Cinco livros para o resgate de Jenaro Marinhas del Valle (II)

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J. M. A. – Sob a chancela da Associaçom Galega da Língua (AGAL) Editora publicárom-se nos primeiros meses deste ano duas reediçons de Jenaro Marinhas del Valle, com textos que a própria AGAL tinha divulgado em vida dele: o volume de A Vida Escura, e outro mais com contributos difundidos inicialmente na revista Agália e em Actas de congressos internacionais organizados na década de 80.

1.-A vida escura: Um título cimeiro da narrativa galega do século XX

O conto faze-o o narrador, mas também o ouvinte ou leitor vai fazendo o seu conto a medida que lê ou escuita (sempre será bom respeitar-lhe essa licença). Só ao final é que o narrador há de se impor, igual que o sonetista no último tercerto. (Jenaro Marinhas, A Vida Escura, segunda ediçom, p. 12).

A ediçom príncipe deste volume1 apresentou Jenaro Marinhas del Valle no Campo Literário Galego como novo escritor Reintegracionista, e o segundo membro da Real Academia Galega (RAG), juntamente com Ricardo Carvalho Calero, que publicava um livro em Galego-Português. Contava na altura 79 anos e era um veterano e respeitado produtor. Insurgia-se assim publicamente contra a proposta normativa da própria RAG e do Instituto da Lingua Galega (ILG), que vingava desde 1983, após um Decreto do Governo Autonómico que a reconhecia institucionalmente. Objetava dessarte Jenaro Marinhas contra umha entidade à qual continuava a pertencer, por mais que na altura já principiara o seu afastamento activo dela.

Marinhas tinha publicado com anterioridade alguns textos em Galego-Português. Tratava-se de trabalhos de nova produçom. Porém, A Vida Escura, o seu quarto livro2, tinha a particularidade de incluir algumhas narrativas previamente publicadas na revista Grial, mudando a grafia e adaptando-a para a proposta normativa da AGAL, com o qual reafirmava a pertença ao movimento do Reintegracionismo organizado, que naquele segundo lustro da década de 80 mantinha a sua força, apesar dos entraves da preferência por parte da “Xunta de Galicia” do seu referente de oposiçom para a normativizaçom da língua (a antes assinalada proposta do ILG e a RAG).

Foi A Vida Escura um livro impactante, muito promocionado pola AGAL, e nom só por essa circunstáncia de que mais um Académico da RAG abandeirasse na prática a sua proposta ortográfica, mas também por se tratar de um volume certamente magnífico em termos do que se entendia, e se entende na actualidade, por qualidade literária. A AGAL fizo especial esforço para atingir um belo produto, como com certeza o foi, para cujo sucesso contribuírom 57 pessoas (residentes na Galiza e no exterior) e entidades (Agrupación Cultural O Facho e Asociación Alexandre Bóveda da Corunha, Amigos do Idioma Galego de Buenos Aires, e Plataforma para a Defesa do Sector Lácteo Galego) incluídas numha tábula gratulatória final. Também se procurou um pintor de renome, Carlos Quesada, quem elaborou a capa e as ilustraçons do interior.

Aquele volume foi apresentado em forma de 36 capítulos, que sucediam quatro breves textos (de Jorge de Sena, José Bergamín, Serafín Estébanez Calderón e o Padre Feijóo) em maneira de epígrafe. Sem qualquer esclarecimento encontravam-se na continuaçom 36 narrativas, numeradas da I à XXXVI, sem diferenciar os textos ficcionais de aqueles que o nom eram. Na reediçom que agora3 se oferece para o mercado galego respeita-se aquela organizaçom.

Todo neste livro tem inegável interesse: das quatro epígrafes inicias (a de Jorge de Sena a respeito do conto e o seu significado; e as outras três aplicáveis à sua posiçom reintegracionista, as quatro escolhidas propositadamente por espelhar o discurso de Marinhas) aos 36 textos narrativos. Destes, o “I” (ou “Prefácio”, pp. 11-13) trata-se de um pequeno ensaio, em que Jenaro Marinhas teoriza a respeito da sua concepçom do conto, pondo-o em diálogo com o romance, a poesia e o teatro, e estabelecendo pontos de encontro e de divergência. Assinala aqui as suas preferências e salienta Guimarães Rosa, Valle-Inclán e Rafael Dieste, diferenciando entre aqueles em que observa “arte literária”, que ele valoriza mais; ou “documento folclórico-lingüístico”, secundarizado na sua concepçom desta escrita.

Os 34 relatos evidenciam um narrador que, como bem se frisa na contracapa da ediçom príncipe, se desfruta pola “beleza das estórias, histórias e contos” em que “tem nom pequena parte essa elegáncia, clássica, do estilo, o equilíbrio permanente entre a linguagem popular e a erudita, entre o galego-privativo e o galego-português, e aquela riqueza do léxico, em que tanto contam os neologismos próprios que o escritor utiliza sempre com grande acerto e sensibilidade”. Ou como se diz na contracapa desta segunda ediçom, o livro “apresenta a melhor prosa galega dos anos 40 e 50 do século XX, período escuro no que foi escrito. Nestes textos Jenaro Marinhas apresenta-se como o que é, um dos grandes da nossa literatura e nele exprime-se a melhor tradiçom que informava o nacionalismo de pré-guerra e late nas concepções reintegracionistas. O Leitor vai desfrutar com uns textos no que as palavras tem sabores e sensações”.

Entre o que mais surpreende gratamente na leitura merecem destaque o extraordinário domínio do tempo narrativo, o acerto no tratamento psicológico das personagens, o ritmo, o trabalho da palavra, a madureza e o bom desenvolvimento dos relatos. Ao falar, no “Prefácio”, da dificuldade para a escrita do conto, afirma Marinhas que (p.11) “precisa ser projectado e construído peça a peça e logo ir assentando cada umha no seu sítio, se algumha se deslocasse, por ligeiro que fosse o desvio, descentraria-se o centro de gravidade e todo o conto se viria abaixo”. Essa procura do equilíbrio narrativo é felizmente conseguida, atingindo assim um volume de contos modelar, nom só para a Literatura Galega pois, polo teor dos assuntos tratados e da forma que lhes dá, poderia funcionar traduzido em qualquer outro sistema literário, por causa da universalidade dos temas e o valioso das mensagens e do discurso narrativo.

Só a luita ortográfica da Galiza, na qual ele se implicou tam directamente nas últimas décadas da vida, evitou que este maravilhoso livro, um dos títulos cimeiros da narrativa galega do século XX, funcionasse melhor no mercado galego. Porque bem merece ser recomendado como leitura no ensino, e daria pé para o seu aproveitamento nas matérias de Língua e Literatura certamente, e em muitas outras. Veja-se, como excerto de bom fazer narrativo, estes trechos do relato “XXXV” (“O inocente”, pp. 223-224):

[…] Via-se herdeiro do tio assassinado, como único parente, recebeu a boa nova com absoluta indiferença, nunca sentira ambiçom de riqueza, cousa desconhecida, com um pouco menos de miséria e um pouco mais de calor humano já seria um homem feliz. Livre reentrava no mundo hostil que o rejeitara, que o sitiara a fame e sede como a cidadela inimiga que havia que reduzir a escombro e cinza. Caminhou para a aldeia opositada. Ninguém para selar um perdom mútuo, umha aperta de mão, umha bem-vinda. Ninguém para recebê-lo com umha olhada benigna, ocultavam-se todos com vergonha vendo-o aproximar-se. Também ele caminhava sem ver ninguém, evitando enfrentar aquelas caras duras, aqueles olhos que o miraram de través com desconfiança e malquerência, aqueles lábios apretados que nom se lhe abriram jamais num sorriso, num saúdo de bom dia, aquelas mãos que o lapidaram sem razom e sem piedade.

Encaminhou-se direito para a casa do tio que era agora da sua pertença, silenciosa, fechada e desabitada, mostrava-lhe a mesma face pétrea e desacolhedora de toda a gente. Era um neno de sete anos orfo, esfamiado e sujo quando ali entrou por primeira vez recebido com igual desagrado polos servidores que polo amo. Agora volvia de chave em mão para abrir a porta que era sua, seus os muros, o telhado, o alpendre, o mobiliário interior. Estacou no largo corredor sem emoçom algumha, sem pressa por adentrar-se um passo mais. Era propietário de tudo quanto o rodeava, tratava de convencer-se da realidade e tudo lhe parecia alheio, desconhecido e irremediavelmente desvinculado de si. […]

O texto XXXVI (“Posfácio”, pp. 227-228) é de testemunho de Marinhas sobre a sua própria produçom e as condiçons em que a elaborou, e também respeitante à composiçom deste volume. Admite a colaboraçom de José-Maria Monterroso Devesa, que o ajudou para apresentar as narrativas “com nova grafia e a isso se reduzem as únicas emendas”; e coloca em diálogo a sua própria vida com o título deste volume, e com o próprio volume, ao autoqualificá-la de “escura”. Assim procura a simpatia e o reconhecimento do leitor através de umha reacçom de humildade e modéstia, condizente com o seu modo de se relacionar, mas que também há que tomar de conta quando se estudar e valorizar o conjunto da sua produçom. Ele próprio, na entrevista que concedeu a José Maria Monterroso e a Henrique Rabunhal (ver mais abaixo), ao ser preguntado a respeito do teor autobiográfico desta narrativa, responde: “Autobiografia há em todo quanto escrevemos com sinceridade, por mais que aparentemos falar de outros falamos de nós mesmos. Eu sentia a impotência, a opressom, o isolamento das minhas personagens em mim mesmo, baixo um regime de mando (que nom de governo) apouvigente, intolerante e terrorista. […] nom se pode agir sem dar sinal de quem se é, sem fazer autobiografia. Todo o que desenha umha estória desenha própria estória, de frente ou de perfil, retrata-se”.

Há no tratamento do texto mudanças ortográficas nesta segunda ediçom de A Vida Escura que nom se esclarecem nem justificam, quando seria pertinente que assim se fizesse, sobretodo porque no ano 1987 a situaçom da AGAL era diferente: ainda nem sequer tinha reeditado do Estudo Crítico das Normas Ortogáficas e Morfológicas do Idioma Galego, o que aconteceu só dous anos mais tarde, em 19894, nem outros posicionamentos dos anos posteriores. O volume inclui igualmente breve referência (pp. 231-233) bio-bibliográfica de Jenaro Marinhas5.

Conforma-se assim um livro de excepcional gabarito, muito recomendável, numha ediçom belamente apresentada, com umha capa em que se coloca mais no primeiro plano o desenho de Carlos Quessada. Faz-se emerger para a actualidade literária um autor como Jenaro Marinhas del Valle que, só por estas narrativas, mereceria um lugar de honra entre os escritores da Galiza do século XX; um posto cimeiro que nom lhe devera ser discutido de valorizar também o resto da sua produçom, como já se começa a fazer por parte de alguns estudiosos e especialistas.

2.-PRESENÇA de Jenaro Marinhas na AGAL, compilaçom em que transparece umha trajectória intelectual e literária

Eu quigera ver a nossa [Real] Academia [Galega] […] substituir em matéria lingüística a ruralizaçom pola internacionalizaçom. Contamos com umha língua internacional; será insensato reduzi-la por chateza de miras e espirito patacoeiro a um dialecto coloquial de rústicos falantes. (Jenaro Marinhas, PRESENÇA de Jenaro Marinhas na AGAL, p. 232)

Por volta do mês de Maio o mercado do livro galego recebeu esta preciosa compilaçom6, que reune a maior parte da produçom –para além de A Vida Escura– de Jenaro Marinhas publicada pola AGAL. O único senom que se lhe pode fazer a este belo livro é que, por umhas pouquinhas páginas mais, nom se incluísse a produçom inteira e ficassem fora outros breves textos, também de valor, e com os quais se reuniria um panorama completo. Este volume consta de quatro partes bem diferenciadas:

a) Em primeiro lugar, inclui (pp. 9-59) a entrevista com Henrique M. Rabunhal Corgo e José Mª Monterroso Devesa, publicada originariamente no número 18 da Agália. Acerta sem dúvida a editora ao incluir este trabalho, toda umha referência, muitas vezes citado, para conhecer Marinhas. Nom é a primeira vez (outros exemplos há, mesmo neste século na Galiza), de facto, que as entrevistas se enquadram na “Bibliografia activa” de um produtor. Neste testemunho, Jenaro Marinhas fala da sua infáncia na Corunha, do seu relacionamento com as Irmandades da Fala, com o nacionalismo, com vultos do galeguismo, das suas primeiras produçons literárias, da participaçom na Guerra de Espanha de 1936 e a posterior etapa do pos-guerra, da actividade profissional, do relacionamento com o Grupo Galaxia, da experiência na Real Academia Galega, do seu teatro e do teatro galego, da narrativa, de A Vida Escura… Som 50 páginas de imprescindível e obrigada leitura, pola muita informaçom que fornecem7, para estudar Marinhas. Há mesmo algum elemento da sua biografia para o qual, até esta entrevista, nom havia outra fonte de documentaçom. É pena que se nom reproduzisse a iconografia que acompanhava a entrevista nas páginas da Agália, e a que é muito recomendável acudir, por ser também de muito valor. Os editores, com critério quando menos discutível, optárom por substituir a bibliografia por outra, mais ampla (pp. 60-70), coligida por Joel R. Gômez, e que forma parte do trabalho deste publicado nas Actas do Congresso Jenaro Marinhas del Valle organizado em Fevereiro deste ano. Podem defender os editores a pertinência desta mudança no afám de quererem oferecer umha bibliografia mais comprida e actualizada, mas a que com certeza calhava para a entrevista era a de Rabunhal e Monterroso, que respondia aos últimos meses de 1988, quando aconteceu o diálogo que tivérom com Marinhas e que tam brilhantemente transcrevem, para fortuna dos muitos –e cada vez mais– interessados neste magnífico autor e testemunha do século XX galego. A esta entrevista pertence um dos esclarecimentos sobre a língua da Galiza mais citados de Marinhas, aquele em que afirma (p. 46): “Os galegos nom devemos considerar o idioma português como algo que nom nos pertença em grandissima parte desde que contribuimos a sua formaçom em igual medida os de Minho para Norte que os de Minho para Sul e isto deve ser motivo de orgulho nacional”.

b) Encontram-se na continuaçom os que som apresentados no “Índice” como “Estudos de Jenaro Marinhas del Valhe [sic] na revista Agália”. Porém, dous dos trabalhos fôrom publicados nas Actas dos II e III congressos internacionais da Língua Galego-Portuguesa na Galiza, organizados pola AGAL em 1987 e 1990, como assim, certamente, se faz constar no próprio “Índice”. No total podem-se consultar aqui oito ensaios: “Linguagem e Literatura” (pp. 71-85), “O verso na recuperaçom literária do galego” (pp. 86-95), “A estética da linguagem em Queixumes dos Pinos” (pp. 96-110), “Lembrança de Carré com excerto sobre teatro” (pp. 111-119), “Da personagem teatral” (pp. 120-133), “O real em cena. Notas a esmo” (pp. 134-140), “Lugris: Oratória e Teatro” (pp. 141-147) e “A língua do escritor” (pp.148-159).

c) A terceira parte está conformada por textos “dramáticos” segundo som qualificados no “Índice”, igualmente dados por Marinhas para a Agália, de que se incluem os oito seguintes: “A notícia” (pp. 161-168), “O assento” (pp. 169-173), “O mantido” (pp. 174-181), “O Di-lhe” (pp. 182-184), “Umha velha feliz” (pp. 185-188), “A última travessia” (pp. 189-191), “Apenas um sonho” (pp. 193-197), “A sós consigo” (pp. 198-202) e “A Tia Solinha” (pp. 203-207). Na página 192 também se inclui umha nota de Marinhas a respeito do seu “Teatro inerte”, de que formam parte os dous textos que figuram na continuaçom. Os três anteriores, ao igual que “A Tia Solinha”, som de narrativa.

d) Finalmente, mais nove textos, apresentados como “Vária de Jenaro Marinhas del Valhe [sic] em Agália”, intitulados “Homenagem a A[lexandre]. Bóveda” (pp. 209-212), “Dedicados e Intonsos” (pp. 212-215), “Aos leitores de Agália (número 25)” (pp. 216-217), “Aos leitores de Agália (número 29)” (pp. 218-220), “Aos leitores de Agália (número 33)” (pp. 220-222), “Os alárvios” (pp. 222-223), “Apresentaçom na cidade da Corunha de A Vida Escura” (pp. 223-2338), e finalmente reproduçom do poema “A Cantiga da Aboa”, publicado originariamente em Vida Gallega no ano 1932, e reproduzido no número 27 da Agália. Este último, incluído no seu dia na secçom “Memória da História”; ou o dedicado a Bóveda, proferido com ensejo de umha homenagem a este vulto da política e da economia do Galeguismo, mereciam esclarecimentos; o mesmo que os três que assinou para os leitores da Agália, que figuram na revista como textos de teor editorializante, o que também devera ser frisado.

Transparece nesta compilaçom de maneira privilegiada parte muito importante da trajectória intelectual e literária de Jenaro Marinhas del Valle. De analisarmos os capítulos de “Estudos” e “Vária”, na leitura desses trabalhos deparamos com produtores de diferentes campos, como o Literário, o dos Estudos Literários, o do Teatro, o da Pintura, o da Política, e outros do ámbito das chamadas Humanidades como a História ou a Antropologia, que permitem entender Marinhas. Tem relevo reparar nisto, por ser Marinhas pessoa de outro campo, o da Economia, ao que dedicou os seus estudos e profissom. Os nomes que cita, alguns de maneira reiterada, ajudam a compreender a sua formaçom e quais os interesses que colaborárom para conformar a sua ideologia e posicionamentos, e a sua rica personalidade, produçom e singularidade. Assim, encontramos:

a) Da Galiza: Carvalho Calero, Rosalia de Castro, Filgueira Valverde, Rafael Dieste, Plácido Castro, Henrique Labarta, Pondal, Benito Losada, J. Cuveiro, Pérez Ballesteros, Valle-Inclán, Murguía, Carré Aldao, De la Iglesia, Alfredo Branhas, Amor Meilán, Tettamancy, Rogélio Cibeira, Alberto Garcia Ferreiro, R. Cabanilhas, J. Manuel Pintos, Curros, Ricardo Caruncho, Amado Ricón, Bouza Brey, Otero Pedrayo, Lamas Carvajal, Vicetto, Añón, Francisco Rodríguez, Leandro Carré Alvarelhos, Vaamonde, Galo Salinas, Ramón Alvariño, Santiago Tain, Castelao, Inês de Castro, Luís Seoane, Díaz Pardo, Fernández Mazas, Álvaro Cebreiro, Vítor Casas, Alfredo Canalejo, Álvaro Cunqueiro, Correa Calderón, E. Blanco-Amor, Eugénio Montes, Charlom e Ermida, Xavier Prado “Lameiro”, M. Valladares, Alexandre Bóveda, Manuel Casas, I. Alonso Estraviz, Maria do Carmo Henríquez Salido, R. Suárez Picalho…

b) Da Espanha, J. M. Pemán, García Lorca, Menéndez Pelayo, Espronceda, Zorrilla, Campoamor, Juan Pérez Zúñiga, Eduardo Ovejero, Benavente, Pérez de Ayala, os irmaos Quintero, Linares Rivas, Adolfo Torrado, Pilar Millán, Unamuno, Carlos Arniches, Calderón, Echegaray, Adriano del Valle, Casona, Cervantes, Pardo Bazán…

c) Do intersistema Luso-Brasileiro, Francisco da Cunha Leão, Rodrigues Lapa, António Sérgio, Camilo Castelo Branco, Ramalho Ortigão, Júlio Diniz, Herculano, Eça de Queirós, Camões, Teixeira Gomes, Jorge de Sena, José de Anchieta, Cabral, Tomé de Sousa, Teixeira de Pascoais, Gil Vicente, Teófilo Braga, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Júlio Dantas, Arlindo Varela, Almada Negreiros, Almeida Garrett, Fidelino de Figueiredo, Guimarães Rosa, Álvaro Lins, Machado de Assis, Pedro Bloch, Olegario Mariano, Osvaldo Orico, Jorge de Lima, Agripino Grieco, Paço d’Arcos, Osório de Oliveira, Raquel de Queiroz, Paulo da Silveira, Ferreira de Castro, Lyselle Villar, Lydia Ezeguy, J. P. Machado…

d) De outras culturas, Max Lierbermann, Schopenhauer, Edgar A. Poe, Huxley, Baudelaire, Lord Dunseny, Shakespeare, Paulo Mantegazza, o químico Davis, o doutor Abeille, Napoleom, André Maurois, Max Reinhardt, Oskar Kokoschka, Malatesta, Kropotkine, Bebel, Lineo, Emerson, Pirandello…

Um leque de interesses certamente amplo, que evidencia umha enorme curiosidade intelectual e variados centros de atençom, e que ajudam a entender este grande vulto das Letras, da Política e da Economia da Galiza do século XX. Outros estudiosos, como Pablo González Mariñas, Lino Braxe ou Alexandrina Fernández Otero, em trabalhos recentes sobre Marinhas, tenhem apontado com acerto alguns destes autores, e outros, que permitem compreender a produçom do autor de A Vida Escura. Umha pesquisa mais aprofundada ajudará, que parece mais que justificada, ajudará a descubrir e a construir um Jenaro Marinhas del Valle mais real e autêntico, e situá-lo no posto de privilégio que porventura merece na cultura de umha Galiza que ele defendeu de formas muito diferentes na sua prolongada e lúcida existência.

Por circunstáncias que se nom esclarecem, na segunda e terceira parte deste volume compilatório, os editores observam um critério cronológico, segundo o número da revista em que se publicárom os diferentes textos; mas na primeira e na última parte apresentam umha mestura sem esclarecerem qualquer critério. Além disso, em nengum lugar se indica a data da publicaçom inicial destes trabalhos. Elementos todos eles que bem podiam fazer parte de um breve texto introdutório ou de notas de rodapé, que permitissem enquadrar e situar melhor esses contributos de Jenaro Marinhas del Valle.

No entanto, o volume é valioso, ao reunir textos dispersos e favorecer assim umha maior facilidade para a sua consulta.

 

Capa do livro Presença de Jenaro Marinhas na AGAL
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3.-Conclusom

O Reintegracionismo, os seguidores de Jenaro Marinhas del Valle em particular, e os estudiosos da cultura galega em geral, podem estar satisfeitos destes dous volumes reeditados pola AGAL. Suponhem dous contributos para a comemoraçom do centenário do nascimento deste escritor, político e economista corunhês, e facilitam o melhor conhecimento do seu discurso e ideologia.

Jenaro Marinhas defende formulaçons que nom som gratuitas, mas consequência de um pensamento elaborado que o leva a conclusons como, v. gr. que (p. 109) “Camões é o nosso clássico por excelência, ele é a única ‘Real Academia da Língua’ que nom pode ignorar ninguém que pretenda professar de escritor galego”. Ou, por citar outra opiniom de intervençom a respeito do Campo Literário Galego, esta conclusom do seu estudo “O verso na recuperaçom literária do galego”, apresentado ao segundo congresso internacional da AGAL (p. 95): “Umha literatura que nom se veja assistida por umha forte consciência nacional sempre será umha literatura secundária, subordinada, provinciana. Literariamente Galiza é umha província do romance castelhano na mesma medida em que o é politicamente do Estado espanhol, e esse carácter provinciano que predominava nos nossos versejadores oitocentistas, sucursalistas de um dialecto sem ambiçom artística e cultural, feito à medida do subproduto literário de que eram capazes, projecta ainda hoje a sua sombra na mente de bom número dos nossos escritores que, carentes de firme consciência nacional, retrasam a urgente recuperaçom literária da velha língua que foi e terá de volver a ser galego-portuguesa”.

Ideias, enfim, que bem merecem ser discutidas ainda hoje, para deitarmos luz que nos permita avançar na construçom de um melhor futuro para a língua, a literatura, a cultura e a própria qualidade de vida e progresso da Galiza neste novo século, de que já quase levamos dissipada toda umha década.

Valdovinho-Compostela, Agosto-Outubro de 2009.

Notas:

1 Marinhas del Valle, Jenaro, (1987), A Vida Escura, A Corunha, Associaçom Galega da Língua, colecçom “Criaçom”, 175 páginas.

2 Com antecedência tinha publicado em Galaxia, em 1965, o volume A Revolta e outras farsas, com textos teatrais, entre eles o que dava título, distinguido com o prémio Castelao; em 1978 Importancia do público na revelación teatral, o seu discurso de ingresso na RAG, com a resposta de Marino Dónega, em Ediciós do Castro; e em 1979 Lembrando a Manuel Antonio, editado sob a chancela da “Xunta de Galicia”, volume comemorativo no ano que se lhe dedicou a esse autor o Dia das Letras Galegas. Os restantes produtos, em diversas revistas e em jornais da Galiza e do exterior, eram textos mais breves.

3 Marinhas del Valle, Jenaro, (Fevereiro de 2009), A Vida Escura, Santiago de Compostela, Editora AGAL, Colecçom Criaçom, 238 páginas. O volume foi apresentado nos últimos dias de Fevereiro de 2009, com ensejo do Congresso Jenaro Marinhas del Valle organizado pola AGAL na Corunha, onde estava disponível para o público que participou nas sessons.

4 Surpreendentemente, esta reediçom, um dos maiores sucessos da AGAL nas suas quase três décadas de história, nom aparece referenciada na relaçom de “Publicaçons da AGAL” que se inclui no final deste volume (pp. 235-238), onde sim se refere a esgotada primeira ediçom de 1983. Há mudanças importantes no posicionamento ortográfico da AGAL na reediçom de 1989, que fazem que esta nova versom dessa magnífica obra filológica mereça ser singularizada a respeito da primeira.

5 Serve para a funçom que tinham os editores de ofrecer um retrato de Marinhas. No entanto na referência da “Obra” incluída na badana do final do livro, figuram informaçons erradas sobre datas e dados que, como as numerosas gralhas, se deveram evitar em futuras reediçons com umha atenta leitura de provas.

6 Marinhas del Valle, Jenaro, (2009), PRESENÇA de Jenaro Marinhas na AGAL, Santiago de Compostela, Editora Associaçom Galega da Língua, 239 páginas.

7 No Congresso Jenaro Marinhas del Valle organizado pola AGAL em Fevereiro de 2009 na Corunha, Pablo González Mariñas afirmou (e Rabunhal, que estava presente, nom o desmentiu) que a entrevista é mais comprida e faltam partes da mesma por publicar. Seria bom que, de resultar ainda possível pola conservaçom dos materiais empregados nesse valioso trabalho, que se publicasse inteira.

8 Aqui, além do depoimento de Marinhas, incluem outros de José Maria Monterroso, Maria do Carmo Henríquez Salido e José António Lozano.

 

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