J. M. A. – Nos inícios do Verao saiu dos prelos este volume1 de Actas, que inclui trabalhos apresentados os dias 26, 27 e 28 de Fevereiro deste ano na Corunha, no congresso que a Associaçom Galega da Língua (AGAL) organizou para comemorar o centenário do nascimento de Jenaro Marinhas del Valle. Se nos quatro volumes comentados nas duas leituras anteriores se recolhiam inéditos e/ou reediçons de produtos de Marinhas, neste ele é objecto de estudo por parte de produtores de diferentes ámbitos, que focam diversos aspectos da sua trajectória e analisam a sua produçom nos campos literário, dos estudos literários, jornalístico, do teatro, ou o económico. Estám representadas nestas Actas as três universidades galegas, o que é um reconhecimento do interesse existente na pesquisa académica sobre quem é vulto das Letras Galegas do século XX.
Este livro principia com um texto de “Apresentaçom” (pp. 9-10) de Alexandre Banhos, na altura presidente da AGAL, quem esclarece brevemente a finalidade e as realizaçons do Congresso e salienta a “diversidade de perspectivas, muito sábias e enriquecedoras” que se oferecêrom nas sessons.
A primeira das comunicaçons é a intitulada “O meu tio”, de Pablo González Mariñas (pp.11-30). Este político, e professor da Universidade da Corunha na área do Direito, neste belo trabalho revela aspectos desconhecidos, quer da biografia quer da produçom poética do homenageado, e contribui para divulgar um aspecto certamente central da vida de seu tio: as viagens que realizou durante muitos anos por Europa2, como férias de Verao, por períodos de um mês ou mais. A primeira destas composiçons está datada em Hendaya, na década de 50 e trata-se de um soneto que começa destarte (pp. 22-23):
Lá fica Espanha, tras do Pirineu
lá deixo a incomprensom, o fanatismo,
a miseria, opressom, militarismo,
que nela acham albergo a juicio meu.
Vamos agora baixo o amplo ceu
Da culta França do enciclopedismo
Que dou a guilhotina o absolutismo
E acesa leva a liberdade arreo.
[…]
Outros trabalhos poéticos estám enviados desde Dinamarca, Alemanha, Hungria, ou Portugal (Porto e Coimbra), quatro dos países que visitou. Também inclui outros poemas que emergírom em Marinhas após o contacto com outros produtores galegos, v. gr. com Sebastián Martínez-Risco, a quem responde em maneira de verso após ter recebido a reprovaçom deste académico por nom publicar Marinhas a sua poesia.
É valioso este trabalho de Pablo González Mariñas por referir também o relacionamento de Marinhas com Ánxel Casal, Vítor Casas, Castelao, Otero Pedrayo e outras pessoas, privilegiando os vultos do Galeguismo político e cultural; e oferecer dados respeitantes à produçom literária do homenageado. Muita informaçom de proveito, pois, em tam breve trabalho.
Na continuaçom inclui-se “Aproximaçom a Jenaro Marinhas del Valle (1908-1999), o homem de empresa e das finanças que acreditou nas Letras Galegas” (pp. 31-92), de Joel R. Gômez, do Grupo de Investigaçom Galabra da Universidade de Santiago de Compostela. O primeiro que surpreende neste trabalho é o próprio título, pois essa feiçom de Marinhas como “homem de empresa e das finanças” resulta umha novidade, e oferece dados a respeito de diversas empresas em que se envolveu (dos ámbitos da indústria, do comércio, da cultura e do jornalismo), entre elas no Banco de La Coruña. Nelas exerceu altas responsabilidades, mesmo no próprio Conselho da Administraçom em certos casos. É esta umha imagem que bate com a mais canonizada até agora de Marinhas e que abre novas perspectivas para o seu estudo. Faz-se um percurso biográfico, nom exaustivo3, privilegiando o relacionamento com diferentes grupos e diferenciando os anos do Pré-Guerra de Espanha de 1936, o franquismo e a transiçom, e o seu relacionamento com o Reintegracionismo. Conclui com a que talvez seja a Bibliografia4 mais comprida de que se dispom sobre Marinhas, que ocupa as páginas 77 a 92. Um trabalho, no entanto, que bem pode valer como guia para completar e elaborar umha biografia do autor de Ramo Cativo.
Henrique Rabuñal escreve “Marinhas del Valle, Leal e Erguido” (pp. 93-102), um trabalho em que se centra nas repercussons do seu relacionamento com Marinhas e oferece também valiosas informaçons de contributos próprios e de outras pessoas que estudárom este autor.
José-Maria Monterroso Devesa, em “Jenaro Marinhas del Valle: Modéstia, Elegáncia, Coerência, Lealdade…” (pp. 103-122) oferece, por um lado, a sua valorizaçom pessoal de Marinhas, com quem tivo estreito relacionamento na Agrupaçom Cultural O Facho e na Associaçom Galega da Língua, concluindo entre as principais características dele a (pp. 106) “coerência”, “valentia” e o facto de ter actuado “exemplarmente”. Na continuaçom oferece um trabalho, intitulado “A Corunha: Actor Destacado e Determinante no Fazer Galeguista e na Construçom dum Projecto Nacional e Cultural Galego” (da página 106 ao final), onde se centra no Pré-Ressurgimento (1808-1853), no Ressurgimento (1853-1907) e no Após-Ressurgimento (1907-1936), e conclui referindo-se a “O Fim dum Sonho” por causa da Guerra de Espanha de 1936. Trabalho de erudiçom para ler com atençom e para compreender melhor a história dessa cidade, onde Marinhas passou a sua vida.
António Gil Hernandez, em “As minhas conversas com Dom Jenaro. Breves Reflexões” (pp. 123-124) dá conta dos principais assuntos focados nesse diálogo, respeitantes ao nacionalismo e ao idioma.
Aurora Marco, professora da Universidade de Santiago de Compostela, em “Marinhas del Valle Poeta. Vida, Sonho, Realidade” (pp. 125-144) contribui com o mais completo estudo que se tem realizado dessa parte da produçom de Marinhas, a quem se refere como (p. 126 e passim) “poeta vocacional”. Levanta o corpus que ela conseguiu reunir, privilegiadamente, pois parte das poesias fôrom enviadas por Marinhas a esta professora para um estudo que realizou em vida dele e publicou em 1992; analisa o ideário do autor sobre a criaçom literária, bem como a temática e estilo, onde ressalta o seu labor como (p. 131) “poeta vangardista” no Pré-Guerra. Estuda também a presença da poesia no seu teatro, e conclui reivindicando atençom para o Marinhas del Valle poeta, polo valioso destes trabalhos, como já advertírom Luís Seoane, Díaz Pardo, Marino Dónega ou Emilio Pita.
Maria Manuela Ribeira Cascudo, em “Magia e Realismo nos Contos de A Vida Escura” (pp. 145-177) faz um demorado estudo deste livro de narrativa, editado em 1987 (e reeditado neste ano 2009) pola AGAL. Estuda a concepçom que tinha Marinhas do conto, a temática dos incluídos neste volume, colocando-os em diálogo com produtos de outros escritores galegos e de literaturas do exterior. Valoriza esta estudiosa (p. 151): “Nesta obra, podemos apreçar ao longo dos relatos a presença do centro de transmissom oral arraigado na tradiçom popular galego-portuguesa assim como motivos literários ligados aos contos populares de carácter universal”. Refere-se a assuntos como a emigraçom ou a repressom franquista, presentes na temática; estuda a técnica narrativa, a mulher e outras questões, com predomínio de metodologia muito textocentrista, para concluir (p. 177): “Nom cabe dúvida que o autor era um bom conhecedor da literatura europeia e também da tradiçom literária galego-portuguesa” frisando que Marinhas consegue “magistralmente” nestes relatos umha “dimensom universal da literatura” e nos relatos do livro “as personagens apresentam valores universais e levantam questões transcendentais como o sonho, o absurdo, a injustiça social, a saudade, o Eterno Retorno, o Paraíso Perdido, em definitiva a vida e a morte”.
Isaac Alonso Estraviz, da Universidade de Vigo, em “Jenaro Marinhas del Valle um Patriota Integral” (pp. 179-185) estuda a trajectória de Marinhas, a quem apresenta como (p. 184) “galeguista íntegro desde que veio ao mundo naquele ambiente familiar até ao momento que o deixou” e conclui definindo-o como (p. 185) “homem bom e generoso, culto, alegre, social, tolerante, apaixonado pola sua pátria e pola sua cultura, respeitoso de todos e amigo leal dos amigos, é um modelo a imitar por todos nós”.
Cilha Lourenço Módia, da Universidade da Corunha, em “Percursos Expressivos do Teatro de Jenaro Marinhas” (pp. 187-195) refere-se a Marinhas como (p. 187) “dramaturgo atípico –tardia e irregularmente editado, escassamente representado– e, em consequência, duma obra certamente singular”. Faz um muito valioso estudo desta produçom de Marinhas, concluindo ser o teatro do autor de Ramo Cativo (pp. 194-195) “como ele próprio: solitário, espartano, independente e contestatário; levantado contra o imobilismo, a injustiça, o autoritarismo, a ordem estabelecida… […] Se calhar, por falta de ambiçom pessoal (nom de perspectiva), Marinhas foi umha luz que nom se viu suficientemente”; e salienta dele “acçons que acabaram por transformá-lo num verdadeiro ícone da ética intelectual”.
Ernesto Vázquez Souza, contribui com “Notas sobre o fundo da Sección Especial ou Maçónica, no Archivo General de la Guerra Civil / Centro Documental de la Memoria Histórica (Salamanca): Uma fonte para o estudo do Republicanismo galego e a sua repressão (em especial da cidade da Crunha)” (pp. 197-323), que inicia com umha citaçom de Jenaro Marinhas respeitante ao tempo da Guerra de 1936. Afirma ser o objectivo deste estudo (p. 199) “fazer uma pequena achega em forma de listagem útil para pesquissadores e reivindicadores como contributo à memória de Jenaro Marinhas del Valle, uma das pessoas que mais lutaram para que a memória não fosse completamente apagada”. O seu texto responde ao título e a este objectivo, e nele encontram-se expedientes abertos a numerosas pessoas, algumhas bem conhecidas, bem como umha bibliografia sobre o assunto.
O volume finaliza (pp. 325-339) com “A Corunha Galeguista. Um Passeio com Jenaro Marinhas del Valle”, roteiro de locais de interesse da cidade; e “A Corunha, a Nossa Cidade, é o Cerne do Galeguismo”, um texto distribuído com ensejo do Congresso celebrado na Corunha e de que se publicam estas interessantes Actas.
Como conclusom, parece evidente que, partir deste volume, existem novos alicerces para a construcçom de um discurso que ajude a situar Jenaro Marinhas del Valle num lugar, porventura cimeiro, na História da Literatura Galega da passada centúria. Insiste-se em aspectos bem conhecidos dele, e oferecem-se novidades biográficas e da sua produçom, que contribuirám para esse objectivo5.
Capa das Actas do Congresso Jenaro Marinhas del Valle
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Cancións de Manoela. Canções de Manuela.
Neste Outubro publicou-se este novo trabalho poético6 de Jenaro Marinhas. Trata-se de umha bela ediçom, realizada com prólogo e notas de Lino Braxe, Pablo González Mariñas e Alexandrina Fernández Otero. Numha muito breve apresentaçom referem-se a este produto como “O froito dun amor sen tempo”, e frisam terem respeitado “escrupulosamente a grafía empregada polo criador para cada un dos seus poemas. Pois ás veces mudan normativas dentro dun mesmo verso”. Nas páginas 5-19 incluem os poemas de Marinhas, elaborados em diferentes instantes da sua vida, em que é Manoela/Manuela quem “escreve” por vezes. Notas de proveito acompanham as composiçons, que evidenciam mais umha vez diferentes estilos e interesses de Marinhas no seu trabalho com a poesia. Sirva como exemplo este breve poema (p. 15):
Botei ao mar umha flor
por ver se ia mar afora,
volveu á praia e desflora
perdidos aroma e cór.
Nom era navegador
aquel gromo de roseira,
non-o chamaba um amor
desde umha lancha veleira.
A ediçom deste pequeno volume demonstra o paciente trabalho dos estudiosos da poesia de Marinhas, que deverám actualizar a sua pesquisa com estas descobertas da sua produçom que se vam revelando progressivamente.
A principal conclusom deste belo produto7 é que resultaria porventura do maior interesse umha ediçom da sua poesia completa; para a conhecer melhor e para valorizá-la como merece. Além da sua produçom para teatro, narrativa e ensaio, há um Marinhas del Valle poeta, menos reconhecido ainda, para o que é preciso oferecer mais luz, pois dessarte se contribuirá a situá-lo nesse lugar cimeiro que alguns estudiosos já lhe outorgam no quadro das Letras Galegas do século XX, e que mais se confirma segundo se divulga e estuda a sua produçom nos diferentes campos em que interveio.
Santiago de Compostela, em 31 de Outubro de 2009 (no dia do L aniversário da ediçom príncipe de Lua de Além-Mar, de Ernesto Guerra da Cal)
Notas:
1 AA. VV., (2009), Actas do Congresso Jenaro Marinhas del Valle, Santiago de Compostela, Associaçom Galega da Língua Editora, 344 páginas.
2 E polo Norte de África, embora fossem maioritárias as do continente europeu.
3 Afinal, e como indica o título, trata-se de umha “Aproximaçom” e há várias ausências, como nom relatar a participaçom de Marinhas mesmo num congresso da própria AGAL celebrado em Compostela, de homenagem a Cunqueiro. Este trabalho é devedor, como adverte o próprio autor, da generosa colaboraçom de Pablo González Mariñas, que permitiu pesquisar no espólio de seu tio, onde conseguiu informaçons de grande valor.
4 Trata-se da mesma Bibliografia, mas acrescentada, que se inclui no volumen Jenaro Marinhas del Valle e a AGAL, comentada já.
5 Na seqüência de umha das sua intervençons neste Congresso, Henrique Rabuñal anunciou que está a preparar um amplo estudo sobre este autor, que lhe encomendou a Universidade da Corunha: permaneceremos atentos a que esse trabalho se materialice e se poda conhecer, por ser este estudioso, com certeza, umha das pessoas que melhor pode realizar esse labor, polo seu conhecimento directo da pessoa e polos esforços que já tem dedicado ao seu estudo.
6 Marinhas del Valle, Jenaro, (2009), Cancións de Manoela. Canções de Manuela, A Corunha, Edicións Proscritas, 19 páginas.
7 Um poemario que aceitaria porventura trabalhar com ele em teatro, artes plásticas ou música.
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