A raça das Brá

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dedicado a Estefanía Bra,

muita força!

Mulheres Brá da minha família
Mulheres Brá da minha família

Di umha lenda do País de Gales que Bran, filho de Llyr e irmao de Manawyddan, foi ferido por umha lança envelenada no transcurso do combate contra Matholwch de Ywerddon. Foi entom que Bran ordenou aos seus companheiros que sobreviveram à batalha que lhe cortassem a cabeça. Deste jeito, a cabeça de Bran acompanhou os guerreiros na viagem de volta e durante sete anos, pois estes levavam-no a toda a parte consigo, mesmo às festas e comidas. Afinal, tal e como Bran queria, levaram a sua cabeça a Londres e enterrárom-no na Montanha Branca, com o rosto virado cara à Bretanha. Tempo depois, o rei Artur, quem non podia suportar o ter que partilhar o seu reino com a cabeça de Bran, fijo-a desenterrar. Ainda hoje, a guarniçom que vigila a Torre de Londres guarda um misterioso respeito polos corvos domesticados que merodeiam polo lugar, havida conta de que o corvo é um dos aspectos do deus Bran[1]. Deidade pancéltica num princípio, Bran e o corvo estavam caraterizados pola força, inteligência, longevidade, grande memória, capacidade de destruiçom na batalha, capacidade de voar a grandes alturas e de deslocar-se a longas distáncias[2].

Por mui tentador que resulte, o topónimo Vram (Bran no Nomenclátor) que dá nome a umha aldeia da paróquia dos Anjos, nom guarda nengumha relaçom com este deus celta, senom com o apelido Brá, ou melhor –como veremos-, Vrá, um dos mais misteriosos –breve e eufónico- da metade oriental da comarca de Ordes, que apenas levam hoje umhas duzentas pessoas em todo o território nacional. Segundo a Cartografía dos Apelidos de Galicia do ILG, o concelho com mais Brás da Galiza é a Corunha, com 57, seguido de Ferrol (22), Cessuras (21), Messia e Compostela (20), antes que Ordes (19) e Frades (11), ainda que estes dados já devem estar um pouco desatualizados. Também emigrou este apelido a Espanha, País Basco, Catalunha, Bélgica e Inglaterra. As reunions da ONU, tem dito o Xurxo Souto, parecem-se bastante às mesas de qualquer casa galega no dia da festa; nas festas das Brá, o galego fala-se com sotaques ingleses e valons.

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Há anos, consultando o professor Higino Martins Esteves no velho Portal Galego da Língua sobre o significado deste apelido, lembro que sugerira como hipótese a semelhança com o étimo gaélico vlá, ‘amarelo intenso´. Contudo, as explicaçons em chave celtista –favorecidas pola antedita lenda de Bran e polo suposto altar druídico do Vrá de Friol[3]– nom parecem mui competitivas face às muito mais singelas fundamentadas no latim. Tanto o Vram dos Anjos, no concelho de Oroso, como a freguesia de Sam Martinho de Vrá de Friol (que seria a que originou o apelido) ou a aldeia de Vrá na freguesia e concelho de Minho, apontam segundo J. M. Piel e Cabeza Quiles ao latim verana, neutro do plural de veranum ‘tempo primaveral, verao, estio’, usado para referir-se antano aos pradro estivais que permaneciam húmidos todo o ano enquanto os outros secavam, e que polo tanto eram mui apreciados para levar o gado a pacer neles nessa estaçom. É por esta razom, aliás, que resulta mais acorde à etimologia escrever o topónimo e o apelido com “v”. A minha nai –umha Brá, por sinal- sempre contou um mito familiar segundo o qual a sua raça viria originalmente das terras de Albijói, no leste da comarca, e vendo a cartografia do ILG vê-se bem confirmada essa rota da nossa humilde estirpe, pois aparecendo o apelido por Guitiriz no estremo oriental (ficando já sem rasto o apelido no Friol natal), deveu ir avançando cara ao oeste polos concelhos de Cúrtis, Messia, Frades, Cessuras e Ordes, à vez que saltando às cidades corunhesas (Corunha, Ferrol e Compostela) recetoras principais da emigraçom rural. Com o mapa atualizado, veria-se que a conquista do Oeste avançou de vagarinho, polo menos até Cerzeda, onde mora o meu padrinho Carlos Bra.

Manuel Pazos Gómez, autor do Guía turística do concello de Oroso, sinala como património destacado da aldeia de Vram dous hórreos, o da Casa de Maronho, e um outro, de dous andares, da Casa de Manhá, feito no ano 1948. Da saga dos Bra nom podemos esquecer nunca a Ramón Bra Riobóo, labrego de Messia preso aos 40 anos polos fascistas, sendo julgado na Corunha por nom dobregar-se perante a barbárie, com resultado de condena a 12 anos e um dia de prisom. Tampouco esqueceremos nunca duas mulheres exemplares: as irmás Manuela e Pura Bra Santos, fortes, trabalhadoras, duras, matriarcas à força, mas com um coraçom dos que nom cabem no peito. Amba as duas som irmás de Jesús Bra Santos, o tio Jesus da Berxa, lugar já conhecido para sempre como República da Berxa, santuário truiteiro da memória histórica ordense e da resitência antifranquista.

Mapa coa aldeia de Vram, em Oroso
Mapa coa aldeia de Vram, em Oroso
Aldeia de Vram, em Oroso
Aldeia de Vram, em Oroso

[1] Marcel Brasseus, Los Celtas. Los Dioses olvidados, Noia, Toxosoutos, 2000, 2ª ed., pp. 219-218.

[2] José Carlos Bermejo Barrera, “Los dioses de los caminos”, Mitología y mitos de la Hispania prerromana II, Madrid, Akal, 1986, p. 198.

[3] Eduardo Álvarez Carballido, “Un altar druídico en Brá”, Galicia Diplomática. Ano IV, p. 295.

 

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