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David Balsa: «No novo estatuto seria conveniente consagrar a nossa relação preferencial com Portugal e os países lusófonos»

PGL – David Balsa Guldris, presidente da Conferência Eurocentroamericana, tem-se distinguido nas suas colaborações na imprensa por colocar no centro do debate o papel geo-estratégico que a Galiza deve jogar no momento atual. Precisamente, deste tipo de questões é que trata a entrevista que lhes oferecemos a seguir.

David Balsa é ex-presidente das Juventudes Socialistas e da Executiva do PSdeG, além de membro destacado a nível internacional por, como dizíamos, presidir a Conferência Eurocentroamericana, um organismo para o diálogo entre ambas as regiões. Quanto à Galiza, Balsa só vê uma relação com Portugal e o Brasil, mas com um achegamento de muito escasso conteúdo político e económico, de «corte quase protocolário», afirmava recentemente, enquanto o resto de Estados da CPLP são ignorados no que diz respeito da política exterior.

PGL: David Balsa tem-se distinguido nas suas colaborações jornalísticas com o Xornal de Galicia por trazer à tona o papel geo-estratégico que a Galiza deve jogar num mundo gobalizado. Qual deve ser este em sua opinião?

David Balsa: Galiza tem que ter uma politica exterior própria e dedicada a projectar a sua imagem como país europeu e defender os seus interesses nacionais ali onde estes se encontrarem em jogo. Neste âmbito a União Europeia, a América Latina e a Lusofonia são os três âmbitos onde se jogam questões que nos afetam diretamente e onde podemos jogar um papel senlheiro. Não devemos esquecer que a Galiza em população e conhecimento exterior é superior a estados da União Europeia como o Chipre, a Estónia, a Letónia, Malta ou Luxemburgo na América Latina e na Lusofonia.

Neste senso parece claro a necessidade de chegar a um acordo no seio da Galiza para definirmos as linhas mestras da nossa ação exterior. Galiza, pola ampla presença de emigrantes e descendentes de galegos na América Latina, pode jogar um papel muito mas ativo nesta área, para além de aproveitar a privilegiada porta de acesso que nos concede a língua galega e assim poder jogar um papel destacado na Lusofonia. Na União Europeia não temos que esquecer que a possibilidade de os nossos estaleiros poderem construir barcos, o preço da leite e a politica de quotas, a situação do sector pesqueiro e os acordos nesta matéria com terceiros países e um longo etc. são questões que dependem diretamente de decisões que se tomam em Bruxelas. Temos que estar ali com uma presença direta para defender os nossos interesses.

PGL: O senhor tem afirmado mais de uma vez a necessidade de as forças políticas assinarem um pacto que marque a política exterior nos próximos 10 anos. Acha isto possível? Quais deveriam ser as linhas mestras dessa política exterior?

DB: E perfeitamente possível atingirmos um consenso para uma ação concertada no exterior visando a década 2010-2020. Os governos podem passar, mas os interesses da Galiza -condicionados pola sua história, língua e situação geográfica- vão permanecer. A efetividade e credibilidade de uma politica exterior esta vinculada à sua continuidade no tempo. No parlamento galego uma comissão deveria analisar os desafios e espaços preferentes para a próxima década da politica exterior galega e os meios e ferramentas mais ajeitados para os desenvolver (abertura de delegações de representação no estrangeiro, ingresso em organismos internacionais nomeadamente a CPLP e a UNESCO, criação de uma Conselharia de Relações Exteriores, inclusão no novo estatuto de autonomia da Galiza de artigos referentes a uma acção exterior autónoma e a uma relação privilegiada com Portugal e com os países lusófonos, etc). Percebo que numa questão de estado como esta e preciso atingir um consenso solido que garanta uma voz única da Galiza no exterior.

PGL: A CPLP, Comunidade de Países de Língua Portuguesa, em que medida é estratégica para os interesses da Galiza? Que passos se deveriam dar para solicitar a entrada da Galiza neste foro internacional?

DB: A Comunidade de Países de Língua Portuguesa, a CPLP, e uma porta privilegiada para aceder a uma comunidade de 230 milhões de pessoas a que estamos vinculadas por laços e afinidades muito fortes de língua e cultura. Neste aspeto somente dous países europeus, Portugal e a Galiza, têm a possibilidade de se sentarem a falar com os ministros ou os empresários do Brasil, Angola, Moçambique ou Timor Leste, por citar exemplos, sem necessidade de intérpretes nem tradutores. Isto dá-nos uma vantagem qualitativa nesta areia pola que deveceriam não já a Catalunha ou a Flandres como também países como a Bulgária, a Polónia, a Roménia ou a mesma Alemanha ou Itália com línguas com um numero sensivelmente inferior de falantes no mundo.

A imagem do Presidente da Junta da Galiza sentado numa mesa com o Presidente do Brasil, o Primeiro-ministro de Portugal, o Presidente de Angola, o Primeiro-ministro de Moçambique, o Primeiro-ministro de Timor Leste e os demais chefes de estado e de governo da CPLP nas cimeiras periódicas deste organismo internacional fala por si mesmo do que implicaria estrategicamente a nossa pertença a esta entidade. Galiza veria fortemente incrementado o seu peso politico em Bruxelas e na cena internacional.

Entendo que o parlamento galego deveria acordar, preferentemente por consenso para reforçar esta candidatura, o interesse de aceder como membros da CPLP com um estatuto de membro observador ou associado. A seguir, a Junta da Galiza em coordenação com o Governo Central, que e quem apresentaria oficialmente a petição perante o Secretariado Permanente da CPLP em Lisboa, deveria acreditar os motivos e méritos com que conta a Galiza para ser membro deste organismo. Dada a estreita afinidade linguística e cultural com a Lusofonia, a candidatura sem duvida séria muito bem recebida tanto polos governos coma polas opiniões dos estados membros da CPLP. No 2011 completam-se 15 anos da criação da CPLP na cimeira de Lisboa e seria uma boa ocasião para acolhermos em Compostela a primeira cimeira de chefes de estado e de governo da CPLP e oficializar a incorporação da Galiza com o estatuto de membro observador ou associado.

PGL: Pode-se afirmar que as empresas galegas têm uma agenda própria a respeito das empresas castelhanas ou catalãs relativamente aos investimentos no exterior?

DB: Deveriam tê-la mas as mais das vezes falha a perspetiva. Temos que estabelecer uma rede de representações no exterior com funções políticas e comerciais, na linha da nossa representação na Argentina que era um bom modelo até há pouco, que permitam dar apoio e informação às nossas empresas e estabelecer um lóbi com os emigrantes galegos no país, em especial com os que têm posições destacadas no governo (vários presidentes, vice-presidentes e ministros latino-americanos são descendentes diretos de galegos) ou no tecido económico. É preciso reestruturar o IGAPE e vincular  a Conselharia de Indústria na sua ação exterior a outros departamentos coma a Secretaria Geral de Relações Exteriores à qual deveria transformar-se numa Conselharia de Relações Exteriores. As Câmaras de Comércio e a Confederação de Empresários da Galiza têm um papel importante a jogar, mas primeiro têm que rever a sua atitude a respeito da língua do país que e infrautilizada ou ignorada em muitos casos. E um erro maiúsculo porque lhes outorga uma vantagem competitiva a respeito dos outros empresários, já não catalães ou castelhanos como também alemães ou italianos. O galego é o seu melhor cartão de apresentação no Brasil, na Angola ou no Timor-Leste.

David Balsa, num ato da Conferência

PGL: Xulio Ríos, Diretor do Igadi, alerta na última edição da  revista Arraianos da necessidade de fazer da Euro-região um edifício vivo. De que carece a euro-região para descolar definitivamente e criar relações a sério entre os habitantes do norte e do sul?

DB: Xulio Ríos, como sempre, acerta em cheio. A Euro-região tem grandes possibilidades, especialmente pola afinidade linguística e cultural que não se dá na maior parte das outras euro-regiões onde os presidentes dos lander alemães, as regiões italianas ou os departamentos franceses têm que comunicar-se com tradutores entre eles ou utilizar uma língua franca, e alheia a eles, como o inglês. Os presidentes da Câmara da Corunha, Vigo, Viana do Castelo, ou o Porto podem falar-se diretamente e sem intermediários ao igual que os nossos  povos. É preciso reforçar a euro-região com o comboio de Alta Velocidade, conetar a rede aero-portuaria, estabelecer sinergias e centros de investigações conjuntamente entre as universidades galegas e as do norte português, e promover o intercâmbio cultural com a receção plena da TVG em Portugal e dos canais portugueses de TV na Galiza, incentivar o intercâmbio de estudantes, reforçar a conexão das estradas e aumentar o numero de passos fronteiriços bem como a cooperação entre os portos e o tráfego de mercadorias, entre outras medidas.

PGL: Em que se pode traduzir para a Galiza e a sua cidadania o facto de o Brasil vir a se tornar uma potência mundial?

DB: O Brasil esta a jogar um papel cada vez mas potente na cena internacional. Tenho-o visto no Haiti onde a maioria dos militares do contigente de soldados das Nações Unidas são brasileiros ou o mesmo enviado especial da Organização dos Estados Americanos, o prestigioso professor e diplomata brasileiro Ricardo Seitenfus, que tivemos o prazer de contar com a sua presença na Cimeira internacional de Lugo a favor da reconstrução do Haiti. Mas Brasil também está a jogar um papel cada vez mas relevante fora da América Latina como pola sua mediação no conflito do Irão após a viagem do Presidente Lula a Teerão ou o seu liderado nas negociações entre o bloco do MERCOSUL e a União Europeia. A ascensão do Brasil na cena internacional não tem mais do que vantagens para a Galiza. As portas do Palácio de Planalto onde se encontra a sede da Presidência, na vila futurista da Brasília de Oscar Niemeyer, sempre têm estado abertas para os presidentes da Junta da Galiza. Isto dá-nos umas possibilidades que para si quereriam presidentes de muitos estados europeus.

PGL: Como podemos explicar que na Extremadura o português seja a segunda língua estrangeira do ensino secundário e das Escolas de Idiomas enquanto na Galiza ocupa um lugar periférico? Perguntado de uma outra forma: o presidente da Extremadura Guillermo F. Vara visa o português como uma “aposta estratégica”. Por que o que estratégico na Extremadura, não o é na Galiza?

DB: Guillermo F. Vara, o presidente extremenho, tem claro o que representa Portugal: um mercado de dez milhões de pessoas e a porta de acesso a outro de perto de duzentos milhões presentes em quatro continentes. Por isso, e contra toda a lógica económica e cultural, a sede da delegação para a cooperação interregional instalou-se na Extremadura e não na Galiza. Extremadura e o seu governo fizeram os deveres e promoveram a língua portuguesa nas escolas, aproveitaram a situação especial da Olivença coma ponte linguística, estabeleceram nexos empresariais e outras iniciativas conjuntas. Houve uma aposta muito forte e sustentada no tempo -o que e capital-, do governo socialista extremenho ante Madrid e Lisboa, ambos também com governos socialistas. Teríamos que aprender deles. Nós dedicamo-nos a descuidar e desvalorizar por sistema a nossa relação com Portugal, tanto no âmbito cultural coma no económico e, logicamente, outros territórios ocupam os espaços que deixamos vazios.

PGL: A respeito dos diferentes governos que houve na Galiza, qual destacaria por ter desenvolvido uma política lusófona mais decidida? Como avaliaria a ação do atual governo neste sentido?

DB: A Lusofonia, não nos auto-enganemos a nós mesmos, não foi prioridade da ação exterior para nenhum dos governos da Junta da Galiza. E isto e uma eiva da nossa politica exterior que tem limitado gravemente o nosso peso politico em Bruxelas e Madrid. O Presidente Fernando Gonzalez Laxe tentou articular iniciativas neste âmbito mas encontrou-se com obstáculos importantes devido à fragilidade das instituições autonómicas e a brevidade do seu mandado (dous escassos anos). Sobre o governo atual da Junta da Galiza, o prazo de um ano não é tempo suficiente para fixar linhas de actuação mas confio em que o crescente peso da realidade económica e politica da Lusofonia se acabe impondo a considerações ideológicas. Este autoisolamento da nossa ação exterior respeito a relações com os países irmãs da Lusofonia não pode ter muita mas duração num mundo globalizado e crescentemente conetado.

PGL: A reforma do estatuto está na agenda dos partidos políticos. Como se poderia concretizar os temas que estamos a tratar na redação de um novo estatuto?

DB: Um estatuto de autonomia renovado e que reconheça a identidade nacional da Galiza e amplie o seu autogoverno até o nível, no mínimo do que tem atingido a Catalunha, é chave para o futuro do país e o papel que jogará na Europa e na cena internacional. Neste sentido percebo que seria conveniente um artigo especifico dedicado a consagrar a nossa relação preferencial com Portugal e outro dedicado aos países lusófonos bem como recolher detalhadamente a ampliação das competências da Junta da Galiza para desenvolver uma ação exterior, não dependente de decisões alheias e sem intermediações, em todos aqueles âmbitos que atinjam os interesses nacionais da Galiza do século XXI.

PGL: A língua é um problema ou uma oportunidade?

DB: A língua galega, ainda que apenas a falássemos nós e mais ninguém neste planeta pudesse entender uma palavra dela coma ocorre com o euskera ou o finlandês, é um tesouro que nos foi legado polos nossos pais e avôs e que devemos conservar a qualquer preço. Alguém imagina os dinamarqueses ou eslovacos a renegar da sua língua? Evidentemente não, porque a língua e o principal sinal de identidade cultural e coletiva de um povo e o fio que o une com o seu passado e lhe permite reconhecer-se neste mundo diverso e aberto. Se por cima esta língua permite comunicar-se, diretamente e sem mediações, com maos de duzentos trinta milhões de pessoas espalhadas por quatro continentes, desde Portugal ao Timor Leste ou desde o Brasil a Moçambique, a renúncia e a negação a conservar este património milenário que é a língua de Martin Codax, Rosália ou Castelão e uma tolémia sem futuro. A língua galega tem mil anos às suas costas. Com o compromisso e esforço de todos ainda lhe ficam mil primaveras mais.


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