Contributos de galegos respeitantes ao léxico comum da dita Lusofonia

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J. M. A. Para além da cada vez mais urgente restauraçom da ortografia, com adopçom da que é comum na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), outra prioridade do idioma galego é trabalhar com o léxico, para que se deixem de escuitar frases como “O abuelo foi aier para a Puebla”, ou o abuso de formas como “bueno” (por “bom” ou “bem”) ou “vale” (por “está bem” ou “pronto”), por citar só duas das mais freqüentes. Essa deturpaçom pode emendar-se, pois existem possibilidades e recursos para atingir umha correcçom que facilite umha comunicaçom mais alargada e favoreça a potencialidade internacionalizadora da língua autóctone que, complementada com as possibilidades –já muito bem aproveitadas, certamente– do espanhol, situarám porventura a “naçom de Breogám” numha posiçom de privilégio para que a sua cidadania tenha acesso a mais bens e, portanto, a umha vida melhor.

Está a vingar a ideia de que a língua galega é, com efeito, a mesma que a do Brasil, Portugal, e restantes países da CPLP. Porque a realidade impom-se. E a multiplicidade de contactos em que, sem necessidade de tradutores, pessoas galegas estabelecem comunicaçom fluida com outras do Brasil, Portugal, ou de outras nacionalidades (de países da CPLP, ou nom) que falam português, convencem disso. Escreveu Ramón Piñeiro em 1973, na conhecida resposta a Rodrigues Lapa: “a política a seguir na fixación do galego culto debe orientarse decididamente á consolidación de todo o que hai de común no galego e no portugués. E na incorporación do vocabulario técnico, que o galego ten que levar a cabo intensamente, tamén debemos tender á maior identidade1”. Essas palavras som assumidas como um acerto –e necessidade– por um crescente número de galegos e galegas, que entendem nom deve adiar-se já mais esse processo de política lingüística formulado por Piñeiro há 37 anos.

Dous novos contributos, de autoria galega, enriquecem o léxico comum, e emergem como umha boa oportunidade para atingir esse objectivo. Som trabalhos de equipa, que merecem estar nas bibliotecas e nos centros do ensino ao estudar a língua própia.

1. Dicionário de Espanhol-Português, da Porto Editora.

A Porto Editora substituiu o seu Dicionário de Espanhol-Português, publicado em 1959, ao cuidado de Julio Martínez Almoyna, membro da Real Academia Gallega que dirigia o Instituto Español de Cultura na cidade do Porto. Foi esse, na altura, um bom dicionário, que melhorava os existentes, e que saia ao mercado depois de mais de meio século sem se renovar o último dos editados. Tivo sucesso, reeditou-se e reimprimiu-se muito, mesmo houvo versom brasileira, mas ficou sem actualizar.

Este novo volume2 representa um grande avanço e é proposta completamente nova, mais apropriada para as necessidades de quem utiliza o léxico espanhol e português. Como na ocasiom anterior, um especialista galego está à frente do projecto, Álvaro Iriarte Sanromán, professor da Universidade do Minho.

A primeira diferença do novo dicionário com o seu antecessor é o tamanho. Para além de ter medidas mais compridas, acrescenta 300 páginas (quase um 30% mais). Inclui novos campos lexicais, que respondem a avanços e progressos da ciência e do saber. Mas nom só: mesmo em ámbitos coincidentes, há um melhoramento, e responde com maior fidelidade à realidade da língua. Vejamos um exemplo: é claro que o termo espanhol “leche” se traduz para português como “leite”; e “desnatar” (“tirar a nata”) é verbo de significado comum para ambas as línguas, que também partilham o particípio “desnatado/a”. Do dicionário anterior da Porto Editora pode-se inferir que a traduçom de “leche desnatada” para português seja “leite desnatado”. Mas, como bem se conhece, a traduçom certa é “leite magro”. Dúvidas assim encontram-se bem resoltas no dicionário que dirige Sanromán, que destaca numerosos elementos deste teor.

Muitas locuçons e frases feitas som recolhidas generosamente, resultado “de anos de investigação e de um profundo trabalho lexicográfico, e obedecendo a uma preocupação constante de rigor e modernização”, como assinala o próprio Sanromán no “Guia de utilização” deste magnífico respositório.

Vejamos na prática umha amostra do diferente tratamento do léxico nestas duas obras.

No dicionário de Almoyna, segundo a reimpressom da segunda ediçom realizada em 1977, na primeira coluna da p. 559 encontramos:

 

gallegada, s3. f. galegada, ajuntamento de galegos; galegada, palavra ou acção própria dos Galegos; certa dança galega e respectiva música.

gallego (ga), adj. galego, natural da Galiza. u.t.c.s.; pertencente a este região da Espanha; diz-se do vento noroeste, em Castela, por vir do lado da Galiza; Argent. galego, nome dado aos emigrantes espanhóis; s. m. galego, idioma da Galiza; zool. C. Rica espécie de lagartixa que vive nas margens dos rios e nada com muita rapidez; Cuba galego, ave aquática, semelhante à gaivota.

galleguismo, s. m. galeguice, dito ou acção de galego.

 

Na nova ediçom, na segunda coluna da p. 650, observa-se:

 

gallegada s. f. 1 Galegada, galeguice (acção ou dito próprio do galego). 2 Galegada (POP.) (reunião ou grupo de galegos).

gallego s. m. [língua]; ¿Hablas gallego?: Falas galego? * Seguir una película en gallego: Acompanhar um filme em galego. cf. gallegos.

gallego, ga adj. e s. 1 Galego (da Galiza); Algunos nobles gallegos tuvieron que huir entonces para Portugal: Alguns nobres galegos tiveram então que fugir para Portugal. 2 (AMÉRICA) Galego (qualquer imigrante espanhol). * La vergüenza del gallego: a cereja da noiva, o pedaço da, ou a cerimónia (a última porção de que, por cerimónia, ninguém ousa servir-se); ¡Vale, y va a quedar en el plato la vergüenza del gallego!: Pronto, e vai ficar no prato a cereja da noiva! cf. gallegos.

gallegoportugués s.m. Galego-português [língua]. vd. galaicoportuguês.

gallegoportugués, sa adj. e s. 1 Galego-português, galaico-português (da fase medieval da língua e literatura galega e portuguesa) 2 Galego-português (da Galiza e de Portugal). vd. galaicoportuguês.

gallegos s.m.pl. Galegos n.pr.m.pl. [povo]. Obs.: Em português, os etnónimos escrevem-se com maiúscula inicial: Los gallegos: Os Galegos. Os nomes comuns correspondentes escrevem-se com minúscula inicial: Muchos gallegos: Muitos galegos. cf. gallego.

galleguismo s. m. 1 LINGÜÍSTICA Galeguismo (termo ou construção galega noutra língua). 2 LINGUÍSTICA. Galeguismo (vocábulo ou modismo próprio do galego). 3 Galeguismo [tendência política]; vd. nacionalismo.

 

Nesta minúscula parte da magna obra verifica-se, pois, como o contributo do dicionário coordenado por Sanromán é mais alargado, oferecendo mais informaçom e contemplando maiores possibilidades, entre elas o modelo de pronúncia (por vezes com mais de umha opçom). Há também um discurso mais hodierno, e mais políticamente correcto. Além disso, no verbete gallegos resulta de interesse para o utente a observaçom a respeito do uso de maiúsculas e minúsculas. E frente à ausência de exemplificaçons na versom anterior, nesta nova ediçom incluem-se várias possibilidades, que resultam de ajuda muito em especial para quem se inicia ou quer aperfeiçoar o conhecimento de qualquer das duas línguas, ou as duas.

Esta perspectiva é pois do maior interesse para as pessoas galegas, que sendo utilizadoras freqüentes deste dicionário podem(os) melhorar a competência na própria língua, advertir melhor os falsos amigos e homónimos com significados diferentes entre espanhol e português, e conseguir elementos para banir as contaminaçons desnecessárias no uso do galego, incorporando termos próprios e que o dotem de umha capacidade comunicacional muito superior, conformando a língua internacional e ecuménica que com certeza é. Resulta assim este novo Dicionário de Espanhol-Português um instrumento de enorme valor para normalizar o galego.

2. Léxico da Galiza para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, da Academia Galega da Língua Portuguesa (AGLP).

Nas últimas décadas foi umha preocupaçom de muitas pessoas galegas, e de alguns grupos, o oferecer contributos do léxico autóctone para incorporar nos vocabulários e dicionários da língua portuguesa. Dicionários editados em Portugal e no Brasil continham, sem dúvida, o léxico galego, mas com ausência de particularismos que se julgavam de interesse e que, além de enriquecer esses repositórios, fariam-nos de maior utilidade para os utentes galegos. Algúns recentes, como os de Antônio Houaiss ou o da Academia das Ciências de Lisboa, prosperárom sem incluir o anelado léxico galego. E isso que por parte portuguesa e brasileira existia à partida a melhor disposiçom para incorporar os galeguismos, como se evidenciou nas reunions do Acordo Ortográfico de 1990, quando os representantes galegos colocárom como exemplos possíveis os já famosos termos “lôstrego” e “brêtema”, que fôrom bem recebidos polos especialistas dos outros países4. Essa magnífica receptividade fazia que um certo sentimento de mal-estar, desassossego e decepçom se repetisse umha e outra vez em boa parte dessas pessoas, e grupos, com interesse na empresa. Sempre se pensava na próxima ocasiom, e as maiores esperanças colocavam-se no instante em que se materializasse o Acordo Ortográfico para a Língua Portuguesa, tras as expectativas geradas após as reunions do Rio de Janeiro de 1986, e depois de Lisboa de 1990.

O Acordo Ortográfico começou a materializar-se em 2009. E em Abril do mesmo ano, neste país galego onde muitas das cousas por vir costumam sempre chegar tarde, também se fizo realidade a almejadíssima proposta lexical para a dita Lusofonia5. Esse trabalho está assinado pola Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Academia Galega da Língua Portuguesa, integrada por Isaac Alonso Estraviz, Ângelo Brea Hernández, Carlos Durão Rodrigues, António Gil Hernández, Luís Gonçales Blasco, Álvaro Iriarte Sanromán, Higino Martins Esteves, José Martinho Montero Santalha e Fernando Vasques Corredoira, nomes bem conhecidos no ámbito Reintegracionista.

Nas páginas numeradas de 4 a 41 deste pequeno mas valioso volume encontra-se a tam esperada proposta galega. Apresenta os termos a duas colunas em cada página: umha para “Vocabulário” e outra para “Dicionário”. Indica as formas e a funçom gramatical, e acrescenta na de “Dicionário” alguns significados. Todas as palavras de “Vocabulário” estám inseridas em “Dicionário”, mas nesta coluna incluem-se mais vocábulos. Assim, v. gr., na página 22 encontramos:

 

VOCABULÁRIO

DICIONÁRIO

LETRA F

LETRA F

fachenda, s. f.

fachenda, s. f. “presunção”.

 

fachico s. m. dim. de facho. Var. fachuco.

 

fachuco s. m. Vid. fachico.

 

faiado s. m. “desvão”

faladoiro s. m.

faladoiro s. m. “lugar onde se fala”

 

falangueiro s. m., adj. “afável, falador”.

faldriqueira s. f.

faldriqueira s. f. “algibeira, bolso”

fame s. f.

fame s. f. fome.

famento adj.

famento adj. faminto.

 

fanequeira s. f. “sandália de plástico”

farruco, –a s. e adj.

farruco s., adj. “valente; fanfarrão”.

 

farum s. m. faro.

fento s. m.

fento s. m. feto.

 

Juntam-se uns 899 termos, diferenciando por volta de 140 formas para a letra A, 58 para B, 145 para C, 23 para D, 80 para E, 34 para F, 19 para G, 4 para H, 7 para I, 13 para J, 50 para L, 48 para M, 14 para N, 15 para O, 72 para P, 5 para Q, 43 para R, 19 para S, 32 para T, 2 para U, 39 para V, 21 para X, 0 para Y, e 16 para Z.

Na página inicial afirmam os autores: “Dadas as especiais circunstâncias sociais em que a língua se vem desenvolvendo na Galiza, este contributo não pode deixar de ser provisório; não todos os vocábulos aqui apresentados possuem a mesma legitimidade; no entanto, são vocábulos que, por serem de uso corrente na atualidade quer na fala habitual quer na escrita literária, podem ser considerados característicos da variante nortenha do português europeu e, portanto, com direito a constarem no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa e nos dicionários gerais”.

Estes objectivos parece que começam a materializar-se, e isso era o importante6. Como a própria Comissão de Lexicologia e Lexicografia da AGLP admite, não se trata este documento de um dogma de fé definitivo e inamovível: antes polo contrário, é um ponto de partida que, desde já, se converte em referencial para discutir sobre ele, melhorar, emendar, rectificar, incluir, acrescentar, modificar, e aquilo que seja conveniente.

Muitas vezes se tem dito que, quando se dá um acordo, mais importante que o acordado é o facto do acordo em si. O mesmo se pode aplicar a este documento: sem sonegar o seu valor, há de se reconhecer o relevo de ser a primeira proposta para atingir um objectivo anelado de longa data.

Parabéns, pois, para quem decidírom dar o passo para a frente, que se fizo esperar muitos anos. Mas que, como outras muitas cousas para a comunidade galega, chegou, e esta vez num tempo apropriado.

As apenas 42 páginas deste pequeno volume tenhem, pois, um muito positivo significado. Agora só falta trabalhar mais, e com as máximas boas vontades, para aperfeiçoar todo o que seja necessário e se veja preciso nesta proposta, que é todo um acerto e já enriquece a cultura galega e a língua comum dita lusófona.

Compostela, Fevereiro de 2010.

Notas:

1 In Piñeiro, Ramón, “Carta a don Manuel Rodrigues Lapa”, Grial, 42 (Outubro-Dezembro, 1973), p. 402.

2 Sanromán, Álvaro Iriarte, et alii, (2009), Dicionário de Espanhol-Português, Porto, Porto Editora, 1.358 páginas. A equipa que coordena está integrada por Anabela Leal de Barros, António Bárbolo Alves, Isaura das Dores Guedes Vilar Mota, Santiago Real Peña e a colaboraçom de Alexandra Iriarte Sanromán.

3 Nos dous dicionários, o significado destas abreviaturas som os habituais nestes repositórios: s-substantivo, m-masculino: f-feminino; u.t.c.s.-Utilize-se como substantivo; e assim por diante.

4 Também, desde a década de 60, especialistas luso-brasileiros, e de outros países, destacárom como um acerto os glossários para leitores de outras áreas da lusofonia que incorporou Ernesto Guerra da Cal nos poemários Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo, nas ediçons iniciais de Galaxia nos anos 1959 e 1963. Na reediçom realizada em 1991, a Associaçom Galega da Língua (AGAL) juntou no final ambos os glossários num mesmo vocabulário com mais de cem termos, sendo de novo salientados, v. gr. num trabalho do eminente lingüista brasileiro Gladstone Chaves de Melo, apresentado no IV Congresso Internacional da Língua Galego-Portuguesa na Galiza organizado pola AGAL em 1993, e publicado nas Actas editadas em 1996, nas pp. 233-240. No entanto, aquele vocabulário é restrito, pois só se cinge ao léxico dos dous poemários, por mais que mereça ser tomado de consideraçom. Também vale a pena ter presente para próximos contributos deste teor o trabalho de Guerra da Cal (quem, por certo, presidia à Comissão Galega para o Acordo Ortográfico) incluído nessa reediçom dos dous poemários realizada pola AGAL, polos valiosos esclarecimentos que oferece a respeito das escolhas lexicais.

5 Alonso Estraviz, Isaac, et alii, (Abril de 2009), Léxico da Galiza para ser integrado no Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, da Academia Galega da Língua Portuguesa, Santiago de Compostela, Academia Galega da Língua Portuguesa, 42 páginas.

6 De facto, a própria AGLP informou que em 14 de Abril de 2009 apresentou este documento numa sessom da Academia das Ciências de Lisboa; e com posterioridade salientou que o académico português Malaca Casteleiro já aproveitou essa proposta e a incorporou no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, publicado pola Porto Editora, e foi apresentado polo autor em Santiago de Compostela aos 5 de Outubro de 2009. Outros projectos, em Portugal e no Brasil, tinham anunciado essa mesma intençom, segundo frisou a AGLP.