As origens da atual crise no mundo

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Por José Paz Rodrigues (*)

Desde o passado dia 5 de outubro encontro-me de novo na escola-universidade de Tagore em Santiniketon, coração da Bengala da Índia. Aqui tem a sua casa Omortya Sen, que levou o Prémio Nobel de Economia em 1998, e que foi estudante da universidade tagoreana de Visva-Bharoti («Sabedoria Universal»), sendo seu pai muito amigo e colaborador de Robindronath Tagore. Infelizmente, este grande economista mora a maior parte do tempo nos EUA, o que não deixa de ser bastante paradoxal, dadas as suas ideias socialistas. Nos últimos anos vem por poucos meses a este formoso lugar, que Tagore batizara como «Morada da Paz».

Recentemente estive eu a falar com amigos comuns bengalis no Museu-Biblioteca de Tagore, onde investigo desde 2002 sobre várias facetas criativas do vate bengali. E falámos do tema central de hoje no mundo, o da grave crise que se está a passar em toda a Terra, e de momento mais nuns lugares que noutros. Os meus amigos foram-me iluminando sobre as causas e as origens da atual crise mundial, que com mais força se está a sentir na Europa, nomeadamente nos países mais ao sul do continente. Eu já intuía algo e as suas opiniões reforçaram mais as minhas intuições. O desenho perfeitamente planejado começou nos anos sessenta, nesse país que eu costumo chamar «Ianquelândia», palavra que quando a usava nas minhas aulas na Faculdade, provocava gargalhadas nos meus alunos. País que é a fonte da maioria dos planos diabólicos que durante décadas se foram desenvolvendo no planeta Terra, e especialmente ali onde havia matérias-primas importantes que espoliar e, por que não dizê-lo, roubar.

Todos os imperialismos que houve ao longo da história, e houve muitos, foram nefastos, mas para mim o que mais o norte-americano, o mais brutal e o mais infame, e o mais próximo no tempo. Aqui na Índia ainda são muitas as pessoas que se lembram do terrível que foi a dependência dos britânicos, que espoliaram o que quiseram infinidade de riquezas do que consideravam a «pérola da coroa», e não se levaram o comboio e os caminhos-de-ferro, porque sendo tão imenso, não cabia no Reino Unido. O qual estabeleceram no seu dia, não para ajudar os indianos, que sempre despreciaram, mas polos seus interesses económicos. Os filhos dos malvados britânicos foram os que chegaram a Norte América, muitos escapados e fugidos da justiça, do cárcere, malfeitores e ladrões. Quando chegaram ao Novo Continente iniciaram a aniquilação das muitas tribos indígenas que existiam no vasto território americano, para fazer-se com os seus territórios e riquezas.

A vasta produção cinematográfica que existe, e que durante décadas pudemos olhar nas telas das salas de cinema, do género chamado Cinema do Oeste («western»), apresenta uma ampla e exemplar panorâmica da epopeia americana, da aniquilação de infinidade de povos, da espoliação das riquezas, deixando em algum que outro lado algumas reservas de indígenas, para que as gerações novas vissem o que não se deve nunca fazer, como foi o extermínio de um povo e uma cultura milenar, que estava assente na terra que era sua. Foram muito poucos os filmes que se colocaram do lado dos oprimidos. A maioria elogiavam os colonizadores e ladrões, que rapinhavam tudo o que encontravam à sua passagem. Mais tarde, com o apoio do seu próprio exército, instalado em fortes para organizar-se, guardar os seus soldados e mandos, e atacar no momento oportuno. A filmografia de destacados diretores como Howard Hawks, Delmer Daves, King Vidor, George Stevens, Raoul Walsh, Nicholas Ray, Anthony Mann, Samuel Fuller, Robert Aldrich, William Welman, Budd Boetticher e, muito especialmente, John Ford, está pejada de filmes deste género cinematográfico, nos quais se conta a epopeia do extermínio do povo índio americano.

O berço de tudo foi Chicago

Da cidade ianque de Chicago só conheço de positivo que foi onde ensinou e realizou os seus projetos o pedagogo John Dewey, o representante americano mais importante do movimento educativo progressista da Escola Nova. De resto foi sempre a cidade dos gângsteres, da máfia, do crime organizado e de todos os contravalores. Por se fosse isto pouco, foi ali onde, principalmente, nos inícios dos anos sessenta, se desenhou a política económica mundial e a crise que está acontecendo hoje em grande parte do mundo, para enorme benefício de uns poucos e grandes sem-vergonhas sem escrúpulos, em detrimento de infinidade de povos, gentes, crianças, mulheres e homens de muitos cantos do planeta Terra. Ajudado polos seus «Chicago Boys» da Escola de Chicago, o cérebro de tudo isto, e autêntico desenhador do «programa» que implacavelmente se veio desenvolvendo nas décadas seguintes em muitos lugares e países, foi Milton Friedman (1912-2006), nome que jamais devem esquecer os meus leitores. O qual, para escárnio de todos nós, recebeu o Prémio Nobel de Economia no ano de 1976.

Colocado nas suas antípodas, o tagoreano Omortya Sen, laureado, como já comentei ao início, com o mesmo prémio, defendeu sempre o povo, os trabalhadores e a igualdade, sinalando que, para lutar contra a pobreza, não há nada melhor que apoiar decididamente a educação e a saúde públicas, e que isto é essencial (curiosamente, o que nos últimos tempos mais se está a cortar na Galiza e no resto do Estado). Ao outro lado, um economista sem escrúpulos como Friedman, como professor que foi das universidades de Columbia e Chicago, é a «alma mater» da funesta ideia do «livre mercado» e, muito especialmente, do macabro (nunca melhor dito) princípio de que em economia «quanto pior, melhor». Claro que, melhor para uns poucos gângsteres e sem-vergonhas: os fabricantes de armas, em primeiro lugar, as multinacionais, as grandes construtoras de âmbito mundial, de prédios e infraestruturas, as grandes empresas que dominam no mundo o mercado de alimentos, os grandes bancos cheios de ladrões, as grandes petroleiras, e todas aquelas empresas sem nenhum escrúpulo que têm mais poder que noventa por cento dos países que existem no mundo.

Por isto, a ONU hoje quase não conta para nada, e o macabro instrumento que aquelas têm é o FMI. Friedman também é o macabro economista defensor do cheque escolar, do monetarismo, do serviço militar voluntário para controlar melhor os exércitos, da economia social de mercado (o de social resulta um verdadeiro insulto), da liberalização económica, do controlo dos governos (a democracia é o que menos interessa), do excessivo culto ao dinheiro, do capitalismo puro e duro, infame e indigno, o que para progredir nada melhor que aumentar o desastre e provocar o «choque». Não deve admirar por tudo isto que, para Friedman, o verdadeiro modelo capitalista na prática é o microcosmos da cidade de Hong Kong, e eu digo que Deus nos apanhe confessados se este é um modelo que devemos imitar. Este desenho implacável, marca Friedman, foi levado a ferro e fogo, sucessivamente desde a década dos sessenta até a atualidade, no Chile dos setenta do fascista Pinochet, onde Friedman era admirado, no Reino Unido da Thatcher e nos EUA de Reagan.

Depois, mentindo descaradamente com profunda hipocrisia (aos EUA nunca lhes interessou a democracia noutros países diferentes do seu), por duas vezes no Iraque, provocando infinidade de vítimas inocentes, onde o que interessava era o petróleo, a água e, depois de destruir, fazer a reconstrução das suas empresas (de passagem também se consumiam as armas e munições, pois estas não se fazem para adornar). Mais tarde no Afeganistão, onde há grande riqueza de gás natural, e o quê faz ali o exército espanhol, ajudando os gângsteres dos EUA? O da Líbia foi outro caso curioso, nunca esclarecido, pois não interessa que se saibam as verdades (claro está, eu não quero defender o ditador que tinha o país). A crise atual na Europa, profunda nos países do sul, com decisões económicas muito erradas, de governos fantoches, fazendo o contrário do que deve fazer-se, entra perfeitamente no desenho de Friedman, pois os únicos beneficiados da mesma são os que falei antes, e quanta mais crise melhor para eles, e pior para o povo, os trabalhadores e o pequeno comércio. De forma clara e rotunda, o princípio do que antes falei, está-se a cumprir totalmente.

Em todos estes processos, os EUA, com desenhadores tão especiais, com Kissinger, Friedman e muitos «neocons» e banqueiros, com a promoção do «ultraliberalismo», modelo infame onde os haja, têm muita experiência histórica, ao longo de muitos anos e décadas. No próprio país, como antes sinalamos, em Cuba na guerra contra Espanha, na América Latina, colocando governos fantoches, de cima para baixo e de leste a oeste (o caso do Brasil é paradigmático), na invasão do Panamá e da ilha de Granada. Na Ásia: Coreia, Filipinas, Vietnam, verdadeira amostra do sem-vergonhas que foram na terrível guerra provocada por eles (o quê faziam ali? veja-se esse interessante filme de Coppola Apocalypse Now, uma amostra do que comentamos), Japão, onde Hiroxima e Nagasaki estão na nossa memória e coração.

Se não acordarmos a tempo, este ultraliberalismo tão bem desenhado, vai ser a nossa ruina. Vai haver muito mais sofrimento no mundo. Podemos voltar às épocas escravistas. Desaparecerão a educação (o infame ministro Wert está feliz) e a saúde públicas e as ações de caráter social e humanitária. Hoje mandam os «mercados» (meter neste conceito todo o negativo que existe), que controlam uns poucos sem-vergonhas muito poderosos, não eleitos democraticamente, diante os quais poucos governos dignos que existem, nada ou pouco têm que fazer. Há quem diz, e se calhar não sem razão, que estamos a viver a terceira guerra mundial. De outro estilo, mas guerra ao fim e ao cabo. Porque das guerras é de onde aqueles sem-vergonhas levantam grandes fortunas.

Paralelamente a tudo isto também existe no mundo uma grande crise de valores humanos. Tema este que merece outro artigo que hei de escrever proximamente. Porque também é algo muito importante a analisar, ao estar igualmente na base da crise atual que nos invade.

 

(*) Didata e Pedagogo Tagoreano.