MAR DE FORA

Enxebres, neofalantes, colonizados



Não sei qual é a minha língua materna. Sei o que fui aprendendo a falar, entre duas línguas, e tenho consciência do momento histórico e da sociedade em que fui educada, da atmosfera de medo, das feridas dos meus pais, ferida linguística, ferida do espaço que se ocupa no mundo, sei qual era a língua da minha avó, e, sobretudo, tenho consciência das dissonâncias com que fui socializada, de um lado o natural, o feminino, o familiar, sitiado pelo medo a pensar e a distância com o saber, o emocional, o que não tem história, e do outro o artificial, o masculino, o moderno, o racional, o saber universal e legitimado. Assim aprendi as línguas que falo. Não sei qual é a minha língua materna, mas sei qual é a língua que escolhi para viver. Tenho consciência de que tenho andado a vida, a minha vida de quarenta e seis anos, passando à tangente pelo monolinguismo de outros, um monolinguismo que nunca foi meu e pelo qual sempre fui medida. Consciência de que a língua na que falo e escrevo é uma empresa ativa na que reúno fragmentos do que desejo para mim e para um coletivo linguístico que só encontro se imagino uma outra comunidade tão soberana dos seus destinos como da semântica e a gramática da sua língua.

A ideologia do “galego de seu” e o diferencialismo, dum galego monolingue, parece-me eco da ideologia da pureza de sangue e dos conversos. Quando as políticas de assimilação cultural e de substituição linguística são tão evidentes, andamos nestas categorias de neos e paleos, como se alguém pudesse para sempre estar à margem, como se não fosse o nosso um conflito de liberdades e direitos, como se ainda não nos tivéssemos desprendido de certas ideias essencialistas de raça e povo do século XIX, nós, coletivo dos que nos chamamos galegos e que temos de ir negociando os marcos do pensamento e ação para nos reconhecermos. Faz-me lembrar o repúdio de Risco aos híbridos manifestado nesse opúsculo que ninguém vindicaria hoje intitulado Orden y caos. Algo da rejeição de Risco à modernidade e o urbano anda de fundo na imagem essencialista e arcádica dos habitantes rurais da Galiza como depositários e conservadores da língua e não a realidade da sociedade galega no seu conjunto, dos que enfrentam a colonização e a violência e criam a primeira membrana da resistência.

Que em galego não se escrevessem os recibos da contribuição é defeito e não virtude, porque o facto nunca nos dispensou de pagar impostos. Tem sido falha outorgar à língua o que é qualidade moral e questão de direito, de decisão conscientemente tomada, não de fado histórico. A língua aguenta tudo, até as mentiras, como dizia meu pai a respeito do papel a partir da autoridade que lhe dava o seu ofício de tipógrafo. Este e outros lugares comuns que vamos mantendo à volta da língua só funcionam como limites ao conhecimento e a ação, ao estarmos no mundo e à pluralidade real dos cidadãos da nossa sociedade. Para além do efeito mais imediato, o da exclusão sistemática da vida pública, dos média, da cultura oficial, dos que têm outro discurso sobre a língua e a galeguidade para além do galeguismo arcádico, enxebrista e autonomista. Isso é o que contesto do isolacionismo, o monopólio auto-outorgado do discurso sobre a identidade e a redução e a prepotência de excluir o outro e ao mesmo tempo fazer de conta que tudo isto é um debate limpo à volta da mesa de jantar em que ganham os que têm razão.

Uma terra, um povo e uma fala, sim, mas com possibilidades combinatórias ilimitadas, porque são muito variados os nossos territórios como galegos, territórios físicos e territórios mentais, variadas as camadas culturais e sociais que vamos herdando ou com as que vamos dialogando. O interessante no percurso histórico da sociedade dita galega é a sua vitalidade, apesar de tudo, a sua capacidade de dar novos significados a esse fundo cultural nascido no território e que nunca deixa de dar-nos peças para entender o nosso estar no mundo. O interessante para mim, que observo a sociedade galega desde a diáspora, é como entre nós, dando continuidade à velha ideia ancestral da terra mãe, esse binómio mínimo em que humano e terra são ambos sujeitos, se vai gerando pensamento que desmonta o imaginário civilizador dos impérios, álibi de toda a empresa colonizadora. Neste presente de crise climática, deslocalização, exploração de recursos, refugiados, morte de línguas, uma cultura tão profundamente fiel a um território como a nossa está cheia de chaves para imaginar outras relações entre os humanos e dos humanos com a terra.

Pensarmos o reintegracionismo para além do linguístico, pensarmo-nos socialmente e historicamente, pensar a galeguidade mais além do cultural e também noutros cenários políticos fora da dualidade Galiza-estado espanhol, é possível mudando os canais e os interlocutores, até porque a língua permite a compreensão com outras sociedades e culturas. Cumpre medirmo-nos e espelharmo-nos não só com o monolinguismo dos favorecidos pelas políticas imperialistas, mas com os tão variados perfis linguísticos que séculos de projetos colonialistas produziram. Aí sim tem validez o pensamento de Ernesto Guerra da Cal de que em espaço lusófono renovamos as raízes ancestrais. Porque para nós esta é a língua do clã, do território, a língua de memória indígena em que cantamos e lembramos. Não é cousa pouca.

E ainda há uma última razão, a que tão bem descreve Mário Herrero na sua Guerra de grafias. Conflito de elites, esse desejo que nos é negado em nome do pragmatismo, deixando a sociedade galega como numa frequência infantil. O desejo de “sempre deixar de ser para ser noutro”, imagem da Galiza nos versos de Valentim Paz-Andrade, ou da poesia erótica de Guerra da Cal ou Carvalho Calero, essa via de imaginar o outro ou a outra, de imaginarmo-nos noutra realidade, de explorar o além, o interior das cousas, o desconhecido, o imprevisível, um fio narrativo da nossa vida coletiva que se faz visível se consideramos que a poesia também é necessária para o relato polifónico do ser galego, como espelho do imaginário mais profundo e constante, do irracional, da emoção, da motivação e da transformação. Afinal, esse espaço invisível em que se gera a energia e continua a vida. A Galiza mãe e senhora, santinha imaculada como nos ensaios sobre Rosália dos anos 50 do passado século, que Carvalho Calero questionou com as suas mulheres desejadas e desejantes, dinâmicas e imprevisíveis, tem hoje outra imagem, mãe soberana de corpo e espírito, o que vale dizer de território e história, de língua e significados, nos poemas de Iolanda Aldrei e outras poetas. Língua com corpo e desejo de outros destinos.

Maria Dovigo

Maria Dovigo

Nasci na Crunha em 1972 e vivo desde 2000 em Portugal. A minha formação é a Filologia, exerço a docência e sou poeta por vocação. No labor criativo ligo a minha vontade de intervenção cívica com a convicção de que a criação é a verdadeira natureza do ser humano. Colaboro com diferentes associações do espaço lusófono, tecendo redes de afetos e projetos à volta da vivência da língua portuguesa. Sou académica de número da Academia Galega da Língua Portuguesa.
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  • Plácido Pérez Sanjurjo

    Tem sido falha outorgar à língua o que é qualidade moral e questão de direito, de decisão conscientemente tomada, não de fado histórico. A língua aguenta tudo, até as mentiras