Estratégias de dissidência, signos de desistência

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Por Joám Lopes Facal

A dissidência activa do reintegracionismo contra o servil modelo ortográfico em vigor e a arbitrária inventiva neológica que pretende transmutar o galego a romance singular e autossuficiente segue o seu curso lasciando dir le genti. A tenacidade e criatividade presidem o movimento, o seu atractivo sobre a mocidade mais comprometida com o futuro da língua assegura-lhe a persistência. As invectivas proferidas contra o movimento polos brilhantes presidentes que se venhem sucedendo na RAG também ajudam. O reintegracionismo nasceu para ficar e para manter permanentemente aberta a pergunta sobre o futuro do galego. Que fazedes, que fazemos com o idioma?

A acelerada obsolescência que aflige a norma oficial, empenhada na conservaçom de próteses gráficas que proibem lermos correctamente os nossos patronímicos -Feijoo, Rajoy- e escrevermos como é devido os topónimos genuínos -Ginzo, Germade- contribui para o seu irreversível descrédito e mina as suas pretensons de imortalidade. As oficinas encarregadas do car tuning linguístico mantenhem-se no empenho de disfarçar o galego de excêntrico dialecto provinciano. Mas o tempo dirá. A Terra, arrombada hoje pola ciência ao discreto lugar que ocupa no orbe celeste, já disputou em tempos o centro do sistema ao próprio Sol. Na AGAL a gente pratica o heliocentrismo diga o que dizer a teologia geocêntrica oficial.

A sucessom dos anos sem qualquer signo de avanço contribuiu, no entanto, a esgalhar o programa da dissidência reintegracionista. Umha variante com longa tradiçom galeguista que poderíamos denominar restauracionista pretende reabilitar o idioma vivo e secular. A outra, de procedência mais adventícia, que nos atreveríamos a denominar abandonista, insiste em diagnosticar danos irreparáveis no idioma e em prognosticar o seu esvaecimento definitivo. Reabilitar o galego vigorizando-o com o salutar contacto do português resumiria a primeira alternativa. Reinstalar no hardware social do país o programa mais moderno do idioma, a norma portuguesa, a segunda. Seria bom nom perdermos de vista, contodo que embora fóssemos capazes de concordar numha norma tam bem temperada como o próprio cravo de Bach ficaria sempre à frente a árdua tarefa de proteger a língua no meio hostil em que subsiste e em tal desafio ninguém sobra. Que a árdua tarefa é possível demonstra-o o sucesso alcançado por políticas restauracionistas bem sucedidas como as de reabilitaçom do hebreu ou do euskera. Na base destas, convém nom esquecer, está umha firme vontade identitária. Um idioma é bem mais que um artefacto de comunicaçom digam o que dizerem os entusiastas das doutrinas positivistas.

O meu cepticismo sobre a segunda variante do reintegracionismo assenta em dous argumentos. O primeiro é que embora tal estratégia seja absolutamente legítima do ponto de vista individual resulta pouco operativa sob o ponto de vista social por duas razons. A primeira é a escassa aptitude da norma portuguesa como possível veiculo de programas de política linguística irrenunciáveis: a escolarizaçom, por exemplo. A segunda razom aponta para o ámbito simbólico e a sua traduçom em termos de receptividade social. O formato quotidiano do idioma é inevitavelmente identificado pola sociedade com signo do nós colectivo, a norma portuguesa é percebida como alheia. Do ponto de vista político este aspecto é muito relevante. Nom será preciso argumentar a potência destrutiva da antinomia nós↔eles. Que o galego seja umha variante do português é, além de um facto científico, umha potente alavanca argumental na tarefa de rehabilitaçom do idioma. Tentar reduzi-lo a arcaico resíduo inoperante concita desconfiança e oposiçom. As exéquias prematuras nom costumam ser bem-vindas na morada do doente.

A tarefa reintegracionista ganha audiência na medida em que perde atractivo social o construto normativo RAG-ILG. Duas som, na minha opiniom, as razons subjacentes. A primeira assenta no reconhecimento legislativo dos direitos linguísticos da sociedade galega por lei de 1983. Os efectos da sua promulgaçom, mesmo refreados polo estólido vice-reinado instalado em Sam Caetano, incidem e modificam os ámbitos da educaçom, a administraçom pública e a comunicaçom. A segunda é consequência inevitável do processo de impregnaçom social na cultura internet que habilita hoje todo cidadám para aceder a informaçom de todo tipo em todo idioma em todo o mundo, e, talvez mais importante, que o integra na rede comunicacional cada vez mais densa que interconecta a sociedade galega. Esta mesma reflexom persoal lançada ao acaso transforma-se automaticamente numha alocuçom pública no speakers’ corner do PGL. Ganha o activismo, perde o establishment. Umha e outra constituem brechas letais para um artefacto linguístico arquitectado para o circuito curto e o espaço controlado. A comunicaçom circula agora vertiginosamente.

A generalizaçom do ensino em galego priva de todo sentido o falaz argumento da necessidade de incorporar ao idioma artificiosas próteses de importaçom com o fim de paliar a congênita incapacidade para a leitura do povo iletrado e a sua indefesa prole. Tam medíocre argumento poderia ser uma clausula desculpável no livro de estilo da Editorial Galáxia em 1950 mas constitui hoje afronta gratuita a escolares galegos e professores. O que foi razoável estratégia de resistência quando os sicofantas do Regime monopolizavam a cartilha de racionamento linguístico mudou em desculpa defensiva de signo corporativista no contexto actual de liberdades cívicas e escolarizaçom massiva.

Da capacidade dissolvente da internet sobre toda caste de provincianismos, localismos e demais delírios autorreferenciais nem vale a pena falar porque é lugar comum. O castelhano, o inglês e o português som idiomas da internet, nom parece produtivo esmagar o tempo consultando no Google o significado de xeoestacionario ou a dataçom das lamentaçons de Xeremías profeta.

A acelerada dissoluçom ou por melhor dizer, sublimaçom (passo de sólido a gás) do artificioso modelo RAG-ILG, propicia a emergência de um difuso clima de incomodidade nos seus fieis com incipientes signos de desistência do paradigma cada vez mais obsoleto. Fissuras pouco perceptíveis ainda mas provavelmente irreversíveis. Som significativas em tal sentido as manifestaçons públicas de disposiçom a reconsiderar a norma vigente, formuladas por personalidades reconhecidas do status cultural como Ramón Villares e Victor Freixanes. Incipiente dissidência que comporta, queira-se ou nom, um reconhecimento implícito da existência de interlocutores fiáveis para um eventual diálogo. A via está decerto expedita, velaí está a obra de um Freixeiro Mato ou a estratégia reabilitadora formulada pola CL-AGAL, passando polo Alonso Estraviz e o Iriarte Sanromán. Nestas circunstáncias, a posiçom reintegracionista clássica é um pólo de referência iniludível por quanto oferece o molde mais rigoroso para a reformulaçom das incoerências ortográficas e léxicas imperantes e, ao mesmo tempo, a melhor interface para harmonizar o galego existente com o seu standard internacional. Em linguagem química, só falta precipitar a soluçom.

Umha carta aos Reis Magos? Nom é essa a minha opiniom senom mais bem a via que conecta o necessário com o possível que é a essência de toda tarefa política. Vem a conto lembrar a engraçada história do generalito laureado frente à eminência reverendíssima compostelana. O purpurado, como bem lembraredes, pretendia convencer o luareado da conveniência de aprontar fundos para a maré de peregrinos que previa virem no próximo Ano Jacobeu. E se nom venhem?, releava raposeiro o inquilino do Pardo, e se venhem?, replicava a sua eminência invocando o carácter imponderável de todo futuro potencial. Vinherem ou nom é imprescindível manter em activo a moral de expectativa. A situaçom de bloqueio que empantana o modelo de gestom da língua comporta incalculáveis perdas de oportunidades por via da desconexom imposta com o mundo literário e mediático português. A situaçom remete para a metáfora gramsciana da “guerra de posiçons” onde o velho se resiste a morrer e o novo nom dá nascido. Capacidade de resistência e hegemonia social som os valores em jogo.

O férreo bloqueio normativo e comunicacional imperante nom só couta o galego como também alimenta o dilema que tende a esgalhar o paradigma reintegracionista entre umha opçom galeguista, identitária e evolucionista e outra cosmopolita, ex-cêntrica e lusófila. A primeira assente na confiança na mudança de usos e comportamentos por meio do consenso e sua plasmaçom legislativa. A segunda no retiro a umha comuna própria libertada de constriçons institucionais. Afinal o velho dilema de socialdemocratas frente a libertários e integrados frente a apocalípticos. Nada grave em qualquer caso, afronteira interna é tênue, é a externa a que é disfuncional.

Conclusom apenas umha: é conveniente deixar gravada de maneira permanente no nosso atendedor particular de chamadas umha resposta convidativa por se alguém ligar fóra de horas. O cardeal Quiroga nunca descartaria tal eventualidade.