Ďakujeme, že nekŕmite ovečky

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Por Edelmiro Momám

Vimos a Eslováquia duas ou três vezes por ano. Quase cada vez que venho apreendo que uma nova empresa local foi absorvida por uma companhia estrangeira, no caso mais frequente alguma grande multinacional. Acho que aginha não vai ficar em mãos eslovacas nada do feble tecido empresarial do país. Eu, que não sou economista, amiúde faço-me a seguinte pergunta: Um país no que a parte mais significativa do capital empresarial está em mãos estrangeiras, poderia considerar-se um estado independente? Ou, ainda, seria legítimo falarmos duma situação colonial se tal extremo chegar a verificar-se (assumindo que não tenhamos ultrapassado já esse ponto de inflexão)?

Não tenho respostas para estas perguntas, mas o que sim posso afirmar é que, com uma taxa de desemprego apenas superada na UE polas de Espanha e Letónia e com uns salários comparáveis aos dalguns estados latino-americanos, a situação económica do país semelha extremadamente precária. Desesperada, mais bem. Porém, paradoxalmente, os números macroeconómicos indicam que a economia não para de medrar, o qual conduz-me ainda a me perguntar o quê será realmente essa economia da que tanto falam e que relação terá ela, se tiver alguma, com a vida e o bem-estar das pessoas.

A versão oficial afirma que estes problemas são-lhes cousa do demo do comunismo, o qual, como vimos de apreender no museu da DDR em Berlim, obrigava as criancinhas a cagar de forma sincronizada. Semelhantes traumas psicológicos estariam na origem dos problemas que mostram agora estas gentinhas da Europa central, mal chamada do leste, para se adaptarem à mentalidade dinâmica que requer uma economia de mercado. Porém, anunciam, mais tarde ou mais cedo produzirá-se a tão ansiada convergência económica com a Europa ocidental. Seria apenas questão de tempo e de trabalhar duro. De trabalhar duro, isso sim, por nada e sem resmungar. Outro esquema interpretativo, mais fatalista pero igualmente supersticioso, viria sendo o da negra sombra, muito galego mas também muito do gosto eslavo.

Acho que já indiquei acima que não sou economista, porém, sem o ser, partilho com eles a convicção de que a famosa convergência de certo está-se a produzir. Sim. Mas não por cima como tentam fazer-nos acreditar, se não mais bem por baixo. Quer dizer, que não é que os eslovacos vaiam ter nunca o nível de vida ou os direitos laborais dum trabalhador alemão, o que eu observo é mais bem que os trabalhadores da Europa ocidental estão a convergir, devagarinho mas sem pausa, com os eslovacos. Cousas da competitividade. Já falei noutro artigo dos polacchizzati, mas falta-me por saber se o conto da convergência vai rematar aí ou se depois da polaquização vai chegar ainda a chinesização, que era o que nos faltava para sermos realmente competitivos.

Confesso que não lhes sei muito das cousas mundo, mas acho ter apreendido davondo para saber que os vencedores escrevem a  história, sim, essa molesta defunta, e também o presente. Sei por exemplo que após a invasão do Iraque, os americanos reorganizaram os museus de Bagdade para oferecerem uma outra visão da história pérsica. Ignoro se esta nova reinterpretação americana será mais fiel aos factos do que a versão do malfadado Saddam Hussein, mas o que fica claro é que é distinta e, deduzo, muito mais favorável aos interesses ocidentais na região. Este tipo de campanha de vacinação também a têm levado a cabo com grande sucesso, como sabemos, na Europa os vencedores da guerra fria. E repetem-na de forma periódica, quase diariamente, não vaia ser o demo.

Eu, não sei se será cousa da galeguidade, da velhice ou do pós-modernismo, ou se será simplesmente distorção profissional, mas ultimamente tenho a irritante tendência a não acreditar em nada. Nem sequer na negra sombra, o que já é dizer. De facto, quanto mais nisso penso, mais acho que o está a acontecer na Eslováquia é a consequência lógica dum processo perfeitamente planificado que visava converter os mercados virgens da Europa pós-comunista numa fonte inesgotável de mão de obra barata. Por isso, como aconteceu com o lucrativo negócio da guerra do Vietname, a precariedade económica nesses países vai durar tanto quanto pudermos fazê-la durar.

O corolário que tiramos de tudo isto é que, obviamente, nenhum governo eslovaco que aceite as receitas ultra-liberais impostas por Bruxelas vai ser quem de tirar Eslováquia do furado no que se encontra, pois essas receitas foram desenhadas precisa e especificamente para perpetuar esse furado em benefício dos grandes capitais ocidentais (e, de passagem, levar os trabalhadores do oeste para o mesmo furado).

NOTA: O título deste artigo significa, literalmente, “Agradecemos que não dêem de comer às ovelhas” e está tirado dum letreiro que se encontrava numa gaiola com ovelhas na feira medieval de Banská Bystrica, na Eslováquia central.