As escolas galegas de emigrantes

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Por José Paz Rodrigues (*)

Os galegos só se unem fazendo-se solidários quando estám fora da Terra natal. Na Galiza estám todos contra todos. Bem seja nos grupos políticos e dentro dos mesmos, nas organizações sindicais, nas culturais, nas educativas e mesmo nas linguísticas. O que confirma aquilo que muitos pensam, que os maiores inimigos da Nossa Terra som os próprios galegos e galegas. E isto nom é de agora, é algo que vem de longe historicamente falando. Algo assim como instintivo e genético, como um sinal dum povo que quer suicidar-se.

O maior exemplo do que antes assertamos temo-lo na emigraçom galega. Os emigrantes, especialmente em países como a Argentina, o Uruguai, Cuba e, em menor medida, a Venezuela e o México, eram quem de se apoiarem entre si. Só ali, com verdadeiro sentimento galaico, eram capazes de juntar-se e associar-se, actuando todos a uma só voz e de mãos dadas, para criar centros recreativos, hospitais, bancos, entidades culturais, editoras, jornais e sociedades. Um dos mais formosos projectos que pôs a andar a emigraçom na diáspora americana foram as Sociedades de Instruçom. Algumas das quais ainda funcionam hoje, como a ABC do partido judicial de Corcubiom, que publica a estupenda revista Alborada.

Os emigrantes galegos faziam-se conscientes do importante que era a educaçom. Por isso, ao criar sociedades educativas, juntavam o dinheiro preciso entre todos, organizando variedade de actividades para arrecadar fundos e levantar logo escolas na sua Galiza. Que, com o apoio e o trabalho voluntário dos que ficavam na Terra, chegaram a construir arredor de 400 escolas galegas de emigrantes em todo o território galego. Cuidando nom só a sua localizaçom idónea na paisagem, senom também os espaços escolares adequados, as vivendas dos mestres e o modelo pedagógico-didáctico a desenvolver nas aulas com os estudantes. Similar ao da Instituiçom Livre do Ensino (ILE) de Giner e Cossío.

As comarcas do Val Minhor, do Deça, Vale da Barcala e Negreira, Costa da Morte, Ferrolterra e a Marinha lucense, som as zonas da Galiza onde mais escolas de emigrantes se construírom. Na nossa província temos, entre outras, a da Canda no nosso concelho de Pinhor, hoje centro cultural, e a de Vila Marim, sobre a que o nosso filho David tem investigado, pois um dos que, desde Cuba, mais luitou por criá-la foi o seu bisavó Pegerto Nóvoa. Há certo tempo que nós próprios investigamos sobre as escolas criadas na Costa da Morte pola ABC de Corcubiom com sede em Buenos Aires.

Aproveitando o nosso tempo de verão, um mês de Agosto, dedicámo-nos a percorrer os lugares em que se construíram cinco escolas das oito inicialmente previstas. Para isso visitámos e realizámos um levantamento fotográfico das escolas de Suarriba em Fisterra, Estorde em Cee, Neminha em Mugia e Passarela em Vimianço. O nosso trabalho de pesquisa foi publicado num dos últimos números da revista Agália. Em que também falávamos de que, ademais de sociedades, houve personagens chamados indianos que forjaram a sua fortuna e parte da mesma, como mecenas, a dedicaram para criar na Galiza escolas e outras instituições culturais. Eis os exemplos de José Carrera, Garcia Barbom, Blanco de Lema, Pedro Múrias, Jesús G. Naveira e Ramom Nieto Otero.

Porque bem o merecem, queremos destacar neste nosso artigo as valiosíssimas investigações sobre estas escolas, dos professores Vicente Penha Saavedra, que as investigou no seu conjunto, e a nossa companheira na Faculdade, que muito apreciamos, Mª Carmen Pereira, cuja tese de doutoramento (ainda inédita) versou sobre as escolas do Val Minhor, que tinham como inspector o ourensano Ignácio Ares de Parga, residente na Argentina. Também o professor da universidade compostelana Antom Costa Rico. Neira Vilas e J. M. Malheiro, que investigou sobre as escolas da comarca do Deça, publicando ademais numerosos artigos em jornais sobre as mesmas. A Secretaria Geral de Emigraçom, com Miras Portugal, publicou no seu dia um interessante livro, em que se recolhem fichas e fotos das construções de escolas e outros edifícios financiados pola emigraçom galega.


(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.