A vaquinha polo que vale

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Por Edelmiro Momám

Andava o outro dia a fazer as compras num súper da Alemanha e vi que tinham uns cartões de leite em destaque, como em promoção. Porém, quando me achego a consultar o preço reparo em que na verdade aquele leite custa o dobro do que o leite das marcas mais caras. Olho o rótulo. Die faire Milch, leio. Ah, claro, penso, deve ser leite do comércio justo, e imediatamente a minha imaginação está a sobrevoar Peru e outros lugares distantes e… pobres. Apanho o cartão. Não. Aquela vaca está pintada com as cores da bandeira alemã. Um mapa no lateral indica o Länder de procedência. Posso traçar a origem e certificam que aquele leitinho está livre de organismos geneticamente modificados. É leite alemão. Compro, chego a casa, acendo o computador. Busco. Encontro o site da campanha The Fair Milk. Trata-se de reivindicar preços justos para os produtores de leite europeus, mas alguns produtores alemães e austríacos estão a ir mais longe e a distribuir o seu leite ao seu justo preço sob a marca Die faire Milch. O leite justo. O leite bom. Dando-lhe a volta ao razoamento reixiano, pensei, but what about our milk?

E já que estamos a falar do leite, estava tentado a fazer como a deputada paulista Cidinha Campos e falar também um bocadinho «dos que mamam». Sim, porque no dia mesmo do assunto do leite, li na imprensa um artigo que falava dos operários italianos que estão a aceitar condições de trabalho decimonónicas com tal de não perderem o choinho. Os seus compatriotas já os baptizaram como polacchizati (os polaquizados). Achei triste, tanto para os italianos quanto para os polacos. No dia seguinte estávamos a comentar o tema com uma amiga italiana quando se achegou um colega polaco. Ele achou normal. É a única maneira que levantar o país, ele disse. Como se nota que o teu salário luxemburguês é dezasseis vezes o salário mínimo na Polónia, pensei eu. Mas calei a boquinha. Acho que doravante vou consumir leite justo e ver de mamar apenas o justo.