UM PAÍS TROPICAL

Da Arte do Bem Morrer



Sir Anthony Flew

Sir Anthony Flew

Pouco antes do falecimento, o filósofo inglês Antony Flew, popularmente conhecido por ter enunciado a “falácia do escocês autêntico” [1], virou o casaco e passou de ser um dos mais rabudos defensores do ateísmo a se declarar teísta.

Os pretextos aduzidos para abraçar a superstição foram mudando progressivamente ao longo dos seus últimos anos de existência, tendo os derradeiros a ver com a incapacidade da ciência para explicar a origem da vida sobre a Terra. Hoje, transcorridos quatro anos do falecimento do filósofo britânico, estamos mais perto de entender estas questões no nível molecular [2] mas temos razões para duvidar de que estas novas descobertas teriam sido capazes de convencer o teimudo do Flew.

Na altura, muitos dos seus colegas filósofos atribuíram esta “traição” à senilidade do inglês. Pode ser. Não digo que não. Mas outros precedentes mais próximos que fomos achando ao longo da nossa vida fazem-nos maliciar se, pela contra, não seria cousa dum excesso de lucidez ou, quando menos, de raposeiro pragmatismo.

Já temos mencionado anteriormente o anticlericarismo popular galego, um tema, aliás, muito pouco estudado. Conheço, de facto, paisanos de avançada idade ou já finados que poucas vezes pisaram na igreja. Ficam, ou ficavam, sempre fora, não sendo no funeral dum familiar muito próximo ou pessoa muito querida. Pois bem, neste amorfo “movimento” também tem havido casos flagrantes de neo-conversos serôdios, talvez como o próprio Flew, ou tal é a nossa tese.

Um dia, ousei perguntar a um destes vira-casacos pelas razões de tão repentina devoção. “Não é devoção nenghumha, aclarou ele, é por se ascaso“. “Por se ascaso, que?”, inquiri eu fazendo-me o de Covas. Nesta altura é quando o paisano olha para ti com cara de estar a se questionar para que teria esbanjado o teu pai o dinheiro em pagar-che os estudos se total saíste parvo igual. “Por se ascaso…, não vá ser o demo”, acrescentou ele, dando o tema por fechado. Consciente de estar a comprar todos os bilhetes para a iminente rifa dum soco nos focinhos, insisti ainda, cândido qual principezinho de Saint-Exupéry, “Não vaia ser o demo, o que?”. Chegados a este ponto tenho para mim que me salvaram dous fatores apenas: A santa paciência do paisano, não sei se seria cousa de frequentar a missa ou se era o seu natural, e a minha cara de retardado. “Não vaia ser o demo que os cregos tenham ração”. Demonstrando não ser assim tão malvado como pensa alguma das tristes comadres de Windsor à que ousei levar a contrária, calei a boquinha. Sim, fechei a boca embora seja evidente que, se os cregos dizem verdade, Deus é omnisciente e sabe a ciência certa que o paisano estava a jogar o blefe.

Mais adiante descobriria que o caso não tinha nada de excecional. O homem resistira estoicamente os cantos de sereia da religião até as doenças da velhice alcançarem um ponto de inflexão no que número de tipos distintos de pílulas a ingerir ultrapassou a capacidade computacional dum cérebro humano sã. Ai o tipo, farto de se confundir de tratamento, começou a ir à missa sem faltar um Domingo, e até por semana, “por se ascaso“.

Este espantoso pragmatismo galaico poderia ser apenas, se calhar, superado pelas legiões da Roma antiga, as quais, diz-que, na véspera da conquista dum determinado território, ofereciam sacrifícios rituais, não apenas para os seus próprios deuses do panteão romano, como também para os deuses do inimigo. Não fosse ser o demo que os dos outros resultassem ser mais poderosos. Cumpre estar a bem com todos, sim senhor. Aqui igual, eh, o mesminho. Nalgumas igrejas galegas tanto podemos prender uma vela para uma virgem ou um apóstolo quanto fazer um donativo ao mesmíssimo diabo [3] [4].

Voltando ao assunto do arrependimento do último minuto, este é obviamente possível só mercê à generosidade da igreja católica, que tal permite, por vezes até de graça, por vezes à câmbio dum donativo proporcional à magnitude dos pecados a ser expiados por esta via de urgência. A possibilidade de ganhar a graça eterna, sendo a eternidade, embora indefinido, um monte de tempo, bem merece um pequeno investimento.

Também há muito quem, por teimosa vontade ou falta de previsão (a brincalhona morte nem sempre manda aviso), morra com as botas do ateísmo ou anticlericalismo postas. Mas incluso estes, porém, raramente se livram duma cerimónia de conversão post mortem de mais do que duvidosa eficácia. Sempre há um familiar precavido que propõe “E… haverá que fazer uma missa pola alma do defunto, ou?”. “Pra que? Se total ele dessas cousas não queria saber nada”. “Bueno homem, como não se sabe o que poder haver depois…”. Ai já calas a boca porque, como não cansa de repetir a imprensa de Madrid, nos últimos tempos normalmente para se referir à figura do presidente do governo, discutir com um galego pode ser uma cousa do mais exasperante.

Assim sendo, a alma do defunto pode ser salva malgré lui. Salva, supondo que Deus chegue até os extremos de “talante” necessários para admitir na sua presença uma alma redimida por terceiros sem a anuência do interessado. Tudo pode ser. Economicamente falando, é claro que convir, convém-lhe, agora outra cousa é que o faça, que o Senhor, como é sabido, para estas cousas é-vos muito particular.

Este tema da arte do bem morrer é sem dúvida interessantíssimo, e de soma importância, e bem poderíamos estar a falar disso durante horas e horas sem paragem. Hoje, porém, imos deixá-lo aqui, mas não sem antes mencionar brevemente um terceiro aspeto da questão que demonstra bem às claras o caráter previdente e advertido da nossa alma galaica. Sim, porque em nenhum outro lugar da Espanha é tão lucrativo negócio o dos seguros de enterramento (com certeza existe um termo mais técnico para esta modalidade asseguradora, mas desconheço-o e sou preguiceiro para andar a o procurar). O galego não quer baixo nenhum conceito que o seu teso cadáver suponha um lastre para os seus achegados.

Eu próprio, confesso, estou subscrito a um, muito contra a minha vontade, desde o momento mesmo da minha vinda a este mundo. Dá um pouco de rubor dizê-lo, mas é verdade que é uma cousa que proporciona uma certa paz de espírito. É o pacote básico, caixa de pinheiro e tal, sem muito ornamento, mas acho que hoje inclui já incineração de série sem custo suplementar. Antes chamava-se “o Ocaso”, pois tal era o nome da casa que levava este piedoso negócio. Hoje tem outro nome, muito menos wagneriano, mas também nesse mesmo campo semântico do que Edgar Allan Poe denominou “o verme conqueridor”.

Uma vez perguntei à minha mãe o que se passaria se não houvesse o Ocaso. “Pois que a família teria que pagar os custos do enterramento”. “E se a família não tivesse dinheiro?”. A resposta da minha mãe foi muito enigmática, críptica, que diríamos se não quiséssemos sair do campo semântico antes aludido, “Acaba a sopa, anda”. A sopa acabei-na mas fiquei como estava. Bom, se calhar, um bocadinho mais farto.

Daquela, evidentemente, não estava bem visto falar de fossas comuns na volta da estrada, embora, como sabemos, tenham constituído tradicionalmente uma das debilidades mais prediletas da direita pátria. Lembro também que naquela altura ainda era o nosso presidente precisamente um dos membros fundadores da organização Galicia Meiga, que algumas más línguas sustinham ser uma seita ocultista, enquanto para outros simplesmente se dedicava a organizar banais merendas de disfarces. Claro que ambas actividades não são mutuamente excludentes. De facto, na Galiza nenhum coletivo pode virar popular sem organizar merendas, pouco importa se depois fazem as filhós com sangue de porco velho ou de virgem pubertária… Sim, porque, como se costuma dizer, Deus é bom mas o demo tampouco é mau.

Já não sei nem a santo de que vinha isto mas o caso, Antony, é que não te somos nada.

Notas:

[1] http://en.wikipedia.org/wiki/No_true_Scotsman

[2] Veja-se, por exemplo:

[3] http://www.lavozdegalicia.es/opinion/2013/08/25/0003_201308G25P13993.htm

[4] Lembro ter visto vão lá muitos anos na televisão espanhola um documentário no que mostravam, custodiada numa ermida galega, uma imagem do demo à que os fieis pediam favores por intermediação do sacristão. Infelizmente, não lembro o nome do templo.

 

Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Ernesto V. Souza

    Não somos, não…nadinha…

    Miro, conheces de Declan Kiberd, Inventing Ireland: The Literature of the Modern Nation… ?

    Se não conheces hás-te deliciar com a introdução… sobre a falta de identidade como característica, a mímetizagem e a pragmaticidade… como elementos definidores… 😉

    • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

      Não conheço, não.

      Deus, que mal escrito está este meu texto… 😉

      • Ernesto V. Souza

        O meu está pior… cousas que passam… XD

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    hum, para mim que o “pragmatismo” esse radica numa insegurança profunda, vinda do começo dos tempos para os indivíduos “pragmáticos”, da infância ou sei lá de quando. Quando estás certa de algo, com todos os riscos que acarretam as certezas, mas estou a pensar no que propões, na crença num deus único e superior que criou o mundo e nos aguarda depois da morte, ou então nos aguarda o seu antagónico demo e tal, digo que quando estás certa de que isso não vai acontecer e acreditas firmemente na não existência de alma nenhuma fora do corpo morto, e na descomposição do organismo que antes estava vivo, e na inevitável desaparição do que somos, em vez de rezas e missas o que procuras são outras cousas, deixar tudo ordenado e acabado, podendo ser, bem disposto para que outrem o descubra algum dia e ache algo de sentido, mesmo mensagens aos que virão… esse tipo de cousas.

    • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

      É um texto humorístico…

  • Joám Lopes Facal

    Devemos-lhe a Flew a demoledora parábola ateista do explorador que encontra um jardim sem jardineiro nom meio da jungla. Quanto a sua posiçom tardia, e dada a reconhecida ressistência de Deus a deixar-se matar (“Deus morreu”: Nietzsche/”Nietzsche morreu”: Deus) talvez poderia ser sensato aderir ao NOMA (non-overlapping magisteria) de Ciência e Religiom como queria Jay Gould. Superstiçons há em toda a parte e o cauto agnosticismo de Gould pode ser umha boa blindagem.

  • Heitor Rodal

    O agnosticismo vital -e mortal- em convívio com o eclecticismo mágico-religioso, as serôdias viragens ‘para a fé verdadeira’, por se acaso, o seguro de enterramento desde o nascimento e a visita mensual do cobrador do recibo,… quanta cousa familiar e conhecida. E que bem recolhido e relatado! Parabéns.