No depoimento anterior adiantei alguma das qualidades que deve reunir um bom mestre ou docente. E especialmente uma personalidade alegre, atrativa, amorosa e cálida. Básica para ensinar com alegria e de forma lúdica, atraindo as crianças na sua atenção e no seu desejo de assistir à escola e às aulas. Porque ser mestre ou mestra não significa só graduar-se, ter uma sala de aulas e um grupo de crianças. Implica muito mais que isso. Implica ter um grande dom e um grupo de qualidades necessárias para conseguir educar, embora, infelizmente, não todos costumem tê-las. Os mestres têm impactos na vida dos escolares e quando se têm essas habilidades e essas qualidades, podemos conseguir motivar e inspirar os nossos estudantes a construir e alcançar os seus sonhos, formando entes integrais, responsáveis e capazes de impactar a nossa sociedade e formar um melhor futuro. Não é um ofício fácil o de mestre, requer de muito tempo, dedicação, vocação, paixão pelas crianças e paixão pelo ensino e igualmente, grande motivação para dar todo o melhor e conseguir em si, educar. Não é simples «educar», mas deve desenvolver e adquirir cada uma destas habilidades se quer ser transcendental na vida dos nossos pequenos-grandes protagonistas.
De forma resumida e sintética resenho a seguir as 30 qualidades pessoais, educativas e didáticas, que deve reunir um docente, para ser considerado como um bom e ótimo mestre:
Ser uma pessoa com princípios e valores éticos, alegre, bondosa e solidária.- Ter paixão pelas crianças e pelo ensino, sendo muito flexível.
- Ter um relacionamento e conexão especial com seus estudantes.
- Ter uma atitude positiva e apreciar muito a vida e a natureza.
- Conhecer profundamente os diferentes estilos de ensino e as metodologias didáticas variadas.
- Focar a sua atenção sempre sobre seus estudantes.
- Ter os objetivos, metas e finalidades claros e precisos.
- Ter habilidades eficazes e estratégias adequadas para alcançar a disciplina com amor nos estudantes.
- Ter uma excelente comunicação com os pais e representantes de seus alunos.
- Ter altas expetativas e ferramentas de motivação, tanto de maneira individual como grupal.
- Conhecer e ter claras as normas, projetos e planos de estudo, de acordo com as idades dos seus estudantes.
- Conhecer a fundo a matéria ou disciplinas que ensina.
- Ser capaz de viver uma resposta imediata, esperando que seus alunos tenham sucesso. Ser um educador otimista e acreditar em seu ensino.
- Ter um bom senso do humor, ser agradável, alegre, amoroso e cálido.
- Saber motivar, entusiasmar e elogiar seus estudantes, no momento e lugar adequado.
- Saber refletir e saber avaliar-se a si mesmo (autoavaliar-se).
- Desfrutar do seu trabalho e desenvolver com agrado o seu ofício docente.
- Saber-se adaptar às necessidades de seus estudantes e do grupo.
- Ter uma mente aberta, aceitando as mudanças e os novos retos educativos e sociais.
- Tomar-se o tempo necessário para explorar, descobrir, estudar e adquirir novas estratégias e ferramentas didáticas.
- Dar apoio afetivo aos seus estudantes e desenvolver a sua inteligência emocional.
- Propiciar um ambiente de segurança para seus alunos.
- Não ver-se ameaçado pelos pais de seus estudantes, tendo uma positiva comunicação com elas. A mesma que deve ter com os outros companheiros docentes.
- Trazer diversão e alegria para as aulas e fomentar as atividades lúdicas e artísticas.
- Ensinar de maneira integral, desenvolvendo nos seus estudantes as educações física, intelectual, moral, ética, ecológica, plástica, musical, artística em todas as suas variedades, criativa e emocional.
- Romper paradigmas e experimentar continuamente métodos e técnicas didáticas, novos modelos de ensino, sendo a sua aula um laboratório de pedagogia prática.
- Acreditar nos seus estudantes, mesmo quando eles não acreditem nas suas capacidades. Saber integrar os estudantes com necessidades educativas especiais.
- Ser capaz de oferecer atenção individualizada quando for necessário.
- Não ter preferências, não discriminar nem expressar emoções negativas para alguns dos seus escolares. Respeitar as ideias religiosas, filosóficas e políticas dos seus discentes, fomentando a tolerância e o multiculturalismo.
- Conhecer, e pôr em prática, as técnicas didáticas dos pedagogos mais importantes da história: Tagore, Freinet, Decroly, Neill, Freire, Cousinet, Montessori, Manjón, Don Bosco, Milani, Gabriela Mistral, Geheeb, Cecília Meireles, Flanagan, Agazzi, Giner, Cossío, Reddie, Froebel e Pestalozzi.
Para apoiar tudo quanto tenho dito, escolhi um interessante e surpreendente filme intitulado O mestre de escola, realizado em 1981 pelo francês Claude Berri. No mesmo aparece como protagonista um mestre singular e atípico, oposto a qualquer tipo de ortodoxia didático-educativa, que acertadamente rompe com muitos estereótipos educativos, próprios das escolas tradicionais e do ensino rígido e autoritário de muitos tempos e lugares.
FICHA TÉCNICA DO FILME:
Título original: Le maître d´école (O mestre de escola).
- Diretor: Claude Berri (França, 1981, 95 min., cor).
- Roteiro: C. Berri e Jules Celma, segundo o livro do segundo intitulado Journal d´un éducastreur.
- Música: Claude Engel. Fotografia: Colin Mounier. Produtora: Renn Productions.
- Atores: Coluche (Gérard Barbier, o vendedor que termina por ser mestre), Josiane Balasko (Lajoie, a mestra, pouca apreciada pelos alunos), Jacques Debary (O diretor da escola), Charlotte de Turckheim (a mulher de Gérard), Roland Giraud (Sr. Meignant, colega sindicalista), André Chaumeau (O conselheiro pedagógico), Jean Champion (O inspetor), Georges Staquet (pai de Gérard), Sra. Chapuis (mãe de Gérard), Jean-Pierre Bagot (O presidente da Câmara, pai do pequeno Vanier), Claude Bertrand (O peixeiro, pai de Charlotte), Christian Bouillette (O dono da loja de roupas, que despede a Gérard), Rémy Carpentier (Sr. Letournel), Richard Gotainer (O cantante da voda), Anne-Marie Jabraud (A mãe de Charlotte), Marie-Isabelle Martínez (Camille, a menina dos pais que se divorciam), Yvette Petit (Germaine), Marie Pillet (Sra. Letournel) e 23 estudantes das escolas da mestra Lajoie e da escola primária «Alain Fournier» em Plaisir das Yvelines, no ano de 1981. Algumas crianças escolares têm como nome Camille (de pais divorciados), Sophie (desprezada pela sua mãe, pousadeira, por não fazer os deveres), Nicolas Vanier (filho do presidente da Câmara), Frédéric (rapaz muito débil), Hassane (aluno irrespeitoso e perturbador) e Jackson (rapaz de origem africana que se perde na fraga).
- Argumento: Comédia ambientada no mundo do ensino, que foi rodada à medida do malogrado protagonista. Os avatares dum singular e atípico mestre de escola, oposto a qualquer tipo de ortodoxia, dão pé a uma série de situações mais ou menos afortunadas, relatadas com humor e graça, que fazem refletir sobre o importante que é romper esquemas caducos no ensino, fundamentalmente próprios da escola tradicional. Por defender uma criança que roubou umas botas numa loja, o empregado Gérad Barbier é despedido. A partir desse momento, e apesar de que só se graduou no Liceu, decide ser mestre. Por fim consegue trabalho numa escola, embora um dia quase que todos os seus companheiros se ponham enfermos. Uma vez na escola toma consciência de que o ofício de mestre não é como ele acreditava. O diretor do filme inspira-se no livro autobiográfico de Jules Celma Diário dum educastrador. Celma fora encarregado no seu momento como mestre substituto e experimentara métodos que consistiam em deixar fazer aos seus alunos o que eles queriam, em total liberdade.
A rodagem principal desenvolveu-se na escola «Alain Fournier» situada na localidade de Plaisir. O final do filme foi rodado na escola «Foyatier» de París.
BELOS TEXTOS DEDICADOS AOS MESTRES E SEU NOBRE OFÍCIO:
A suprema arte do professor é despertar a alegria na expressão criativa do conhecimento, dar liberdade para que cada estudante desenvolva sua forma de pensar e entender o mundo, assim criamos pensadores, cientistas e artistas que expressarão em seus trabalhos aquilo que aprenderam com seus mestres (Albert Enstein).
As crianças não devem aprender pela força e severidade, cabe ao professor encaminhá-los para que se divirtam com suas mentes, para que o mestre seja capaz de descobrir com precisão a tendência peculiar do gênio que existe dentro de cada um (Platão).
O que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem (Rubem Alves).
Um professor que tenta ensinar sem inspirar o aluno com o desejo de aprender está martelando em ferro frio (Horace Mann).
Um professor que pode despertar um sentimento de uma boa ação individual, para um bom poema único, realiza mais do que aquele que enche a nossa memória com filas e filas de objetos naturais, classificados com nome e forma (Goethe).
Se uma semente de uma alface não cresce, não culpe o alface. Em vez disso, a culpa recai sobre nós por não ter alimentado a semente corretamente (Provérbio budista).
Educar é um dom concebido àqueles que, antes de tudo, aprenderam a se doar. O magistério é uma eterna doação de amor, de conhecimento, de experiências de vida (Luís Alves).
Uma vez que a criança aprende a aprender, nada pode estreitar sua mente. A essência do ensino é fazer da aprendizagem contagiosa para que contagie outros (Marva Collins).
Senhor, dá-me uma partícula da Tua sabedoria para que um dia eu possa ter a certeza de que cumpri com lealdade a difícil tarefa de cultivar mentes abertas e independentes dentro do contexto social. Só assim, Senhor, eu terei o orgulho de um vencedor que soube conquistar e honrar o nobre título de mestre! (R. Tagore).
Arregace as mangas para trabalhar com as crianças. Deixe de dar ordens e castigar, atire-se ao trabalho com os alunos. Não tenha medo de sujar as mãos, de se machucar com uma martelada, de hesitar nos casos em que a criança mais viva domina a situação, de tatear, de se enganar, de recomeçar. Assim é a vida, e é o esforço que fazemos lealmente, para dominar seus incidentes, que constitui o principal elemento da nossa educação (Celestin Freinet).
Um professor pode encontrar a eternidade, pois nunca poderemos determinar onde para a sua influência sobre os alunos que um dia serão homens, gênios, inventores, sementes que germinaram pelas mãos de seus mestres (Henry B. Adams).
Um bom professor deve ser capaz de se colocar no lugar daqueles que acham difícil a aprendizagem (Eliphas Leví).
A vantagem é recíproca, pois os homens, enquanto ensinam, aprendem! (L. A. Sêneca).
Professores ideais são aqueles que se transformam em pontes e que convidam os alunos a cruzá-la, depois de ter facilitado sua passagem, com alegria e colapso, incentivando-os a criar pontes a partir de suas próprias atitudes (Nikos Kazantzakis).
Podem esquecer o que você disse, mas eles nunca esquecerão como você as fez sentir (Carol Bucner).
Toda a verdade tem quatro cantos: como um professor que lhe dá um canto e é para você encontrar os outros três (Confúcio).
Diga-me e eu esquecerei. Ensina-me e eu me lembro. Envolva-me e eu aprendo (Benjamim Franklin).
A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. Ensinar e aprender não pode dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria (Marva Collins).
Professor é o sal da terra e a luz do mundo. Sem vós tudo seria baço, e a terra escura. Professor, faz de tua cadeira a cátedra de um mestre. Se souberes elevar teu magistério, ele te elevará à magnificência… Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. Melhor professor nem sempre é o de mais saber e, sim, aquele que, modesto, tem a faculdade de manter o respeito e a disciplina da classe (Cora Coralina).
O verdadeiro amor não conhece fronteiras, nem preconceitos raciais ou sociais, nem divergências religiosas ou interesses materiais. O verdadeiro amor nasce porque tem de nascer, pois é como uma flor que desabrocha sob o calor do sol, para que simplesmente cumpra o seu destino. O mestre deve ensinar com verdadeiro amor, desenvolvendo a bondade, a verdade e o aprécio pela beleza entre as suas crianças, não dando o peixe, senão ensinando a pescar (Robindronath Tagore).
Àqueles que quando deveriam ser simplesmente professores, foram mestres, nos transmitindo seus conhecimentos e experiências; que quando deveriam ser mestres foram amigos e em sua amizade nos compreenderam e nos incentivou a seguir nosso caminho, expressamos os nossos maiores agradecimentos e o nosso profundo respeito, que sempre serão poucos diante do muito que foi oferecido (De um escolar sensível).
Eu me lembro de você, professor, eu me lembro e muito. A sua paciência, o seu amor multiplicado por quarenta, na doação sem limites, sem restrições. Mas eu não via, não sentia essas malhas de carinho que me envolviam, que me tocavam e se transformavam em luz. Eu recebia, mas não reconhecia você plantou uma semente dentro de mim, que agora eu sinto, germinou, cresceu, virou botão e floresceu. Mas só agora, quando a distância de você se conta em anos de vida, eu parei para pensar e a sua figura cresceu dentro de mim. Parece até que eu voltei a ouvir a sua voz e senti a sua presença em tudo que fiz, em tudo que vivi. Você foi o pegureiro das minhas ações, das minhas determinações. Foi sua voz que me levantou nas horas difíceis, que me deu novas forcas, que mostrou que cada dia é uma nova renovação…(Altamiro Souza, lembrando seu velho mestre).
Ninguém nega o valor da educação e que um bom professor é imprescindível. Mas, ainda que desejem bons professores para seus filhos, poucos pais desejam que seus filhos sejam professores. Isso nos mostra o reconhecimento que o trabalho de educar é duro, difícil e necessário, mas que permitimos que esses profissionais continuem sendo desvalorizados. Apesar de mal remunerados, com baixo prestígio social e responsabilizados pelo fracasso da educação, grande parte resiste e continua apaixonada pelo seu trabalho. A data do dia dedicado ao mestre é um convite para que todos, pais, alunos, sociedade, repensemos nossos papéis e nossas atitudes, pois com elas demonstramos o compromisso com a educação que queremos. Aos professores, fica o convite para que não descuidem de sua missão de educar, nem desanimem diante dos desafios, nem deixem de educar as pessoas para serem “águias” e não apenas “galinhas”. Pois, se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda (Paulo Freire).
Ser transmissor de verdades, De inverdades… Ser cultivador de amor, De amizades. Ser convicto de acertos, De erros. Ser construtor de seres, De vidas. Ser edificador. Movido por impulsos, por razão, por emoção. De sentimentos profundos, Que carrega no peito o orgulho de educar. Que armazena o conhecer, Que guarda no coração, o pesar De valores essenciais Para a felicidade dos “seus”. Ser conquistador de almas. Ser luitador, Que enfrenta agruras, Mas prossegue, vai adiante realizando sonhos, Buscando se autorrealizar, Atingir sua plenitude humana. Possuidor de potencialidades. Da fraqueza, sempre surge a força Fazendo-o guerreiro. Ser de incalculável sabedoria, Pois “o valor da sabedoria é melhor que o de rubis”. É… Esse é o valor de ser educador. (Um escolar com espírito poético).
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço) e o fundo do filme de Claude Berri anteriormente resenhado.
Organizar nos estabelecimentos de ensino dos diferentes níveis uma amostra dedicada a o tema central da figura e o ofício de mestre e professor. Na mesma devem figurar textos, lendas, poemas, desenhos, frases e aforismos elaborados e redigidos pelos escolares. A amostra pode ser enriquecida com fotos de grandes educadores, e também podemos editar ou policopiar uma monografia dedicada a este tema, aproveitando todos os materiais recolhidos.
Podemos organizar nas escolas primárias e secundárias da comunidade, de comum acordo entre estudantes e docentes para escolher os filmes, um ciclo cinematográfico de fitas em que aparecem mestres e professores realizando o seu ofício educativo-didático em escolas e aulas com alunos e crianças. Para a escolha correspondente dos filmes a projetar podemos procurar títulos da minha série do PGL «As Aulas no Cinema». E, como é lógico, incluir o filme do presente depoimento, dentro do ciclo. Que também pode ser uma amostra ou uma semana cinematográfica. E ali onde exista um Cinema Clube podemos solicitar a sua colaboração.
Título original: Le maître d´école (O mestre de escola).