Por Edelmiro Momám
O hipermercado das línguas
O Grande Ducado de Luxemburgo mostra-se polo geral reticente à instalação no território nacional de grandes superfícies comerciais forâneas. Porém, existe na chaira de Kierchbierg uma área comercial que alberga um hipermercado duma conhecida cadeia francesa. Com dous andares, o hipermercado em questão deve contar com por volta das sessenta caixas registadoras. Fora precisamente o conjunto destas caixas registadoras uma das cousas que mais poderosamente chamara a nossa atenção à nossa chegada ao país e são também elas a causa e origem desta nossa reflexão de hoje.
Alguém pode pensar, com razão, que nada há mais aborrecido e alienante do que uma caixa registadora. O meu irmão Alberte até chegara escrever um romance relativo ao tema. Mas estas em particular possuem uma característica especial que as torna diferentes, e não estamos a falar duma característica técnica, pois nada sabemos relativamente à tecnologia das caixas registradoras. A sua peculiaridade radica em que o empregado que estiver a trabalhar na caixa em cada momento deve indicar ao cliente as línguas que fala. Dispõe para isso dumas bandeirinhas plásticas do tamanho da metade dum cartão postal penduradas, como se duma restra de chouriços se tratar, duma barra horizontal situada a tal efeito à altura dos olhos dum cliente de estatura meia.
O primeiro e mais evidente facto chocante para o forasteiro é o haver caixas com cinco, seis ou até sete bandeiras. Cumpre aclarar neste ponto que em Kierchbierg se acham as instituições europeias, com os seus milhares de trabalhadores provenientes dos vinte e sete estados membros, para além de numerosos bancos e instituições financeiras internacionais, e um Campus universitário. Quer isto dizer que se um empregado colga, digamos, seis bandeiras, a probabilidade é alta de que ao longo duma jornada de trabalho qualquer se veja obrigado a empregar todos os seis idiomas por elas representados.
Mais interessante ainda seria darmos agora um passeio ao longo da fileira de caixas em quaisquer dos dous andares, pois este passeio ofereceria-nos uma significativa radiografia sociolinguística do país, em contraste claro com os países vizinhos.
Vejamos pois. O caso mais habitual é haver uma bandeira só. Essa bandeira é sempre a francesa, pois o francês é ainda a língua franca de preferência para o comércio luxemburguês, para além do facto de que uma loja francesa não havia contratar em caso nenhum uma pessoa que não falasse a língua do Marquês de Sade. Mas podemos ter a certeza absoluta de que estes monolingues estritos, nem são luxemburgueses, nem moram no Grande Ducado. Não. Fazem parte dos setenta mil franceses e trinta mil belgas francófonos que cada dia atravessam a fronteira para trabalhar no Luxemburgo atraídos polas sensivelmente melhores condições laborais que oferece o minúsculo estado europeu.
Duas bandeiras. O caso mais típico é estas bandeiras serem a francesa e a portuguesa. Trata-se de emigrantes portugueses em primeira geração que chegaram a Luxemburgo sendo monolingues e que apreenderam primeiro o francês pola facilidade derivada da proximidade linguística com a nossa língua. Muitos são quem de se comunicarem também em luxemburguês, mas normalmente não com a fluidez que os autorizaria a pendurar a correspondente bandeira.
Com três bandeiras já pode haver algum luxemburguês. Seriam então a luxemburguesa, a alemã e a francesa. Trataria-se duma pessoa que provavelmente não rematou o ensino secundário polo que o seu domínio do inglês não lhe permite pendurar uma quarta bandeira. Com quatro bandeiras teríamos um seu compatriota que domina, este sim, as quatro línguas obrigatórias no ensino. Como deu esta pessoa por trabalhar num supermercado, eis a incógnita. Podemos especular que também não rematou a secundária.
Cinco bandeiras é ainda um caso bastante típico. O indivíduo das cinco bandeiras adoita ser o filho ou filha do empregado das duas bandeiras. Estaríamos a falar dum imigrante em segunda geração que beneficiou já do ensino multilingue luxemburguês. Para além das quatro línguas obrigatórias, lembremos, luxemburguês, alemão, francês e inglês, fala também a língua dos seus pais, tipicamente o português.
Em resumo um operário luxemburguês típico fala, ou quando menos arranha ou entende, quatro ou cinco línguas. Um operário francês típico –obviamente quem diz francês, poderia dizer espanhol– é monolingue estrito
O Muro de Pedrafita e outras fronteiras
A França, com as suas colónias, possui uma superfície 260 vezes superior à do Luxemburgo e conta com uma população 130 vezes maior. Porém, um luxemburguês típico tem aceso directo e imediato, para além da cultura do seu próprio país, à literatura e meios de comunicação francófonos, germanófonos, anglófonos e, em muitos casos, até lusófonos. Um francês (ou espanhol) típico normalmente vive restrito a numa cultura monolítica prê-filtrada pelo funil parisiense (ou madrileno). Embora o seu país seja muito mais grande que o Luxemburgo, pode-se dizer que, relativamente aos luxemburgueses, os franceses (ou espanhóis) moram numa gaiola linguística e cultural. Isto é especialmente certo quanto mais baixos forem a classe social e o nível cultural.
Uma das acusações mais típicas que recebe o galeguismo da parte no nacionalismo espanhol é a de querermos erguer “una muralla en Piedrafita”. Pouco nos importamos nós com o famoso Muro de Pedrafita, já que, como vimos de ver com o exemplo luxemburguês, as verdadeiras fronteiras, as que mais nos deveriam preocupar, são as da mente.
Digo mais, na verdade o de Pedrafita é o único muro que não existe na Galiza, pois um galego típico alimenta hoje o seu espírito unicamente da propaganda prê-mastigada que Madrid regurgita. Madrid é o nosso único referente e a nossa razão de ser.
A nós preocupa-nos muito mais a fronteira artificial do Minho que impede a comunicação normal com os nossos irmãos de língua e cultura. E ainda pior é o muro que ergueram ao longo de todo o litoral galego, que actua como uma barragem psicológico-política que nos impede um relacionamento directo, sem passar-mos por Madrid, com o resto do mundo e nomeadamente com os nossos irmãos celtas do norte e os nossos irmãos galegófonos de além mares.
