Por Joám Manuel Araújo
O ano 2008 finaliza com a publicaçom de duas muito interessantes monografias: umha da Revista Galega de Filoloxía, da Universidade da Corunha, que difunde os documentos galego-portugueses mais antigos, dos séculos XII e XIII, em trabalho de José António Souto Cabo, reputado medievalista da Universidade de Santiago de Compostela; e Veredas, da Associação Internacional de Lusitanistas, que oferece contributos de especialistas de vários países e áreas, que frisam diferentes manifestaçons e reptos respeitantes à diversidade da língua (Galego-)Portuguesa na actualidade.
Os documentos Galego-Portugueses mais antigos
A monografia número 5 da revista da Universidade da Corunha inclui a ediçom de 384 documentos galego-portugueses dos séculos XII e XIII, entre eles os mais antigos até hoje conhecidos. José António Souto Cabo diferencia 5 partes neste contributo, que se constitui numha verdadeira referência: principia com «Introdução» (pp. 9-29), em que apresenta os aspectos lingüísticos, e informa da ediçom e a leitura de documentos, e dos nom datados; na continuaçom reproduz (pp. 31-49) vinte e seis «Documentos latino-romances» a eles seguem (pp.51-355) 346 «Documentos galego-portugueses»; depois (pp. 357-367) mais 12 «Documentos galaico-leoneses»: e finaliza com (pp. 369-376) «Referências bibliográficas», em que oferece mais de cem fontes para complementar esta questom, entre elas dous estudos de Martinho Montero Santalha e um do próprio Souto Cabo (ele é a principal referência, com 14 estudos citados) difundidos originariamente na Agália (que prestigiam esta revista de Ciências Sociais e Humanidades da Associaçom Galega da Língua e lhe dam dimensom de interesse internacional), além de outros de investigadores galegos.
Souto Cabo esclarece (p. 9) que se trata de «escrituras de carácter notarial datadas entre 1139 e 1270», e que diferenciou três grandes grupos de acordo com as características scripto-lingüísticas. Afirma ter partido do trabalho publicado no número 85/86 da Agália, no ano 2006, e «seguindo os princípios de um inventário prévio pretendemos uma relativa exaustividade na reunião de documentos do período anterior a 1261 para a Galiza e antes de 1271 para os escritos procedentes do reino lusitano. No resto dos suspostos, o que se procurou foi sobretudo apresentar uma amostra significativa. É a este princípio que obedecem as colectâneas de textos latino-românicos e galaico-leoneses, bem como o das escrituras galegas datadas entre 1261 e 1270».
Na continuaçom (pp. 10-11) indica as 14 instituiçons em que se encontram guardados os documentos: onde mais, no Arquivo Histórico Nacional de Madrid (168) e no Arquivo Nacional da Torre do Tombo de Lisboa (114), a que seguem os da Catedral de Ourense (48), Arquivo do Reino da Galiza (15); Arquivo Histórico Provincial de Ourense, Mosteiro de Ante-Altares de Santiago de Compostela e Real Academia Galega (5 em cada caso); Arquivo Histórico da Universidade de Santiago, Arquivo Histórico Municipal da Corunha, Catedral de Mondoñedo e Museu de Pontevedra (2 em cada); e a Catedral de Toledo, Catedral de Zamora e Mosteiro de Ferreira de Pantom, com 1 documento.
A respeito das procedências, som 63 (pp. 11-14), das quais se encontram como as principais a Catedral de Lugo (47 documentos) o Mosteiro de Monte de Ramo (Galiza, 31 documentos), o Mosteiro de Osseira (28), Mosteiro de Ferreira de Palhares (também galego, 27), Mosteiro de Arouca (Portugal, 16), Chancelaria de Afonso III (14), Mosteiro de Samos (13), Mosteiro de Melom (12), Livro de João de Portel (Portugal, 11 documentos), Mosteiro de Monfero (11), Mosteiro de Sobrado (11), Mosteiro de Meira (10) e os 52 restantes com contribuiçom de 1 a 8 documentos, dos quais 27 sediados em Portugal, 23 na Galiza, 1 em Castela e Leom e outro em Castela-La Mancha.
Os escritos latino-romances principiam com 7 galegos; deles, o mais antigo é um sem datar, que Souto Cabo julga pertencer a 1130-1170, do Tombo de Lourençá; e 19 mais portugueses, dos quais o mais antigo, de 1139, é originário do Mosteiro de S. Simão da Junqueira.
Dos galego-portugueses, ha 246 da Galiza, que se iniciam com um texto de 25 de Agosto de 1231, do Mosteiro de Melom; e mais 98 de Portugal, que começam com um sem data, que Souto Cabo julga pode corresponder a 1173 mas, em todo o caso, ser anterior ao 15 de Abril de 1175, e que é o conhecido acordo em que «Os irmãos Gomes Pais e Ramiro Pais pactuam a paz entre eles e ajuda mutua face a outros indíviduos que se citam», um texto que notabilizou José Antonio Souto Cabo ao publicá-lo em 2003 na revista Diacrítica, da Universidade do Minho, e defendê-lo como o texto mais antigo da língua.
A respeito dos documentos galaico-leoneses, o mais antigo é de 20 de Novembro de 1236, procedente do Mosteiro de Ferreira de Aves.
Entre as valiosas informaçons deste volume, Souto Cabo emenda outros estudiosos que se tenhem ocupado deste assunto, entre eles aqueles galegos que, no ano 2006, num encontro relativo ao Mosteiro de Palhares datárom um documento no ano 1227 quando na realidade corresponde a 1257: adverte como a cronologia que defendiam, e que faria desse texto o mais antigo em romance da Galiza, era «incompatível com a documentação biográfica de diversos indivíduos citados nesse escrito». Também contesta um trabalho de Ramón Lorenzo, defendido num congresso organizado polo Instituto da Lingua Galega, afirmando que tem «inexactidões, por erro ou por omissão» ao referenciar os textos anteriores a 1261. O prestigioso medievalista galego também responde critérios utilizados por especialistas de Portugal.
Elabora assim José António Souto Cabo um trabalho cavado e concluinte sobre um assunto do maior interesse para a história da língua, que será desde agora referência inexcusável, e que também contribuirá sem dúvida para umha mais alargada projecção da Revista Galega de Filoloxía. Todo um acerto dos seus responsáveis, os professores Xosé Ramón Freixeiro Mato e Manuel Ferreiro, da Área de Filologias Galega e Portuguesa da instituição, por esta bela ediçom, que reproduz facsimilarmente alguns dos documentos estudados, o que resulta mais outro acerto.
A diversidade actual da língua
A revista Veredas, da Associação Internacional de Lusitanistas, dedica o número 9, editado em Porto Alegre, para analisar «a grande diversidade das manifestações da língua portuguesa», segundo assinala (p. 7) no «Editorial». Esse texto inicial consta de duas páginas (7 e 8); segue-se de umha «Apresentação» (pp. 9-11), assinada por Perpétua Gonçalves, da Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo. Na continuação inclui 8 interessantes trabalhos: «O Português moderno e a Romania (Nova)», de Inês Duarte (pp. 13-34); «Aspectos de unidade e diversidade do Português: as variedades africanas face à variedade européia», de Maria Fernanda Bacelar do Nascimento, Luísa Pereira, Antónia Estrela, José Bettencourt Gonçalves e Sancho Oliveira (pp. 35-60); «O léxico compartilhado pelo português angolano, brasileiro e moçambicano» de Margarida Taddoni Petter (pp. 61-82); «Angola e Brasil: vínculos lingüísticos afro-lusitanos», de John Lipski (pp. 83-98); «Português Brasileiro, Português Moçambicano e as línguas crioulas de base portuguesa», de Marilza de Oliveira (pp. 99-114); «Aspectos da nacionalização do Português em Moçambique», de Gregório Firmino (pp. 115-136); «O Português de Moçambique na construção de um espaço social e político», de Christopher Stroud (pp. 137-176); e «O português medieval: koinização e elaboração», de Esperança Cardeira e Maria Alice Fernandes.
Na «Apresentação» deste volume indica a Professora Gonçalves (pp. 9-10) que «Hoje, parece já longe a época em que os vários objectos contidos no conjunto ‘Língua Portuguesa’ eram ainda definidos numa dimensão meramente extensional, em que se privilegiavam os aspectos históricos, em detrimento de uma definição intencional, qualitativa, baseada nas suas propriedades gramaticais. Não menos importante, vai também sendo remetida para um horizonte cada vez mais longíquo a época em que apenas as variedades europeias e brasileira e o Galego eram reconhecidos como partes do conjunto ‘Língua Portuguesa’ ou em que se admitir a existência do chamado ‘Português Africano’, uma entidade lingüística abstracta, falada em cinco países independentes, numa zona geográficamente descontínua, por populações com línguas maternas tipologicamente distintas».
É por isso, acrescenta esta especialista, que este número da revista inclui artigos alicerçados numa perspectiva lingüística e/ou sociolingüística, mas também um artigo que mostra (p. 11) «como as profundas alterações (fonéticas, morfológicas, lexicais e sintácticas) que se registam no Português europeu no século XIV anunciam já a actual norma» e como isso «pode constituir um estímulo para o estudo de fenómenos específicos das variedades africanas do Português, como evidencias da construção de novas normas».
Também se assinala que os estudos deste número de Veredas descrevem a analisam variaçons lingüísticas e estratégias de aquisiçom do português em situaçons de diglossia e enquanto língua segunda. Na sequência deste objectivo é pena que nom se inclua nengum estudo com perspectiva específica da situaçom na Galiza, que com certeza poderia contribuir para um maior enriquecimento desta tam valiosa revista.
Vale a pena sublinhar igualmente a diversidade dos contribuidores: profissionais de Portugal (Estrela, Cardeira, Duarte, Fernandes, Bacelar do Nascimento, Gonçalves, Pereira, Sancho Oliveira), Brasil (Petter, Marilza de Oliveira), Moçambique (Firmino), Estocolomo (Stroud), e do Canadá (Lipski). Junto com umha esmagadora maioria de lingüistas encontram-se especialistas de outras áreas, como a a Engenharia Informática, a Antropología ou a Política Lingüística; e desenvolvimentos como a Sintaxe Comparada e Lingüística Educacional, o que demonstra a multiplicidade de interesses nas focagens.
Conclusom
Trata-se, portanto, de duas revistas do maior interesse, com perspectivas que se complementam, e que ajudam a compreender melhor a actual diversidade da língua (Galego-)Portuguesa, hoje oficial em oito Estados além de na comunidade galega, e que apresenta umha pluralidade de realizaçons. Além disso, países como a África do Sul apresentam um volumoso número de falantes, superior à metade das naçons em que é oficial, outra questão que merece ser tomada de conta.
Umha diversidade, em definitivo, muito enriquecedora e que se deve atender para conseguir um diálogo e umha comunidade mais forte pola língua partilhada (unidade na diversidade). Felizmente desde a CPLP já se entendem, e atendem, as divergências, nas quais a Galiza, com a sua realidade complexa e características próprias, tem também muito para dizer (e aproveitar).
Compostela, Dezembro de 2008.
