“Se a tua origem é galega daí deves partir para qualquer destino que livremente escolheres” (Jenaro Marinas, Caderno de Notas, p. 55).
J. M. A. – Ao mercado do livro galego chegárom entre o ano passado e a primeira metade de 2009 cinco muito interessantes novidades que contribuem para um melhor conhecimento de Jenaro Marinhas del Valle (A Corunha, 25 de Novembro de 1908-23 de Dezembro de 1999), um dos vultos importantes da Literatura, a Política e a Empresa na Galiza do século XX. Som volumes que oferecem poesias nunca antes publicadas, redigidas em diferentes momentos da sua vida; e textos testemunhais, igualmente inéditos, centrados de preferência nos anos 1983 e 1984, um biénio de relevo para a luita lingüística na Galiza, e nomeadamente sobre as opçons ortográficas. Além disso, reeditam-se narrativas, teatro e estudos literários que tinha já editado em vida através da Associaçom Galega da Língua (AGAL), da qual foi Membro de Honra e um muito activo agente. E dam-se a lume estudos sobre a sua produçom, apresentados este mesmo ano na Corunha, na seqüência do Congresso sobre Marinhas del Valle organizado pola AGAL para comemorar o centenário do seu nascimento.
Trata-se de cinco livros de valor para mergulhar em quem foi umha figura muito singular da Galiza na centúria passada; a única que, após duas décadas como membro da Real Academia Galega renunciou a esta instituiçom para assumir abertamente a defesa do Galego-Português. Fizo público esse seu posicionamento, e chegou a presidir à Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo Ortográfico da Lusofonia, à qual pertenceu desde a sua constituição, sendo também um dos membros mais significados da mesma e pioneiro em assinar textos segundo os Acordos Ortográficos de 1986 e 1990.
É preciso destacar a intervençom de Pablo González Mariñas, advogado e político, sobrinho de Jenaro Marinhas, a quem se deve que a maioria destes contibutos se materializassem. Ele implicou-se muito activamente nestes últimos anos para que se lhe outorgue um maior reconhecimento a Jenaro Marinhas, como com certeza merece.
1.-Caderno de Notas, testemunho de um tempo fulcral para Marinhas e para a língua da Galiza
Neste volume1 incluem-se textos testemunhais de Jenaro Marinhas, a maior parte datados em 1983 e 1984, anos centrais para a fortuna da língua da Galiza: nesse tempo começou a impor-se a normativa ortográfica e morfológica da Real Academia Galega e do Instituto da Lingua Galega (RAG-ILG), opçom vencedora ao ser escolhida polas instituiçons do Governo da “Xunta de Galicia”, após as luitas em que o Galego-Português tivo a sua oportunidade na normativa elaborada por umha Comissom que presidiu Ricardo Carvalho Calero, e que vingou entre 1979 e 19832. É de relevo o testemunho de Jenaro Marinhas sobre a questom: ele era membro da RAG e nom só nom participou na reuniom de Julho de 1982, em que se aprovou a normativa promocionada de parceria com o ILG, por discrepáncia com a mesma; mas desde esse momento começou a afastar-se activamente da instituiçom, até se desligar cada vez mais dela, e renunciar ao seu posto na mesma em 1990, após a morte de Ricardo Carvalho Calero. Entre as opinions sobre o assunto destaquemos, v. gr., a da página 35 do Caderno de Notas, onde afirma Marinhas: “estou mais disposto a admitir a castelhanizaçom do homem galego que a castelhanizaçom do idioma, que é obra sua. O idioma deve ser respeitado tanto na sua expressom formal como na sensibilidade específica que lhe imprimiu o povo que o criou e del se serve. Se por inoráncia e desuso escrito o deturpou e barbarizou, procede um labor didáctico sobre issas camadas populares para recuperar a perdida nobreza da linguagem pero nunca dar por bom o envilecimento consumado por aquela inoráncia”.
A língua, o teatro, a produçom literária, a situaçom da Galiza, as reflexons filosóficas respeitantes à sua propria vida e à sua posiçom como pessoa, som os temas dominantes neste volume, redigido com um estilo muito directo e de fácil leitura, em que se misturam muito inteligentemente os diferentes assuntos segundo a preocupaçom de maior urgência. Deparamos com valorizaçons de relevo nom só a respeito de vultos da Literatura, a Cultura e a Política da Galiza, mas também de Portugal e do exterior, mesmo com traduçons, entre as quais salienta a de poemas de Langston Hughes para Galego-Português. Marinhas fala do trabalho literário, da história da Galiza, de questons como a saudade, a pátria, o sonho, Deus, a democracia, galeguidade/universalidade, a morte…
Som escritos que levam o leitor a partilhar a reflexom com ele, concordando ou discordando mas dificilmente sendo indiferente. Textos, enfim, que muitas vezes despertam umha solidariedade, um compartilhar de sensibilidades e simpatias com este homem que, em 12 de Abril de 1984 escreve desde o que afirma ser (p. 65) o seu “exílio” ou “morte prematura” e se declara “aprendiz de morto”; ou que em 5 de Outubro desse mesmo ano nos oferece este depoimento (p. 87): “Quando desde a minha atalaia septuagenária pretendo otear o meu passo polo mundo apenas consigo lobrigar-me, porque tanto me inventei e alheei de mim, tanto abandonei a tarefa de viver pola tarefa de sonhar que dificilmente podo distinguir o Eu próprio do Eu inventado. Bule ante mim um bailado de disfarces no que nom logro encontrar-me, reconhecer-me. Se algum outro intentara escrever a minha biografia escasa ajuda poderia prestar-lhe e nom seria ajuda de muito fiar”.
Encontram-se também neste volume escritos sem datar, alguns com certeza posteriores a esses centrais anos de 1983 e 1984. Assim, nas pp. 140-142 inclui-se um, redigido para umha intervençom pública perante gente jovem do nacionalismo galego, onde Marinhas relata que contava “oito anos” de idade quando assistiu, em 1916, à fundaçom na Corunha das Irmandades da Fala “e desde entom levo oitenta anos percorrendo veredas íngremes e pedregosas do nacionalismo galego. Tam longa andadura proporciona-me a experiência necessária para vos alertar e dizervos agora, no intre do noviciado, que nom esperedes umha aventura fácil, nom é isse caminho para conseguir regalias de nengumha especie, é, polo contrário, caminho de sacrifizos, disabores, renunciamentos… de se dar em tudo sem outra recompensa que a do cumprimento de um dever vital. […] Descuidai todo passado e inventai umha Galiza nova à vossa própria imagem seguros de que a Galiza que inventedes ha de (ser) aquela Galiza verdadeira que sempre pudo ser e ainda nom foi”.
Num muito interessante e recomendável “Prólogo”, Pablo González Mariñas, Alexandrina Fernández Otero e Lino Braxe afirmam a respeito deste produto de Marinhas del Valle (pp. 10-11): “De termos que buscar documentos semelhantes, cumpriria falar de Teixeira de Pascoaes (O bailado), Canetti (Notas e O suplício das moscas), Renard (Diario, 1887-1910) ou os Cadernos de Albert Camus, sem esquecer o Diário de Torga e algunhas reflexións de Augusto Strindberg. A mágoa é estarmos ante o único Caderno que sobreviveu á vocación autodestrutiva do autor, á permanente ameaza de rachar a propia obra nun frustrante exercicio de ‘creación-negación’. Isto causa fondo desacougo, porque de se conservarem íntegros ditos Cadernos, estaríamos sem dúvida ante un dos documentos máis sobranceiros da produción escrita galega do século pasado, non só literaria e de concepción dramática, senón tamén histórica, social e de pensamento”. Após investigar no Espólio de Marinhas del Valle afirmam que começou a redigir cadernos de notas, deste teor, em 1936, e que destruiu todos os restantes. Frisa-se igualmente no “Prólogo”: (p. 17) “Este Caderno é unha mostra concluinte desta inmersión vital e sentimental, que comeza pola lingua, xa que para el o portugués e o galego están plena e felizmente confundidos, polo que –di— nos resta apenas manter e privilexiar esa unión: a ‘lusofobia’ non é senón unha demostración de inmaturidade galeguista”.
Merecem destaque igualmente do trabalho de Mariñas, Fernández Otero e Braxe o acerto das 116 notas que acompanham o Caderno de Notas, que evidenciam especializaçom em Jenaro Marinhas del Valle, a quem levam dedicados muitos anos de estudo; e igualmente o acerto do “Rexistro onomástico” final, em que J. V. Viqueira, Valle-Inclán, Shakespeare, Teixeira de Pascoaes, José de Anchieta, Langston Hughes, Carvalho Calero, Castelao, Pío Baroja e Tettamancy som os que tenhem mais citaçons, e que numha vista de olhos rápida, permite fazer-se umha ideia do enorme interesse das leituras e contactos do autor de A vida escura.
2.-Amarga memoria, poesia inédita e dados biográficos valiosos
É este3 o mais breve dos cinco volumes em número de páginas, mas nom por isso o menos valioso, e nele divulgam-se poesias inéditas de Jenaro Marinhas, além de dados para um melhor conhecimento da sua biografia, parte deles igualmente inéditos.
A professora Aurora Marco, da Universidade de Santiago de Compostela, foi a primeira em estudar e tentar fixar o corpus da produçom de poesia de Jenaro Marinhas, num muito acertado trabalho de crítica literária4 que alertou os nom avisados do interesse desta parte da produçom de Marinhas, menos conhecida que a teatral, a narrativa ou a ensaística. Para aquele estudo de Aurora Marco, Jenaro Marinhas contribuiu fazendo-lhe chegar alguns textos inéditos, que ela investigou e referenciou, mas nom todos os que tinha, e este volume acrescenta alguns mais.
No “Prólogo”, Lino Braxe, Pablo Gonzalez Mariñas e Alexandrina Fernández Otero referem-se a estes trabalhos como (p. 9) “pedazos avulsos de momentos dramáticos da súa vida, cunha certa unidade de sentimento, por máis que sexa distinta a contextura dos afectos coutados que se evocan. […] Son recordos ferintes, de amarga memoria, que ao poeta seguían a lle punxir na alma”.
Os 9 poemas que se oferecem estám introduzidos por textos breves, mas do maior interesse, que informam do relacionamento de Marinhas com as pessoas a que dedica esses poemas e que oferecem dados biográficos importantes, por vezes desconhecidos. Som essas pessoas Pedro Galán Calvete (pp. 13-17), companheiro de Marinhas na “Mozedade Galeguista” da Corunha na década de 30, fuzilado polo Exército rebelde nos inícios da Guerra de Espanha de 1936, a quem se dedicam dous sonetos; o político e economista galeguista, também fuzilado, Alexandre Bóveda (pp. 18-19); o escritor e amizade pessoal Gonzalo López Abente (pp. 20-21); “Um amigo” (pp. 22-23), de quem se nom revela o nome e que “deixou o mundo por própria vontade”; Álvaro Cornide Ferrant (pp. 24-25), companheiro de interesses literários na Corunha, com produçom em espanhol a que faz referência o soneto que lhe dedica Marinhas; Emilio Pita (pp. 26-29), colega de Marinhas na juventude e mediador durante o período da ditadura franquista, em que favoreceu que publicasse diversos trabalhos em revistas de Buenos Aires, e a quem dedica duas composiçons; Rafael Dieste (pp. 30-31), de quem se recupera o poema que lhe tinha dedicado com ensejo da morte, publicado no seu dia, embora agora com nova versom; e finalmente o seu pai, Jenaro Mariñas González (pp. 32-34), umha figura cuja produçom literária galega, publicada e inédita, é merecedora de um maior conhecimento e fortuna, que morreu quando Marinhas era muito novo; e a sua mae, Consuelo del Valle Caso (pp. 35-36), com quem ele conviveu até que a perdeu por causa da morte.
Encontramo-nos aqui com textos de grande dor, de protesto, de homenagem, de reflexom sobre a vida, de amizade, de lembrança, de ternura também, em que a morte exerce de nexo comum. Umhas composiçons em que Jenaro Marinhas evidencia muito bom conhecimento da poesia e dos seus recursos. Sirva de exemplo esta primeira estrofe do poema que dedica à morte da sua mae (p. 36):
Que longa tarde foi aquela tarde,
que longa espera foi aquela espera,
que dura cuita aquela cuita era
que outra tal nom espero que me aguarde.
Amarga memoria inclui ainda três textos a maiores, que os editores julgárom de pertinéncia juntar, ao valorizarem que fôrom (p. 37) dous deles “escritos durante a década dos anos cuarenta” e que espelham o mesmo mundo dos poemas: “A promessa” (pp. 39-45), narrativa incluída no volume A Vida Escura; e o texto teatral O Redentor5 (pp. 46-56) umha das peças de “teatro inerte” que também está na Obra Dramática Completa6 de Marinhas publicada em 2006 igualmente por Espiral Maior. Finalmente publica-se um trecho do Caderno de Notas, que se encontra nas páginas 62 e 63 desse volume, e que valorizam de testemunho “onde o autor volta a reviver as consecuencias daquel universo represivo que foi o franquismo”; pois esse tempo do franquismo está muito presente e resulta central neste produto.
Numha “Coda dos editores” final assinala-se (p. 57): “o feito de reunir estes anacos de arte co fondo común da dignidade e fidelidade à causa do galeguismo e à república, outorga ao libro a componenda de homenaxe a unha xeración que salientou pola defensa dos valores democráticos, da intelixencia, da razón e da sensibilidade”.
3.-Conclusom
Em definitivo, dous volumes maravilhosos, cuja leitura é muito recomendável, sem qualquer reserva, magnificamente editados e de grande valor, nom só para conhecer melhor a aliciante figura de Jenaro Marinhas (para isso resultam imprescindíveis), mas também para entender com mais elementos de juízo a Galiza do século XX, através da privilegiada testemunha de quem foi protagonista directo de muitos episódios fulcrais desse tempo que lhe correspondeu viver.
Compostela, 17 de Agosto de 2009.
Notas:
1 Marinhas del Valle, Jenaro, (2008), Caderno de Notas, A Nosa Terra (col. Prensa & Criación, nº 20), 175 páginas. Prólogo, ediçom e notas de Pablo González Mariñas, Alexandrina Fernández Otero e Lino Braxe.
2 Para conhecer nos seus justos termos o processo de elaboraçom desta proposta para a estandarizaçom do idioma galego, e que foi assumida polo Governo da “Xunta de Galicia” no tempo da Pré-Autonomia, nom se deve deixar de consultar o muito breve, mas imprescindível testemunho do próprio Carvalho Calero, intitulado precisamente “Para umha história da ortografia galega. A ponência de 1979”, publicado no nº 2 da revista Agália, nas pp. 223-233.
3 Marinhas del Valle, Jenaro, (2008), Amarga Memoria, A Corunha, Espiral Maior, 63 páginas; ediçom, prólogo de notas de Lino Braxe, Pablo González Mariñas e Alexandrina Fernández Otero.
4 Marco, Aurora, (1992), “Marinhas del Valle, poeta”, Agália, nº 32, pp. 487-504. Um novo trabalho, com mais dados, desta mesma professora sobre o assunto é incluído nas Actas do Congresso Jenaro Marinhas del Valle, editadas este ano pola AGAL.
5 Numha nota de rodapé os editores informam (p. 46) ser este texto “a versión orixinal do autor, polo que pode considerarse unha peza até o momento inédita”.
6 Marinhas del Valle, Jenaro, (2006), Obra Dramática Completa, A Corunha, Espiral Maior, 515 páginas, com ediçom de Alexandrina Fernández Otero e Lino Braxe, e “Prólogo” de Pablo González Mariñas. Este magnífico (polo conteúdo e pola muito bela ediçom) volume inclui 31 textos escritos para teatro, 6 deles de “teatro inerte” e outros cinco inéditos, e um total de oito de publicaçom póstuma.
