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Educar com alegria e de forma lúdica (filme: «Mary Poppins»)

Aos educadores, mestres e pais, há que ensinar-lhes, como regra básica, que o que aprendemos com amor e alegria é o que nos faz melhores pessoas. A arte de ensinar jogando e de forma lúdica tem muito a ver com a vontade e o compromisso de quem a dá. Quando a aprendizagem se dá num ambiente de alegria, os educandos e estudantes formam-se felizes e nobres. Os primeiros educadores, que são os pais, têm a tarefa de educar com alegria desde que o bebé está no ventre materno, com canções, palavras amorosas, contos e outras formas, de tal maneira que a criança sinta o amor e o interesse desde antes de seu nascimento, e quando nasce se deve continuar na mesma linha, estimulando-a com o amor. Infelizmente cada vez mais nas aulas de primária e secundária os docentes se esquecem de usar a estratégia didática do jogo, sem dar-se conta do seu elemento potenciador da aprendizagem, relegando-o aos recreios e às aulas de educação física.

MARY POPPINS Foto17O jogo tem uma grande importância no desenvolvimento tanto sócio-emocional como cognoscitivo das crianças. Por isto, os mestres e educadores devem promover diariamente a utilização de jogos dentro do programa escolar, tendo em conta que os que se utilizem devem mudar de acordo com as necessidades de desenvolvimento e de aprendizagem das crianças, já que estas se modificam à medida que elas crescem. Por exemplo, durante os anos da escola infantil é necessário favorecer os jogos simbólicos e sócio-protagonizados, enquanto que as crianças mais velhas requerem de um maior número de jogos com regras. O que não significa que se não deva iniciar as crianças de infantil nos jogos e brinquedos com regras, nem que os jogos simbólicos desapareçam durante os anos da educação básica, embora as propostas que façam os professores devam adaptar-se às necessidades dos seus alunos e às exigências dos programas académicos. O jogo é um aliado estratégico da aprendizagem. Os especialistas no campo da psicologia infantil, a pedagogia, a sociologia e a docência, que coincidem com o que pensavam também os grandes educadores da história, desde a antiguidade, opinam acertadamente que as estratégias ideais que se devem incorporar nos trabalhos de aula são as atividades lúdicas, já que apresentam um montão de possibilidades educativas que contribuem para a melhoria e construção da criança como ser humano e membro social ativo. O jogo favorece o desenvolvimento intelectual, pois a criança aprende a prestar atenção na execução da tarefa, a respeitar as regras e o seu uso de palavra, a memorizar, a raciocinar e outras muitas funções. Através do jogo, os seus processos de pensamento ativam-se, desenvolvem-se e automatizam-se até conseguir ser conceitual, lógico e abstrato; noutras palavras: o jogo dirigido ajuda ao desenvolvimento do pensamento lógico, divergente, crítico e criativo. Já Piaget o comentava: «o jogo infantil é uma atividade cultural que desenvolve a inteligência».

Os jogos harmonicamente combinados, dirigidos e avaliados respondem aos três níveis da estrutura de pensamento: sensoriomotor, representativo e reflexivo. A criança necessita jogar para ter prazer, gozo, para aprender e compreender o mundo. O jogo é determinante na escola e contribui enormemente para o desenvolvimento intelectual, emocional e físico das crianças. Por meio do jogo, a criança controla o seu próprio corpo e coordena os seus movimentos, organiza o seu pensamento, explora o mundo ao seu redor, autorregula os seus sentimentos e procura alternativas para resolver os seus problemas emocionais. Em definitivo: transforma-se num ser com habilidades sociais corretamente instauradas. A atividade mental no jogo é contínua e, por isto, na medida que o docente desenhe e execute estrategicamente as atividades lúdicas, ajudará a que a criança atinja a sua coordenação psicomotriz, o seu desenvolvimento e aperfeiçoamento sensorial e percetivo, a sua localização no espaço e no tempo. Partindo deste interesse próprio das crianças, combinado com o acompanhamento do docente em cada atividade lúdica, alcançar-se-ão melhores níveis de socialização, identificação de liderança, fortalecimento de estruturas pouco empáticas, que diretamente melhorarão os seus níveis de atenção, planeamento e ordem na execução da tarefa escolar, brindando assim atenção integral e fortalecendo as suas habilidades cognitivas e afetivas. Mas, para atingir tudo isto, e desenvolver estratégias lúdicas, são necessários professores com alegria e dinamismo.

Para ser um bom docente, uma das principais qualidades é ser alegre. Os docentes tristes não deveriam dedicar-se a ensinar crianças. Teriam que dedicar-se a outros ofícios, e não ao de ensinar. O bom professor ou professora é aquele que tem uma personalidade alegre, atrativa, amorosa e cálida. Como a que manifesta a educadora de infância que aparece como protagonista no filme que tomo como base para o presente depoimento da série de «As Aulas no Cinema».

FICHA TÉCNICA DO FILME:

  • MARY POPPINS Cartaz4Título original: Mary Poppins.
  • Diretor: Robert Stevenson (EUA, 1964,140 min., cor).
  • Roteiro: Bill Walsh e Don DaGradi, segundo o relato do mesmo título de P. L. Travers.
  • Música: Richard M. e Robert B. Sherman. Fotografia: Edward Colman. Produtora: Walt Disney P.
  • Prémios: Todos em 1964. 5 Óscares à atriz, canção, banda sonora, montagem e efeitos visuais. Globo de Ouro à melhor atriz.
  • Nota: Pode ver-se entrando aqui.
  • As lindas canções do filme podem ouvir-se entrando aqui.
  • Atores: Julie Andrews (Mary Poppins, a babá), Dick van Dyke (Bert, Mr. Dawes), David Tomlinson (George Banks), Glynis Johns (Winifred), Ed Wynn (Uncle Albert), Hermione Baddeley (Ellen), Karen Dotrice (Jane), Elsa Lanchester (Katie Nanna), Arthur Treacher (Constable Jones), Reginald Owem (Admiral Boom), Matthew Garber (Michael) e outros atores secundários.
  • Argumento: Londres, 1910. Reinado de Eduardo VII. Um banqueiro, George Banks, resolve redigir um anúncio pedindo uma babá, após Michael e Jane, seus filhos, mais uma vez sumirem e fazerem Katie Nanna, a babá, pedir demissão. Tentando controlar a situação Winifred, a mulher de George, faz tudo para acalmar o marido, mas sua cabeça está voltada para a defesa dos direitos da mulher. As crianças também escreveram um anúncio, que difere bastante da babá que George pensa em contratar, tanto que depois de lê-lo o rasga em oito pedaços e joga na lareira, por tê-lo achado fantasioso demais. Porém, os pedaços de papel milagrosamente voam juntos até uma nuvem próxima, onde está uma pessoa muito especial: Mary Poppins. No outro dia chegam muitas candidatas para o cargo de babá, mas um vento misterioso as carrega antes de serem entrevistadas. Chega então Mary Poppins, que desce das nuvens até a casa dos Banks, usando um guarda-chuva mágico como paraquedas. Ela conhece Mr. Banks e concorda em ficar com o trabalho. Michael e Jane ficam fascinados com Mary Poppins, pois ela é exatamente a babá que sempre sonharam.

UM MUITO LINDO FILME MUSICAL E EDUCATIVO:

Procurando na internet alguma crítica sobre este filme, encontrei uma muito sensível e interessante da autoria de Paloma Contiero. Foi redigida em 16 de dezembro de 2014, e tenho a bem reproduzi-la no presente depoimento. Diz assim:

MARY POPPINS Foto1Eu já havia ouvido falar sobre Mary Poppins, mas nada sabia sobre ela. Quando se estreou o filme sobre Mr. Banks, minha vontade de assistir ao filme foi enorme, mas, para entender, decidi que seria melhor assistir ao filme original de Mary Poppins primeiro. E foi isso que fiz: comprei o DVD na edição 45 anos de Aniversário. A partir daí, fui apresentada ao incrível mundo de Mary Poppins e virei fã. Com uma introdução ao som de “Chim Chim Cher-re”, somos apresentados ao personagem Bert, um cara simpático e engraçado, que nos leva até a Cherry Tree Lane, nº 17. Essa é a casa da família Banks, onde conhecemos o Sr. Banks, um pai de família muito rígido – como podemos ver quando ele canta “The Life I Lead”. Também conhecemos sua esposa, Sra. Banks, que se empenha na luta ao direito das mulheres de votar; e conhecemos seus dois filhos, Jane e Michael. Quando a babá Katie Nanna pede demissão da casa dos Banks, a procura por uma substituta começa. Jane e Michael fazem, então, um pedido descrevendo a babá perfeita. Acontece que tal pedido é atendido por ninguém mais, ninguém menos que Mary Poppins. Trazida pelos ventos do leste, Mary Poppins chega aos Banks com atitude e toma o posto de nova babá das crianças. A partir daí, nós descobrimos que Mary Poppins não é uma babá normal: ela possui um lado mágico, cheia de truques que surpreendem as crianças e, até mesmo, a quem está assistindo.

Ao longo do filme, Mary Poppins proporciona diversas aventuras à Jane e Michael, acompanhada, na maioria das vezes, por seu amigo Bert. Logo no início, fica claro que Bert já conhece Mary Poppins, mas… de onde? Continuo me perguntando isso ainda. Será que, quando criança, Mary foi babá de Bert? Não sei, isso não é explicado em nenhum momento, mas, a sincronia entre os dois é tão grande e perfeita, que você nem liga para esse pequeno detalhe. Devo dizer, também, que Bert ainda é um mistério para mim: sempre por aí, cantando, limpando chaminés, fazendo desenhos no chão. É aparente que Bert não leva uma vida fácil, afinal, está sempre fazendo seus bicos aqui e ali para conseguir uns trocados, mas isso não o desanima, muito pelo contrário, Bert está sempre feliz, positivo, contagiando todos ao seu redor. Queria destacar três cenas do filme que, para mim, são as melhores. Primeiro, a cena de “Spoonful Of Sugar” nos apresenta melhor à Mary Poppins e, assim, podemos ver um pouco mais do que ela é capaz de fazer. Temos, também, a incrível cena de “Jolly Holliday”, onde vemos uma sincronia maravilhosa entre Mary e Bert, com cenas que misturam os atores com desenhos animados. É nessa cena em que aprendemos uma nova palavra (e uma das minhas favoritas: Supercalifragilisticexpialidocious!). Quando assisti ao filme pela primeira vez, eu me lembro de pensar: “Gente, que cena mais viajada. Dança com pinguins, corrida com cavalos de carrossel, caça à raposa… “, mas, no final, eu nem ligava mais pra falta de nexo que a cena tinha, porque é tudo muito incrível. A terceira cena que eu mais gosto é a dos limpadores de chaminés cantando “Step In Time”. Acho que essa cena é uma das mais longas do filme, com Bert e seus amigos limpadores de chaminés sapateando e cantando pelos telhados de Londres. Com certeza, um trabalho enorme para Dick Van Dyke, que foi sensacional mais uma vez. Uma coisa em comum nessas três cenas é o grande uso de efeitos especiais que, devo dizer, para um filme de 1964, são muito bons. Utilizando técnicas como stop motion, cenas ao contrário, desenhos animados, entre muitos outros, a magia de Mary Poppins fica ainda mais real para nós. Quando os ventos mudam de direção novamente, e Mary Poppins consegue transformar a vida da família Banks, tendo seu trabalho feito, chega sua hora de ir embora.

MARY POPPINS Foto9E o que dizer da incrível atuação de Julie Andrews como Mary Poppins? Julie já tinha uma carreira no teatro, tendo interpretado Eliza Doolitle em uma peça da Broadway, “My Fair Lady”. Na mesma época em que o filme da Disney estava sendo produzido, uma versão cinematográfica de “My Fair Lady” estava sendo planejada. O diretor convidou Audrey Hepburn para fazer o papel de Eliza ao invés de Julie, pois a mesma não tinha experiência no cinema e o diretor não achou que seria uma boa ideia colocá-la para fazer o papel. Porém, Julie foi convidada para dar vida à personagem de P. L. Travers e, totalmente bem-sucedida em sua estreia nos cinemas, foi indicada para o Oscar de Melhor Atriz, tendo vencido.

Outra atuação que merece destaque é a de Dike Van Dyke. Com seu sotaque, dancinhas e jeito brincalhão de ser, ele brilha como Bert, acompanhando Julie na incrível atuação, contribuindo para a sincronia perfeita entre os personagens. Não podemos esquecer dos atores Karen Dotrice e Matthew Garber como Jane e Michael Banks. Acho que atuação mirim é uma coisa complicada, mas os dois conseguiram fazer um ótimo trabalho. Infelizmente, Matthew morreu em 1977 por conta de uma pancreatite hemorrágica, com 21 anos.

A versão do filme que comprei é DVD duplo, sendo que um deles é apenas com extras sobre a produção do filme, entrevista com os atores de Mary e Bert na peça da Broadway, um reencontro entre Julie e Dike, entre diversas outras coisas, que mostram o quão interessante é o mundo de Mary Poppins. Eu sou suspeita para falar, porque amo musicais – um dos motivos por ter amado o filme – mas, na minha opinião, essa é uma das melhores produções que Walt Disney fez, tanto é que ganhou 5 Oscars. Mary Poppins também é um mistério para mim, sempre me pergunto quem, de fato, ela é… mas acho que isso é o que a deixa mais interessante ainda, aumentando meu amor pela personagem, aumentando sua magia.

OS MESTRES DEVEM SER ALEGRES E AFETIVOS:

MARY POPPINS Foto8Os mestres devem ser capazes de expressar e sentir ternura, estar sempre abertos e sensíveis às vivências afetivas de seus alunos, transmitindo na experiência de ensinar o gozo do conhecimento, revelando aos seus discípulos a maneira como o conhecimento enche de beleza a vida, contagiando-os de atitudes de respeito para si mesmos, de entusiasmo e calidez no seu relacionamento com os outros, de autoconfiança e valorização de suas possibilidades. Infelizmente, a escola costuma dissociar a aprendizagem dos sentimentos, relegando assim o mundo afetivo da experiência intelectual. Desta forma as pessoas agem regidas primordialmente por seus raciocínios lógicos sem considerar as implicações humanas das suas atuações, sem sentir o conhecimento. Tampouco se mistura a aprendizagem com a alegria, a motivação, o entusiasmo, o desejo e as distintas sensações corporais. É indispensável recuperar uma atitude amorosa na quotidianidade educativa. O amor nutre a preocupação constante e sincera pelo melhoramento do outro. Uma atmosfera cálida e humana é sempre garantia de uma aprendizagem melhor e mais significativa. Adicionalmente aos êxitos académicos um ambiente assim desenvolve outras atitudes essenciais para um bom desenvolvimento pessoal tais como: confiança em si mesmo, capacidade para escuitar, aumento da criatividade, desfrute da companhia dos demais, capacidade para dar e receber ternura e capacidade para expressar com espontaneidade distintos sentimentos. A afetividade é um elemento presente e fundamental em todos os eventos de interação escolar. Na construção de uma nova escola mais vinculada com a vida, o conhecimento e o afeto têm que estar estreitamente relacionados. Se um mestre não revela um interesse profundo e sincero nas disciplinas que ensina dificilmente fará significativa e motivante para os alunos a experiência de aprender. A tarefa de ensinar deve irradiar alegria, verdade e convicção para que induza aprendizagens jubilosas e comprometidas.

O bom mestre tem que ser alegre e amar a vida e não deve pretender que seus discípulos o imitem. O mestre verdadeiro é o que alenta e estimula os seguintes valores e aspetos: a audácia de ser diferente, o desejo de explorar o desconhecido, o valor de dissentir das crenças e opiniões generalizadas, as ganhas de sonhar outros mundos, o conhecimento de sim mesmo, a luita pela liberdade, o direito à felicidade, a procura da beleza e a rebelião contra a injustiça. Grandes pedagogos e educadores como Tagore, Freire, Freinet, Rubem Alves e mesmo Vittorino da Feltre, criador na época da renascença italiana da sua «Escola Giocosa» ou da Alegria, tinham muito claro isto que venho de comentar.

TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:

Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorámicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço e efeitos especiais) e o fundo do filme de Robert Stevenson anteriormente resenhado.

Podemos organizar um certame de redações, fábulas, poemas e desenhos, para os estudantes dos diferentes níveis do ensino realizarem nos mesmos propostas sobre as qualidades que gostariam que tivesse um educador modelo para o ensino atual. Com os documentos elaborados poderíamos organizar uma amostra ou exposição nas escolas e editar ou policopiar uma monografia sobre o modelo de mestre da escola atual e dos nossos tempos.

Organizar, utilizando a técnica do Livro-fórum, debates-papo entre estudantes e docentes sobre as qualidades que os pedagogos citados antes consideravam básicas num mestre. E isto depois de ler o que opinavam Tagore, que escreveu um formoso artigo intitulado «O mestre de escola», Freinet (o seu livro Conselhos aos mestres jovens é de grande interesse), Freire, Alves, etc. Depois, mesmo se podem fazer comparações entre as diferentes visões oferecidas por estes excelentes educadores.

 

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