Actas do VIII Congresso da AIL: Da Galiza a Timor. A Lusofonia em Foco

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Joám Manuel Araújo

A Universidade de Santiago de Compostela (USC) publicou as Actas do VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas (AIL) [1], sob o título Da Galiza a Timor. A lusofonia em foco. Esse acontecimento decorreu em Compostela do 18 ao 23 de Julho do ano 2005. Apresentárom-se nas sessons perto de 400 comunicaçons, de que se publicam 180 em dous volumes de mais de 900 páginas cada um, editados sob as seguintes epígrafes:

  • A Construçom da Lusofonia (14 trabalhos)
  • Cánone e Cánones (20 trabalhos)
  • Ensino, Língua e Literatura (2 trabalhos)
  • Intelectuais e Política. Transiçons para a Democracia (6 trabalhos)
  • Língua, Cultura e Negócio no Contexto da Globalizaçom (7 trabalhos)
  • Língua e Sociedade na Lusofonia (7 trabalhos)
  • Língua: Aprendizagem da Língua. Língua Contrastiva (2 trabalhos)
  • Língua: Aspectos Gramaticais e Análise do Discurso (4 trabalhos)
  • Língua: História da Língua (8 trabalhos)
  • A Língua: Historiografia Gramatical (1 trabalho)
  • Língua: Léxico e Semántica (3 trabalhos)
  • Língua: Língua Literária (5 trabalhos)
  • Língua: Ortografia da Língua (2 trabalhos)
  • Literatura: Literatura e Outras Artes (4 trabalhos)
  • Literatura: Literatura Contemporânea (2 trabalhos)
  • Literatura: Literatura Portuguesa Contemporânea (6 trabalhos)
  • Literatura: Literatura Tradicional (1 trabalho)
  • Literatura: O Texto e o Corpo (2 trabalhos)
  • Literatura: Século XVIII (4 trabalhos)
  • Literatura Brasileira: Mário de Andrade (2 trabalhos)
  • Literatura Portuguesa: Camões (2 trabalhos)
  • Literatura Portuguesa: Lobo Antunes (1 trabalho)
  • Literatura Portuguesa: Pessoa, José Saramago (4 trabalhos)
  • Literatura/Cultura: Época Medieval/Renascentista (6 trabalhos)
  • Migraçons da/na Lusofonia (7 trabalhos)
  • Os Caminhos de Santiago (5 trabalhos)
  • Os Sistemas Culturais na Lusofonia Hoje (19 trabalhos)
  • Traduçons Literárias (1 trabalho)
  • Apresentaçom de Projectos (2 trabalhos)
  • Literatura: As Máscaras de Perséfone (4 trabalhos)
  • Llansol-Literaterras (2 trabalhos)
  • 25 Anos da Morte de Vinícius de Moraes (3 trabalhos)
  • 125 Anos de Folhas Novas, Aires da Minha Terra, Saudades Galegas (5 trabalhos)
  • Bicentenário da Morte de Bocage (2 trabalhos)
  • Tricentenário da Morte de António José da Silva (1 trabalho)
  • Centenário Erico Veríssimo (2 trabalhos)
  • Literatura: Machado de Assis (2 trabalhos)
  • Miscelánea (5 trabalhos)
  • Mesa dos Escritores (5 trabalhos)

 

 

Por citarmos o teor dos contributos defendidos e agora publicados, com perspectiva galega salientaremos os seguintes: “Un vangardista na Sombra: Luís Manteiga”, de Laura Tato Fontaíña (p. 83); “Aproximação às Análises de Xente d’Aldea. Versos Gallegos de Alfredo Pedro Guisado”, de Carlos Pazos Justo (p. 133); “Construir a Nação: Literatura e Identidade através da Ficcionalização da História”, de Francisco Salinas Portugal (p. 143); “Oliveira Guerra: Revista Céltica e alguma Poesia Satírica”, de Carlos Quiroga (p. 159); “A Emerxencia da Prosa Galega no Século XIX”, de Carme Fernández Pérez-Sanjulián (p. 359); “A Bibliografía Queirociana de Guerra da Cal como Campo de Luitas no Processo de Canonicidade de Eça de Queirós”, de Joel R. Gômez (p. 369); “Entre Lacunas e Excessos: Jornais Portugueses Versus o Jornal Brasileiro Portugal Democrático”, de Gilda Santos (p. 415); “’Filologia Jurídica’, Estudo Imprescindível ao Século XXI”, de Julio César Barreto Rocha (p. 471); “As Palabras do Poder: Inovação e Renovação Léxica no Português”, de Benjamim Moreira (p. 527); “O Reintegracionismo Galego: Um Ponto de Encontro”, de Bernardo Penabade (p. 541); “A Questão Galega e o Público Português. Uma Experiência na Internet (1998-2001)”, de Fernando Venâncio (p. 557); “A Galiza, Uma Lusofonia na Fronteira”, de José Luís Rodríguez (p. 571); “O Galego desde Portugal e o Portugués desde a Galiza. Algunhas Notas Sobre a Historia dunha Polémica Inacabada”, de Xosé Ramón Freixeiro Mato (p. 611); “Estruturas com Tópico Pendente Absoluto em Textos Literários Galegos e Portugueses Contemporâneos: Breve Análise Comparativa com os Possíveis Referentes do Discurso Oral”, de Iago Bragado Trigo (p. 669); “Aspectos Gramaticais nas Gírias Gremiais Galego-Portuguesas”, de Jorge Rodrigues Gomes (p. 677); “Arredor dalgunhas Fórmulas de Cohesión Textual cos Pronomes Demonstrativos en Galego”, de Xosé Manuel Sánchez Rei (p. 691); “Do Návia ao Mondego Semente da Língua Portuguesa”, de Isaac Alonso Estraviz (p. 723); “Galego-Português e o Mito das Origens”, de Xoán Carlos Lagares (p. 763); “Recepçom e (Re)Criaçom: Natália Correia e a Literatura Medieval Galego-Portuguesa”, de Maria Isabel Morám Cabanas (p. 773); “Apresentação do Projecto de Investigação Mulher e Ilustraçom em Portugal na Segunda Metade do Século XVIII”, de Raquel Bello Vázquez (p. 1.111); “Novas Linhas de Pesquisa no Ámbito da Ilustraçom em Portugal na Segunda Metade do Século XVIII”, de Elias J. Torres Feijó/ Raquel Bello Vázquez (p. 1.121); “Reflexos d’Além-Minho: Imagens e Arquétipos da Galiza na Comunicação Social Portuguesa”, de Joám Evans Pim (p. 1.301); “Uma História em Comum: Emigração Galega e Portuguesa no Rio de Janeiro”, de Érica Sarmiento da Silva (p. 1.323); “Santiago como Espaço de Representação da Ambigüidade Medieval”, de Elisabete Carvalho Peiruque (p. 1.383); “Usos e Percepções do Tempo na Historiografia do Extremo Ocidental da Península Ibérica”, de Isabel de Barros Dias (p. 1.393); “O Sonho dum Porto Infinito”, de José Vítor Graça Teixeira (p. 1.403); “A Rainha Peregrina –Lendas e Memórias”, de Maria de Lourdes Cidraes (p. 1.411); “Álvaro Cunqueiro, o Caminho de Santiago e Outras Peregrinações”, de Xosé-Henrique Costas (p. 1.421); “Os Poemas Galaicos e o Poema Ibérico ‘Modo Histórico Da Cidra’ na ‘Poesia Nítida’ de Fiama Hasse Pais Brandão”, de Jorge Fernandes da Silveira (p. 1.495); “Ecos e Eros no Ato da Criação em Vozes do Deserto, de Nélida Piñon, ou ‘Somos Livres Quando Criamos’”, de Maria Alice Aguiar (p. 1.513); “A Cara Oculta de Penélope: A Revisom do Mito”, de Aurora Marco (p. 1.719); “Rosalía de Castro na Crítica Feminista”, de Inés Rodo Montes (p. 1.727); “O Santo António da Devoção Literária de Rosalía de Castro”, de Isabel Dámaso Santos (p. 1.735); “A Correspondência de António Feijó e a Afirmação de Parentescos com a Galiza”, de J. Cândido Martins (p. 1.747); “Paisagem e Lonxanía: Das Notas de Ramón Otero Pedrayo para a Poética de Rosalía de Castro à Teoria da Paisaxe Galega“, de Josias Abdalla Duarte (p. 1.757); “Inês de Castro: Uma Voz Galega nos Lusíadas“, de Lucila Nogueira (p. 1.863); ou “O Mais Antigo Guia Alemão de Peregrinação a Santiago (1495)”, de Rolf Nagel (p. 1.881).

Também se incluem contributos literários do brasileiro Luiz Ruffato (“Paraguas Verdes [Itinerários em Santiago de Compostela]”, p. 1.897), do português Possidónio Cachapa (“Como Santiago Descolou do Chão e Ainda Bem”, p. 1.901), da brasileira Adriana Lisboa (“Desde Galiza”, p. 1.903), do angolano Ondjaki (“Na Pluralidade das Línguas”, p. 1905), e do galego Carlos Quiroga “Calulú com Jindungo”, p. 1909).

Som muitos os aspectos que se podem salientar deste empreendimento. Entre os mais salientáveis vale a pena destacar, em primeiro lugar, que na ediçom colaborassem quatro instituiçons: a Associação Internacional de Lusitanistas, a Fundação Calouste Gulbenkian, o Instituto Camões de Portugal, e a Cátedra UNESCO de Cultura Luso-Brasileira da USC. E que os organizadores utilizassem o cánone ortográfico da Associaçom Galega da Língua, como se verifica nas epígrafes assinaladas ou no seguinte texto (entre outros contributos) em que, ao apresentar o conteúdo, avançam que estes dous volumes “abrangem aspectos que vam da raiz matricial galaica ao revigorado ramo timorense, focalizando assim, com mais ou menos intensidade, todos os membros desta dilatada lusofonia e os vínculos que dizem respeito a esse espaço comum, a cujo conhecimento e afirmaçom este livro pretende contribuir”.

Surpreendem gratamente o grafismo (de Carlos Quiroga), e as numerosas fotografias que se inserem, de congressistas e de outros aspectos que dizem respeito a esse acontecimento. E o facto de que produtores galegos se ocupassem de temas nom galegos, e viceversa: que estudiosos de outros países lusófonos focassem assuntos galegos. Também merece destaque que se recolham acontecimentos do Congresso que é costume fiquem à margem de publicaçons como esta (v. gr. a homenagem a Rosalia de Castro; ou a atençom ao contributo da presença dos escritores pois, nom se esqueça, foi neste congresso em que por eles se lançou o termo “Galeguia” como possível nexo de uniom para denominar os países hoje ditos lusófonos, atendendo à origem da língua comum que partilham).

Resultaria descabido tentar analisar neste espaço os 180 trabalhos, que espelham as principais e as mais actuais preocupaçons existentes na Lusofonia. Dizer que os dous volumes evidenciam como as metodologias nom som inocentes, e a existência de umha pluralidade de interesses nos diferentes países do intersistema lusófono. Enquanto entre os investigadores galegos se privilegiam estudos com perspectiva sistémica, que tentam esclarecer muitos dos diferentes processos de que se ocupam como resultado de luitas e conflitos de interesses, insistindo nos confrontos que se dam na sociedade; especialistas de outros países ocupam-se mais de consolidar o cánone estabelecido. Todas som, é claro, perspectivas legítimas, mas dessarte nos trabalhos elaborados por esses produtores da Galiza emergem mais aspectos polémicos e de debate, favorecedores do diálogo, apresentados sobretodo por quem ocupam posiçons mais periféricas e que aspiram a maior centralidade. E é um acerto que os textos se apresentem acompañados de um cedé, o que facilita a sua consulta.

Focagens muito vanguardistas e outras mais tradicionais convivem assim, e transparece a pluralidade e a diversidade que de regra caracterizam os povos do intersistema lusófono e as pesquisas que deles se ocupam.

Os dous volumes, belamente editados pola Universidade de Santiago de Compostela, ao cuidado de três prestigiosos docentes da mesma, merecem ser lidos com a maior atençom e consultá-los com frequência, polo valioso dos seus contributos e polas múltiplas sugestons que oferecem. Muitas leituras impactantes, com certeza, se desfrutam nessas quase 2.000 páginas, que também resultam do maior valor para internacionalizar a Galiza e a sua cultura, pois poucas vezes em repositórios deste teor, de referência para universidades de numerosos países, atinge tanto protagonismo e dispom de tantas páginas para salientar os seus contributos. Citar ainda Regina Zilberman, a professora brasileira que presidia a Associação Internacional de Lusitanistas, quem afirma que esse congresso (p. 11) “constituiu, seja do ponto de vista institucional, seja do ponto de vista acadêmico e científico, um marco inegável da história dessa sociedade. Essas Atas são o testemunho inegável de tal processo, em que o leitor encontrará seu lugar enquanto membro desse universo”.

Parabéns, pois, para aquelas pessoas que desde as Comissons organizadora (conformada por dirigentes da Associação Internacional de Lusitanistas e docentes da USC) e científica (18 professores, de diferentes departamentos, das três universidades galegas) –para além, é claro, das três pessoas que reunírom e editárom os trabalhos–, laborárom por fazerem possível iniciativa editorial tam positiva.

Compostela, 11 de Janeiro, 2009.

[1] VILLARINO PARDO, Carmen/ TORRES FEIJÓ, Elias J./ RODRÍGUEZ, José Luís (eds.), (2008), Actas do VIII Congresso da Associação Internacional de Lusitanistas. Da Galiza a Timor. A Lusofonia em Foco; Santiago de Compostela, Universidade de Santiago de Compostela (Col. “Cursos e Congresos”, nº 181), 2 volumes, 1.922 páginas. O lançamento aconteceu na seqüência do IX Congresso Internacional da Associação Internacional de Lusitanistas, celebrado em Agosto de 2008 na Madeira, onde se assinalou que faltavam por incluir alguns trabalhos, ainda nom divulgados.