Bossa Nova Baby

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Por Edelmiro Momám

She said, “Go Bossa nova, baby
Keep on dancin’
Or I’ll find myself another cat”
Bossa Nova Baby (Fun in Acapulco), J. Leiber & M. Stoller (1963)

Já ia sendo hora de honrar o nome desta coluna submergindo-nos numa temática realmente tropicalista. Mas que ninguém espere uma coisa quente assim tipo Henry Miller. Vou contar como foi que virei reintegrata praticante.

Foi no verão de 1999 (année satanique?). Morava eu na beira sul de uma rua que delimitava a fronteira entre os condados de Berkeley e Oakland, na Califórnia. O aluguer não era excessivamente caro porque a casa tinha servido previamente como boca para a distribuição de drogas, com tudo o que isso implica, mas essa é outra história. O tema é que os primeiros fins-de-semana, como não conhecia ninguém, dediquei-nos a vagar sem rumo pelas ruas de São Francisco. Apanhava o BART e o elétrico, tomava o chá em Chinatown, dava-lhes conversa aos hippies e mais aos pretos que me abordavam pela rua, entrava nas lojas e, em fim, andava a vadiar sem mapa e sem saber para onde ia. Foi assim como um dia que me achava meio perdido descobri, se calhar porque era sábado, a mítica loja de música Amoeba, que é como duas naves industriais cheias até a borda de CDs. Numa esquina havia uma oferta de CDs por dois ou três dólares, cheaper than food, dizia a propaganda. Comprei uma dúzia de discos variados um bocadinho ao chou, por simples curiosidade. Duas escolmas de música escandinava, Clannad, Johnny Winter, Stan Getz, Charlie Parker, a Creedence (como não), e outros que ainda hoje se acham entre os meus mais entranháveis. Mas houve um que mais que uma música foi uma revelação. Estou-no a escutar neste mesmo momento.

Já na altura neofalante, na verdade não era eu alheio aos postulados do reintegracionismo (graças em grande medida ao fantástico trabalho divulgador da Associação Artábria de Ferrol). Não era alheio nem era hostil, como sim eram alguns dos meus amigos. Mas para mim a unidade da língua galaico-portuguesa era até esse momento uma simples enteléquia teórica, interessante desde um ponto de vista meramente intelectual, sim, mas sem implicações práticas. O meu contacto prévio com a língua portuguesa fora quase nulo. Podia cantarolar a Garota de Ipanema, mas não muito mais. Foi aquele demo de música o que mudou tudo. Porque era sábado.

Falo da gravação em vivo que fizera a santíssima trindade do Vinícius, o Toquinho e a Maria Bethânia (Deus, Filho e Espírito Santo) na boate La Fusa em Mar del Plata. Estava na cozinha a preparar a ceia quando, depois de ter escutado três ou quatro dos discos que vinha de comprar, decidi pôr aquele. Escutei-no uma vez. Duas. Não podia ser. Eu entendia aquilo. Era uma música maravilhosa e eu sabia do que estavam a falar. E, com o olhar esquecido no encontro de céu e mar, bem devagar, ir sentindo a terra toda a rodar. Não podia ser que aquela não fosse a minha língua. Não era aquele um idioma estrangeiro. Impossível.

Meses depois emprestei o disco a um colega inglês, o Fraser. Chegou na manhã seguinte e disse-me: “Obrigado meu. Isto era o que levava buscando toda a minha vida. Pus-no ontem à noite enquanto a minha namorada estava na casa de banho, preparando-se para se deitar. Com aquela música ela chegou assim como flutuando no ar enquanto eu aguardava na cama. Coisa mágica, meu, coisa mágica”.  Ainda que não vem a conto, este vinha sendo o mesmo Fraser com o que ia eu um dia pelo Campus, da volta da ceia, quando se achegou a nós um mapache. Parecia não ter medo. Porém, tão logo como reparou que um estudante aparecia pela esquina oposta da praça, o animal fugiu espaventado. O Fraser disse: “Nós somos da Terra”. Agradecido pela música, o Fraser agasalhou-me com um livro no dia seguinte. Tratava-se da tradução inglesa de Se questo è un uomo, de Primo Levi, mas acho que já me estou a desviar muito do tema. Qual era o tema? Ah, sim, o reintegracionismo. Assim foi, pois, como virei reintegrata.