Dois estudos de Carlos Garrido para o melhoramento, prestígio e progresso da língua galega

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Por Joám Manuel Araújo

Carlos Garrido, doutor em Biologia, filólogo, professor de Tradução da Universidade de Vigo e presidente da Comissom Lingüística da Associaçom Galega da Língua, lança neste ano 2011 uma nova edição do Manual de Galego Científico, volume de que é autor em parceria com o professor Carles Riera, da Universitat Ramon Llull de Barcelona e que saiu dos prelos pela primavera; e mais recentemente a monografia Léxico Galego. Degradaçom e Regeneraçom. Diga-se já: estamos perante dois estudos muito valiosos que visam o progresso e o melhoramento da língua galega; que procuram uma melhor e maior utilidade para ganhar em usos do idioma e prestigiá-lo perante a sociedade galega, e não só.

I. Um Manual com propostas para 93 disciplinas científicas

A reedição deste volume1 evidencia o seu sucesso. Foi pioneiro quando a sua primeira edição, em 2000, pois não existia na altura livro semelhante, e oferece agora versão revista e alargada, com visão “mais completa e rigorosa”, segundo esclarece Garrido num prólogo. Nos 10 anos decorridos desde a primeira edição, o livro alicerçou diversos trabalhos de terminologia e serviu de base para a ministração de vários cursos de galego técnico-científico na Universidade de Vigo.

Entre as novidades vale a pena referenciar a adaptação do texto para o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa que principia a vigorar, segundo a proposta para esse fim da Comissom Lingüística da Associaçom Galega da Língua, que o professor Garrido preside.

Este Manual oferece contributos para 93 disciplinas científicas: Álgebra, Astrofísica, Cibernética, Ecologia, Física Atômica, Lingüística, Matemática, Medicina, Psicologia, Zootecnia… Os autores diferenciam no estudo cinco partes: uma introdução para a língua especializada da ciência, em que alertam de deficiências no uso do galego científico e propõem critérios para a sua fixação, seguindo a (p. 43) etimologia e tradição da língua; uma segunda parte, em que estudam aspetos prosódicos e ortográficos do léxico científico: acentuação, uso do hífen ou traço de união, vocalismo, consonantismo e famílias irregulares de termos; a terceira parte, dedicada para “Aspetos morfológicos do léxico científico”, como o género e o número, a neologia (através de empréstimos e decalques, derivação, composição, abreviação ou redução, e outros procedimentos como os termos onomatopaicos, surgidos por analogia ou de designação livre); a quarta parte centrada em aspetos semânticos do léxico científico (homonímia, sinonímia, paronimia, antonímia e dúvidas e interferências lexicossemânticas); e a quinta, intitulada “A morfossintaxe do galego científico”, em que se ocupam dos tipos de oração, mecanismos de coesão textual, o sistema verbal (formas finitas e infinitas, perífrases; tematização, focalização e topicalização no galego científico; e finalmente estruturas morfossintáticas de baixa freqüência no galego científico).

São no total 519 páginas, acompanhadas de generosa profusão de exemplos esclarecedores, de quadros, de listas de termos, com divisão de epígrafes e alíneas para facilitar a consulta, num exemplar esforço didático e pensando em ajudar a quem lê da maneira mais lógica. A novidade principal é sem dúvida a extensa secção dedicada ao uso da morfossintaxe da língua especializada, fundamento da redação técnica e aspecto fulcral para um cultivo eficaz do galego científico. Outros pontos que vale a pena frisar pela sua maior novidade são o reforço da análise da estratégia de habilitação em galego das línguas especializadas, agora também aplicada ao setor da morfossintaxe, um tratamento mais completo da acentuação dos termos, da conversão semântica e da abreviação, bem como o acréscimo de numerosos exemplos e de novos apêndices de interesse prático (sobre a leitura de números, símbolos e expressões quantitativas, por exemplo).

Na continuação (pp. 521-536) incluem-se cinco breves, mas muito valiosos apêndices, intitulados “O alfabeto grego e o léxico científico”, “Leitura de números e expressons quantitativas”, “Símbolos matemáticos”, “Grandezas e unidades do Sistema Internacional” e “Tabela periódica dos elementos químicos”.

O volume finaliza dando conta da bibliografia citada, e com um utilíssimo “Índice remissivo de termos”, em 90 páginas, classificados alfabeticamente, o qual facilita a consulta e o modo de tirar rendimento a este Manual, ao remeter para mais de 12.000 (com certeza: doze mil!) referências.

Se a primeira edição deste repositório, de 460 páginas, era já um assombro, ao se acrescentar agora quase 200 páginas mais (são no total 644) resulta ainda maior o seu valor e utilidade.

Estamos assim perante um volume que é necessário ter de mão para resolver dúvidas, para melhorar o uso da língua, para encontrar, em definitivo, muitas soluções a questões que se possam colocar ao redigir um texto científico, mas não só, pois tem imenso valor para qualquer utente galego (ou em geral da língua portuguesa) que anele uma competência acertada, culta e exigente do idioma. Especialmente útil na comunidade galega, para emendar erros e despropósitos que estão a empobrecer o uso da língua, mesmo a menosprezá-la como veicular para os textos científicos, quando tem uma potencialidade de internacionalização que este Manual prova, documenta e demonstra.

II. Um estudo monumental do léxico galego

Se o volume antes assinalado é em certa maneira um assombro, como já ficou assinalado, o que agora sai dos prelos2 surpreende e impacta ainda mais: estamos perante um contributo de 800 páginas!, dedicadas para o estudo e para apresentar propostas e soluções com o intuito de ultrapassar o léxico galego mais vigorante na atualidade e transformá-lo num instrumento que favoreça mais o conhecimento e a comunicação das pessoas da comunidade galega. Essa é, a meu modo de ver, a orientação deste trabalho. Monumental com certeza pela extensão, mas também pelo seu conteúdo, pelo que representa de contributo neste campo de conhecimento.

O Professor Doutor Carlos Garrido inicia este livro com citações de interesse respeitantes à matéria focada, e com a apresentação de “Siglas, abreviaturas e símbolos utilizados na presente monografia”. Diferencia na continuação três partes:

a) A primeira, uma introdução em que tenta esclarecer as causas da que julga de atual degradação do léxico galego. Defende à partida que (p. 23) “De todos os âmbitos constitutivos do galego –ou variante galega da língua galego-portuguesa–, o correspondente ao léxico é o que hoje se manifesta como mais degradado”; coloca exemplos de numerosas manifestações dessa degradação lexical, desenvolvendo um seu trabalho anterior publicado pela Universidade da Corunha3, e esclarece que este seu novo trabalho (p. 65) “centra-se no estudo dos fenómenos de degradaçom lexical de língua, que se registam como usos lingüísticos socialmente significativos (estendidos) no estrato da língua formal”.

b) A segunda parte constitui o corpo central do estudo, e está desenvolvida nas pp. 68-722. Analisa a que julga (assim justificando-o) de atual degradação do léxico galego e oferece diferentes “estratégias regeneradoras disponíveis”. Aí se ocupa da situação do galego atual: a variação sem padronização, a substituição, a erosão, a estagnação e a suplência castelhanizante e atitudes ao respeito, os efeitos nos utentes, e as propostas em positivo que se podem aplicar para mudar a situação. Defende Garrido a elaboração de um (p. 721) “dicionário geral normativo do galego-português da Galiza4, e conforme o congenial e racionalizador modelo luso-brasileiro, a exclusom de todos os arcaísmos, pseudogaleguismos, plebeísmos e ampliaçons semánticas hipercaracterizadoras, bem como umha pulcra indicaçom da natureza coloquial ou dialectal dos coloquialismos e diferencialismos que hoje som objecto freqüente de usos diferencialistas”.

c) Na terceira parte, de conclusões e perspectivas (pp. 723-763), afirma que o galego, segundo a codificação vigente defendida pela Real Academia Galega e mais o Instituto da Língua Galega (RAG-ILG), não tem (p. 738) “verdadeiro prestígio social” nem é em geral percebido como “veículo comunicativo autónomo, necessário e apto para todos os cidadaos da Galiza em todas as situaçons sociais –para além do hipócrita e deficiente emprego que dele fam muitos políticos e locutores da rádio e televisom galegas” e para o patentear oferece uma amostra de exemplos. Garrido insiste na necessidade (pp. 752 e seguintes) de “Um vocabulário de legítimos galeguismos (normativos), ou de particularismos lexicais galegos no seio da lusofonia”, também de “Um vocabulário de vozes freqüentes no galego dos actuais utentes cultos e que nom som admissíveis no padrom lexical” ou “proceder à reediçom com optimizaçom lexical de textos (literários) galegos ‘modernos’ que hoje sejam de interesse para um largo público, para o ‘leitor comum”; e com Montero Santalha defende ao respeito como modelos para esta última proposta três volumes, preparados por Ramom Reimunde, Higínio Martins Esteves e Ernesto Guerra da Cal, de produtos literários de Armando Cotarelo Valledor e Rosália de Castro. Garrido reitera que o atual modelo da RAG-ILG conduz para a (p. 758) “próxima extinçom” da língua, e apela para a urgência de favorecer a confluência com o modelo lingüístico imperante na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), na esteira do também assinalado em diferentes ocasiões pelo escritor e acadêmico da RAG Manuel Rivas, entre outras pessoas galegas, em diferentes ocasiões, mas trabalhando de maneira imediata e sem mais adiamentos. Para dizê-lo com as suas próprias palavras, conclui Garrido (p. 762): “nós sabemos que esse futuro de reforma e ‘ajeitamento’ da codificaçom do galego tem de ser já agora; sabemos de que modo, no campo do léxico, a reforma codificadora, norteando-se polo modelo congenial, enriquecedor e emancipador oferecido polo luso-brasileiro, deverá conduzir-se frente a cada um dos factores de degradaçom lexical, e sabemos, enfim, que tal reorientaçom lexical nom se revelará plenamente eficaz se nom for acompanhada, também, de umha substancial convergência ortográfica luso-brasileira”.

Oferece na continuação (pp. 763-779) a bibliografia em que alicerça o estudo. As principais referências são de Carvalho Calero (16), Henrique Monteagudo e Constantino García (12 cada), o próprio Carlos Garrido (11); Xosé R. Freixeiro Mato, A. Santamarina e F. Fernández Rei (7 cada); José António Souto Cabo e Rosario Álvarez (5 cada) e também Martinho Montero Santalha, José Luís Rodríguez, Maria do Carmo Henriques Salido, Rodrigues Lapa, Ernesto Guerra da Cal, J. Guisan Seixas, V. Fagim, R. N. Baxter, P. García Negro, Garcia Vessada, Conde Teira, X. M. Sarille, A. Gil, Elvira Souto, Jorge Rodrigues Gomes, M. Castro, Estraviz (em nova edição seria de interesse que Garrido valorizasse o Dicionário Estraviz na forma como é oferecido no PGL, não só segundo a edição de Sotelo Blanco em 1995, a única a que faz referência), E. Haugen, R. Appel e P. Muysken, M. Clines, J. Malaca Casteleiro, A. Houaiss, Geraldo da Cunha, Couceiro Freijomil, Saco e Arce, Coromines, a Comissom Lingüística da AGAL… entre outras fontes. A bibliografia seria mais comprida se Garrido incorporasse nela textos da comunicação social escrita que só cita quando os utiliza nas páginas do livro (v. gr., o antes assinalado traballo de Manuel Rivas, e outros deste mesmo e outros produtores), e que resultaria de interesse também referenciar no final.

O volume finaliza com dois apêndices: um intitulado “Incidência dos factores de degradaçom lexical sobre a designaçom no galego actual” (pp.781-788) e outro de “Reediçom de textos com optimizaçom lexical” (pp. 789-799) realizando aqui estudo com pormenor de um trecho do Sempre en Galiza de A. R. Castelao e mais do poema de Eduardo Pondal que serve de letra para o hino galego.

Estamos, portanto, perante um livro que constitui o estudo mais profundo publicado até a data respeitante ao léxico galego. Um trabalho que indica uma estratégia para conseguir a plena regeneração do léxico galego, e lança os alicerces para uma codificação lexical eficaz.

Conclusão

Nos dois volumes encontram-se críticas para a proposta da RAG-ILG, mas tudo se justifica, e o Professor Doutor Carlos Garrido oferece alternativas coerentes e válidas para ultrapassar a situação atual e melhorá-la. Defende a aproximação para a língua vigorante na CPLP como a única via com futuro, por que podem e devem enveredar os utentes de galego, sobretudo os da língua culta e especializada mas não só, já que a coordenação lingüística galego-portuguesa representa para o galego, simultaneamente, uma garantia de genuinidade e uma garantia de projeção, que permitem vencer a sua progressiva degradação e extravasar os estreitos lítimes que hoje comprometem a sua sobrevivência, como ele insiste em várias partes destes dois muito valiosos volumes.

Duas monografias, portanto, chamadas a constituir-se em referências da galeguística contemporânea e que bem podem ser sólidos pontos de partida para uma codificação do léxico galego eficaz, respeitosa com o génio da língua e atualizadora das suas imensas capacidades comunicativas

Dois estudos, em definitivo, orientados para o melhoramento, prestígio e progresso da língua galega e, consequentemente, dos seus utentes.

 

Notas:

1 Garrido, Carlos e Riera, Carles, (2011a), Manual de Galego Científico, Santiago de Compostela, Através Editora, 2ª ed. O volume está dedicado “Ao saudoso professor Ernesto Guerra da Cal, que nos dixo, num lúcido entardecer lisboeta, que o galego dispunha já até de gíria militar…”

2 Garrido, Carlos, (2011b), Léxico Galego. Degradaçom e Regeneraçom, Barcelona, Edições da Galiza. A monografia está dedicada “com admiração ao saudoso Prof. Manuel Rodrigues Lapa, que viu todo isto antes que nós todos…” e também para um sobrinho de Garrido, Malco “que dixo ao seu pai que o tio falava com palavras ‘honradas’, na esperança de que ele, sem abandonar o galego autêntico que já fala, a este poda também vir a incorporar muitas palavras ‘honradas’”.

3 Garrido, Carlos, (2006) “Estratégia para a habilitaçom em galego das línguas especializadas científico-técnicas”, in Lingua e Investigación. II Xornadas sobre Lingua e Usos, A Corunha, Servizo de Normalización Lingüística da Universidade da Coruña, pp. 41-63.

4 Propõe Garrido que, até que exista esse dicionário apropriado para a variante galega do galego-português se deveram (p. 752) “declarar utilizáveis e difundir na Galiza os dicionários [e outros materiais] correspondentes do âmbito luso-brasileiro”.