As mulheres da Índia

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Por José Paz Rodrigues

(Didata e Pedagogo Tagoreano)

O outro dia um meu amigo e médico ourensano que encontrei pola rua, criticou-me que nos artigos dedicados à Índia falasse tão bem deste país. Justifiquei-me dizendo-lhe que era consciente disso. Que o fazia porque, dum país tão extraordinário em tantas e tantas cousas, onde de cada cem oitenta são boas e positivas, só se fala nos meios das negativas. Criando nos cidadãos do mundo preconceitos e estereótipos injustos e equivocados. Que, para falar da Índia, não se pode fazer desde a distância, que é necessário visitá-la e conviver por um tempo com indianos e indianas. Que não existem países nem culturas perfeitas e que a indiana também tem os seus defeitos. E alguns muito graves, como a horripilante burocracia herdada dos britânicos, a falta de segurança social, a excessiva poluição em muitas das suas cidades, a não escolarização de muitas crianças do rural… E, especialmente, a profunda marginalidade que sofrem aqui as mulheres indianas. Já para não falar das da coletividade muçulmana.

Agora que me encontro outra vez neste grande país, quase um continente, quero trazer à baila a situação em que se encontram as mulheres neste imenso subcontinente asiático. Ao contrário do que muitos pensam, não é a miséria e a fome o problema maior, que em ocidente, com tanta miséria mental, sim que temos problema. O problema maior, ao meu entender, depois da experiência de passar, desde 2001, um promédio anual de três meses residindo em Santiniketon-Bengala, é a discriminação que sofrem as mulheres indianas desde há séculos. Discriminação injusta e imoral, em que desgraçadamente são muitas as próprias mulheres culpáveis desta situação, ao continuarem com o modelo educativo a favor da desigualdade feminina.

Na Índia o melhor que há, ademais da alegria, a natureza, os valores pacifistas e o respeito pola vida, polas pessoas e polas ideias filosóficas e religiosas variadas, são as crianças – todas alegres, bondosas e educadas – e, por cima de tudo, as mulheres. Que ademais de formosas (inclusive as velhas), são a alma, a vida e o sustento dum país com mais de mil milhões de cidadãos. Que é o país que mais progride no mundo, com perto de 9 % do produto interno bruto anual. Diante do que comento, resulta tremendamente injusto o trato que recebem as mulheres. O governo teve mesmo que proibir as ecografias às grávidas, para evitar os numerosos abortos, ao descobrir que iam ser meninas. E que criar um ministério específico preocupado pola acolhida das muitas meninas abandonadas ao nascer. Porque as famílias consideram uma enorme carga ter uma filha mulher, polo posterior dote económico necessário para a poder casar. O problema maior para as mulheres é ficarem solteiras, e da primeira casta, por não encontrarem um homem da mesma condição, ficam bastantes solteiras. Um segundo problema o têm as viúvas hindus que têm de sair à rua vestidas de branco, não podem voltar a casar-se, nem comer mais carne, nem peixe, nem alhos, nem cebolas, nem ovos. Antigamente tinham que arder vivas na pira funerária do esposo, com aquele costume bárbaro chamado “sati”.

Nas cidades, lentamente, vão mudando um pouco as cousas. Trinta por cento estudam nas universidades, em comparação com os homens. No rural, porém, 10 % dos nenos vão à escola, e das nenas não chega a 1 %. Por isso é prioritário apoiar as escolas, que também há, que escolarizam as nenas, porque a educação da mulher é vital na Índia actual. Em Moldaga-Santiniketon e em Taldangra-Bamkura, visitei escolas rurais a que assistem nenas. Pola sua importância, apoio no que posso estas escolas para meninas, e todos os anos lhes ofereço livros e material escolar. Como em Kolkata, nas escolas para mulheres do Brahmo-Somalh, a que pertencia toda a família de Tagore. Que também acolhe meninas abandonadas, solteiras e viúvas. Gandhi e Tagore foram grandes defensores da mulher. E na escola de Tagore, desde 1901, pratica-se a coeducação e defende-se a igualdade.

Os livros sagrados hindus não falam em nenhum momento de que tenham que ser tratadas assim as mulheres. Que, embora muitas sejam iletradas, educam os seus filhos de maneira magistral, com amor e agarimo. Dedicando-lhes tempo, brincando e cantando com eles. E realizando-lhes as milenárias massagens aiurvédicas. Ver as mães da Índia de todas as castas e as sem casta o bem que tratam os filhos é um verdadeiro prazer.