UM PAÍS TROPICAL

As Duas Marias



Scientific observation has established that education is not what the teacher gives; 
education is a natural process spontaneously carried out by the human individual, 
and is acquired not by listening to words but by experiences upon the environment. 
The task of the teacher becomes that of preparing a series of motives of cultural activity, 
spread over a specially prepared environment, and then refraining from obtrusive interference. 
Human teachers can only help the great work that is being done, as servants help the master. 
Doing so, they will be witnesses to the unfolding of the human soul and to the rising of a New Man
who will not be a victim of events, 
but will have the clarity of vision to direct and shape
the future of human society.

Maria MontessoriEducation for a New World

Queremos hoje falar duma mulher de ciência. Chamava-se Maria.

Com estes dados só, intuímos que o leitor estaria a pensar em Maria Skłodowska (1867 – 1934), mais conhecida pelo seu nome de casada, Marie Curie. E não admira, pois essa Maria foi a primeira cientista, homem ou mulher, em ser galardoada com dous prémios Nobel. O primeiro, o de física, em 1903 pelos seus estudos sobre a radiação e o segundo, o de química, em 1911 pela descoberta do rádio e o polónio. Vítima do machismo imperante na época, da xenofobia, da moral judeu-cristã e do fundamentalismo religioso, a cientista franco-polaca teve que fazer frente ao longo de toda a sua vida às mais flagrantes calúnias e discriminações. Porém, nenhum atranco logrou nunca detê-la e, com admirável determinação e perseverança, Maria soube sempre encontrar ou construir os caminhos da criatividade científica, chegando a inventar e desenvolver as unidades móveis de raios-X que operariam nos campos de batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Os seus restos mortais repousam desde 1995 no Panteão de Paris, sendo a primeira mulher a quem a República Francesa, a qual, paradoxalmente, é representada com rosto de mulher, concedeu essa serôdia honra.

Maria Montessori

Maria Montessori

Hoje, porém, imos falar duma outra Maria. Uma outra Maria cuja privilegiada mente científica nada tinha que invejar à da primeira, mas que, contudo, não costuma ser considerada entre o elenco de mulheres cientistas. Estamos a nos referir a Maria Montessori (1870 – 1952). Coetânea da primeira, esta segunda Maria foi também uma pioneira, uma autêntica quebra-gelo que traçou os caminhos pelos que depois transitariam muitas outras mulheres. Assim, Montessori foi a primeira mulher estudante de medicina e cirurgia em Roma (a segunda em toda a Itália), obtendo o seu doutoramento em 1896.

Observamos inúmeros paralelismos entre vidas destas duas pioneiras da ciência e, embora, estes breves apontamentos não tenham uma intenção biográfica, o amável leitor imaginará sem dúvida que os entraves na vida pessoal e profissional que a Montessori teve de transpor na Roma da viragem de século não foram em absoluto menos formidáveis do que aqueles aos que a Skłodowska-Curie teve de fazer frente em Paris. Sim, pois ambas as duas Marias ousaram desafiar as rígidas convencoes da época, não apenas no eido profissional, se não também no pessoal.

Ainda estudante, Maria Montessori começa a trabalhar num projeto de investigação liderado pelo Dr. Giuseppe Montesano, um dos precursores da neuro-psiquiatria infantil na Itália, professor de psiquiatria e amante de Maria e pai do seu único filho, Mario Pipilli. Montesano estava a estudar crianças que tinha “resgatado” dum manicómio da capital italiana. Porém, a chegada de Montessori ao projeto vai conferir a este uma dimensão inesperada. Porque Montessori, para além do estudo das características psicológicas e do perfil psiquiátrico destes miúdos, começa a interessar-se também pela maneira em que estes aprendem. Através duma minuciosa observação, Maria vai identificando uma série de patrões de aprendizagem que ela acha serem inatos e, portanto, universais. Começa então a desenvolver uma metodologia didática concebida para respeitar e reforçar esses patrões naturais em troques de opor-se a eles e obstaculizá-los.

Pese achar-se imersa num doloroso trauma pessoal(*), Montessori consegue que todos os seus “alunos” passem com sucesso a revalidação do ensino primário. E não apenas isso, se não que a média obtida pelas suas crianças consideradas “loucas” e “retardadas” é sensivelmente superior à dos estudantes normais. A imprensa internacional faz-se eco deste inusitado sucesso e Montessori começa a virar famosa, o que despertará as invejas dalguns dos seus colegas. Mas enquanto o mundo se questionava, maravilhado, sobre a natureza desta milagre, a pergunta que ronda a cabeça da Montessori é a inversa: Como é possível que as crianças normais não obtenham resultados muito superiores? É assim como nasce o seu interesse pela pedagogia.

Se os padrões de aprendizagem e os “períodos sensíveis” identificados por Montessori com crianças “deficientes” (que na sua maioria não eram tal, se não simples crianças normais provenientes de famílias desestruturadas dos bairros mais desfavorecidos)  eram realmente inatos e tinham uma base neuro-fisiológica, esses mesmos padrões deveriam ser observados em crianças “normais”. Tal era a hipótese de partida de Montessori. Para comprová-lo necessitava um laboratório “equipado” com crianças normais. Porém, as autoridades educativas italianas rejeitaram sistematicamente os pedidos de Montessori para trabalhar com alunos normais sob o pretexto de que ela, doutora em medicina e psiquiatria, não estava qualificada para ser professora no ensino primário.

A sua oportunidade chegou do sector privado, mas não precisamente do ramo educativo, se não do da construção. Uns homens de negócios estavam a desenvolver um projeto piloto de vivendas nos bairros mais desfavorecidos de Roma. Pretendiam que o Estado financiasse o projeto. Mas tinham um problema: As crianças não escolarizadas do lumpenproletariat romano que estava chamado a ser o beneficiário do projeto entravam nos edifícios em construção, roubavam ferramentas e materiais e ocasionavam estragos nas instalações. Através dos seus contactos na inspeção educativa, os investidores conheciam as pretensões de Montessori e propuseram-lhe fazer-se cargo destas crianças. Ela recusou inicialmente mas finalmente, fruto do seu sentido da responsabilidade cara essas crianças, aceitou a oferta. Foi assim como nasceu em Roma a Casa dei Bambini, que ainda existe hoje.

A observação científica neste ambiente de trabalho, que Maria compaginou com a suas lavouras docentes na universidade e com o exercício da psiquiatria, permitiu a Montessori confirmar e ampliar as suas teses assim como aperfeiçoar o método que leva o seu nome. Durante todo este período, assim como durante toda a sua vida, Maria Montessori acompanhou de forma absolutamente estrita e sistemática todas as novas descobertas científicas, particularmente aquelas que no campo da genética, da citologia, da neurologia e da fisiologia se achavam mais diretamente ligadas ao desenvolvimento e à aprendizagem nas crianças.

Assim mesmo, também realizou um imenso trabalho de divulgação da sua pedagogia que a levou a percorrer todo o mundo. Embora o seu objetivo político principal, que era que a República Italiana instaurasse o método Montessori no curriculum educativo de todas as escolas públicas, fracassou, hoje existem escolas Montessori em quase todos os países do mundo, muitos dos seus princípios pedagógicos impregnam já, de maneira transversal, as escolas convencionais (particularmente as maternais)  e o método Montessori está a virar, perante a evidente inadequação dos paradigmas convencionais para dar respostas ajeitadas no mundo de hoje, um dos métodos pedagógicos alternativos mais em voga nos nossos dias.

Mas, a diferença doutros métodos, baseados em apriorismos filosóficos e ideológicos sobre como a educação e o mundo deveriam ser, o método Montessori, fundamentado na observação empírica à luz do conhecimento fornecido pelas ciências naturais, constitui a primeira e mais completa aproximação científica ao mundo da pedagogia.

NOTA

(*) A causa foi que a influente família Montesano sequestrou o filho de Maria, cuja gravidez e parto ela levou em segredo, e entregou-o a uns campesinos romanos. As opções com que foi confrontada a mãe eram: quer resignar-se e poder ver o seu filho no tempo de lazer, quer não vê-lo nunca mais. Cumpre não esquecer que segundo a legislação vigorante na Itália da época a patria potestas pertencia exclusivamente ao pai.

BIBLIOGRAFIA

Obras da própria Montessori.

  • The Absorbent Mind (A Mente Absorvente), Maria Montessori. Este é se calhar o livro da autora que explica com mais claridade os princípios que fundamentam o método Montessori. Escrito originalmente em inglês, o estilo é cru e pouco elegante. Porém é seguramente a melhor obra para iniciar-se no mundo da pedagogia Montessori nas palavras da própria doutora. Como nota curiosa, o livro provoca uma rejeição visceral em determinados leitores norte-americanos. Em geral, por causa das alusões que Montessori faz ao marxismo como ideologia libertadora (de facto, o que ela afirma é que a sua pedagogia é mais revolucionária e libertadora do que o marxismo). Também resulta ofensiva para mentes imbuídas no pensamento politicamente correto a atribuição de características particulares às distintas “raças” humanas (na verdade os comentários de Montessori não têm nada de racistas, são simplesmente expressões banais no contexto histórico no que foram realizadas). Finalmente, o feito de Montessori ter sido “criacionista”, no sentido católico do termo, também pode fazer a mais de um duvidar do rigor do seu pensamento.
  • Education for a New World (Educação para um Mundo Novo), Maria Montessori. Esta é uma obra mais filosófica do que metodológica, mas imprescindível para qualquer pensador interessado em questões pedagógicas.

Obras sobre o método Montessori.

Há muitas. Vou citar apenas a que estou a ler eu neste momento:

  • Montessori: The Science Behind the Genius (Montessori, A Ciência por Trás do Génio), Angeline Stoll Lillard, 2008. Este livro faz uma análise do método Montessori à luz das descobertas científicas posteriores à elaboração das teorias de Maria Montessori.

FILMOGRAFIA

  • Maria Montessori: Una vita per i bambini (Montessori, Uma Vida pelas Crianças), 2007. Trata-se dum telefilme biográfico de marcado carácter feminista que condiz com alguns dos estereótipos do género dos telefilmes de sobremesa. Nomeadamente, é romântico, lacrimogéneo e bastante maniqueísta. Porém a qualidade do roteiro, das atuações e do attrezzoestão muito por cima da média. Não explica muito do método Montessori mas é interessante para quem quiser conhecer as vicissitudes existenciais da sua criadora. Até onde eu investiguei, existe apenas a versão original do áudio em italiano (facilmente compreensível para nós). Felizmente, as únicas legendas com qualidade profissional que pude encontrar estão em galego do Brasil.
Edelmiro Momám

Edelmiro Momám

Miro Moman nasceu em Ferrol (Galiza). Morou na Galiza, EUA, Itália, Irlanda, França, Alemanha, Catalunha, Eslováquia, Luxemburgo e Rússia, país no que reside desde 2018. Para além de uma desmesurada paixão pela ciência, tem o vício de se interessar por tudo.
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  • Isabel Rei Samartim

    Tenho pensado fazer um comentário mais extenso, Miro, mas preciso tempo que hoje não tenho. A ver mais à noite. Por enquanto, parabéns, boa tentativa.

  • Isabel Rei Samartim

    Comento: O leitor (sic) pensaria em Marie Curie mas não por ela ter ganhado dous prémios Nobel, dado que o comum dos leitores (sic) provavelmente não terá, senão porque é a única mulher que aparece nas listagens convencionais de cientistas, normalmente em último lugar, ou de foto mais pequena, ou currículo mais breve, por trás de cientistas varões que não ganharam prémio algum. Não é que tenha em alta estima esse tipo de prémios, antes parecem-me absurdos e mentireiros, puro interesse e convenção vulgar, mas não deixa de chamar a atenção que num mundo em que esses prémios são importantes, quem os ganha por duas vezes não ocupe o primeiro lugar da listagem… É que as listagens são bem curiosas…
    Por outra parte, a história da Montessori é fascinante. Terei de conhecer mais esse método dela. Com certeza não tem nada a ver com o ensino brutal que a maior parte de nós temos sofrido, que parece que nos impele a ir de pancada em pancada para aprender, como se não soubéssemos aprender divertindo-nos ou jogando, como fazíamos de crianças, quando ainda sabíamos algo…

    • Miro Moman

      O primeiro parágrafo está errado quase no 100%. Mas não admira, na Espanha o analfabetismo científico é quase total. Por isso sempre foi e sempre será um país tão atrasado.

      Depois, claro, os apóstolos dessas religiões do pós-modernismo New Age que pululam por estes lares predicando as bondades da irracionalidade ainda contribuem mais para confundir o pessoal.

      A Galiza está perdida. Vou deixar os debates durante umas quantas semanas que já estou saturado.

      Saúde,

      Miro

      • Isabel Rei Samartim

        Isso, tu deixa a Galiza em paz, que ela faça o que ela queira…

      • Galician

        Competencias científica e matemática:

        “El alumnado gallego también mejoró sus resultados en la competencia científica, en la que nuestra comunidad consigue 512 puntos, 11 más que la media de la OCDE, 16 más que media estatal y 6 más que el resultado gallego en el informe PISA 2009. “Con este resultado en la competencia científica Galicia continúa siendo la Comunidad Autónoma ubicada en 5º lugar -explicó el conselleiro-. Si tomamos como referencia la puntuación media gallega en esta competencia, no es significativamente diferente, desde el punto de vista estadístico, a la de países como Alemania, Suiza, Reino Unido, Canadá, Países Bajos, Polonia, Irlanda, Australia, Nueva Zelanda o Eslovenia.”.

        Fonte: Relatorio Pisa OCDE 2012
        http://grupoescomunicaciongalicia.com/artigo/34823/xunta-asegura-pisa-situa-galicia-encima-promedio-estatal-tres-competencias.html?PHPSESSID=b1ecba26ecac0d473cb44700ecec5006

        • Miro Moman

          Na Galiza as pessoas em geral são mais trabalhadoras do que no resto do estado. É uma questão cultural. Relacionado com isto, também são melhores estudantes.

          • Galician

            Sim, mas tampouco na Espanha os resultados são maus, na media da OCDE mais ou menos… Eu não vejo atraso nenhum a esse nivel, nomeadamente na Galiza.

            Estou a falar claro da gente de 45 anos para baixo. E não das gerações perdidas do franquismo…

          • Miro Moman

            Duas cousas:

            1.- Na Espanha, a diferença doutros países, a ciência não é considerada parte da cultura. Cultura são as artes, as humanidades, as letras e o entretenimento. O liceu é o único e último ponto de contacto da maioria das pessoas com a ciência. As elites intelectuais mais influentes não sabem de ciência nem estão ao dia das últimas descobertas.

            2.- Nos últimos tempos estamos a assistir a um auge das filosofias que vindicam a irracionalidade e o anti-cientificismo. Incluso entre as camadas mais educadas da sociedade. Particularmente na esquerda. Na direita, como já têm o catolicismo, como bem diz o Bastos Boubeta, não têm falta de relativismos pós-modernos nem de espiritualidades New Age.

            Mas a esquerda anti-sistema, e agora também a main stream, não sabe o que é a ciência e acha que faz parte do sistema porque a propaganda e o marketing liberais empregam a ciência como arma. Como o pessoal é analfabeto em temas científicos, não sabem distinguir a boa ciência da propaganda, acham que tudo é o mesmo e rejeitam tudo. Também há muito medo de que as descobertas científicas contradigam os credos de cada um.

            Nestes mesmos foros houve quem afirmou que a ciência era um invento do capitalismo industrialista para enganar o pessoal com um falso critério de autoridade.

            Perante este processo involutivo da nossa civilização, a qual, farta de si própria semelha que quer voltar às trevas da irracionalidade e a superstição, honestamente, o desempenho dos adolescentes nos testes não semelha um parâmetro muito relevante.

          • Galician

            Bom, não sei te dizer. O relatório PISA é um estudo mais ou menos “científico” que mede a cultura e nivel científico (nunca melhor dito) dos escolares da Galiza, Espanha e muitos outros países. Eu não sei se os “intelectuais” (palavra elitista por si mesma) da Galiza tem muita cultura científica ou pouca mas sim sei que a população da Galiza (os escolares) tem bastante cultura científica. Isso é o realmente importante para mim.

            E homem, e que a ciencia tem muito de ideologia (mesmo as ciencias chamadas “duras”) dize-o muita gente, incluídos algúns dos maiores filósofos da ciencia que conhecemos: Lakatos, Feyerabend, Bunge, etc… O próprio Edgar Morin fala muito disso nos seus textos e também fala da importancia da cultura humanística junto com a cultura científica. As duas são precisas e complementares:

            http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/446767/a-cabeca-bem-feita/

          • Miro Moman

            Exato. Acho que a tua postura reflicte perfeitamente a postura dessa esquerda que tanto desapareças.

            Estás a misturar maças e laranjas. Uma cousa é um filósofo humanista como Morin, que fala por falar, e outra filósofos da ciência como Lakatos ou Feyerabend, que sabem do que falam.

            Porém, as visões de Lakatos e Feyerabend são quase antitéticas. Pessoalmente acho a crítica epistemológica de Lakatos, como bom discípulo de Popper e Kuhn, racional e centrada. Veja-se por exemplo:

            http://coraifeartaigh.wordpress.com/2011/02/11/kuhn-vs-popper-the-philosophy-of-lakatos/

            Feyerabend, a quem conheço bastante melhor, deixa-se levar pelas suas crenças anarquistas e anti-sistema. Eu concordei com Feyerabend um tempo. Até que me precatei de que as suas teorias não conduzem a nenhures. São involutivas e, por palavras de Lakatos, “degeneradas”.

            Pela contra, a crítica de Lakatos, embora sem concordar com ele no cento por cento, é constructiva.

          • Galician

            Já sei homem que Morin não é um filosofo da ciencia “strictu sensu” mas sim um bom teórico da educação que tem falado bastante das lacunas conhecimento em geral e do conhecimento científico em particular e dessa necessidade de complementar ciencias e humanidades, com a que concordo absolutamente.

            E se gostas de Lakatos concordaras então nessa ideia que ele apresenta (núcleo duro e cintura protectora) de que a ciencia tem muito de construção ideológica. Também fala muito disto Mario Bunge e explica em algúm dos seus livros quanto a ciencia tem tem realmente de ideologia. Eu há a porra de anos (em 2001 fiz um dous semestres na USC sobre isto) que estudei estas cousas e já não lembro muito. O anarquista Feyerabend conheço menos ainda que sim tenho consultado o seu trabalho “Contra o método”

            E por último, eu não critico a “esquerda”, critico o (ao meu ver) infantil e pouco inteligente “nacionalismo” que temos e tivemos na Galiza nos últimos decénicos.

          • Miro Moman

            Não conheço muito a obra de Morin. Suponho, que quando fala dentro do seu campo fará-o com mais rigor e conhecimento de causa. Mas tenho dous livros seus na casa e ambos são um compêndio superficial de lugares comuns. Num deles fala da Europa e o outro já nem lembro. Nunca consegui passar da metade. Na minha opinião parecem mais a obra dum político ou dum “tertuliano” do que a obra dum filósofo. Mas bom, entendo que a malta tenha que ganhar dinheiro para subsistir.

            Já Lakatos fala da “cintura protectora” com uma cousa racional e necessária porque permite proteger um determinado modelo interpretativo até que já não dá mais de si. Permite explorar o modelo em profundidade. Isto é importante entre outras cousas porque um modelo interpretativo pode continuar a ser útil incluso quando já foi superado.

            A mudança de paradigma tem de chegar no seu devido momento.

            Em qualquer caso aqui o debate não era entre ciências e humanidades. O que eu queria dizer é simplesmente que qualquer elucubrações sobre a “natureza” humana que ignorem a biologia estão eivadas e, na maior parte dos casos, são um bater o papo (ou o teclado ou a cante) estéril.

          • Galician

            Sim, a cintura protectora protege o núcleo, mas o núcleo pode ter muitos concorrentes e a escolha dum núcleo e não outro pode ser uma escolha perfeitamente ideológica.

            Referes-te à importancia do que dá em chamar “sociobiologia” na hora de comprender o comportamento humano (e de outros animais)?

          • Miro Moman

            Entre outras cousas. O que é claro é que não se pode pretender teorizar com rigor sobre qualquer questão ignorando o aspecto mais importante. A evolução tem milhões de anos e a cultura milhares.

          • Galician

            Sim, entendo o que queres dizer. A sociobioliologia é importante e mais hoje em dia que está na moda, mas não estou de acordo com reduzir tudo a sociobiologia nem muito menos. O cerebro é química, mas também é consciencia, cultura, etc…

          • Miro Moman

            E de onde vem a cultura? O cérebro é química e até o amor é química.

            Se calhar num futuro próximo teremos uma verdadeira inteligência artificial (IA) e então, que? Poderemos entender essa IA sem entender a tecnologia, o hardware e os algoritmos que empregamos no seu desenvolvimento?

          • Galician

            Sim, poderia chegar a ser química no plano micro do cérebro humano mas não podemos reduzir o entendimento dos sistemas culturais, sociais e antropológicos a isso pois há múltiples variáveis e factores que vão muito além los límites humanos e da propría capacidade humana para influir nesses sistemas.

            Tenho as minhas dúvidas de que consigamos algúm dia AI que possa dispor de consciencia e emocionalidade a nivel do cerebro humano…

          • Miro Moman

            E quando a AI crie sociedades e culturas? 😉

            Já a sério, não canso de recomendar a leitura deste livro:

            http://ukcatalogue.oup.com/product/9780199609543.do

            Normalmente é predicar no deserto, mas acho que tu em particular és muito capaz de comprá-lo e até de lê-lo.

            Saúde,

            Miro

          • Galician

            Obrigado, estou a ver o índice. Se fosse noutra época (quanto estudava na UPF em Barcelona (2002-2004) tive varias máterias ministratadas por Nolasc Acarin nas que tratamos estes temas) compraria mas agora estou em outras cousas.

            Com certeza que o cérebro das mulheres é diferente que o dos homens. O corpo caloso, por exemplo, é mais grande, a comunicação hemisférica é mais fluida nas mulheres que nos homens. Por isso se diz que as mulheres tem uma visão mais abranguente das cousas, são mais emocionais. etc. As pessoas homosexuais têm também um corpo caloso mais grande. As pessoas canhotas também são diferentes a esse nivel mas aí há que diferenciar os falsos canhotos dos canhotos certos.

            Porém, nessas questões temos que ir mais além disso (como indiquei acima) para entender os sistemas culturais e antropológicos que vão muito além da biologia. Com se explicam senão por exemplo os resultados dos estudos antropológicos feitos por Margared Mead em Papua Nova Guinea polos quais a mulher nessa sociedade ocupava um role completamente diferente daquele que historicamente assumiu nas nossas sociedades ocidentais. Um role mais dominante e completante hegemónico sobre o homem. Será que alí nascem as mulheres com cérebro diferente? E se nascem com cérebro diferente porque alí e não em outros lugares?

            Saúdo,
            Luís

          • Miro Moman

            Acho que o livro que venho de che recomendar pode-che ajudar a entender isso e muitas outras cousas.

            Também estou a ler este outro (ainda que não tem muito a ver):

            http://www.hup.harvard.edu/catalog.php?isbn=9780674430006

          • Galician

            E que explicação “biológica” daria segundo tu esse livro do diferente role social e cultural ocupado polas mulheres com relação ao homem em Papua Nova Guiné com respeito a outras sociedades?

            Obrigado polos links, guardo-os.

          • Miro Moman

            Lê e não sejas preguiçoso… 😉

          • Galician

            Leria mas agora não dá, tanta cousa para fazer que é impossível. Fiquei curioso em saber qual é a explicação “biológica” que ela dá disso. Pode dizer, é que têm cérebro diferente, ok. Mas porque tèm um cerebro diferente? E porque tiveram uma evolução diferente? Isso supera o campo da biologia…

          • Miro Moman

            Frio, frio 🙂

          • Heitor Rodal

            Acho que ninguém nega a diferença. A questão é que essa diferença não seja empregada para justificar desigualdades, questão em que acho que todos concordamos.

            Para além disso, eu também fiquei curioso com a explicação que possa dar a biologia ao diferente rol que jogam as mulheres em diversas sociedades, como no exemplo da Papua Nova Guiné ou o das ilhas do arquipélago das Bijagós.
            Aventuro uma hipótese: a explicação pode estar relacionada com os condicionantes geográficos ou económicos?

  • Heitor Rodal

    Desculpem lá, mas estou certo que ante o título do artigo a imensa maioria não terão pensado em primeiro lugar na Marie Curie, nem na Maria Montessori, mas antes nas “matérias marias” da escola [religião e ginástica?] ou, talvez, na virgem Maria e na Maria Madalena, seja lá o que signifique isso.
    Saúdos.

    • Miro Moman
      • Heitor Rodal

        Certo. Mais uma outra referência possível para quem seja picheleiro.
        E já que não se pode comentar lá, aproveito cá: muito bom texto o do ‘Espírito Santo’. Parabéns!

    • Miro Moman

      Heitor,

      Como semelha que o artigo de Isabel está saturado de comentários (50, não sei se estamos perante um fito histórico 😉 ), respondo aqui ao teu pedido de informação:

      http://ukcatalogue.oup.com/product/9780199609543.do

      http://www.theguardian.com/science/2013/dec/02/men-women-brains-wired-differently

      http://www.bsd-journal.com/about

      Como diz o Baron-Cohen (Simon, não Sacha): Do not forget about biology.

      Atenciosamente,

      Miro

      • Heitor Rodal

        Obrigado Miro! Com efeito, sempre é bom mirar de várias perspetivas e procurar aquilo que os anglos chamam trade-offs.

        • Miro Moman

          Com efeito. Mas não esqueçamos que se bem as teorias de Anne Campbell, por exemplo, são isso, teorias, elas não nascem do nada se não nascem do estudo e da análise dos resultados de décadas e décadas de investigações em diversos campos.

          Outro tipo de teorias políticas ou filosóficas ignoram (por vezes até deliberadamente) o conhecimento fornecido pelas ciências naturais. Esse tipo de teorias são intrinsecamente mais arbitrárias e frequentemente caem na categoria de crenças (já que exprimem desejos enquanto ignoram os factos).

          Então, se coincido contigo na necessidade de considerar todas e cada uma das possibilidades, cumpre também não esquecermos que não todas as teorias têm o mesmo nível de rigor intelectual.

          Embora não existam verdades absolutas, sim que há modelos interpretativos contrastados com a experiência e modelos interpretativos que simplesmente estão ao serviço duma determinada agenda social ou política. Não é tudo o mesmo, por muito que os apóstolos da irracionalidade (que têm medo de que a realidade venha estragar as suas formosas utopias) nos queiram fazer bem que sim.

          Não esqueçamos que houve pessoal que foi queimado, com os seus cálculos matemáticos na mão, por questionar a planaridade da Terra, na altura dogma de fé. Nem tudo é opinável…

          • Heitor Rodal

            Sim. O eterno debate entre ‘quantitative’ e ‘qualitative research’. Isso só já dava para um fio inteiro. Saúde.

          • Heitor Rodal

            Sim, o eterno debate entre ‘quantitative’ e ‘qualitative research’, que talvez seja o caso. É isso ao que apontas? Isso só já dava para um fio inteiro. Saúde.

          • Miro Moman

            Não. Falo da diferença entre especulação filosófica mais ou menos infundada e investigação séria. Olho, eu gosto das duas. Mas procuro guiar-me mais pela segunda. Falo também da diferença entre guerra de crenças e honestidade intelectual. Neste caso a primeira não me interessa.

          • Heitor Rodal

            Ok. Crenças, cada quem tem a sua, é claro. Depois há que achar a maneira de falar e acordar por cima de todas elas, com efeito. Ficou claro.

    • Galician

      Eu pensei nas duas Marias que temos em Compostela. Na Alameda, tão interessantes ou mais que essas que citas…

  • Ernesto V. Souza

    Bom texto, Miro, interessantes personagens… muito escreves….

    • Miro Moman

      Escrevi vários durante as ferias e mandei-nos quase juntos. Ainda fica algum na cola. Este saiu quase um mês depois de ser enviado.