PETISCOS DE ANTIMATÉRIA

A Cruzada galeguista de ‘El Correo Gallego’



Editorial Compostela, editora de El Correo Gallego, recebeu 90.086,01 euros da Secretaría Xeral de Medios em 2015 em conceito de ajudas para defender a cultura e língua galegas. Recentemente, o jornal compostelano atuou como um azérrimo defensor da nossa língua ao criticar, num artigo publicado a 9 de janeiro, o mau uso do galego por parte do grupo de Governo do Concelho de Santiago para tratar dos orçamentos municipais. Mais concretamente, o jornal acusava o Governo da cidade de «arrinconar el gallego normativo». É admirável esse espírito de Cruzada que pretende salvaguardar o galego correto frente aos infiéis lusistas.

O PGL publicou a seguir uma resposta muito eficaz, e acompanhada dum fantástico desenho do humorista gráfico Mincinho, em que se ressaltam três observações que condizem mal com a pretensa defensa do galego por parte do histórico jornal:

  1. El Correo publica a sua informação maioritariamente em castelhano,
  2. as poucas vezes que se filtra algum artigo em galego, está cheio de gralhas e, por último,
  3. não é infrequente encontrar toponímia galega deturpada nos seus artigos. A continuação, vou dar alguns dados quantitativos sobre estas três observações.

Quanto à primeira, o jornal publica pouco em galego, é algo evidente para todas nós. Mas, como quantificar esse «pouco»? Segundo os dados extraídos do canal RSS do jornal e com ajuda de um detetor automático de idioma, entre o primeiro de janeiro e o dia 10 do mesmo mês, publicaram-se 834 notícias diferentes em castelhano frente a 47 em galego. Dessas 47, 24 são em realidade artigos de opinião escritos por colaboradores externos. Ficamos, portanto, com 23 artigos em língua galega escritos por jornalistas da própria empresa, frente a um total de 881 (2,6% do total). Acho que a nossa sensação de que escrevem «pouco» em galego é correta. Fica quantificado o advérbio indefinido por se algum dia temos que discutir com algum cunhado num jantar de família.

Ora bem, e antes de mais nada, quero aqui aproveitar par dar os parabéns (sem ironia nem retranca) a todas e todos aqueles jornalistas e colaboradores que escrevem em galego para todos os jornais «gallegos». Fazem parte dessa minoria teimosa que, bras dessus bras dessou, ajuda a desacelerar a desconstrução do país. Os meus parabéns sinceros.

No que diz respeito à segunda observação, erros e gralhas em galego, trago aqui bastantes mais números e um anexo ao presente artigo que se pode consultar quando o leitor não tiver mais nada para fazer. Este trabalho vem assim completar uma análise manual feita polo Gerardo do Covelo. Processei os 47 artigos em galego com um detector automático de erros linguísticos, Avalíngua, que identifica não só erros ortográficos, mas também lexicais (por exemplo, falsos amigos), gramaticais e sintáticos. O sistema encontrou 113 erros, dos quais 93 eram claramente linguísticos e 20 eram simples gralhas ou erros tipográficos. Os falsos positivos foram removidos após correção manual. Podem consultar no anexo abaixo esses erros linguísticos em contexto. É curioso constatar como El Correo Gallego também «arrincona el gallego normativo» utilizando vergonhosamente numerosos lusismos: «voltar», «dicer» e mesmo variados casos do uso de «grande» diante de nome que começa com consoante.

Como a ferramenta é automática, faz as cousas rápido mas também se engana. Nomeadamente, a cobertura do sistema é apenas de 65%, quer dizer, ficam sem detectar os 35% dos erros linguísticos. No caso que nos ocupa, isto representa 40 erros sem identificar. Portanto, podemos estimar que os 47 artigos contêm 153 erros no total (3,3 erros por notícia). Como cada notícia tem uma média de 34 linhas, é detetado 1 erro em cada 11 linhas. Relativizemos um bocado mais estes dados. Os 47 artigos contêm cerca de 16 mil ocorrências de palavras ou tokens e 4.768 formas de palavras diferentes. Quer dizer, encontramos 1 erro em cada 31 palavras diferentes e 1 erro em cada 105 tokens.

Não semelham ser números catastróficos. São os erros típicos que cometemos a maioria de nós mesmo usando um corretor ortográfico normal. No entanto, se este fosse o número habitual de erros nos artigos escritos em castelhano, as vozes irritadas, as queixas e ameaças de uma cheia de leitores coléricos pairariam com certeza sobre as cabeças da equipa de redação do jornal. A taxa de erro que aceitamos para o galego não é a mesma que para o castelhano. O patamar de aceitação do erro em galego é algo que temos de mudar subindo as exigências do que é intolerável. E como fazer? Talvez metendo a mão no bolso de quem recebe os subsídios ligados à língua. Como já temos ferramentas que quantificam alguns aspetos da qualidade da língua empregue, pode incluir-se esta variável no conjunto de requisitos exigidos para receber uma subvenção. Quantos menos erros por artigo, mais quartos públicos. Como efeito colateral, é provável que isto provoque mais contratações de corretores e revisores linguísticos, descendo assim o desemprego no setor da Filologia Galega (já agora, aqui não sei se estou a falar com retranca ou sem ela, não consigo interpretar corretamente as minhas emoções a respeito).

Ainda fica por analisar a terceira observação, aquela que falava da toponímia deturpada. Desta vez, contei o número de ocorrências de «La Coruña» e «Orense» em notícias de El Correo Gallego desde janeiro de 2012. No caso de «La Coruña», apareceram 437 ocorrências, e 106 de «Orense». Podemos inferir que existem jornalistas antisistema infiltrados na equipa de redação do nosso caro diário. Talvez era bom informar os diretores do mesmo sobre a existência destes anarquistas no cerne da sua organização.

Todos estes números ajudam-nos a formular uma certeza: uma empresa «gallega» que esbanja fundos públicos destinados a promover a nossa língua (pois usa-a pouco e mal) que, porém, critica uma instituição pública que sim a usa de modo generalizado, aduzindo que a usa mal. Pode-se pensar que se trata de cinismo hipócrita. Eu não o creio. Acho que é mais bem uma sentida homenagem ao Space Oddity de David Bowie. Os nossos bem-queridos editores de El Correo são astronautas pós-modernos que flutuam bem acima da Lua observando o planeta azul com essa indiferença mística de quem se sabe além do Bem e do Mal.

 

 

######################################################
###### ANEXO : Erros linguísticos detetados automaticamente #######
############################################################

 

Nas súas palabras ante un auditorio que completaba o aforo do Centro Galego de Arte Contemporánea, Estévez falou das dificultades que tivo que superar para garantir un futuro seguro a este patrimonio.

Correção: capacidade.

Os científicos da politoloxía aportarán, a bo seguro, ideas que lle axudarán á Fecyt e ao CSIC a adaptar as bases do concurso.

Correção: achegarán.

Aínda que para o calendario so cambia un díxito,

Correção: só.

Igual que soñar so coa propia felicidade, produce frustración.

Correção: só.

Texto que me mereceu un notábel aprecio xa dende o coñecemento dos relatos que constitúen a súa biografía existencial ata a reveladora esencialidade humana do seu titulo na magnífica edición do profesor Henrique Monteagudo,

Correção: título.

Notas:

  • Confira aqui o anexo na íntegra.
  • Confira aqui o artigo na íntegra, com o anexo, em formato PDF.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
Paulo Gamalho

Latest posts by Paulo Gamalho (see all)


PUBLICIDADE

  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Um magnífico artigo, Paulo! É uma maravilha comprovar que as nossas sensações se vem depois corroboradas à luz dos dados!

  • Ernesto V. Souza

    Muito bom texto, caro, parabéns!!!

  • Paulo Gamalho

    Obrigado!
    Se os dados são percebidos como algo mais objectivo do que as sensações, talvez podiam ajudar os administradores a distribuir melhor as subvenções para a defesa do galego :).

  • Heitor Rodal

    Muito bom artigo porque esses dados permitem constatar e corroborar o problema de fundo: os galegos pensam, falam e escrevem em galego.

    Os gallegos pensam, falam e escrevem em “gallego” (isto é: espanhol) e, por vezes, quando pretendem pensar, falar ou escrever em galego, acabam falando galiñol.