Andrade

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montemor velho
Castelo de Montemor-o-Velho, no distrito de Coimbra.

Há alguns anos visitei o Baixo Mondego para assistir a um concerto na igreja de Santa Maria da Alcáçova, no interior do castelo de Montemor-o-Velho, perto de Coimbra. Nas conversas informais a seguir ao evento várias pessoas, depois de me reconhecerem como galega, me falaram da importância do rio Mondego para a história das navegações e das suas ligações com Compostela, bem documentadas na Baixa Idade Média. Os meus olhos pousaram-se por acaso num túmulo em que logo reconheci o brasão dos Andrade. O encontro com o túmulo despertou-me a curiosidade de saber mais sobre a presença da família Andrade em Portugal e assim dei com a notícia de que o irmão mais velho de Fernão Peres de Andrade, “o Bom”, Nuno Freire de Andrade, chegou a ser mestre da Ordem de Cristo e homem de confiança do futuro rei Pedro I, o de Inês de Castro. Penso, e o exemplo deste dado, como muitos outros, é mais um argumento para a minha opinião, que para entender a história do sujeito que discursivamente designamos Galiza é preciso não só conhecer o território, mas também sair dele. Não só porque na diáspora se relativiza e se compreende com outras lógicas o que diariamente se vive na Galiza, mas também porque as marcas e os referentes da nossa cultura e da nossa história estão espalhadas por muitos lugares, muito especialmente pela Finisterra ibérica, e porque o nosso devir, como o de qualquer outra coletividade, não raramente se decide longe.

Outro túmulo, o de Fernão Peres de Andrade na igreja de São Francisco de Betanços, está gravado na minha memória emocional, não por simpatia com o personagem, mas porque a leitura do seu epitáfio me deu vivamente aos meus então vivos olhos adolescentes a imagem de uma Galiza em que a língua não dividia classes sociais. Não muito longe, na igreja do mosteiro de Santa Maria de Monfero, há túmulos de Andrades de séculos diferentes. E com epitáfios em diferentes línguas. Quando por lá andei no ano passado vi gravada a história da aculturação dos galegos como em galeria de espelhos deformantes, não só na disparidade linguística entre os túmulos, mas também na placa explicativa atual que converte ao Nuno Freire de Andrade em “Nuño”. Emílio González López descreve este processo de desgaleguização da nobreza galega em El águila caída. Dei voltas ao túmulo deste Nuno Freire de Andrade, “o Mau”, que Roi Xordo enfrentou com a Irmandade Fusquenlha, e esquecendo o papel de vilão do relato popular fixei a atenção na cruz de Santo André gravada na almofada de pedra na que repousa a cabeça do cavaleiro. Desejei conseguir decifrar o signo, que ele fosse marca de um tempo em que a empresa política atlantista para a Galiza fosse evidente e não uma utopia como ainda vem sendo. Mas, como sistematicamente acontece com a história galega, é difícil reconstruir o contexto que esclareça o significado dos signos, porque é com muitas distorções, não sei desde quando, que vamos contando o nosso relato. E se é difícil o relato da história cultural dos galegos, ou da social, ou da económica, ainda mais é o relato da nossa história política.

Túmulo de Andrade, em São Francisco de Betanços.
Túmulo de Fernão Peres de Andrade, na igreja de São Francisco de Betanços.

É difícil, e nem sei se desejável, apurar o político e o social no nosso percurso como coletividade, até porque estamos dentro dos processos. Uma cousa é uma cousa e outra cousa é outra cousa. Uma cousa é entendermos os projetos políticos que em diferentes momentos se empreenderam desde o território galego e outra cousa é o que é que nós queremos ser em 2019. Eu sempre, antes ou depois, volto à Galiza de “Abaixo os castelos”, para sentir o sonho da vida comunitária, da terra simples, da “feliz moradia” dos versos de Avilês de Taramancos, a essa força que agroma em vários episódios da história galega para combater contra o poder temporal, à cultura da compaixão, do humano concreto, que precisa de pão, de beijo, de horizonte, a cultura da negociação, da ironia, da aventura. E da irmandade. Mas “tu estás no mundo, terra minha”, e não está o panorama político mundial para estas utopias de “Deus e os irmãos galegos”. Ou sim.

Mas com essa vocação democrática, o que faço com aquelas elites aristocráticas? Eu assumo como vocação a história sem reis e sem senhores, não por fado étnico mas porque assim me faz sentido, como mulher e galega, em 2019. Mas preciso de saber quem eram, o que queriam, os Andrade e outras elites, não por identificação com eles, não porque os considere um modelo ou para os mitificar, mas porque quero compreender o que este país chamado Galiza é e tem sido politicamente. O meu desejo para o mundo não me impede nem tentar perceber como pode ser variada a imagem do galego dependendo do ângulo histórico que adotarmos nem me faz esquecer que eu também tenho o meu ângulo nem me tira a vontade de apurar ao máximo os variados contextos históricos do nome da Galiza. A identificação entre pertença étnica e pertença social e história dos galegos como relato literário de resistência e redenção deixa de fora muitos personagens, Travas, Andrades, Castros, Andeiros, fundamentais para entender porque a Península Ibérica tem a configuração política que tem e não outra. E é fora da Galiza onde mais se sente a ação política dos galegos nesses tempos remotos, linha que já foi traçada por ensaios como os de Camilo Nogueira, a investigação de Anselmo López Carreira e outros.

Sé de Braga
Sé de Braga.

Acontece que a identificação social do galego está por todo o lado. Conto um exemplo entre imensos que tenho vivido. Há uns anos fiz uma visita guiada à Sé de Braga. Como venho fazendo, para não condicionar o relato, não identifiquei a minha origem ao guia e deixei-me ficar “camuflada” entre um grupo de turistas brasileiros. Assim pude ouvir a explicação do guia que identificava os personagens históricos peninsulares medievais unicamente com duas categorias nacionais: espanhóis e portugueses. Por esta lógica o conde de Trava era espanhol. O engraçado foi que à pergunta de um turista brasileiro sobre quem tinha construído o órgão, o guia deu a resposta: “um galego”, assim, com artigo indeterminado. O galego tinha nome, que deixou inscrito no órgão, com a legenda “Fr. Simon Fontanes. Gallaecianus. Fecit. Anno 1738”, segundo consegui apurar mais tarde. Os exemplos são constantes. Numa exposição atualmente patente no Museu da Cidade de Lisboa sobre as comunidades estrangeiras nesta cidade da Idade Média até à atualidade também há referências à comunidade galega. Acontece é que do imenso repertório de galegos que viveram e construíram esta cidade desde a sua conquista, foram escolher… imagens de aguadores. Ignoro o critério dos responsáveis pela exposição, mas olhando para a representação de outras comunidades não pode deixar de causar algum incómodo. O de sempre, a imagem de inconsciente, pobre, trabalhador manual, confundido com o meio natural… Noutras fontes encontro os relatos de sucesso dos emigrantes, mas parece que, no que ao relato histórico diz respeito, galego culto e com poder não existe ou passa a ser outra cousa.

O pior é que nós, como sociedade, temos esse preconceito interiorizado, e refletimo-lo no relato da língua, da cultura e da história. As experiências identitárias dos galegos dão uma panóplia de possibilidades narrativas da galeguidade bem mais ricas que as narrativas da galeguidade como classe social, narrativa cheia de ângulos mortos. Até a frase “se somos galegos é pelo idioma” tem de ser posta com um ponto de interrogação. Não porque a língua não seja estruturante para nos reconhecermos e sermos reconhecidos, mas porque somos galegos por algo mais que, quando se desarticula, também desarticula a comunidade. Este esforço pela memória é já secular no soberanismo galego, como também é a estratégia da desmemória, a aculturação e a desativação do significado político das ações nascidas no seio da nossa sociedade da parte do estado e os seus servidores.

Há ainda outra razão para darmos o nosso testemunho sobre o que foram os Andrade e outras famílias galegas da Baixa Idade Média. Andrade é nome simbolicamente carregado de valores guerreiros, de formação de ordens, da masculinidade violenta dos soldados, como os Andrade que deixaram memória da sua crueldade no território das Marinhas e contra os que se insurgiram as Irmandades. Militares que ganharam honras, privilégios, terras, ideologia, escolhendo bem o senhor ao que prestar vassalagem e lutando numa fronteira que estava bem longe da “virente Galiza”, em expressão do historiador Oliveira Martins. Foram os que deixaram o testemunho em pedra de uma linguagem simbólica que representa a mesma ideologia que se pode reconhecer nos relatos dos livros de linhagens da época como os do Conde D. Pedro, relatos que dão testemunho do domínio da natureza na mulher marinha, a dona dos pés de cabra ou algum outro personagem de mulher selvagem arrancada às forças telúricas e que o nobre toma para fundar a sua genealogia. A mesma ideologia de domínio da cruz sobre o lombo do javali na Ponte do Porco ou no alto da igreja do mosteiro de São Francisco de Betanços. Todos estes símbolos de domínio sobre a natureza deviam ser caros a homens novos como os Andrade. Tudo isto enunciado num tempo em que as cidades estavam a ganhar identidade, em que havia tudo menos paz social. Ninguém como nós tem marcadas no seu território as mudanças sociais que se entrelaçaram com as mudanças políticas nas partilhas de poder na Península Ibérica na Baixa Idade Média.

Ao mesmo tempo eles legaram a esse sujeito histórico chamado Galiza uma emergente cultura literária profana, em prosa, exemplificada na Crónica Troiana que Fernão Peres de Andrade mandou traduzir, com valores semelhantes aos que apoiaram outras linhagens do ocidente europeu, cultura que foi fundamento de estados. E vem tudo na enxurrada, a nascente literatura galega e os símbolos de domínio. A cultura de Fernão Peres de Andrade era livresca, também cultura galega, o que significa não ter fronteira com a portuguesa, e cultura nobiliária, com ideologia aristocrática, a meio caminho entre a apropriação e a demonização dos símbolos espirituais mais ancestrais do território, como exemplifica o motivo da caça do javali no seu túmulo, motivo comum a outros túmulos portugueses, como analisa o documentado artigo de Alfredo Érias publicado no Anuario Brigantino de 1999. Andando os séculos as fantasias militares e aristocráticas continuam a acompanhar o apelido. E também o roubo dos símbolos e os mitos. É só lembrar que Franco usou “Jaime de Andrade” como pseudónimo para o guião do filme “Raza” ou dar uma vista de olhos em alguma página de internet brasileira sobre genealogia. Ninguém, se não nós, galegas, tem as chaves da origem destes nomes que são comuns ao mundo em português, em Portugal, no Brasil ou na ilha do Príncipe. É importante para o futuro reconhecer as marcas que as relações de poder deixaram em todos e na ideologia que sustenta a ordem social e o imaginário dos estados se queremos que nalgum número de séculos a vida das pessoas, de todas as pessoas, tenha valor pleno nesta nossa Península Ibérica. E não podemos cumprir essa responsabilidade com este hábito da neutralização constante do significado político da Galiza nem com a interiorização do preconceito de classe sobre a condição de galego que naturaliza o espólio da nossa herança, dos nossos referentes históricos e culturais. Poderemos compreender assim, talvez, como se perdeu o reino e a independência, in illo tempore.

Máis de Maria Dovigo