Eduardo Maragoto (*) – Nos últimos anos assistimos a umha recuperaçom das chamadas ‘rádios livres’ na Galiza. A página web da Rede Galega de Rádios Livres e Comunitárias (REGARLIC) é a porta de entrada para seis emissoras que decidírom compartilhar as suas experiências partindo de umha filosofia cooperativa.
Nela, ao lado das clássicas piratas, encontram-se outras amparadas por um novo conceito: as rádios comunitárias, vinculadas a entidades vicinais ou institucionais diversas. O sítio web da REGARLIC tem ainda um funcionamento limitado, mas dá acesso aos sites de cada umha das rádios, e permanece aberta à entrada de outras emissoras, desde que “feitas por e para a cidadania galega”. No entanto, a pretensom de assentar umha colaboraçom fluente entre as estaçons integrantes da rede bate com debates de fundo difíceis de contornar.
Para umhas, o importante é emitir e pronto, à margem de licenças que nom reconhecem; para outras, a luita por conseguir um ponto no ‘dial’ é fundamental. A clandestinidade fai parte da maneira de entender a rádio da Piratona ou da Kalimera, que nom fogem ao símbolo da caveira e os fémures, mas há quem aposte em reservar o qualificativo ‘pirata’ para as rádios alegais de cariz comercial. Os conteúdos, entre os quais os informativos sempre fôrom fulcrais do ponto de vista da radiodifusom libertária, também se encontram no centro do debate, havendo quem os coloque por cima da clandestinidade para poder considerar-se ‘livre’ umha determindada estaçom. E também há quem pense que o facto de serem projectos de base é suficiente.
Um espaço para a dissidência
Nem toda a gente sabe que nas ondas hertzianas há contrainformativos que fogem aos consensos ideológicos promovidos polas grandes emissoras, combinados com programasque dam atençom a inquietaçons ou géneros musicais excluídos dos media convencionais. Som as rádios livres, mais conhecidas como ‘piratas’ em décadas passadas. Nom dependem de instituiçons ou empresas e trabalham com o propósito de universalizar o acesso à rádio. Som projectos cuja intençom é que haja umha íntima relaçom entre ouvintes e participantes, umha troca activa, informaçom de ida e volta.
As únicas indicaçons que recebem os participantes partem da própria assembleia da rádio e nom existem agentes políticos ou económicos externos que podam exercer pressom. O financiamento, autogerido, é outra das essências que as definem, dando-lhes oportunidade de dinamizarem o ámbito em que se inserem de formas diversas, algumhas vezes com grande sucesso, como a Festa Hortera da rádio Kalimera em Compostela. Atrás do seu activismo há umha reivindicaçom principal, o direito ao uso público do ar, e por isso usam freqüências desocupadas, o que às vezes lhes fai embater com umha legalidade que estabelece a necessidade de licenças para emitir, mas este é um assunto que ainda nom está completamente regularizado, como prova o facto de grandes cadeias estarem a usar concessons locais de maneira fraudulenta.
Rádios livres e comunitárias
Ao lado das clássicas estaçons livres, um conceito menos conhecido é o das ‘rádios comunitárias’, definiçom que abrange meios de comunicaçom realizados também à margem dos mass-media empresariais, mas com umha linha editorial menos marcada polas assembleias das rádios, tradicionalmente de cariz fortemente transformador. Os objectivos de umhas e outras podem ser semelhantes, mas as comunitárias já podem contar com certa hierarquia, apoio institucional e publicitam sem problema pequenas iniciativas lucrativas, um esquema que as afasta das rádios propriamente livres, cuja origem se encontra no mundo libertário.
Na Corunha, a CuacFM, nascida em torno de umha associaçom universitária, é umha boa representante desta filosofia de rádio, que nom recusa a legalizaçom nem a considera incompatível com fazer rádio livre. Para Eduardo Lorente, da rádio Kalimera de Compostela, as rádios livres tenhem uns alicerces mais interventivos: “som independentes, autogeridas e reivindicam o uso público do ar”.
Panorama galego de emancipaçom do ar
Na Galiza, a cidade de Vigo sempre foi à frente, com a rádio Piratona como decana das rádios livres, ainda que atravessasse etapas críticas ao longo de vinte e um anos de emissom. A seguir está a Rádio Kalimera (antiga Kalimero), com quase 20 anos às costas e um meritório compromisso com qualquer tipo de luita emancipadora.
Umha das que mais actividade tem nos dias de hoje, apesar de quase recém-nascida, com intervençom de numerosos activistas provindos de diferentes sectores da esquerda, é a rádio Filispim, de Ferrol, autodefinida como “livre e comunitária”. Nom conta com um modo de funcionamento tam definido como a Piratona ou a Kalimera, admitindo por exemplo as emissons em espanhol, mas tornou-se num referente para as rádios livres galegas desde o seu forte envolvimento no conflito da Reganosa.
A rádio Roncudo (de umha associaçom vicinal de Corme) e a CuacFM som, com a Filispim, as comunitárias que integram a rede. A Clávi, que conta ainda com pouca estabilidade e está ligada a umha rede de associaçons luguesa, e a Krime, em processo de fundaçom, completariam o panorama emancipador do ar, que está longe de atingir todos os centros urbanos de importáncia a nível galego. Apesar das tentativas, em Ourense e Ponte Vedra nunca chegou a calhar nada, e noutros lugares o normal é que apareçam e desapareçam, sem chegarem sequer a ser conhecidas no conjunto do País, como Ondanada, Discolante (de Ribeira) ou radiogaliza.net.
Os reptos
O funcionamento das rádios livres é assemblear, mas o nível de colaboraçom com o projecto global da rádio, para além do grupo de cinco ou seis pessoas que a sustentam, é muitas vezes pobre, produzindo-se assimetrias difíceis de corrigir. Por isso “nestas rádios, o debate situase principalmente no nível de exigência que se deve pedir para trabalhar, sem deixar de possibilitar a participaçom nas mesmas de gente que só queira fazer um programa”, di-nos Eduardo Lorente, da rádio Kalimera.
Quanto ao futuro, alcançar o ámbito comarcal superando a própria localidade pode ser um dos objectivos, e nesse sentido a Internet abre muitas possibilidades, mas “o principal repto continua a ser, hoje como ontem, fomentar a intençom de montá-las, algo relativamente barato em relaçom ao que as pessoas pensam.” Mais fácil ainda é fazer programas: basta comunicá-lo à assembleia e pagar umha pequena quota. E até acontece que as rádios dam pequenos cursos a quem nunca estivo diante de um microfone.
O galego e a rádio
Para umhas rádios motivadas em grande medida pola divulgaçom das iniciativas dos sem voz, o galego nom deveria ser, como é nas rádios comerciais, simples sotaque decorativo. E nom é, mas em geral está longe de gozar da normalidade que à partida se esperaria. O modelo da Pitatona e da Kalimera ainda nom tem sido seguido com a mesma coerência polas outras estaçons, em que o castelhano tem umha presença importante nuns casos e noutros esmagadora. Para Eduardo Lorente a emissom em galego é umha forma de “contrarrestar a política lingüística das rádios comerciais” e nom tem havido problemas com isso, nem sequer com o uso do galego reintegrado, até porque a língua veicular é oral.

Eduardo Lorente, da Rádio Kalimera
A NOVA
A rádio Krime está quase a nascer partindo da actividade do C.S.O. Casa das Atochas, e, como extensom daquela, pretende ‘okupar’ também as ondas, nascendo assim como rádio pirata livre desde o início, o que em parte explica que os contactos ao nível nacional os estabeleçam sobretodo com a Piratona e a Kalimera. Com a rádio Cuac apenas os une que emitem da Corunha e que possibelmente venham a integrar a Rede Galega de Rádios Livres e Comunitárias.
Ao fecho da ediçom [15 de novembro de 2009] continuavam a solucionar assuntos técnicos para começar a emitir em poucosmeses, e por isso ainda nom tinham realizado as assembleias abertas que definirám o projecto, mas os impulsionadores comentam que a intençom é que o galego seja a língua veicular, polo menos nos programas elaborados pola rádio, faltando por definir esta questom nos de elaboraçom individual.
A DECANA
A rádio Piratona começou a emitir da escola de Formaçom Profissional de Téis (Vigo), em Março de 1988. Em poucos dias, o Ministério dos Transportes, Turismo e Comunicaçons ordenava o seu encerramento e o claustroda escola decidia fechá-la, mas em só dous meses a rádio passou à clandestinidade, a 17 de Maio, umha data que talvez marcasse o exemplar compromisso da estaçom com a língua, tam espezinhada na urbe onde emite. Ao longo de tantos anos, múltiplos problemas, desde internos até o ‘furto’ do dial pola Rádio Galega, figérom com que o projecto nem sempre tivesse a estabilidade necessária, deixando de emitir em vários períodos. Muitas destas peripécias já tenhem umha obra literária que lhes dá carácter ficcional: Espiral de Lideiras, livro publicado por Espiral Maior da autoria de um dos fundadores desse projecto há 21 anos, Xurxo Estévez. Na actualidade, e desde há já muitos anos, a Piratona está no ar a pleno rendimento, gozando de grande repercussom.
PORTUGAL, PASSADO SEM HERANÇA
Além Minho, as rádios livres estám desaparecidas do mapa, após um passado de grande efervescência, que já provinha da clandestinidade antissalazarista, com centenas de estaçons por todo o país. Nos anos 80 e princípios dos 90 emitiam, só na área metropolitana da capital do Norte, perto de 40 rádios piratas, entre elas a mais antiga rádio clandestina do Porto e umha das precursoras de Portugal, chamada rádio Caos, da qual se cindiria anos mais tarde a Delírio, que conservou a essência das rádios livres.
Entretanto “lá vieram os planificadores profissionais ordenar o espectro sonoro”, lembra com saudade um ouvinte, e aquelas estaçons piratas, que contavam com bastante audiência e muitas delas atingiam um grande nível de qualidade, fôrom “legalizadas” e mesmo compradas por empresas de radiodifusom nacionais. Como se podia esperar, a liderança de rádios livres na nossa língua corresponde ao Brasil, onde a repressom contra elas foi retratadas no famoso filme Uma Onda no Ar.
FREQÜÊNCIAS LIVRES
- 107.9 RÁDIO KALIMERA (Compostela)
- 103.0 RÁDIO CLÁVI (Lugo)
- 106.1 RÁDIO RONCUDO (Corme, Ponteceso)
- 103.4 RÁDIO CUACFM (Corunha)
- 106.0 RÁDIO PIRATONA (Vigo)
- 93.9 RÁDIO FILISPIM (Ferrol)
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 83 do Novas da Galiza.
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