Confundir fala e escrita

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Por José Paz Rodrigues

Nom podia imaginar-me que o meu ex-aluno de magistério Carlos Caneiro (de Verim, ao lado de Chaves) escrevera num diário corunhês um artigo tam duro e injusto como irreflexivo, com tam pouco equilíbrio e harmonia.

Mestre e escritor que muito admiro e aprecio, e que sempre leio, embora escreva por vezes em castelhano, idioma também lindo e importante. Considero Caneiro como um dos nossos melhores escritores. Também é um grande orador e um grande poeta, com muito futuro. Nas passadas Letras Galegas do mês de Maio, comprei, assinados por ele, os seus últimos romances, dos quais muito gostei.

No entanto, nom podia esperar palavras tam tremendas e tam equivocadas como as suas do artigo que comentamos. Palavras que lembram as de aquele parlamentário que no ano 1982 solicitou que fôssemos fuzilados os lusistas. Naturalmente isto nom foi recolhido em acta. Em pleno século XXI as palavras de Caneiro solicitam o nosso desterro da Galiza. Para o mestre Caneiro, os lusistas continuamos a ter cornos, rabo, deitamos fogo pola boca e comemos os nenos crus.

O seu discurso nom me encaixa nada na sua pessoa que sempre considerei de bem e com bondade. Excepto se fala por boca de outros. Porque ele nom estivo no acto de que fala. Eu sim esteve e a muita honra. É mentira muito do que di, porque só fala de ouvidas. Entre outras cousas ficou muito claro para todos que o nosso galego tem que manter sempre em pé o seu sotaque e acento próprios. E o seu rico léxico, mais rico que o do próprio português. Pois mantemos vivas muitas palavras que, com tanta normativizaçom, o português foi perdendo.

Caneiro é também muito injusto com os representantes da Junta no acto que comentamos. Nom só injusto, senom insultante. Por primeira vez, desde há muitos anos, sentim-me eu orgulhoso de ter uns políticos tam dignos como os presentes no acto de que falamos. O discurso do Secretário Geral de Relaçons Institucionais, Pérez-Lema, foi realmente magistral. Tam magnífico foi, que os mais de 150 presentes postos em pé, aplaudiram durante cinco minutos seguidos.

A mensagem do vice-presidente Quintana revela, por se tínhamos alguma dúvida, que é uma pessoa inteligente. E digo-o eu, que nom som precisamente, desde há muito tempo, proclive ao seu grupo político. Por sinal, ao nosso lado estava o parlamentário Aymerich. Aproveitamos para dar-lhe os nossos parabéns mais sinceros pola sua dignidade, ao encontrar-se ali. Sabemos que muitos dos seus companheiros de grupo comungam mais com os isolacionistas ou castelhanistas do idioma.

Connosco estiveram personalidades muito importantes das academias de Ciências de Lisboa, de Letras de Rio de Janeiro e de Moçambique. E o professor Carlos Reis de Coimbra, da Universidade Aberta portuguesa. Também Elias Torres, vice-reitor da de Compostela. O professor Artur Anselmo leu-nos um emocionante e formosíssimo artigo de Agostinho da Silva, sobre a nossa Galiza, publicado em Outubro de 1960 na brasileira Revista da Bahia. Quando tiver uma cópia do mesmo, mandarei uma ao meu amigo Caneiro.

Na distáncia estiveram também connosco Biqueira, Vilar Ponte, Castelao, Risco, Dieste, Blanco Torres, Bouça-Brei, Guerra da Cal, Murguia, Fontenla Leal e, especialmente, Carvalho Calero.

Fisicamente, nem Caneiro nem Alonso Montero, tam digno durante o franquismo e tam indigno depois, nos acompanharam. Pois ambos cometem o erro mais grande que se possa cometer: confundir fala com escrita. Pode e deve haver (e há) falares diferentes de uma mesma língua, mas é conveniente uma escrita comum. Como, por exemplo, acontece com o castelhano, e que tam bem lhe vai.

A pesar das discrepáncias lingüísticas, a nossa amizade, pola nossa parte, Caneiro sempre a terá.


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense