para a tia Maria

O que na Idade Média conformava um só casal ou lugar, hoje aparece dividido em duas partes: Guindibom, dentro da freguesia de Montaos; e Guindibom de Riba, pertencente à de Pereira. O topónimo é recolhido no Nomenclator como “Guindibó”, ainda que na sinalética e outros textos oficiais também tem sido escrito com vogal geminada: “Guindiboo”. Em qualquer caso, as vizinhas como lhe chamam é “Guindibom”, com gheada, naturalmente1.
Quanto à etimologia, as tentaçons espontâneas de ver em Guindibom qualquer referência à árvore fruteira guinda/guindo (Prunus Cesarus L.), umha sorte de “Guindo Bom”, ficam totalmente desbotadas à vista da documentaçom medieval, pois este casal entom pertencente ao mosteiro de Sam Paio de Antealtares nom comezava por Guindi-, senom por Gundi-. Num documento assinado no 28 de dezembro de 1380 em Medina do Campo, o rei Joám I ordena a vários nobres que deixem livres terrenos que usurparam ao mosteiro de Antealtares, e entre eles Lope Pérez de Montaos:
“Et otrossí que vos el dicho Lope Pérez [de Montaos] que tenedes en encomienda contra su voluntad las encomiendas et señorías de los sus cotos et logares de Queynçe [Queis] et de Gundiyuoo et de otros algunos sus logares et casares que el dicho monasterio ha en tierra de Montanos”2.
Sendo Guindiboo a forma antiga o topónimo lembra a outros como o já visto de Gundilhe (Chaiám), Guntim ou Gundiam, todos eles referidos a vilas medievais propriedade de um terratenente com um nome germânico começado polo elemento gôtico gunthi, que significa ‘luita, combate’. Mesmo assim seria um híbrido germánico-latino, mas Martins Estêvez, a propósito do Gundivós do Vale de Lemos, considera que pode ser, na realidade, um topónimo celta: “*GUNITT BODOS ‘fosso (álveo) da batalha’, ao invés de Beigondo (*BEDI GONITON ‘batalha do álveo) […]3. Se fosse assim caberia pô-lo em relaçom com o vizinho Beám, que o mesmo autor julga ser um topónimo híbrido: *bedana, “a (vila) do fosso”4.
Durante a II República Gundibom nom ficou à margem dos numerosos processos de auto-organizaçom popular que luitavam contra as dessigualdades e pola melhora do agro. A Sociedad Agraria de la parroquia de Santa Cruz de Montaos estava domiciliada em Guindibom e o seu presidente era José Castro, vizinho de Queis que também foi concelheiro da Esquerda Republicana no governo da Fronte Popular de Ordes5. Manuel Cores era o secretário, Julio Caamaño Villasenín o contador e Ramón Figueira Pazo e Antonio Villasenín Pena os vogais, todos eles apelidos comuns em Guindobom e Montaos ainda hoje. O golpe de Estado de 1936 clausurou pola força a sociedade e usurpou os seus bens, mas os de Guindibom nom se renderam. No 14 de abril de 1948, tal e como figeram os de Ardemil dous anos antes, lembraram a república com a voadura “doutra serie de postes telefónicos perto de Guindibóo de Arrriba -Santalla de Pereira- Ordes”, deixando as autoridades incomunicadas e dizendo-lhe à Ditadura que ali nom se rendera ninguém, que a luita continuava6.
A cada 13 de junho a gente de Guindibom continua a juntar-se para festejar o Santo António na carvalheira que rodeia umha formosa e humilde ermida, que mesmo parece dumha cantiga medieval.

1 É interessante esta pronunciaçom “bom”, porquanto o dialeto da zona sempre indica “bo”.
2 Manuel Lucas Álvarez, San Paio de Antealtares, Soandres y Toques: Tres monasterios medievales gallegos, Sada, Ediciós do Castro, 2001, pp. 82 e 205.
3 Higino Martins Estêvez, As tribos calaicas. Proto-história da Galiza à luz dos dados linguísticos, San Cugat del Vallés, Edições da Galiza, 2008, p. 180.
4 Ibidem, pp. 208-209.
5 Pazos Gómez, 2001, p. 16.
6 Harmut Heine, A guerrilla antifranquista en Galicia, Vigo, Xerais, 1980, p. 182; Mundo Obrero, 1 de maio de 1948; El Ideal Gallego, 15 de dezembro de 1948.

