Desodorizantes

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Por Edelmiro Momám

A língua dos murmúrios. Ferrol, anos 80. Vou da mão com a minha mãe. Estamos a fazer compras no centro de Ferrol. Cruzamos por acaso com a sua irmã, minha tia e madrinha. Falam em voz baixinha. Entra em cena uma terceira mulher que empurra um carinho de bebé. Detém-se um momento ao pé de nós. É conhecida. Saúda. Muda-se de língua. Eleva-se o volume da conversa. Ay que nino más guapo! Qué lindo! Cucú! Como te llamas? A mulher marcha. Voltamos aos murmúrios. Fala-se galego, a língua proscrita, a língua dos murmúrios.

O que vale uma vaca. Ferrol, anos 80. As raparigas do bairro não falam doutra cousa. Em castelhano, claro. Soto isto. Soto aquilo. Que bonitinho é Soto. Que feitinho é. Os meninos vamos fartos do Soto. Não é apenas que seja guapo, é que é encantador. Calmo, valente, respeitoso. Bom, na verdade nós não conhecemos Soto. Mas é o que se diz. O que dizem elas. Morremos de inveja. Havia que organizar um comando e ir-lhe partir os focinhos ao bendito Soto. Mas o projeto é inviável porque Soto, para além das suas muitas virtudes, tem muitos amigos. E são mais velhos que nós. O charme de Soto é aumentado polo mistério. Ninguém sabe onde mora e diz-que não tem pais. Mas rapariga que gosta de garoto investiga que nem tenente Columbo e a verdade sabe-se, por fim. Soto é, de facto, órfão e mora com a sua senhora avó numa casa tradicional de pedra em pleno Narom rural. A humilde família partilha o rústico lar com, ai!, uma vaca. Ipso facto, Soto é destituído da sua condição de príncipe encantado. Soto não é mais do que um vulgar pailaroco. É a fim dum mito. Um serão de burlas é sucedido polo esquecimento mais absoluto. Uma vaca fez toda a diferença.

Chicken run. Ferrol, anos 80. Saímos da discoteca. Dous dos meus vizinhos tinham alcançado o notável status de se acharem entre os mais guapos da cidade. Racham corações adolescentes a destra e sinistra. Mal passamos o colégio das Mercedárias, na Estrada de Castela, decatamo-nos de que estamos a ser perseguidos. Duas raparigas do mais seleto de Ferrol vêm trás nossa. São lindas como sóis. Elas, obviamente, moram no centro. Nós vamos em sentido contrário. Querem saber em que bairro vivem os guapos. Apressamos o passo. Nós não temos vacas como Soto, mas alguma cousa aprendemos dos seus fulgurantes declive e queda. Moramos num bairro humilde do Ferrol rururbano e, quem mais quem menos, todos mantemos algum pito, coelho ou porco na mais flagrante ilegalidade. Eu, menos guapo, e menos consciente do que está em jogo, espero por elas e vou-lhes dando conversa até chegarmos a São João de Filgueira, momento no que me despido para continuar polo meu caminho habitual, não sem antes recomendar-lhes dar volta. Na altura, em plena reconversão do naval, não estavam aqueles bairros para passearem sozinhas à noite duas raparigas da sua classe social. Os meus amigos, em troques de continuar como eu polo caminho mais curto, continuam a fume de caroço pola Estrada de Castela para se internarem no bairro das vivendas dos suboficiais da Armada Espanhola. Ser, melhor teria sido oficiais mas, chegados a este extremo, melhor suboficiais do que pailarocos. Mal dobram a esquina, dão em correr como a quem persegue o diabo e atravessam a chimpos o prado que separa as Casas da Marina do nosso lugar do Espinho, pondo os sapatos dos domingos perdidinhos de lama. Puf!, andou-lhe perto.

Subastado. Corunha, anos 90. A rapariga é bonita. Estuda da universidade. O pai anda nas subastas do peixe e a mãe vende na praça. O negocio é bom, o trabalho interessante. Quando menos é melhor do que, ponhamos por caso, ser chofer de autocarro nesta cidade de caótico trânsito. Porém, quase todos os que a conhecem, muitas das suas amigas, até das da infância, acham que o seu pai é chofer de autocarro. É o que ela conta, a quem perguntar e a quem não. Seica os fumes da combustão cheiram menos do que o peixe.

Orneio final. Compostela, anos 90. Ela vinha duma aldeia do sul de Lugo. Falava castelhano com sotaque galego. Mas, que lhe queres, em Compostela a malta mais interessante falava galego. Na universidade, quando menos, a maioria dos castelhano-parlantes ou eram burros ou sem substância. Os galego-falantes éramos mais cultos e imaginativos, íamos ao teatro, às Ultranoites cabareteiras da NASA, fazíamos melhores festas, discutíamos de poesia e de filosofia, tínhamos mais gosto musical, éramos mais guapos e, em fim, outras cousas das que a lei o decoro nos impedem falar. Então, ela começou, timidamente, a falar galego. Primeiro só connosco, depois sempre ou quase sempre. Mas, assim como falava castelhano com o seu natural sotaque galego, quando falava galego fazia por imitar o que se considerava na Galiza ser o sotaque pijo (queque) castelhano. Dizia assunta quando queria pronunciar “a Junta” e terminava as frases com esse orneio final próprio do castelhano e que contrasta tão vivamente com musicalidade sinusoidal na nossa língua. Postos a padecer algum estigma, melhor passar por nacionalista snob que por pailaroco da aldeia. Não há outra escolha para quem falar galego.

Em resumo, o que me aprendeu o meu périplo por três das mais importantes vilas galegas? A nossa língua fede, as vacas fedem, o peixe fede, nós fedemos e o nosso sotaque fede.