando-se do descontento popular com a outra cabeça, e cada oito anos uma volta de porca mais na destruição dos direitos civis, laborais e democráticos. E assim até a porca rebentar. Eis o jogo ao que estamos a jogar.