De ictiófilos e peixes-voadores

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Devemos-lhe ao eminente intelectual proto-socialista russo Alexander Herzen umha aguda réplica á máxima de Rousseau “o homem nasce livre mas em todas partes vive encadeado”: “os peixes nascem para voar mas nom param de nadar”. O afiado sarcasmo de Herzen é um excelente antídoto contra as quimeras sociais e os profetas professos em qualquer fé inquebrantável. Doença perigosa em fase contagiosa.

Outro mestre do pensamento a contrafio a quem tenho em grande apreço, John Gray1, propom designar estes profetas do impossível com o neologismo “ictiófilo”, em homenagem ao sarcástico aforismo de Herzen. “Há ictiófilos de muitas variedades, lecciona-nos Gray: jacobinos, bolxeviques, e maoistas aterrorizando a humanidade para adaptá-la ao seu novo modelo; neoconservadores, chamando continuamente á guerra para traguer a paz universal; cruzados dos direitos humanos, convencidos de que todo o mundo aspira a parecer-se ao que eles se imaginam que som”. A corrosiva liçom de Gray sobre os disfarces do pensamento desiderativo pode servir de sábio aviso contra as alucinaçons colectivas que periodicamente assolam a consciência social das quais o século XX é tam pródigo em exemplos. O ictiófilo de raça estará sempre disposto a enfiar o seu sermom salutífero a quem se deixar, convicto das virtudes curativas da palavra certa.

Nom é doado o ofício de profeta; vem-nos à memória o encantador episódio inventado por Santo Antoninho, lisboeta de naçom mas italiano de adopçom e veneraçom, quando, encontrando-se um dia sem paroquianos a quem leccionar ocorreu-se-lhe a venturosa ideia de pregar aos peixes com sucesso comprovado. A maravilhosa história da pregaçom da divina palavra a tam escamado auditório foi levada á música por Gustav Mahler na sua memorável colectánea “Des Knaben Wunderhorn”. Melhor ainda é a homenagem que lhe ofereceu o Padre António Vieira quando utilizou a mesma parábola para fustigar os vícios dos colonos portugueses na famosa pregaçom ante a piedosa congregaçom brasileira daquele 13 de junho de 1654 em que a Igreja comemora a festa de Santo António. Pregar aos peixes, árdua tarefa de profetas expulsos do foro cívico por proclamar a salvaçom.

E contodo, pensamos, como negar o valor da palavra rebelde evocadora da utopia, capaz de corroer o consabido? O mesmo Herzen reconhecia que, apesar de todo, há peixes voadores. O seu voo é curto, 200 metros como máximo, mas, que incomensurável experiencia esse salto supremo ao luminoso mar que luz lá arriba inalcançável.

Impossível imaginar como surgiu esse prodígio salto evolutivo — nunca melhor dito —que permite fugir aos peixes-voadores dos seus depredadores mediante um pulo libertador. As aves actuais procedem dos dinossauros, mas, quem sabe se as cegas leis que regem a evoluçom nom acabarám por admitir algum dia esse super-peixe definitivamente libertado do meio aquoso que o sustenta convertendo a ordinária barbatana nadadeira em gloriosa asa voandeira.

A liçom de Gray convida-nos á ascese da descrença em perversos monoteísmos políticos e convida-nos a um tolerante politeísmo cívico adverso a qualquer milícia. Os exocetídeos — os “peixes que dormem fora” como som conhecidos os ousados voadores — convidam a à heróica tarefa de transgredir a norma para tentar abolir a medíocre rotina mediante um valoroso golpe de asa. Formoso programa sem garantias.

Umha parábola de rebeliom acode à memória: Com um par de peixes na mao, o devoto discípulo pergunta ao mestre de sabedoria: mestre como saber se estám vivos?

— “Deita-os ao rio, o que comece a nadar a contracorrente está vivo, o que se deixe levar pode estar vivo ou pode estar morto”.

1 Gray John (2013): El silencio de los animales. Sobre el progreso y otros mitos modernos, Sexto Piso España