Contributos galegos em publicaçons especializadas do Brasil e Portugal

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J. M. A. – Duas publicaçons especializadas lançadas ao mercado do Brasil e de Portugal no primeiro trimestre deste ano 2009 incluem trabalhos realizados por estudiosos galegos. Trata-se de Matraga, revista do Programa de de Pós-Graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), que completa o volume XV com o número 23; e as Actas do encontro internacional Censura e Inter/Dito. Censorship and Inter/Diction, editadas pola Universidade do Minho, e que recolhem contributos apresentados em Braga na seqüência do IX Colóquio de Outono organizado polo Centro de Estudos Humanísticos, celebrado no Outono do ano 2007. Em ambos os casos suponhem oferecer o maior relevo e prestar grande atençom à actualidade das universidades da Galiza, além de interesse pola investigaçom efectuada nos campus galegos.

1. Machado de Assis, Eça de Queirós e Ernesto Guerra da Cal

Neste último número da revista da UERJ, que saiu a lume nos inícios do ano, sob coordenação dos professores Gustavo Bernardo Krause e Sérgio Nazar David, inclui-se o artigo “Estudar Machado com a perspectiva queirosiana de Guerra da Cal: a necessidade de um projecto canonizador ‘à procura’” (pp. 11-26), assinado por Elias Torres Feijó e Joel R. Gômez, do Grupo de Investigaçom Galabra da Universidade de Santiago de Compostela.

É de salientar que este contributo galego seja colocado como o de abertura deste número da prestigiosa publicaçom universitária brasileira, precedendo outros de bem conhecidos nomes dos campos da pesquisa universitária e académica do Brasil e de Portugal.

O tema deste trabalho, segundo se indica no resumo, é o seguinte: “Desde os finais da década de 50 foi solicitado, desde diferentes sectores brasileiros, a Ernesto Guerra da Cal que dedicasse a Machado de Assis um estudo do mesmo teor que a Eça de Queirós. Pretendia-se umha capitalizaçom e umha projecçom como as atingidas pola obra e a figura de Eça através dos mecanismos e o agente que impulsionara no caso do escritor português. Apesar dos esforços e de diferentes contributos e depoimentos em que ofereceu uma muito alta valorizaçom do produtor brasileiro, o projecto nom se concretizou, e afinal aquela demanda contribuiu para afiançar um duplo processo de canonicidade, que colocou Eça no centro do campo literário e Da Cal no dos estudos literários portugueses; e para evidenciar a importância de determinadas projecções simbólicas e identitárias em espaços sociais e campos culturais como neste caso o brasileiro”. Assinalam-se ainda como “Palavras-chave” as de “Machado de Assis; Eça de Queirós, Guerra da Cal; processo de canonicidade; campital simbólico; identidade”.

A revista completa-se com os estudos “Edição crítica das obras de Eça de Queirós: um balanço” (pp. 27-41) de Ernesto Rodrigues, da Universidade de Lisboa; “Era no tempo de Napoleão” (pp. 42-54), de Silviano Santiago, da UFF; “Machado de Assis: entre o preconceito, a abolição e a canonização” (pp. 55-73), de Maria Fantini Scarpelli, da UFMG-CNpq; “Dom Casmurro: O claro enigma” (pp. 74-93), de Italo Moriconi, da UERJ-CNpq; “Alcibíades redivivo: Interpretação e retrato” (pp. 94-106), de Eunice Terezinha Piazza Gai, da UNISC; Considerações sobre a recepção da obra de Machado” (pp. 107-121), de Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba, da UERJ-CNpq; “Os Maias da TV Globo e a construção da personagem” (pp. 122-139), de Joana Duarte Bernardes, do Centro de Literatura Portuguesa/ Universidade de Coimbra; “Machado de Assis, Lima Barreto e a ‘verdade’ da loucura” (pp. 140-154), de Luciana Hidalgo, da FAPERJ; “Literatura, Música e o ‘Trio em Lá Menor’” (pp. 155-164), de Marcus Vinicius Nogueira Soares, da UERJ; “História, Sistema Literário e Sociedade na versão folhetinesca de Quincas Borba” (pp. 165-178), de Luiz Antonio Silva, da FAPERJ; “A aporia do conselheiro: o fim da linha do cronista Machado de Assis” (pp. 179-193), de Júlio França, da UERJ; “Machado versus Eça versus Eça com Machado: Algumas problemáticas luzes sobre O Primo Basílio” (pp. 194-206), de Luís Maffei, da UFF; “Dossiê: Machado de Assis e Eça de Queirós na Revista Moderna por Magalhães de Azeredo. Critérios da Transcrição. Sobre Eça de Queirós. Sobre Machado de Assis” (pp. 207-222). A revista finaliza com 3 resenhas (“Lápis mínimo, de Ana Marques Gastão”, por Jorge F. da Silveira, da UFRJ/ CNpq; “Entre dois rios e outras noites, de Ana Luísa Amaral”, por Ida Alves, da UFF/ CNpq; e “Inquietude, de Maria Teresa Horta”, por Marlise Vaz Barido, da USP; as 3 resenhas incluídas nas pp. 223-237).

A revista publica-se no ano do centenário da morte de Machado de Assis e serve mais umha vez para colocar em diálogo os dois vultos mais canononizados de entre os produtores literários do Brasil e Portugal que se dedicaram de maneira preferente à narrativa. O trabalho realizado polos pesquisadores galegos acrescenta o nome de Ernesto Guerra da Cal, que tem em comum o ter estudiado esses dois escritores (como também estudou Camões, Cecília Meireles, Rosalia de Castro, Inês de Castro, Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Castelao, Fialho de Almeida, Aluizio de Azevedo, e outros muitos produtores das três literaturas, na sua ampla produção sobretodo nos anos em que chefiou os departamentos de línguas e literaturas ibéricas nas universidades de Nova Iorque [NYU e CUNY]), com o que se completa umha tríada do maior interesse para alicerçar um melhor relacionamento entre os três povos.

 

 

2. Os estudos portugueses na Galiza

No volume editado pola Universidade do Minho (saído dos prelos em Fevereiro, poucas semanais após que a revista brasileira), organizado polas professoras Ana Grabriela Macedo e Maria Eduarda Keating e com revisão de Anabela Rato, é dedicado um dos capítulos principais à “Mesa-redonda ‘Os Estudos Portugueses nas universidades galegas’”. Inclui três intervençons que, na valorizaçom de Macedo e Keating (p. 15) “além de darem conta da situação do ensino e da investigação em Estudos Portugueses na Galiza, apresentam uma reflexão aprofundada sobre a complexidade das relações entre as duas culturas”.

Essa parte do livro ocupa as páginas 251-287. Inicia-se com o texto de apresentação “Os Estudos Portugueses na Galiza: Breve Nota Introdutória” (pp. 251-252), de Carlos Pazos Justo, docente galego do Centro de Estudos Galegos da Universidade do Minho, um Centro de Estudos Galegos que funciona desde 1997, segundo informa o Professor Pazos Justo, e que comemorou o décimo aniversário há dous anos com umha “bem informada intervenção” de Vítor Manuel de Aguiar e Silva a respeito de “A Política da Língua Portuguesa”, em que salientou a “importância especial” da Galiza para a política da língua portuguesa em Espanha; um depoimento que encorajou os organizadores para programar as três intervençons galegas que na continuaçom se citam.

A primeira, de Burghard Baltrusch, da Universidade de Vigo, intitulada “A Galiza e a Lusofonia. Os Estudos Portugueses na Universidade de Vigo” (pp. 253-268). Utiliza os pontos de vista da crítica pós-colonial e da tradução cultural revisando o conceito de Lusofonia, e defende que (p. 263) “Para a Galiza, a associação à Lusofonia significaria apropriar-se, pela primeira vez, da própria história, para nela transcriar a sua contemporaneidade. Porém, dentro de um panorama globalizado –transcultural e transdiscursivo– com pessoas, ideias e valores em constante migração e miscigenação, não há lugar para essencialismos fundacionais. As miragens míticas da unidade linguística e ortográfica e a do paraíso perdido da unidade cultural precisariam de ser abandonados”. Informa que a Universidade de Vigo (p. 265) “mantém relações internacionais sobretudo com a América e conta com convénios de colaboração com 28 universidades brasileiras e 6 portuguesas”, bem como uns 200 estudantes inscritos em cadeiras relacionadas com os estudos portugueses. O Professor Balstrusch avança igualmente as novas licenciaturas (graus) adaptadas ao processo de Bolonha e que começarám no ano académico 2009/2010, assinalando as disciplinas em que se incluirám conteúdos respeitantes ao intersistema lusófono, nas áreas de “Língua, Literatura e Comunicação: Galego/Espanhol”, “Línguas Estrangeiras” e “Tradução e Interpretação”. Referencia igualmente trabalhos académicos realizados ou em andamento.

O professor Francisco Salinas Portugal, da Universidade da Corunha (UDC), no contributo “Os estudos de Português na Universidade da Corunha” (pp. 271-274) relata as vicissitudes desta área nessa universidade galega (que, como a de Vigo, começou a funcionar em 1989, a partir da separação da de Santiago de Compostela), e frisa o maior desenvolvimento atingido desde o ano académico 1998-1999, o que o leva a afirmar (p. 273): “a presença do português não é menor e posso dizer mesmo que é superior à primitiva licenciatura de Filologia galego-portuguesa. Ora, a presença do português na UDC vai além das diciplinas que são estudadas na Universidade, ou complementam-se com outras actividades e iniciativas”, informando resumidamente de várias delas, salientando a presença de docentes de universidades, escritores e investigadores de Portugal, Brasil e países africanos; bem como umha linha de publicaçons que dizem respeito ao Português (A Revista Galega de Filologia e a Biblioteca-Arquivo de Teatro F. Pillado Mayor), e teses de mestrado e de doutoramento sobre temática portuguesa. O Professor Salinas Portugal reclama um maior apoio de instituiçons como o Instituto Camões para a que qualifica de (p. 274) “história de luzes e de sombras que confiamos que com o tempo se estabilice e possa dar os frutos universitários que todos desejamos”.

O Professor Elias J. Torres Feijó, Coordenador do Grupo de Investigaçom Galabra da Universidade de Santiago de Compostela (USC), no artigo “A investigaçom do grupo Galabra e os Estudos Lusófonos na Universidade de Santiago de Compostela” (pp. 275-287), inicia o seu contributo lembrando como em 1933 foi criado na USC um Instituto de Estudos Portugueses, ao mesmo tempo que um Instituto de Estudos Regionais dedicado à Galiza, com o qual (p. 275) “está, talvez, dada assim, a marca diferenciadora dos estudos universitários na Galiza sobre Galiza e sobre o mundo Lusófono: a consciência de fazer parte do mesmo mundo, de querer percorrer também esse caminho paralelamente”. Torres Feijó informa na continuaçom da actividade do grupo GRAALL (Grupo de Análise de Aspectos Lingüístico-Literários na Lusofonia), fundado no ano 2001, e entre cujos integrantes se encontram os professores doutores José Luís Rodríguez, José António Souto Cabo, Carlos Quiroga e Maria Isabel Morám Cabanas; bem como o também docente Manuel Amor Couto e a brasileira Mónica Aparecida Carvalho de Sant’Anna. Informa igualmente da actividade dos professores doutores José Luís Forneiro e Júlio Diéguez. E dedica o resto do artigo a dar conta da actividade do Grupo Galabra (de Estudo dos Sistemas Culturais Galego, Luso, Africanos de Língua Portuguesa e Brasileiro) e cujas linhas de preferência som (p. 279) “a Sociologia da língua, da literatura e da cultura, as relaçons e contactos culturais, e a perspectiva comparatista delas, a teoria e metodologia de analíse da literatura e da cultura, a fabricaçom de ideias e o turismo e os movimentos sociais do ponto de vista da cultura”. Além dele próprio como coordenador, indigita como membros da direcçom do grupo as professoras Carmen Villarino Pardo, Raquel Bello Váquez, Maria Felisa Rodríguez Prado (da USC) e Roberto López-Iglésias Samartim (docente na UDC). O grupo está integrado por outros docentes e pesquisadores que exercem na Galiza, Portugal e o Brasil, e como “projectos fundamentais” indica os seguintes (pp. 280 e passim): “[Poluliga]/Fisempoga: Fabricaçom e Socializaçom de Ideias num Sistema Emergente durante um período de mudança política: o caso Galego: 1968-1982”, “Ilustraçom: Fabricaçom, promoçom e difusom de repertórios no período ilustrado em Portugal e na Galiza”, “Turismo e Identidade: Estudo das motivaçons culturais de portugueses e brasileiros que viajam a Galiza. Aplicaçom para a promoçom e a melhora do turismo na Galiza” e “Spin-off: Holística. Consultora para a Lusofonia”. Também anuncia (p. 286) a próxima defesa de duas teses de doutoramento por parte de membros do Grupo, umha sobre Ernesto Guerra da Cal e outra sobre a análise dos processos de aculturaçom da emigraçom galega em Minas Gerais, concluindo que (p. 287) “GALABRA trabalha, pois, em investigaçom fundamental e aplicada. […] Entendemos, ao mesmo tempo, que na reforma e peremptória actualizaçom dos planos de estudo actuais, as denominadas Ciências Humanas (e, em parte, as Sociais), devem manter o seu carácter de independência e vocaçom de serviço público, e conjugá-lo com o avanço na qualidade de vida e no conhecimento da sociedade a quem nos devemos”.

A publicaçom inclui também os trabalhos “A transcendentalidade da diferença sexual e do simbólico: interdição dos géneros?”, de Patrícia Porchat, da UNIP/ Universidade de São Paulo (pp. 17-29); “Do gozo inter-dito ao gozo não-dito: lei e diferença sexual em Lacan”, de Cristina Álvares, da Universidade do Minho (pp. 31-38); “A moral da história”, de Vítor Moura, da Universidade do Minho (pp. 39-59); “Censura y pragmática linguística”, de José Portolés Lázaro, da Universidad Autónoma de Madrid (pp. 62-77); “Tempo e claustrofobia”, de José Manuel Mendes (pp. 79-82); “A censura nas bibliotecas”, de Henrique Barreto Nunes, da Biblioteca Pública de Braga (pp. 83-91); “Abertura e restrição: estratégias de selecção no repertório teatral traduzido”, de Christine Zurbach, da Universidade de Évora (pp. 93-102); “As vantagens de ser literatura menor e estrangeira: o género policial em Portugal como género não policiado”, de Maria de Lurdes Morgado Sampaio, da Fac. de Letras da Universidade do Porto (pp. 103-119); “Banda desenhada e censura: o exemplo de Dracula, Vlad?, bah… de Alberto Breccia ou a utilização política do mito de Drácula”, de Marie-Manuelle Silva, da Universidade do Minho (pp. 121-129); “Censura czarista e literatura”, de Nadia Machado, da Universidade do Minho (pp. 131-148); “The faces of Janus: Professional translators and the quest for (in)visibility”, de Fernando Ferreira-Alves, da Universidade do Minho (pp.149-166); ” ‘Where Ignorance is Bliss’. The Folly of Origins in Gray and Hardy”, de Rachel Bowly, da University College London (pp. 167-184); “Censura y libertad de expresión en la democracia moderna”, de Ángel Rivero, da Universidad Autónoma de Madrid (pp. 185-200); “Percursos da Censura em Portugal: Interdições e Entre-Ditos”, de Fernando Machado, da Universidade do Minho (pp. 201-223); “Da censura à auto-censura no Estado Novo”, de Manuel Gama, da Universidade do Minho (pp. 225-232); “O poder da palavra e da censura em Roma”, de Virgínia Soares Pereira, da Universidade do Minho (pp. 233-249); “Sedition, Treason and Caricature in England between 1792 and 1817”, de Joanne Paisana, da Universidade do Minho (pp. 289-301); “Editors and Censors”, de Salomé Osório, da Universidade do Minho (pp. 303-313); “Auto-censura, ditos e interditos: o homem velho no romance saramaguiano”, de Maria Paula Lago, da Escola Secundária D. Maria II (pp. 315-322); “Censura e inter/dito nas Cartas da Guerra de António Lobo Antunes”, de Norberto do Vale Cardoso (pp. 323-332); “Das margens para o centro: algumas reflexões sobre a cultura cabo-verdiana”, de Ellen W. Sapega, da University of Wisconsin-Madison (pp. 333-337); “Censura e marginalização no âmbito de um Pós-colonialismo Português”, de Paulo de Medeiros, da Universiteit Utrecht (pp. 339-345); e “Literaturas Pós-coloniais: Marginalização e/ou Subalternalidade?”, de Manuela Ribeiro Sanches, da Universidade de Lisboa (pp. 347-356).

 

 

3. Conclusom

Resulta do maior interesse a atençom que estas duas publicaçons, do Brasil e de Portugal, dedicam ao seguimento da actualidade da Galiza, e os espaços que disponibilizam para dar acolhimento a contributos galegos.

Vale a pena frisar igualmente o relevo de que, nos dous casos, se incluam trabalhos redigidos segundo o cánone ortográfico defendido pola Associaçom Galega da Língua, que assim mantém a sua vigência como valioso elemento de encontro da Galiza com o intersistema lusófono. O diálogo da Galiza pode ser realizado pois através desta norma autóctona, ou directamente no padrom vigente; de maneira indistinta e com eficácia em ambos os casos, o que multiplica as possibilidades e evidencia umha abertura nos outros povos que partilham a língua comum. Isso bem merece ser aproveitado com as máximas possibilidades para contribuir a um maior desenvolvimento e avanço, na qualidade de vida e no conhecimento, na Galiza do século XXI.

Compostela, Março de 2009.