A origem da língua basca



bandeira-bascaApós os anteriores artigos sobre o nacionalismo e o celtismo, o terceiro e último tópico polémico que vou tratar duma perspetiva cientista é a origem do basco, uma língua isolada que não parece estar relacionada com outras línguas ou famílias linguísticas atuais ou históricas, e que representa um dos mais interessantes enigmas linguísticos sem resolver do nosso tempo. Em Europa, a imensa maioria das línguas são indo-europeias, com provável origem na língua das populações Yamnaya da estepe pôntico-cáspia que migraram no início da Idade do Bronze. As únicas exceções europeias atuais a esta origem são o euskera, as famílias caucásicas, das que falarei mais a frente, e as línguas fino-úgricas (entre elas, o estoniano, finlandês e húngaro), que chegaram dos Montes Urais em períodos posteriores às migrações das populações Yamnaya que espalharam o proto-indo-europeu.

O euskera fala-se atualmente na região histórica de Euskal Herria, que consta de 7 províncias ou territórios históricos: Araba, Bizkaia, Gipuzkoa e Nafarroa no Estado Espanhol, e Lapurdi, Nafarroa Beherea (Baixa Navarra) e Zuberoa no Estado Francês. Estas três últimas conformam a região do norte, chamada de Iparralde. Contrariamente às províncias do Estado Espanhol, que são unidades político-administrativas de duas Comunidades Autónomas, a região histórica do Iparralde basco-francês não é mais que um território sem regime administrativo do Departement des Pyrenées-Atlantiques, que, a sua vez, pertence à região administrativa Nouvelle-Aquitaine. Os cinco principais dialetos bascos atuais são o ocidental ou biscaio, o central ou guipuscoano, o alto navarrês, o navarrês-lapurdiano e o zuberoano, estes dous últimos falados em Iparralde. Como a distância entre estas variedades diatópicas é muito grande, especialmente entre a ocidental e as mais orientais, a padronização foi um processo complexo. A forma padronizada, chamada de euskera batua, foi desenvolvida entre os anos 60 e 70 do século passado por linguistas como Koldo Mitxelena.

A forma padronizada, chamada de euskera batua, foi desenvolvida entre os anos 60 e 70 do século passado por linguistas como Koldo Mitxelena.

Na atualidade, segundo o último Inquérito Sociolinguístico (número VI), há aproximadamente 750 mil bascofalantes em Euskal Herria, que representam o 28,4% da população total. Esta percentagem varia muito segundo o território: 13% em Nafarroa (70 mil), 20,5% em Iparralde (50 mil) e 34% no País Basco (630 mil), sendo Gipuzkoa, com 50%, a província mais euskaldun com grande diferença sobre o resto. Repare-se que o inquérito mede o grau de competência e não o uso da língua, pois uma pessoa bascofalante (ou eskaldun) é definida como alguém que é capaz de falar e perceber bem ou bastante bem o euskera. É também muito relevante a projeção da língua, que ganhou mais de 220 mil falantes nos últimos 25 anos, ao passar do 22,3 ao 28,4% da população, com uma maior crescida entre a gente nova. Cuspidinho ao que acontece aqui, na Galiza, mas ao contrário.

Na atualidade, segundo o último Inquérito Sociolinguístico (número VI), há aproximadamente 750 mil bascofalantes em Euskal Herria, que representam o 28,4% da população total. Esta percentagem varia muito segundo o território: 13% em Nafarroa (70 mil), 20,5% em Iparralde (50 mil) e 34% no País Basco (630 mil), sendo Gipuzkoa, com 50%, a província mais euskaldun com grande diferença sobre o resto.

 

Após esta contextualização socio-política e geográfica da língua basca, focarei-me nos estudos sobre a sua origem e as relações filogenéticas que mantém com outras línguas ou famílias linguísticas: começarei apresentando a única teoria que já conseguiu consenso científico, a seguir introduzirei as principais hipóteses que não foram demonstradas e que não conseguiram consenso científico e, finalmente, falarei dum recente estudo genético, baseado no ADN antigo, de alto impacto internacional.

É também muito relevante a projeção da língua, que ganhou mais de 220 mil falantes nos últimos 25 anos, ao passar do 22,3 ao 28,4% da população, com uma maior crescida entre a gente nova. Cuspidinho ao que acontece aqui, na Galiza, mas ao contrário.

 

Os primeiros textos da língua basca com alguma extensão são dos séculos XV e XVI, mas as frases escritas de maior antiguidade encontram-se nas Glosas Emilianenses, do século X. Entre as anotações ou glosas escritas em antigo aragonês, utilizadas para entender o texto latino do códice de San Millán de la Cogolla, encontraram-se duas breves glosas em basco. No entanto, existe um grande vazio, por volta de mil anos, entre estes primeiros textos do euskera histórico e os dados mais antigos da época romana relacionados com o vascão e o aquitano. Segundo o filólogo Joaquín Gorrochategui, cuja tese sobre o aquitano foi dirigida por Koldo Mitxelena, o vascónio e o aquitano são duas variedades linguísticas regionais, documentadas na Idade Antiga a partir de material onomástico encontrado em território dos vascões (parte da atual Nafarroa) e da Aquitánia (sudoeste da França), respetivamente, e constituem as fases prévias da língua basca histórica. Estas fases prévias deram lugar ao período conhecido como euskera arcaico. Tanto o aquitano como o vascónio, que formam o euskera arcaico, apresentam estreitas e exclusivas relações linguísticas com a língua basca histórica, de maneira que é possível classificá-las como línguas ou variedades pertencentes à mesma família linguística. É importante aqui não confundir vascões e vascónio com bascos/as e basco. Embora sejam conceitos relacionados, estes dous pares de termos designam realidades mui diferentes. Também é relevante incluir neste contexto o proto-euskera, língua reconstruída por filólogos como Koldo Mitxelena, que é o resultado duma construção dedutiva da língua basca que se falava no século V a.C. Muitas das propriedades que foram atribuídas ao proto-euskera estão muito próximas das formas encontradas no material onomástico da antiga Aquitánia. Quer isto dizer que o proto-basco reconstruído coincide com as poucas pegadas de euskera arcaico achadas no período antigo.

Muitas das propriedades que foram atribuídas ao proto-euskera estão muito próximas das formas encontradas no material onomástico da antiga Aquitánia. Quer isto dizer que o proto-basco reconstruído coincide com as poucas pegadas de euskera arcaico achadas no período antigo.

Estes estudos podem considerar-se uma confirmação científica da filiação do basco com o aquitano, pois este revela-se como a materialização ou corporeização do construto intelectual que é o proto-basco. Por último, é importante destacar que, embora o basco seja uma língua pré-romana não indo-europeia, existe uma ampla e profunda influência latino-românica no léxico basco, não só por influência atual do castelhano, mas também, diretamente, através do latim em época antiga e, provavelmente, medieval.

Embora o basco seja uma língua pré-romana não indo-europeia, existe uma ampla e profunda influência latino-românica no léxico basco, não só por influência atual do castelhano, mas também, diretamente, através do latim em época antiga e, provavelmente, medieval.

 

A origem da família euskérica (basco-vascão-aquitano) ou do proto-euskera é ainda um mistério. Uma das primeiras teorias ou hipóteses formuladas é a do basco-iberismo, que identifica o basco com a língua ibera falada na época antiga na costa mediterrânea da Península Ibérica. Esta é também uma língua isolada, não indo-europeia, cujos textos mais antigos são epígrafes do século V a.C. Mesmo se é hoje uma língua morta, há muita mais pegada material desta que do euskera arcaico. De facto, é a língua com mais abundante documentação epigráfica da Hispânia pré-romana, A tese basco-iberista nasceu no século XVIII com Manuel Larramendi e foi defendida no XIX por cientistas prestigiosos como Wilhelm von Humboldt. No entanto, uma vez descodificado parcialmente o ibero no século XX, autores como Antonio Tovar e Mitxelena considerárom que, embora existam semelhanças superficiais, não há relação genética entre as duas línguas. As poucas semelhanças podem dever-se ao contato por proximidade geográfica.

Uma outra teoria, que é compatível com o basco-iberismo e mais com a hipótese que introduzirei a seguir (a conexão caucasiana), é a conhecida como substrato vascónico, e defendida por Theo Vennemann, que se apoiou em antigas ideias de Francesco Ribezzo formuladas na primeira metade do século XX. Segundo a teoria de Vennemann, muitos idiomas da Europa central e ocidental contêm restos duma antiga família linguística pré-indo-europeia da qual o euskera (ou seica tamém as línguas caucasianas) seria a única sobrevivente. Esta família linguística, com origem no período paleolítico, estender-se-ia pola Europa central e ocidental e mesmo polo norte de África, mas viu reduzido o seu âmbito de influência a partir da expansão indo-europeia. Os principais elementos que apoiam esta teoria são alguns topónimos, nomeadamente hidrónimos, compartilhados por diferentes territórios europeus, que pressupõem substratos antigos pré indo-europeus. No entanto, existem numerosas críticas a esta teoria, como a de P.R. Kitson, que considera que a maioria dos hidrónimos comuns são de origem indo-europeia (provavelmente celta), ou a de Joseba Lakarra, perito no proto-euskera, quem argumenta que Vennemann utiliza como base das comparações raízes bascas modernas que não se correspondem com o euskera arcaico.

Uma das hipóteses com mais defensores e mais sólida, embora também amplamente criticada, é a relação com as línguas do Cáucaso, igualmente isoladas geneticamente e de origem não indo-europeia.

Uma das hipóteses com mais defensores e mais sólida, embora também amplamente criticada, é a relação com as línguas do Cáucaso, igualmente isoladas geneticamente e de origem não indo-europeia. Os estudos linguísticos classificam estas línguas em três famílias: família caucasiana meridional ou kartveliana, família do noroeste ou circasiana e família do nordeste ou daguestão. Há mais de 40 línguas caucasianas faladas por mais de 7 milhões de pessoas. As duas com mais falantes são o georgiano (família kartveliana), com 4 milhões, e o checheno (daguestão), com 1 milhão. Entre as duas famílias do norte é possível achar alguma afinidade, mas existem dúvidas sobre se há, de facto, relação filogenética entre as duas famílias do norte e a meridional ou kartveliana.

Há mais de 40 línguas caucasianas faladas por mais de 7 milhões de pessoas. As duas com mais falantes são o georgiano (família kartveliana), com 4 milhões, e o checheno (daguestão), com 1 milhão.

Alguns dos investigadores que mais contribuíram ao desenvolvimento de estudos comparativos com base em material do euskera e das línguas caucasianas foram Réné Lafon, Karl Bouda, John Bengtson e Jan Braun. Estes autores encontraram semelhanças linguísticas tanto a nível lexical como estrutural. A nível do léxico, os estudos baseados em listas de cognatos (pares de palavras supostamente relacionadas etimologicamente) acharam um número significativo de vocabulário básico similar entre o euskera e as línguas caucasianas. Estruturalmente, coincidem em muitos aspetos: são línguas aglutinantes, a sintaxe é ergativa, os verbos possuem formas polipessoais concordando com vários actantes e têm sistema de cálculo vigesimal. Cumpre sublinhar que há poucas famílias linguísticas no mundo com sintaxe ergativa e, em Europa, só o euskera e as línguas caucasianas possuem essa estrutura. Nas línguas ergativas, o caso ergativo marca o agente dos verbos transitivos, frente ao caso absolutivo que permite identificar tanto o principal actante dos verbos intransitivos como o objeto-paciente dos transitivos.

A nível do léxico, os estudos baseados em listas de cognatos (pares de palavras supostamente relacionadas etimologicamente) acharam um número significativo de vocabulário básico similar entre o euskera e as línguas caucasianas. Estruturalmente, coincidem em muitos aspetos: são línguas aglutinantes, a sintaxe é ergativa, os verbos possuem formas polipessoais concordando com vários actantes e têm sistema de cálculo vigesimal.

 

Para além destas similaridades, não podo deixar de citar os nossos trabalhos (com José Ramom Pichel e Iñaki Alegria) sobre a distância de línguas, nomeadamente “Measuring Language Distance of Isolated European Languages,”, publicado na revista Information, e “From language identification to language distance”, publicado em Physica A, onde os experimentos realizados acharam que o georgiano, língua caucasiana meridional-kartveliana tem como língua mais próxima, entre mais de 40 línguas de Europa, o basco. Este, não entanto, está mais próximo das línguas latinas que do georgiano, talvez devido à grande quantidade de léxico latino e castelhano do euskera moderno. Recentemente, realizei um novo experimento sem publicar com o checheno, língua da família caucasiana do nordeste, utilizando a mesma metodologia que nos trabalhos anteriores. Neste caso, foi também o basco a língua mais próxima do checheno.

Para além destas similaridades, não podo deixar de citar os nossos trabalhos (com José Ramom Pichel e Iñaki Alegria) sobre a distância de línguas, nomeadamente “Measuring Language Distance of Isolated European Languages,”, publicado na revista Information, e “From language identification to language distance”, publicado em Physica A, onde os experimentos realizados acharam que o georgiano, língua caucasiana meridional-kartveliana tem como língua mais próxima, entre mais de 40 línguas de Europa, o basco.

Ora bem, surpreendentemente, o georgiano ficou bastante afastado (em posição 14th), mesmo se as duas línguas comparadas são as únicas que formam parte das famílias caucasianas na experimentação. Esta baixa similaridade pode explicar-se porque, por um lado, e tal e como foi dito, a família caucasiana meridional não parece ter filiação direta como as famílias do norte, e por outro, é preciso tomar em conta o viés da transliteração: o checheno e o georgiano grafam-se com diferentes alfabetos e a sua transliteração automática para o alfabeto latino pode ter causado um distanciamento artificial. De facto, neste mesmo experimento, a segunda língua mais próxima do checheno foi o russo, duas línguas faladas no mesmo território e codificadas ambas as duas no mesmo alfabeto cirílico.

O checheno e o georgiano grafam-se com diferentes alfabetos e a sua transliteração automática para o alfabeto latino pode ter causado um distanciamento artificial. De facto, neste mesmo experimento, a segunda língua mais próxima do checheno foi o russo, duas línguas faladas no mesmo território e codificadas ambas as duas no mesmo alfabeto cirílico.

É inegável que há semelhanças entre as línguas caucasianas e o euskera, tal e como o próprio Mitxelena reconheceu, mas para podermos concluir que estão geneticamente relacionadas, é preciso demonstrar que as comparações lexicais dão lugar a coincidências fundamentadas em correspondências fonemáticas regulares. E é aqui onde surgem as críticas. Em primeiro, lugar, cumpre sublinhar que a comparação lexical entre basco e línguas caucasianas é difícil de levar a cabo pois, mesmo se o proto-euskera está num estádio avançado de estudo, ainda não foi possível reconstruir o proto-caucasiano devido à pouca afinidade entre as diferentes famílias. Esta circunstância obriga a que os estudos lexicais se realizem comparando vocabulário e raízes lexemáticas modernas, o que não permite tirar conclusões fiáveis desde o ponto de vista filogenético. Em segundo lugar, na lista de cognatos de Braun e Bouda há um grande número de erros: problemas de transcrição, uso de empréstimos latinos confundidos com palavras patrimoniais bascas, segmentações arbitrárias e reconstruções erradas do proto-euskera. Além destes problemas linguísticos, não há estudos de genética populacional com indícios claros que demonstrem que exista ou tivesse existido uma relação genética estreita entre a população autóctone basca e a do Cáucaso.

Colocaram-se muitas outras hipóteses sobre as relações filogenéticas entre o euskera e línguas diversas, mas todas foram desbotadas pola comunidade linguística. Por exemplo, a teoria que relaciona o euskera com as línguas berberes, data do século XIX e foi defendia mais recentemente (finais do XX) por Hans Murakovsky, especialista em línguas africanas. Esta hipótese foi, no entanto, refutada por Larry Trask, reputado especialista da língua basca e membro honorário da Euskaltzaindia (Academia da Língua Basca). Após analisar a lista lexical de vocábulos arcaicos proposta por Murakovsky, Trask achou numerosos erros graves, nomeadamente empréstimos latinos modernos considerados arcaicos e problemas de transcrição e de segmentação, que invalidam a hipótese.

Colocaram-se muitas outras hipóteses sobre as relações filogenéticas entre o euskera e línguas diversas, mas todas foram desbotadas pola comunidade linguística.

Para completar este breve resumo linguístico sobre as origens do basco, vou acrescentar informação duma investigação baseada no ADN antigo. Devido a que não sou especialista neste âmbito, não possuo as requerimentos científicos necessários para revisar e organizar todas as teorias e trabalhos de biologia genética desenvolvidos até à data. Vou simplesmente resumir as ideias dum dos artigos sobre ADN basco mais citado (215 citas em Google Scholar) e, portanto, com mais impacto científico, a nível internacional. O artigo intitula-se “Ancient genomes link early farmers from Atapuerca in Spain to modern-day Basques”, publicado em PNAS em 2015, com uma autoria pluridisciplinar formada por especialistas em genética, arqueologia e paleontologia de diferentes centros internacionais liderados pola Universidade de Uppsala (Suécia), e com a colaboração do biólogo e paleontólogo Juan Luis Arsuaga. Este trabalho comparou o genoma dos restos humanos de 8 indivíduos que viveram há 3500/5500 anos, achados em El Portalón (Sierra de Atapuerca, em Burgos), com o genoma dos restos humanos doutras zonas de Europa de períodos similares e com o ADN de populações europeias atuais. Os resultados genéticos mostraram, por um lado, que os indivíduos de El Portalón eram os primeiros agricultores neolíticos vindos da Anatólia misturados com os cazadores-coletores locais do Paleolítico. Não se achárom, portanto, marcadores genéticos das populações Yamnaya originárias da estepe pôntico-cáspia, supostamente portadoras do proto-indo-europeu durante a Idade do Bronze (para mais informação sobre este aspeto, recomendo o anterior artigo sobre o celtismo). Por outro lado, e mais surpreendente ainda, encontrou-se uma grande afinidade genética entre os 8 indivíduos de El Portalón e as populações atuais bascas. Esta ligação genética sugere que o povo basco e a sua língua podem estar relacionados com a expansão da agricultura no Neolítico, em contraste com hipóteses anteriores que ligavam a população basca a grupos pré-agrícolas do Paleolítico. Os resultados do estudo genético também mostrárom uma grande afinidade entre os indivíduos de El Portalón e a população atual da ilha de Sardenha, que tampouco não tem pegada genética das populações Yamnaya proto-indo-europeias, à diferença do que acontece no património genético do resto do território europeu, onde esta camada migratória está bem presente. As coincidências genéticas entre bascos/as e sardos/as podem ser causadas, não por uma relação filogenética direta, mas polo facto de serem territórios isolados que não receberam influência significativa de migrações pós-neolíticas, ficando assim ao margem da revolução migratória indo-europeia dos povos Yamnaya na Idade do Bronze.

As coincidências genéticas entre bascos/as e sardos/as podem ser causadas, não por uma relação filogenética direta, mas polo facto de serem territórios isolados que não receberam influência significativa de migrações pós-neolíticas, ficando assim ao margem da revolução migratória indo-europeia dos povos Yamnaya na Idade do Bronze.

Estas descobertas figérom renascer o interesse polos estudos sobre o paleo-sardo (também chamado de nurago), língua extinta não indo-europeia falada na Sardenha em época pré-romana. O principal especialista nesta língua, o linguista Eduardo Blasco Ferrer, nunca desbotou uma conexão e uma evolução comum com o proto-euskera, embora linguistas especialistas no proto-euskera, como Joseba Lakarra, acham que não existe uma tal ligação.

Seja como for, fica cada vez mais claro que a resposta ao mistério do euskera e doutras línguas isoladas não poder provir exclusivamente da linguística e filologia histórica, mas da confluência de várias especialidades, incluindo a biologia molecular e genética, a paleontologia, a arqueologia e a linguística. Acredito que novos estudos pluridisciplinares avançados poderão ser capazes de revelar e explicar, não só as origens e conexões filogenéticas da língua, mas também como as populações bascas se mantiveram relativamente isoladas ao longo de várias camadas de migrações, incluindo a dos povos celtas, sem renunciar nunca a perder a sua língua. Pois, tal e como afirmou Koldo Mitxelena, o principal mistério do euskera não é bem a sua origem, mas como conseguiu resistir e manter-se vivo até os dias de hoje.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
Paulo Gamalho

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bem interessante.
    O do basco e a sua recuperação, um assunto bem interessante, de facto é realmente a única língua da península não estatal a ganhar falantes nas capas mais novas. E aí entra uma questão que aos galegos é-nos totalmente desconhecida, o orgulho de serem bascos, e algo muito peculiar que assenta as suas raízes nas velhas teorias raciais originárias do nacionalismo basco, um basco sabendo a sua língua, e sabendo-a bem e sabendo-a os seus filhos, de país falantes de castelhano, sente o orgulho de pertencer a um grupo de categoria superior, dum jeito muito peculiar,o orgulho de terem construído a escola nacional das ikastolas, frente a o estino nacional do estado…e tudo isso é um factor fulcral na recuperação do euscara, sem esse factor não seria inteligível a recuperação. Na Galiza, ainda está bem incutida, incluídos na grande maioria dos votantes nacionalistas, o facto indiscutível da superioridade do castelhano, e esse é um factor determinante da situação da língua, um dialeto rústico que pode incorporar qualquer cousa que provir do castelhano, e para o que o castelhano é a verdadeira norma de correcção.

    Só o reintegracionismo dispõe de instrumentos contra disso, mas é bem coutado polo poder político e as instituições espanholas de controlo da língua RAGs e cias, universidades, centros de pesquisa etc..Nós somos filhos da nossa história de povo que foi capado, eles são filhos da sua história que se alicerça na idade meia onde o facto de ser basco com os 8 apelidos bascos, dava-te já a condição de nobre

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      é bem interessante como a faculdade de história de Compostela está para apagar o elemento mais fucral da nossa história A NOSSA DOMA E CASTRAÇÃO. Na última revista Murguia está uma entrevista ao Diretor do éInstituto de Estudos Galegos Padre Sarmiento, que é um bom espelho do controlo da espanha.

      Como foi a cousa

      Em 1475, há um projeto atlântico liderado por Portugal, Esse projeto consumou-se de facto no casamento (1475) de D. Afonso V rei de Portugal com a rainha Joana de Castela, a herdeira legítima da coroa de Castela. A

      cabeça dessa união estaria em Lisboa, uniam-se as duas coroas num

      monta tanto tanto monta, e por um lado estaria o espaço galego-

      português e por outro o castelhano e no meio e orbitando no galego-

      português o reino de Leão. Dom Afonso V passava a incorporar na sua

      coroa a Galiza (que se unificava com Portugal), que não constituíra Portugal. A cabeça do projeto de União estaria na faixa ocidental.

      Em 1475 Dom Afonso V é proclamado rei da Galiza. E isso é recebido

      com grande alegria por toda a população.

      Era a terceira vez desde o nascimento do reino de Portugal, criação dos

      galegos bracarenses -o cerne da Galiza-, que reis deste reino são

      proclamados reis da Galiza, que ficara na órbita de Castela, após o

      falecimento de Dom Afonso VIII em 1230, e não cumprindo-se o seu

      testamento, mandato jurídico, radicalmente oposto a união com Castela.

      A união de toda a Galiza a norte e sul do Minho sempre foi a vontade

      existente no povo da Galiza que usufruía o nome e sempre aconteceu

      isso, com grande sucesso e aceitação de todas as classes

      Ainda que eram muitos os castelhanos apoiantes do projeto, incluído o

      poderoso bispo de Toledo Na batalha de Toro de 1 de março de 1476, há

      combate desse projeto contra outro com uma rainha ilegítima, casada

      com o puto Ferran de Aragão, e com o apoio aragonês, principalmente

      da burguesia comercial das cidades de Barcelona e Valência que

      achavam iam fazer um bom negócio com essa união (também entre

      iguales, ainda que o centro dominante ficava em Castela -a geopolítica-).

      Dom Afonso V não soube ganhar a batalha, ainda que o acompanhavam

      pessoas bem preparadas tanto portuguesas como galegas, como o

      Conde de Lemos, que discordou da sua gestão.

      Em Toro, no lugar da batalha há uma placa que aponta algo assim como

      “aqui nasceu a espanha”. Foi uma batalha onde não houve resultado

      claro, nem trufador manifesto, porém a pusilanimidade de AfonsoV que

      como diria logo, “não cortei as cabeças que cumpria”, e o ataque dum exercito andaluz a Portugal, Levou a a Dom Afonso a abandonar o

      projeto e acabar assinando o tratado de Alcobaças, onde entre outras

      cousas renuncia a Galiza.

      Galiza e os galegos ficam abandonados de quem era seu rei, mas na

      Galiza ele segue a ter a condição de rei para a toda a sociedade.

      Após da batalha de Toro de 1476, incia-se a guerra que vai levar ao

      submetimento militar, político e eclesial da Galiza a Castela, e que na

      parte galega era percebida como guerra de unificação.

      Castela não faz a guerra por os galegos terem apoiado e legítima rainha

      dona Joana, em Castela, cousa que também fizeram muitos castelhanos,

      se não por quererem de forma entusiasta a união com Portugal-. Como

      diz Zurita “En aquel tiempo se comenzó a domar aquelha tierra de

      Galicia, —hasta alhanarla y reduzirla”.

      A guerra foi absolutamente terrorista, dura de 1475 até 1487, existindo

      ainda focos de luita até 1490. Som submetidas após longos cercos

      cidade como Ourense, no segundo cerco, caiu após 11 meses de luta,

      ou. Ponferrada, última cidade galega em se render. Foi guerra de razias

      onde falta sempre uma resistência de conjunto; Castela usou uma

      poderosa arma, fazer que os galegos se dividissem (divide e impera, a

      primeira e eterna norma de estratégia certa), se fazer amigos de uns

      contra outros, mas ao final destruir todos: a Compostela que aspirava a

      primaz, aos nobres que eram galegos e amigos, Pardo de Cela, etc mas

      todos acabam destruídos com a perda para Galiza de todos os seus

      direitos. Isso significou: O fim da normalidade administrativa, o fim de

      ensino e uso da sua língua. A eliminação da sua classe dirigente e das

      elites sociais, e substitui-se a igreja galega que salvo Compostela e pouco mais, seguia a depender de Braga -outra coisa que não se estuda- (elemento fornecedor da ideologia dominante) por uma igreja estrangeira, dependente de Valhadolid em todas as ordens religiosas, e a administração passa a ser

      constituída por pessoal estrangeiro, de Castela, e colocando impostos

      desbocados. Tira-se a validez aos documentos em galego, já só vai ser

      válido o feito em castelhano e por escribãos da escola de Toledo. Desloca-

      se a nobreça a corte, a Castela, e destroi-śe a burguesia comercial, e o comercio galego autónomo.

      Miles de galegos de todas as classes, muitos seguindo a senhores

      nobres deslocam-se e estabelecem-se em Portugal, o reino galego não

      submetido.

      Castela/espanha segue controlando o relato histórico, pode-se achar

      muitos estudos sobre os irmandinhos, que não te contaram que o seu

      principal apoiante era a monarquia trastamara de Castela, pode-se

      achar trabalhos sobre aspeitos menores bem documentados, mas nada

      aparece de estudo a sério do feito mais transcendental da nossa história

      Se compararmos o processo de submetimento do nosso povo com o de

      vasconços e catalães, também submetidos a Castela, percebemos, que

      entanto que a Catalunha/Aragão se juntara a sua monarquia com

      Castela sob a palavra de ordem de “Tanto monta, monta tanto, Aragão

      como Castela”, a pesar desse lena sofreu um longo processo inçado de disposições e imposições, que começa a partir do levantamento de 1640
      e se afirma com os Decretos de Nueva Planta após a derrota na Guerra
      de Sucessão (1700-1714); e que no País Basco o caminho foi bem
      distinto, pois os bascos com os seus diretos forais sempre reconhecidos,
      vão ser um dos baluartes fundadores do projeto de Castela/espanha -.
      Na Galiza a oprobriosa imposição foi brutal, e sem processos nem
      paragens.
      Como “Doma e Castração” foi definida pelo cronista Jeronimo Zurita.
      Por todos os meios elimina-se tudo, até o direito de termos
      representação, nas cortes Castela, de jeito
      humilhante essa representação é entregue a cidade de Samora.
      Na Galiza após 1490, depois de passar a duríssima guerra criminal de
      destruição, Castela constitui a Real Audiência, como um organismo de
      controle político e jurídico do reino da Galiza e do povo galego.
      Tiram-nos as elites dirigentes: Administração, regedores, tabeliões,
      provedores de justiça e juízes, e igreja. Substituídos todos eles por
      pessoas estrangeiras vindas de Castela.
      E isso, sempre com o esforço centrado em cortarem, qualquer laço com
      a Galiza, que já era um estado independente sob o nome galeguíssimo
      de Portugal, quem usufruía a sua mesma língua e cultural nacionais.
      O racismo antiportuguês incutido na Galiza, formou sempre parte do
      processo de auto-nojo para o próprio.

      • Luís Teixeira Neves

        Alcáçovas*

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          Obrigado

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Acho que foi De la Serna na sua excelente biografia de Valhe Inclam onde comenta que o Valhe dava-se de aristocrata e de raízes pazianas, um dia teve uma discussão por estes temas com Baroja. E o Baroja desafiou-no a que lhe apresentara documentação de essa nobreça. O Baroja conseguiu a certidão da sua fidalguia pola sua condição de basco e o Valhe não pode apresentar nada, Desde essa o Baroja era alvo do seu ódio e inamizade

      • José Luís Maceira

        Adorei muito os esclarecimentos históricos do Alexandre Banhos, parabéns.
        Gostava se o Alexandre nos pudesse fornecer aqui bibliografia específica sobre a famosa Doma e Castração. Tinha muito interesse nesse tema porque há muitos historiadores que continuam a contestar a existência dela

        • José Luís Maceira

          Mais ainda, sugeria também ao Alexandre para publicar um artigo neste PGL acerca deste tema específico.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Ando a trabalhar nisso. O tema da Doma e Castração da Galiza (sob Castela/espanha), é ele bem recorrente da historiografia do século XIX, ou do primeiro terço do século XIX, mais controlada a história na Galiza desde a Universidade de Compostela (a RAGs por todo lado), o raposo que sabe bem como controlar o galinheiro, fez desaparecer essa questão de qualquer projeto de pesquisa, tese, tesinha, ou trabalho de qualquer tipo.

            Atualmente a universidade de Compostela está ensinando e formando na linha marcada polos pesquisadores do Instituto Padre Sarmiento, Os nobres galegos eram muito maus, a Galiza teve muita vantagem com os reis católicos etc.
            A título de exemplo lé a entrevista que lhe faz um trabalhador do Instituto Padre Sarmiento ao diretor -responde em castelhano- Uma pergunta diz: Acha que já desterramos o da Doma e Castração—- ao fim os Reis Católicos não eram tão maus….Depois o diretor fala da continuidade do velho Seminário de Estudos galegos, e como agora já não há a pegada nacionalista …

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Cousas que não acharás na história controlada polo estado: a) Que morto Gelmirez, e também o bispo de Braga Paio, ele declarado santo (por ter aguentado Gemirez…), João Peculiar começa por retomar o controlo desde Braga da igreja na Galiza, e que agás Compostela e suas dependências a igreja da Galiza volta a ter de cabeça Braga. Quando os reis Católicos centralizam a igreja em valhadolide, a quem tiram o Controle e a Braga, e não lho dão a Compostela.
            b) Que Portugal reino reclamou reiteradamente a parte da Galiza que ficara sob o controle de Castela, e vários reis de Portugal foram proclamados da Galiza do norte, algum deles até morou dous anos na Crunha, e por suposto nada olharás de que D. Afonso V fora proclanado rei da Galiza em 1475.
            Castela não destroi Galiza por apoiar a rainha legítima, se não por quererem de rei ao rei de Portugal

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            Há muitos anos numa viagem a Sevilha, estava no Parque de Maria Luisa, que tem cenas nos azulejos dedicadas a grandes batalhas do exército espanhol. Passei a examinar todas, e de pronto acho: Toma da cidade de Ourense após 11 meses de assédio…no 148 e algo. E digo e como disto eu nunca ouvim nada….

          • José Luís Maceira

            É apaixonante tudo isto que o Alexandre está a escrever. Vejo que não só sabemos pouco da nossa história, como também receio que no-la contáram com tendenciosidade —tal como contam a todos os galegos o tema da língua.

            Esperamos poder ler mais acerca destes temas no PGL, animo ao Alexandre para continuar com os seus trabalhos neste campo. É um prazer ler estes comentários.

          • https://pglingua.org/index.php abanhos

            O reino catalano-aragonês, só se chamou de Aragão com os trastamara castelhanos de reis, após o compromisso de Caspe.
            De facto foi Ferran, o Fernando que se casou com a Isabel usurpadora de Castela o rei que impulsionou o nome de Aragão para a confederação de reinos.

            O reino de Leão independente nunca se chamou de Leão, chamou-se Galiza, ou Galiza e Leão nos reinados de Fernando II, Afonso VII e Afonso VIII.

            Unificado com Castela em 1230/31, pronto desaparece Galiza das referências.

  • José Ramom Pichel

    Muito bom Paulo! Fantástico!

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    Dizia que há um fator no sucesso da língua basca que é um fator que não aparece nos estudos de sociolinguística, mas que é fulcral em muitos sucessos. falo do orgulho fe pertença e levar o fato que define essa pertença.
    Na Galiza todas as políticas vão para apagar o orgulho latente da pertença…com grande sucesso.
    Eis um artigo no que se amossa um assombro por esse sucesso
    https://www.vilaweb.cat/noticies/lincreible-exit-de-leuskera-entre-la-gent-jove/?pont=d11c80f9843d5c8b0239673ac480e5dc