Etiquetas linguísticas

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Por Edelmiro Momám

Não, não vou falar hoje de preconceitos linguísticos mas de etiquetas num sentido mais literal, aquelas que em inglês se designam como tags (estrangeirismo, aliás, aceite na nossa língua). Vivemos num mundo maravilhosamente diverso e, no meio de toda essa diversidade, temos a diversidade linguística. Não sabemos a ciência certa quantas línguas diferentes —tema avondo controvertido, sabemo-lo bem— existem hoje no mundo, mas estima-se que o seu número não deveria ser inferior às 6500. Cada uma delas representa uma forma de pensar o mundo, uma forma de interagir com o mundo, e, portanto, cada uma delas representa um mundo diferente e de exuberante riqueza.

Na era digital, para não perdermo-nos na oceânica imensidade da internet, é importante definirmos com tanta precisão como for possível qual é a língua dum determinado arquivo, documento, texto, aplicativo ou site web. Para isso, em troques de empregar o nome completo de cada língua e variante, utilizamos uma série de etiquetas ou tags. A tendência é hoje seguir as recomendações da IETF (Internet Engineering Task Force) a qual trabalha de maneira coordenada com outras agências como o W3C (World Wide Web Consortium) e a ISO (International Organization for Standardization) para definir uns standards comuns para tudo o que tenha a ver com os protocolos da internet.

Por exemplo, sabemos que a língua franca da tecnologia é o inglês, mas não qualquer inglês, é o inglês americano. Para indicar que um determinado item está nessa língua, empregaremos a tag “en-US”, onde a primeira sub-tag “en” é o código ISO para a língua inglesa (English) e o segundo sub-tag “US” é o código ISO dos Estados Unidos de América (United States). Então, um programa de computador ou um humano que leia a tag “en-US” saberá imediatamente que o item que está a analisar está escrito na macro-língua inglês na sua variante norte-americana. O inglês tem outras variantes com cadansua tag como por exemplo en-GB (Grande Bretanha), en-IE (Irlanda), en-ZA (África do Sul), en-AU (Austrália), ou en-NZ (Nova Zelândia).

O mesmo acontece com outras línguas como o castelhano, onde existe uma tag para a variante espanhola, es-ES, e uma para cada país latino-americano de fala castelhana (es-AR, es-CO, es-MX, etc.). Nos casos onde existem variantes ortográficas cumpre acrescentar uma sub-tag adicional (ou eventualmente modificar a tag identificadora da língua, como acontece no caso norueguês). Assim por exemplo “nan-Hant-TW” designa o chinês Min Nan falado em Taiwan escrito empregando a grafia Han tradicional. Mas a regra para a construção de tags é bastante coerente, por exemplo, o flamengo é designado como nl-BE (neerlandês da Bélgica) e o quebequês como fr-CA (francês do Canadá).

Na nossa língua temos uma situação anómala derivada da artificial distinção política entre o galego e o português. Assim, o macro-idioma galego-português é designado na atualidade polas tags pt-PT (português de Portugal), pt-BR (português do Brasil) e gl-ES (galego da Espanha, escrito com as grafias castelhanas). Em rigor, deveríamos ter pt-PT (português de Portugal), pt-BR (português do Brasil), pt-ES (português da Espanha, para o galego escrito em harmonia com o Acordo Ortográfico) e pt-cast-ES (que deveria substituir gl-ES para designar o galego escrito com grafias castelhanas). Bom, evidentemente, posto que existe e alguns assim o querem, respeitaremos sem problema o gl-ES para o galego escrito com roupagens castelhanas, pois, embora funcionalmente é pouco conveniente por condenar o galego a ser uma mera língua regional espanhola com baixo índice de impacto, pode ter para alguns um valor simbólico auto-identificativo.

O problema é que os que empregamos o galego internacional não temos uma tag que nos represente adequadamente. Se eu, por exemplo, quero traduzir um programa para o galego da Galiza, mas respeitando o Acordo Ortográfico, não tenho uma tag adequada, pois pt-ES não existe. Igualmente se faço uma lista de palavras a partir do dicionário Estraviz para ser empregue polos corretores ortográficos do LibreOffice ou do Firefox, que tag posso usar?

Ignoro qual é o procedimento para definir uma nova tag linguística e solicitar que seja aceite pela IETF, mas ousaria sugerir que a Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP), que tem como missão a padronização da língua galega culta em consonância com os acordos internacionais, deveria indagar e fazer as gestões pertinentes. Por enquanto, animo a todos os programadores e gente vencelhada à internet a começar a empregar a tag pt-ES para que as agências internacionais possam constatar que existe um uso e uma necessidade desde novo código. De acordo, é uma simples etiqueta, mas também uma nova forma de estarmos no mundo.

O modelo puramente privado, como vimos de ver, não representa apenas um esbanjamento absoluto de recursos, como também alenta práticas médicas questionáveis e atenta contra os interesses do paciente. Alguém estimou o custo em tempo e dinheiro que representa para o paciente (e para as empresas e/ou instituições implicadas) a complexidade administrativa do modelo? Alguém estimou o desgaste psicológico que supõe para o paciente ter que estar sempre pendente de não ser estafado por uns ou por outros? E o que supõe ter que maliciar sempre se o tratamento proposto pola clínica será ou não o mais adequado?