Os sufixos -çom/-cion e -vel/-ble nos documentos medievais da Galiza



texto-de-afonso-xArtigos de divulgação filológica, como o publicado recentemente em Praza por L.C. Carballal, e trabalhos académicos, como o do catedrático Martinho Montero Santalha, ajudam a criar consenso social sobre qual deve ser considerado o termo patrimonial e qual o castelanismo no par Galiza/Galicia. Os dados quantitativos extraídos dos escritos medievais permitem-nos observar com nitidez que o uso maioritário nessa altura, quando a nossa língua se desenvolvia de forma natural, é Galiza e as suas variantes escritas. A este respeito, considero importante que haja também estudos e trabalhos semelhantes, de acesso aberto e disponíveis na rede, sobre fenómenos linguísticos análogos, para podermos debater com argumentos mais sólidos e em base a dados empíricos. Por exemplo, é interessante termos a nosso dispor dados quantitativos sobre o que acontece com as palavras terminadas em -çom ou -vel e como se distribui o seu uso em relação as variantes terminadas em -cion e -ble Neste breve trabalho, o objectivo é comparar, em termos puramente quantitativos, a frequência de distribuição dos sufixos -çom/-cion e -vel/-ble nun corpus representativo do galego medieval da Galiza. Os resultados serão comparados com os obtidos a partir dum corpus de textos medievais de Portugal do mesmo tamanho. Não se trata dum trabalho filológico e académico com explicações detalhadas e contextualizadas sobre o uso e evolução dos sufixos. É mais bem um artigo de divulgação que tenta só mostrar o mapa da distribuição de uso dos sufixos em estudo.

O corpus do galego medieval da Galiza utilizado para este estudo consta de 1 milhão e meio de palavras em 24 documentos datados entre os séculos XIII e XV. Foi cedido mui amavelmente polo professor Xavier Varela do ILG e forma parte do TMILG (Tesouro Medieval Informatizado da Língua Galega) (Varela, 2004). Foi também a base empírica do trabalho de José Ramom Pichel et al. (2020). Os documentos abrangem diferentes géneros textuais: líricos, ensaístas e notariais. Entre as obras compiladas, incluem-se as Cantigas de Santa Maria, Crónica Geral de Castela, Cancioneiro de Ajuda, cantigas de Airas Nunes e numerosas actas notariais. Para poderdes dispor do corpus é preciso contatar com Xavier Varela. Os textos foram processados com o tokenizador de LinguaKit e scripts PERL orientados à realização de buscas sobre texto tokenizado. De jeito alternativo, é possível fazer buscas semelhantes na web do TMILGA (prévio registo) mediante o uso de expressões regulares que simulem as realizadas no presente trabalho. É fundamental sublinhar que o processamento dos textos foi feito uma vez identificados e separados automaticamente os parágrafos escritos em galego-português frente a excertos, bastante numerosos em documentos notariais, escritos em castelám medieval. Como não existia nenguma ferramenta adaptada para esta tarefa concreta, o identificador de línguas medievais foi elaborado expressamente para este trabalho mediante o treino e configuração da ferramenta QueLingua. A seguir analisamos a distribuição do par çom/cion, e depois a de -vel/-ble.

1. Distribuição dos sufixos çom/cion

Para levar a cabo o estudo sobre este par de sufixos, foram listadas primeiro todas as variantes gráficas identificadas nos textos:

-çom: -çom, -som, -zom, -çon, -son, -zon, -ção, -são, -sao, -çao, -çõ, -çón, -són, -zón, -zóm

-cion: -cion, -sion, -siom, -çiom, -çion, -ción, -sióm, sión, -çión

Repare-se que escrevo sempre em negrinha e cursiva a forma normalizada dos dous sufixos, -çom e -cion, e só em cursiva as variantes de cada um deles. A seguir, foram extraídas todas as ocorrências das palavras com alguma das variantes listadas. As ocorrências extraídas foram revisadas e os casos não pertinentes removidos, nomeadamente: as formas do verbo ser (som, son, etc.) e as formas com iode desaparecido em estágios iniciais (coraçom, razom, sazom). Devido ao grande número de variantes para um mesmo sufixo, e para simplificar a tarefa, só as formas em singular foram consideradas. Polo mesmo motivo, não foram normalizadas numa forma canónica (ou lema) as diferentes variantes da mesma palavra. Por exemplo, existem múltiplas variantes da mesma palavra “excepção”:

exçeçon 2

exceiçon 2

exçeiçon 7

excepcion 1

exçepçion 1

exçepçom 3

exçepçon 132

excepçon 2

exçeyçon 1

exepçon 19

exeçon 4

 

Na segunda coluna aparece a frequência de cada variante, sendo a mais frequente, sobejamente, a forma excepçon, que poderia ter sido considerada a forma canónica medieval arredor da qual organizar o resto de variantes. Como já foi dito, este trabalho de normalização/lematização arredor duma forma canónica não foi levado a cabo.

Uma vez extraídas as palavras com os sufixos alvejados, contamos o número de ocorrências totais e número de palavras diferentes por variante e agregamos os resultados para obtermos o valor total de cada sufixo. As seguintes duas tabelas (Tabela 1 e Tabela 2) apresentam a distribuição dos dados quantitativos de cada sufixo, -çom e -cion, e as suas variantes.

Tabela 1. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em galego-português).

Tabela 1. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em galego-português).

 

Tabela 2. Ocorrências das variantes de -cion no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em galego-português).

Tabela 2. Ocorrências das variantes de -cion no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em galego-português).

 

O sufixo -çom tem uma frequencia total de 4237 ocorrências em 532 palavras ou formas diferentes, enquanto -cion ocorre 288 vezes em 149 formas diferentes.

O uso do sufixo -çom é claramene maioritário, nomeadamente se tivermos em conta a pouca frequência das palavras com as variantes do sufixo -cion em comparação com as formas terminadas com variantes do sufixo -çom: cada palavra com variantes de -cion ocorre de média só 2 vezes no corpus (288 ocorrências para 149 formas diferentes), enquanto que as palavras com variantes de -çom tendem a ter uma frequência média de 8 (4237 ocorrências para 532 formas diferentes).

Analisando os pormenores dos experimentos realizados, foram achados três indícios que semelham demonstrar que o uso do sufixo -cion está relacionado com a castelanização do galego medieval.

Primeiro indício de castelanização: no século XV, mais castelhanizado, a proporção de palavras com o sufixo -çom ao respeito de -cion é claramente menor que em séculos anteriores, onde a proporção de -çom frente a -cion é maior. A Figura 1 mostra esta tendência. Enquanto nos séculos XIII e XIV a proporção de palavras com sufixo em -çom é por volta de 17 vezes superior, este valor baixa a 11 no século XV. Concretamente, no século XIII há 1109 casos de -çom frente a 67 casos de -cion (16,6 vezes mais casos de çom), enquanto que no XV encontramos 1210 casos de -çom frente a 112 de -cion (11 vezes mais).

tabela-com-cion

Figura 1. Proporção de -çom frente a -cion em três períodos (séculos XIII, XIV e XV) nos documentos da Galiza.

 

 

Segundo indício de castelanização: Nos parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em castelám (ou num galego medieval mais influenciado polo castelám) a tendência é a contrária. Achamos maior proporção de -cion ao respeito de -çom:

-cion: 163 ocorrências em 69 formas diferentes

-çom: 68 ocorrências em 39 formas diferentes

Terceiro indício de castelanização: Nos textos medievais de Portugal, tal e como se pode observar nas tabelas 3 e 4, o uso de -cion é mui marginal ao respeito de -çom. Estes experimentos foram levados a cabo compilado um corpus de textos de Portugal dos séculos XIII-XV. Trata-se da parte portuguesa medieval do corpus diacrónico e multilingue Carvalho (Pichel et al. 2019, Pichel et al. 2020). Este sub-corpus consta de 1,7 milhões de palavras (ligeiramente mais grande que o corpus medieval de Galiza), e inclui também textos de diferentes géneros, como Chronica de Dom João I, Cantigas de Dom Dinis e documentos notariais. O corpus Carvalho está disponível na ligaçom: http://fegalaz.usc.es/~gamallo/resources/Carvalho.tgz

 

Tabela 3. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval de Portugal.

Tabela 3. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval de Portugal.

Tabela 4. Ocorrências das variantes de -cion no corpus medieval de Portugal.

Tabela 4. Ocorrências das variantes de -cion no corpus medieval de Portugal.

Alem do uso residual de -cion nos documentos de Portugal, uma outra diferença importante é o uso maioritário das variantes terminadas em m, frente a tendência inversa nos textos galegos onde as duas variantes mais frequentes de -çom são -çon e -son. De resto, existe uma grande simetria no uso das variantes de -çom nos textos da Galiza e de Portugal: encontramos quase as mesmas variantes gráficas de -çom e um número mui próximo de ocorrências de palavras com este sufixo.

2. Distribuição dos sufixos -vel/-ble

O mesmo tipo de experimentos foi levado a cabo para analisar a distribuição do par –vel/-ble, derivados do sufixo latino -BĬLIS. Baseei-me no trabalho de Ramón Mariño (2005) para listar as variantes possíveis dos dous sufixos. Como nos experimentos anteriores, só as formas em singular foram consideradas e os casos errados foram removidos após revisão. As tabelas 5 e 6 mostram uma maior proporção de casos de -vel frente a -ble.

Tabela 5. Ocorrências dos alomorfos de -vel no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como escritos em galego-português).

Tabela 5. Ocorrências dos alomorfos de -vel no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como escritos em galego-português).

Tabela 6. Ocorrências dos alomorfos de -ble no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como escritos em galego-português).

Tabela 6. Ocorrências dos alomorfos de -ble no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como escritos em galego-português).

Como no caso do par anterior, foram achados três indícios que demonstram que o uso do sufixo -ble está relacionado com a castelanização do galego medieval.

Primeiro indício de castelanização: Há maior proporção de variantes de -vel sobre variantes de -ble nos séculos XIII e XIV, frente ao século XV, tal e como mostra a Figura 2. Esta mesma tendência também se pode observar no trabalho de Mariño (2005).

Segundo indício de castelanização: Não há maior número de ocorrências de -vel frente a -ble nos parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em castelám:

-ble: 4 ocorrências em 3 formas diferentes,

-vel: 3 ocorrências em 3 formas diferentes

tabela-vel-ble

Figura 2. Proporção de -vel frente a -ble em três períodos (séculos XIII, XIV e XV) nos documentos da Galiza.

 

 

Terceiro indício de castelanização: No corpus galego (tabelas 5 e 6) a distribuição de frequências entre os dous sufixos é mais igualada que em Portugal (tabelas 7 e 8), onde -ble é claramente minoritário. Enquanto em galego a frequência de -vel é só 5,4 vezes maior do que -ble, em Portugal é 32 vezes maior.

Tabela 7. Ocorrências dos alomorfos de -vel no corpus medieval de Portugal.

Tabela 7. Ocorrências dos alomorfos de -vel no corpus medieval de Portugal.

Tabela 8. Ocorrências dos alomorfos de -ble no corpus medieval de Portugal.

Tabela 8. Ocorrências dos alomorfos de -ble no corpus medieval de Portugal.

Observamos, portanto, que o comportamento de -vel/-ble é muito similar ao de -çom/-cion, nomeadamente no tocante aos indícios, ou mais bem evidências, de castelanização de -ble e -cion.

Os dados analisados no presente trabalho permitem concluir que a decisão de não recuperarmos a variante patrimonial en -çom de muitas palavras, dando preferência à forma semi-culta das terminadas em -cion (por exemplo: “elección”, “xeración”, “perfección”), é questionável. Se a maioria destas formas semi-cultas não aparecem nos textos medievais da Galiza, é difícil perceber por que não foram recuperadas as correspondentes formas patrimoniais frequentes no galego medieval: eleiçon, geraçon, perfeyçõ. A riqueza e produtividade de -çom na época medieval observa-se mesmo em textos de prosa notarial do domínio jurídico-administrativo com palavras mui especializadas tais como anexaçon ou apelaçon.

Por outro lado, sendo a proporção do uso de -vel frente a -ble (5,4) claramente menor que a de -çom frente a -cion (14,7), por que a norma do galego ILG-RAG recuperou -vel e não -çom?

Talvez a resposta tenha a ver com que -çom é um sufixo muito mais produtivo e portanto mais aportuguesador: frente às mais de 4 mil ocorrências de palavras terminadas em -çom na amostra de textos medievais da Galiza, só se documentam pouco mais duma centena de ocorrências com o sufixo -vel nesse mesmo período e na mesma amostra. Seica o sufixo -çom, ao ser demasiado frequente e demasiado português, é percebido como uma bomba que bota abaixo esse equilíbrio impossível que procura uma norma equidistante entre português e castelám.

Recursos

Os léxicos com os sufixos estudados e extraídos dos corpus da Galiza e Portugal podem descarregar-se desde esta ligação:

http://fegalaz.usc.es/~gamallo/resources/sufixos_medievais.zip

Referencias

  • Mariño Paz, Ramón (2005): “Forma e función do sufixo –uel no galego medieval”, Cadernos de lingua, 27, 155-193.
  • Varela Barreiro, Xavier (2004). Tesouro medieval informatizado da lingua galega. Santiago de Compostela: Instituto da Lingua Galega [http://ilg. usc. es/tmilg](01/09/13-09/10/13) .
  • Pichel, J-R., Pablo Gamallo, Iñaki Alegria, Marco Neves (2020) “A Methodology to Measure the Diachronic Language Distance between Three Languages Based on Perplexity”, Journal of Quantitative Linguistics, pp. 1-31. DOI: 10.1080/09296174.2020.1732177.
  • Pichel, J.R, Pablo Gamallo, Iñaki Alegria (2019). “Measuring diachronic language distance using perplexity: Application to English, Portuguese, and Spanish, Natural Language Engineering. DOI: 10.1017/S1351324919000378.

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho

Paulo Gamalho nasceu em Freixeiro (Vigo) em 1969. É licenciado em Filologia Hispânica pola USC e Doutor em Linguística pola Université Blaise Pascal, França. É docente-investigador especializado em linguística computacional.
Paulo Gamalho


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  • Ernesto Vazquez Souza

    Não é muita surpresa para quem lesse algo de medieval antigo, de auctoristas e humanistas…

    Para mim o mais significativo é que coincide com uma velha suspeita:

    A forma galega antiga é -ON

    Tabela 1. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval da Galiza (em parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em galego-português)

    O predomínio de -çoM é portanto seródio, e basicamente português:

    Tabela 3. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval de Portugal.

    Confirma que, de querermos uma norma nacional a nossa forma tradicional e
    representativa, por antiga, por latina e palindrómica na negativa
    deveria ser -çoN como NON…

    E não -ÇOM, Bom, NOM

    E essas formas, sendo tão portuguesas como -ção e não… carecem de qualquer rendibilidade, para a construção de uma norma internacional de variante própria.

    • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

      O português experimentou umha evoluiçom, partindo das antigas formas galegas iniciais até chegar às atuais em «–ção». Porque negar ao galego moderno tamém umha evoluiçom — paralela, nom divergente — até chegar à forma moderna em «–çom»? E logo nom temos direito a evoluir, só a copiar, quer do espanhol quer do português? Temos que continuar em comunicaçom promíscua co resto do nosso diassistema linguístico, mas nom temos que nos diluir nele.

    • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

      «E essas formas, sendo tão portuguesas como -ção e não… carecem de qualquer rendibilidade, para a construção de uma norma internacional de variante própria.»

      Pola contra, essas formas em «–çom» som muito mais rentáveis e úteis ca a soluiçom unívoca portuguesa: por exemplo, permitem ajudar a formar os plurais com naturalidade onde o português se trabuca e tem que memorizá-los.

      (Por outra banda acho mais ajeitada a forma «mão / vrão» nos casos em que a forma oral seja em /ao/. Destarte, formas como «langrám», que em nengures na Galiza soa /lan’grao/, mas sempre /lan’gran/, nom precisa ser escrito «langrão», como fai — no meu ver desafortunadamente — o dicionário Estraviz).

  • Ernesto Vazquez Souza

    Não é muita surpresa para quem lesse algo de medieval antigo, de auctoristas e humanistas…

    Para mim o mais significativo é que coincide com uma velha suspeita:

    A forma galega antiga é -ON

    Tabela
    1. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval da Galiza (em
    parágrafos identificados automaticamente como sendo escritos em
    galego-português)

    O predomínio de -çoM é portanto seródio, e basicamente português:

    Tabela 3. Ocorrências das variantes de -çom no corpus medieval de Portugal.

    Confirma que, de querermos uma norma nacional a nossa forma tradicional e
    representativa, por antiga, por latina e palindrómica na negativa
    deveria ser -çoN como NON…

    E não -ÇOM, Bom, NOM

    E essas formas, sendo tão portuguesas como -ção e não… carecem de
    qualquer rendibilidade, para a construção de uma norma internacional de
    variante própria.

  • Venâncio

    Magnífico artigo. Paulo.

    Os estudos históricos não são, e é pena, tradição reintegracionista, haja vista a distância (cronológica) entre Fernando Corredoira e ti mesmo.

    Tenha-se em conta que a proliferação do -ão português é tardia, como se vê na persistência até 1900 de, por exemplo, “nom” e “tam”. Mas muito cedo ela se revelou (como mostrei algures) autenticamente catastrófica em termos morfológicos.

    Que o galego não se afunde no pântano morfológico que os portugueses para si mesmos criaram. O teu artigo é uma ponta de esperança.

  • Joám Lopes Facal

    Excelente investigaçom a de Gamalho sobre ortografia, frequência e variabilidade destes sufixos demonstrativos da potência inovadora do galego histórico antes de caírem vítimas do castelhanizado “–ción” por pretensa restauraçom do sufixo culto latino. Tese tam aventurada como contraditória visto o colapso do cultivo literário do idioma a partir do século XIV, tam patente na análise diacrónica de Gamalho.
    A manifesta ausência de contributos gramaticais de índole renascentista durante o longo processo de decadência e desconexom com a Galiza trans-minhota, abre o processo de progressiva obsolescência do léxico tradicional e suplência castelhana em que ainda nos debatemos. Parabéns ao Paulo polo sólido contributo.
    Outra cousa é a apressada finta de Ernesto da que me atrevo a discrepar. Refiro-me à hipótese de as formas genuínas –com, -som, e mesmo o advébio nom, carecerem de rendibilidade para a construção de uma norma internacional própria.
    As terminaçons -cão e -são, além de extremamente exóticas para qualquer galego, nada acrescentam à perfeita inteligibilidade internacional das nossas formas genuínas e obstaculizam, polo contrário, a vasta tarefa de socializaçom de um formato ortográfico moderno, fiel ao galego histórico e estritamente congruente com o formato internacional. Em perspectiva hegemónica, considero um claro erro a adesom às virtudes taumatúrgicas do til e á lógica do vencedor como critério de legitimaçom.
    Persoalmente adiro à pertinência de um discurso e umha prática nacional e autónoma ante este e qualquer desafio ao pleno desenvolvimento dos nossos atributos históricos. Com a língua própria de primeiro.

    • Ernesto Vazquez Souza

      Tão exótico e alheio ao galego é -çom como -ção… Levo anos dizendo. Não tem lógica, nem avais históricos. E carece, numa perspetiva reintegracionista da pragmática e da lógica do -ção.

      Agora… entre o século XIV e 1980 é raro que encontres num texto galego uma nem outra… as fórmulas em -OM são já próprias de uma fase do português.

      Para alem…

      -çon é a forma tradicional galega, tanto medieval, como dos séculos XVII a XIX e também a usada no XX tanto nos da Cova, como no dicionário da RAG, quanto pelos escritores etimologistas de antes da Guerra e depois por guerra da Cal e o pre-reintegracionismo .

      -çom é uma forma descartada pelo Português e inexistente em galego antes da recuperação da AGAL há apenas 40 anos.

      -ção é a forma que padronizou o Português no decurso da sua história e formação.

      Do meu ponto de vista se o objetivo é uma norma nacional deveria tratar de ir à raiz e à história… não a chafalhadas intermédias mitificadas… mas nem tivemos projeto de Estado Galego, nem recursos nem poder no século XIV… nem temos agora…

      • Luis Trigo

        Há um outro problema em português com as terminações em -on e -om. Os brasileiros não as distinguem na pronúncia, ao contrário dos portugueses e quando os br usam -on em vez de algumas palavras em -ão de pt-pt, fazem o plural em -ones.

        https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/as-palavras-terminadas-em-om-on-ao-e-os-plurais/10884

        Saúde!

        • Joám Lopes Facal

          Engraçado labirinto ortográfico. BR: próton, PT: protão, GZ: protom, neutrom, gluom etc, sem duvidar. Vantajes de laborar cerca dos alicerces do idioma comum.
          https://praza.gal/opinion/prometeu-em-genebra

          • Luis Trigo

            Artigo muito interessante, obrigado 🙂

      • Luis Trigo

        https://youtu.be/nmCMT5Nfq7g

        Este vídeo mostra o paradoxo da terminação em -n da ortografia ilg/rag. Sem dúvida seriam melhor servidos com um -m como na ortografia portuguesa.
        Termina o vídeo com como se deve pronunciar “non a viu”. Seria mais fiel se dissesse “nom na viu”. Em pt ainda se ouve por vezes não na viu 🙂

        • Venâncio

          Luís, eu tento não deixar esquecer sequências como “Não na quero”, “Bem no disse”. Talvez seja tarde já. Talvez não.

          • Luis Trigo

            Muito bom! Quando estou mais informal também o digo 🙂

          • Venâncio

            Ou “Também no digo”, Luís.

            Desculpe, é irresistível.

          • Luis Trigo

            XD

          • Ernesto Vazquez Souza

            Curioso… eu diria que esse fenómeno de reforço obedece não apenas a pronuncia, quanto a que lhes faltam os pronomes de solidariedade, dativos de interesse no esquema da língua…

          • Venâncio

            Sim, desde cerca de 1530, em obra do minhoto Sá de Miranda, que o português abandonou os dativos de interesse, que aliás nunca cultivou.

            Mas não vejo onde tivessem eles aqui um papel. Esse -N aparece SÓ a seguir a uma nasal: não no, bem no, assim no, também no. Ou as formas na, nos, nas, claro.

          • Ernesto Vazquez Souza

            é interessante… o galego está também servido desses fenómenos… os mais deles, claro com L ou N…

            Alguns de feito terminaram fixados na língua, e não poucos percorrem a tradição literária galega antes de 1982… mesmo o ILG considerou alguns Norma ou durante um tempo tratou que foram variante…

        • Miro Moman

          Em realidade a pronúncia galega estaria melhor representada por “nõ a viu” ou ainda “ũ homem”. A consoante não existe, é uma vogal nasalizada.

          Já os espanhóis e determinados neofalantes pronunciam “nona viu” e “unome”, porque em castelhano é uma consonante a parte inteira.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Nom creio que seja vogal nasalizada, mas velarizada, tal como a original grafia «ũa».

            Quanto a pronúncia original galega, a dos paleofalantes (polo menos na minha bisbarra), pra «nom a viu» é /nonaviu/, com /n/ (nom velar) mas pra «um home» sim é velar: /uŋome/.

        • Carlos

          Curiosamente, Luís, entre os nossos velhos é bastante comum simplificar e dizer só “na viu”, em lugar de “nom a viu”. Ou seja, prescinde-se do om/ão.
          Também acontece em Portugal?

          • Luis Trigo

            Interessante 🙂 pode-se ouvir “na viu” no Alentejo e no Algarve, mas como substituição do “não viu”. Não me recordo de o ouvir para norte. “Não” imediatamente antes do verbo pode-se também ouvir em pt como sistematiza a gramática do leonês – “num viu”.

    • Venâncio

      A questão com a terminação -ão para o galego, Joám. é mais grave ainda, como a história do português o demonstra.

      Adoptar o -ão português onde a terminação galega legítima é -AM/-AN ou -OM/-ON é puro exibicionismo. Pá, vejam como sou internacional! Patetas.

      Em português, a uniformização em -ão das terminações -AO, -AM e -OM acarretou uma confusão diabólica, com a criação de plurais duplos (verãos, verões e vários outros) e mesmo triplos (aldeãos, aldeões, aldeães e muitos outros).

      Impor aos galegos esta barbúrdia, em nome duma internacionalização, como se nós fôssemos atrasados mentais, é simplesmente criminoso.

      • Venâncio

        Como mostro em “Assim nasceu uma língua”, dezenas de gramáticos, portugueses e brasileiros, dão-nos, desde há séculos até hoje, uma solução para achar os “verdadeiros” plurais: «Vejam como é em castelhano».

        Um didáctico galego também o fez já, para o período pós-galego com que alguns reintegracionistas sonham. É a rendição gramatical ao castelhano. Por mor do português. É de loucos.

        • Ernesto Vazquez Souza

          Sem dúvida esse -ão foi uma solução exótica e trapalheira… própria das abreviaturas da escrita de mão… nunca entendi como sobreviveu e ainda vingou na Imprensa, ou até na era de Internet… mas aí está…

          Se acham tão descabida e confundente, deveriam ser os portugueses e brasileiros quem reformassem e liquidassem. Os galegos nem somos sócios de honra do clube para propormos sem que se ouçam as gargalhadas até em Marte.

          E piores cousas têm o Francês ou o Inglês e aí andam…

          Para além de regionalismos, pronuncias, de marcas de classe e dialetos… Isso tudo é uma questão de alfabetização. Um processo que as sociedades modernas resolvem com a escolarização obrigatória.

          Claro que as alfabetizações e as escolarizações são cousa de Estados… outra cousa que os galegos não temos, e e mais difícil de conseguir um Estado que dominar o arcano do -ão…

          Agora… Eu não falo de desandar a língua… o único que pretendo destacar (como historiador e detetive amador) é que a solução -OM proposta pela norma AGAL nos 80 para a escrita do galego (não antes), não tem qualquer legitimidade simbólica, obedece não a uma tradição ou a melhor solução nacional, quanto as circunstâncias da própria ideia da que nasceu a AGAL (na altura que nasceu)… um modelo de língua desenhado para:

          – definir uma proposta alternativa ao modelo ILG de teor mais reintegracionista (mais achegada do português), mas dentro de uma ideia também isolacionista/nacionalista da Língua (o galego não é português).

          – criar um sistema (temporal ?) que servisse (naquele momento) de ponte num momento de tensão e fratura entre o modelo roturista que vinha de consagrar o isolacionismo, e o português.

          – funcionar como banco de prova alternativo que retificasse o modelo ILG-RAG.

          Eis o sentido do -OM, não é português bem (mas é o sistema que os portugueses e lusitanistas medievais empregam de velho para grafar quando disponibilizam os textos medievais); e também não o afasta completamente do esquema do -ON que define a tradição e o isolacionismo…

          O modelo AGAL tinha uma lógica de Ponte. Mas também um momento. Não foi desenhado para prolongar-se indefinidamente no tempo, pois carece de recursos e de lógica real sistémica. E após 40 anos é evidente que o isolacionismo, rejeitou o debate e continuou desenvolvendo uma norma nacional fraca, sem recursos e demasiado na órbita do castelhano, sem atender em muito às propostas reintegracionistas.

          Por sua vez o reintegracionismo, no decurso deste meio século, cindiu-se em dous esquemas. Um que permanece paralisado, sem recursos institucionais, no modelo de ponte, sonhando com uma unificação entre os dous modelos para corrigir o modelo ILG ao Galego comum moderno. E outro que desesperou e achou mais simples e prático continuar a reintegração até o ponto em que se encontra o português atual.

          De qualquer jeito: sem estado galego, os modelos ILG e AGAL estão condenados à desaparição; e mesmo com um estado galego, que primeiro há que ter, teriam que confluir de novo estando obrigados a criar um novo modelo nacional unificado… com o qual todos os trabalhos de quem sabe quantas décadas valeriam nada.

          • Venâncio

            Ou muito me engano, Ernesto, ou a utopia (essa que nos dá energia para avançar) dos reintegracionistas mais destacados é realmente isso mesmo: uma Galiza independente que, no dia seguinte, como noiva excitada, se lançaria nos braços de Portugal, entregando tudo o que até aí havia sido.

            Sim, amigo, alguns reintegracionistas são isso mesmo: uns entreguistas. Sorte deles eu não ser galego!

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Do ponto de vista político — que é em realidade o que determina o verdadeiro sentido da forma culta da língua — a convergência linguística no português leva à imersom política em Portugal (entramos já no eido da ficçom científica). Apesar do canto de sereia de muitos lusistas de pendor nacionalista galego. Nom se enganem. A prova:

            A Escócia, cum motor económico (no eixo Glasgow-Edinburgo) muito maior ca o galego, nom se deu xebrado do Reino Unido, e fica subordinada a Londres.

            Emporisso, se os escoceses tivessem artelhado e consolidado o seu próprio padrom de língua — chamemos-lhe anglo-saxom escocês — mui possivelmente a escolha da independência do Reino Unido teria vingado.

            Mas tenhem só os seus vernaculares (cada vez mais diluídos) e o sotaque (cada vez mais desbotado). É a sua aderência ao padrom do British English que os mantém no Reino Unido.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Isso seria na realidade o mais lógico, ou quando menos algo não descartável assim sem mais.

            Há dados económicos, de relação, de possibilidades fronteiriças, de lógica, de clima, de costumes, horários, cultivos… de interesses e capital, de peso populacional… a franja atlântica existir existe, e como dizia António Sérgio “Do monte Ártabro ao Guadiana…”

            Há inúmeros momentos e episódios… antes e depois de Afonso Henriques e até a Batalha de Touro e mesmo no XIX com a Francesada e até com a república Portuguesa… e vozes de alarme e proclamas da parte galega…

            De feito surpreende que não exista hoje, com força (houve alguma voz minoritária), no independentismo e até no nacionalismo político atual, mesmo no BNG uma corrente, grupo de estudo, proposta política que situe o discurso linguístico e histórico à par dos dados geográficos, estratégicos, de comunicações, económicos e até de vistas aéreas e satélites e promova diretamente a anexão da Galiza a Portugal.

            Afinal como dizia Benito Vicetto lá a meados do XIX: a Galiza tinha de ter impedido a separação de Portugal… ou ir com ela…

          • Venâncio

            Eu adoro a ficção histórica. É a melhor da ficção científica.

            Outra coisa é viver numa ficção histórica, como acontece a alguns reintegracionistas (inclusive não agálicos).

            Mas a realidade é cruel.

            A chance de Galiza e Portugal algum dia (digamos, neste século XXI) se unirem é microscópica. Quatro mandatos de Feijóo são infinitamente mais eloquentes que as endiabradas fantasias lusófilas.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… cousas mais raras se viram e torres mais altas já caíram…

            Irlanda ou Israel não tiveram muito mais doado…

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Nunca se sabe. Ninguém cuidava que o conavírus fosse tam perigosamente letal …

        • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

          (Resposta tamém prò Joam Facal num comentário seu «em defesa do –çom», assi como pra qualquer lusista que nom acreditar nesta forma tam original criada pola AGAL).

          O valor simbólico do «–çom» pode ser questionado, como fai alguém neste fio, mas o seu verdadeiro valor, ao meu ver, é que permite implementar a nossa flexom verbal pronominal vernacular, a nossa fraseologia e léxico. Ou seja, conformar um verdadeiro modelo de «português da Galiza». Vou tentar explicar:

          Nom fai sentido escrever, por exemplo, «fixem uma cousa com atenção, fixem-na com sentidinho», como a «norma aberta» da AGAL permite. Quem escreve «atenção» está a fazer umha equaçom «galego = português». Ou seja, a ortografia tem que ser a mesma. Logo, pola mesma, nom fai sentido escrever «cousa». É a mesma lógica que nos levou, já do começo, a mudar «umha» em «uma».

          Ficamos entom em «fixem uma coisa com atenção, fixem-na com sentidinho».

          Ora, a flexom verbal diferencialista (desde que galego = português) tampouco fai sentido nengum. Semelha, sejamos francos, umha palheirada. Está bem na fala, mas na escrita nom é necessária.

          Portanto ficamos com «fiz uma coisa com atenção, fi-la com sentidinho».

          Nesta altura temos ainda um pequeno problema. Ele-saberám os portugueses o que queremos dizer com «sentidinho»? É duvidoso. Deixemo-lo prà fala informal entre galegos. No modelo culto deveremos empregar umha forma claramente compreensível.

          Já que logo, acabamos em «fiz uma coisa com atenção, fi-la com prudência», ou algo similar.

          Conclusom: o emprego da ortografia portuguesa, sem nengumha marca ortográfica galega, leva a termo ao apagamento do nosso PATRIMÓNIO (lexical, fraseológico, morfosintático) exclusivamente galego LUSÓFONO.

          Por isso eu julgo que a velha norma AGAL é mais ajeitada (desculpas polos meus hiperdiferencialismos) ca o padrão português pra configurar a forma culta da nossa «pantera profumata», forma que alguns chamam português da Galiza.

  • Miro Moman

    É um trabalho muito interessante. Parabéns Paulo.

    Já os comentários… Continuamos a debater o sexo dos anjinhos em chave de construção duma “língua nacional”.

    Esse projecto fracassou. A Galiza é Espanha e a língua galega já não existe. O que temos agora é um simples dialecto regional do espanhol. Estamos a esbanjar esforços numa via morta.

    A única estratégia viável é a autodeterminação interna. Declararmo-nos portugueses dentro do Reino da Espanha. Para isso temos que escrever à Lisboeta.

    • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

      O galego moderno é, concordo, um simples dialeto regional espanhol. Isto, baseândomo-nos na pragmática, no uso geral e corriqueiro, falado e escrito, que de tal idioma se fai. Nom nas teorias teorias filológicas e políticas, que ficam mui xeitosinhas em que as pratica, e nem sempre.

      Mas já que temos que escrever à lisboeta, porque nom nos declararmos lisboetas, mais do que portugueses?

      Ele-nom se pode ser português do norte, cum jeito de escrever um algo diferente? Porque nom podemos escrever com «–çom», seremos «impuros»?

      • Miro Moman

        Cada um é muito livre de escrever como quiser.

    • Joám Lopes Facal

      Comungar com tiles de moinho leva a confundir o idioma com a crença e a política com a magnésia

      • Miro Moman

        Eu pessoalmente não tenho crenças. Acredito apenas na supervivência dos seres vivos e na reprodução dos seus genes, que é no que consiste a vida.

        Os factos são claros: o galego hoje é castrapo. Que fazemos com ele?

        1. Acelerar a sua morte (castelhano).

        2. Deixar que vaia morrendo pela sua deriva natural (ILG/RAG).

        3. Tentar inventar uma “língua nacional” (AGAL) associada a um projecto de “construção nacional”.

        4. Passar ao português europeu.

        5. Passar ao português brasileiro.

        Não há dogmas, apenas estratégias. Cada um que faça o que quiser. Por que temos que fazer todos a mesma cousa?

        • Ernesto Vazquez Souza

          pois…

          é falar por falar… as posições estão claras e a prática mais… na realidade o melhor é ir fazendo, ver onde chegamos e evitar o debate… lamento ter sido eu desta vez o que o inciou…

          saúde

        • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

          A língua nacional galega já existe, nom hai que inventá-la. Está arrecadada no Dicionário Estraviz, com todo o léxico, fraseologia e, mais recentemente, a morfosintaxe verbal. Está recolheita no Dicionário de dicionários, onde aparece luxada de castelanismos e pintada de dialetalismos, sim, mas ali está. Está configurada na ortografia da normaAGAL, mesmo na sua mais recente forma lusitanizante.

          É só questom de usá-la, de praticá-la — como fazemos muitos, ou alguns — nom hai que inventá-la. Decerto que o estudo e prática de português, em todas as suas formas, é indispensável, mas isso é só um meio, nom um fim.

          Mas que cada quem faça como milhor lhe prestar …

          • Miro Moman

            A língua nacional dos 90 % dos galegos é o castelhano. Não querem outra nação nem outra língua que não seja a espanhola.

            A questão é que é o que vai fazer a minoria galega nesse contexto?

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Tens razom em que a língua nacional dos galegos (eu diria antes «gallegos») é o espanhol. E neste contexto real, tam desgaleguizado, qualquer esforço, quer numha fórmula castrapista, hiperlusista, reintegracionista moderada, etc, é válida. Eu só intervinhem porque alguém dixo que a soluiçom do «–çom» nom era produtiva, o qual acho que demonstrei (num comentário mais acima) ser falso, ou errado. Saúde.

        • Venâncio

          4. Passar ao português europeu.
          5. Passar ao português brasileiro.

          Ah, valente. E tu sabes dizer (a mim, ou a quem for) como isso se faz?

          Linguisticamente, claro.

          • Miro Moman

            É muito simples. Ignoram-se os talibãs e os cavalos de Troia e pronto.

          • Venâncio

            Miro,

            Ou és um milagreiro ou um charlatão.

          • Miro Moman

            Não havendo mais opções, devo ser milagreiro logo.

          • Venâncio

            A tua auto-imagem é invejável. Parabéns.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Pois eu suponho que:

            1º Com esforço e estudo individual das elites intelectuais conscientizadas.

            2º Procurando construir no tecido civil movimentos associativos e inciativas culturais e formativas com objetivos muito concretos, os mais deles focados no âmbito educativo, e no possível no alfabetizador de adultos.

            3º Captando recursos humanos e investindo dinheiros nesses movimentos associativos e projetos até conseguir uma massa crítica.

            Para mim um modelo a seguir é o exposto por Theodor Herzl no Estado judeu…

            https://en.wikipedia.org/wiki/Der_Judenstaat

          • Venâncio

            Ah, Ernesto. O Estado judeu tinha um modelo concreto de língua. E tinha linguistas, que expuseram exactamente como ensiná-lo a uma sociedade.

            Estás a ver isto na Galiza?

          • Ernesto Vazquez Souza

            Não tinha nos tempos de Herzl… Teve depois… primeiro limitou-se a reunir terras, recursos humanos e capitais… que é do que eu falo…

            As cousas não se tiram assim abracadabro do chapeu com a palavra convocada … levam tempo, energias, conversas, recursos, ensaios…precisam-se umas quantas gerações na mesma ideia…

            É mais que provável que eu não veja nunca… os profetas nunca vemos… mas como Añon eu sonho ver todas essas cousas no cume do Pindo, por mais que desperto e encontro a realidade…

            Saúde

  • Ernesto Vazquez Souza

    Desculpo-me com o Gamalho, porque o meu comentário tem desviado o ponto do seu artigo para universos imprevistos e realmente fatigantes.

  • José Rios

    é uma discussão superada.
    Um galego pronuncia igual estas duas orações:

    O irmão do capitão tem uma opinião
    O irmão do capitám tem umha opiniom.

    Lê ambas com a mesma facilidade e velocidade. Portanto a grafia da segunda oração não se fundamenta em qualquer pragmatismo.

    E o problema dos plurais é dos portugueses e brasileiros. Um galego oriental não confunde irmãos, capitães e opiniões porque a pronúncia é diferente mesmo. Um galego ocidental tem alguma dificuldade com os 2 primeiros, mas tem a mesma dificuldade com a norma -çom.

    • Venâncio

      «O irmão do capitám tem umha opiniom.»

      Esta seria a pronúncia do português hoje… se não o tivessem desviado por caminhos ínvios.

      Mas, se há galegos que desejam pronunciar

      «O irmão do capitão tem uma opinião»

      são tontos.

      • José Rios

        Escrevemos “o irmão do capitão tem uma opinião” e pronunciamos “o irmám/irmao do capitám tem umha opiniom”. Sem qualquer dificuldade.

        • Venâncio

          Mas porquê escreverdes «O irmão do capitão tem uma opinião»? Em 20 e mais anos de contínuo contacto convosco, nunca o entendi.

          • José Rios

            Eu leio textos portugueses e estão escritos assim. Que lhe vou fazer…

          • Venâncio

            E que importância tem isso? Eu leio todos os dias textos brasileiros e não escrevo à brasileira.

            Que desculpa esfarrapada, essa sua!

          • José Rios

            Vocë fundamenta a diferença gráfica Brasil-Portugal em questões pragmáticas. Se desaparecerem as consoantes mudas haverá dificuldades com a pronúncia, etc. Imagine se não houver tais dificuldades. Por que escrever diferente?

          • Venâncio

            Mas ele HÁ dificuldades para os portugueses na pronúncia das vogais pretónicas, devido à eliminação das consoantes ‘mudas’. Leia

            https://www.publico.pt/2016/08/01/culturaipsilon/opiniao/ao90-a-formula-do-desastre-1739935

          • José Rios

            Bem. Mas NÃO HÁ dificuldades para os galegos na pronúncia

            da oração “O irmão do capitão tem uma opinião”. Esse era o ponto.

          • Luis Trigo

            Eu peço desculpa, mas não percebo essas dinâmicas de superação em exemplos simplificados à medida. Um português tem dificuldade em ler e perceber “O irmão do capitám tem umha opiniom”?

          • Venâncio

            Boa, no alvo!

          • Venâncio

            Mas, Rios, eu também não tenho dificuldade em 3 línguas que domino prefeitamente.

            A questão é que, para um galego, “O irmão do capitão tem uma opinião” é uma frase estrangeira.

          • José Rios

            E “o irmão do capitám tem uma opiniom” também é uma frase estrangeira! kkkkkkkkk. Já sei: o conto este das normas é cousa de nacionalismo e estrangeirice

          • Venâncio

            Para um português, uma frase como “A indenização de papai foi aceita” é uma frase estrangeira. Como esta, centenas.

          • Venâncio

            Rios, eu não sei que faz Vc na vida. Mas estas matérias ocupam-me desde há 45 anos (formei-me em Linguística em 1976) e não me dá tusa andar a discutir a nível tão primário. Eu fico por aqui.

          • Ernesto Vazquez Souza

            “O irmão do capitão tem uma opiniõa” não é nada estrangeira… é mais uma dessas frases absurdas de texto escolar que um escolante trata de soletrar para que memorizemos corretamente… XD

            Que teima e que fantasia com que a escrita tem de representar dalgum jeito à oralidade e vice-versa… que se uma nasalidade cá grafada, um apóstrofe acolá, ou um circunflexo lá…. quem nos desse esquecessem esse mito absurdo, essa fantasia…

            A palavra escrita tem um aprendizado complicado, codificado e memorístico é uma arte, uma conexão mental com signos realizada no decurso do tempo e melhor na infância… leva muito tempo aprender e mais dominar mas é apenas por isso, porque são portugueses cultivados e donos desses mecanismos que “percebem” erros, estrangeirices, galegadas, castelhanismos… acontece em todas as línguas… é como se marca status, classe, cultura (= poder)…

          • Venâncio

            Mas, caro Ernesto, quanta tinta tenho de gastar para te convencer de que «O irmão do capitão tem uma opinião» não é uma questão ortográfica, mas de morfologia (no caso, a formação dos respectivos plurais)?

            E quanta mais tinta (virtual, vá lá) tenho de gastar para mostrar-te que essa uniformização de irmão, capitão e opinião foi, e continua a ser uma fonte de problemas para portugueses e brasileiros (exactamente na formação dos plurais:?

            Pela última vez: querer à viva força importar para a Galiza um problema destas dimensões, que ela não tem, é criminoso. Se eu fosse galego, far-vos-ia em fanicos.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Não me faça rir… Se fosse galego, ou estava emigrado e botando pestes da Galiza; de orelhas gachas trabalhando para o sistema; ou já o tinham matado a pontapés em qualquer cantinho como se fosse um cão…

          • Venâncio

            O meu caso não importa. Foi só um reforço retórico.

            Mas, como linguista, e amigo da Galiza, tenho de dizer o que disse: é um acto criminoso.

            Único consolo: nunca o conseguireis. O ‘know how’ linguístico de que dispondes (Iriarte, Corredoira, Gamalho) nunca embarcaria nessa parvoíce.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Bom… como compreenderá… dizer a alguém que está a falar do sionismo como modelo, que meter um – ão arriba ou abaixo… no seu modelo de língua… seja um ato criminoso…

            Bem se vê o pouco que me toma a sério e o nada que me entende…

          • Venâncio

            «meter um – ão arriba ou abaixo… no seu modelo de língua»…

            Está visto. Dediquei 16 páginas de “Assim nasceu uma língua” a contar a portugueses e brasileiros a história de -ão, e porque nos criou tantos problemas, e tento, aqui onde estamos, explicitar a questão e avisar para os seus perigos, e vens tu falar-me nesses termos.

            Vou sair deste ambiente pestilento, em que leigos constantemente se arvoram em sabichões, sem quererem aprender o que quer que seja.

          • Ernesto Vazquez Souza

            Vaia com paz e bem…

            Mas… Já disse ai por cima… esse -ão… não é o nosso problema. É como o português se escreve hoje… querem eliminar, eliminem… para nós galegos, hoje por hoje seria mais doado… e já e quando se ponham façam favor e volvam o -N, que é o original…

            Mas é que a nós isso tudo da histŕoia e esse livro nos importa nestes momentos nada e uma figa… Eu e outros do que estamos a falar é de como alfabetizar crianças e adultos em qualquer um dos portugueses atuais, em fazer frequentar à Sociedade galega mais e mais português (qualquer um dos modelos cultos) oral e escrito… tanto para que aprendam português tanto como para que corrijam o galego de miséria que têm e herdaram… para isto necessitamos recursos… também não iria mal um apoio político… mas isso é o nosso problema e a nossa urgência…

            se não me quer entender… pois não me entenda…

            saúde

          • Ernesto Vazquez Souza

            Ps…vou lhe fazer uma proposta… quando escreva entre nós… por que não pratica? por que não escreve um português sem -ãos, por que não escreve nesse português ideal? No galego que quer para si e para nós ? na língua que não foi e deveria ter sido…

            eu de ser o senhor faria… exemplo et usu, eis o caminho…

            Diga que aí sim me convencia…

          • Luis Trigo

            Para superar esta discussão, fui alfabetizado em pt-pt e pt-br, ainda antes do acordo ortográfico. Lia a banda desenhada do patinhas e da turma da mônica em pt-br e não foi por isso que passei a dizer quadrinhos ou deixei de ler e pronunciar mônica como mónica. É assim de simples.

          • Luis Trigo

            E Mónica e Mônica persistem mesmo com o AO.

          • José Rios

            Exato. Está aí escrito “Mônica” e você lê “Mónica”. Mesmo não era necessário qualquer acento…

          • Luis Trigo

            Para mim é necessário, está superado XD

          • Luis Trigo

            Para um brasileiro é igual quando lê Mónica. E vai continuar a escrever Mônica XD

          • Ernesto Vazquez Souza

            Mas, Luís, isso é assim porque é um hábito adquirido… ouvem o fechado ou aberto, claramente… mas escrevem uns e outros como aprenderam.

            Neste caso de Mónica, ou Académico… há discrepâncias… mas noutros não… por muito que a pronuncia (regional ou de classe) difira do padrão culto aprendido… e nem reparam…

            Se nós, galegos, fossemos alfabetizados num ou noutro esquema (bem brasileiro, bem português, bem outro) também repararíamos quando algo sai do treinado…

            Mas nós não temos alfabetização prévia culta (que não seja a castelhana) para comparar… e por isso não podemos (quitando aqueles com muito conhecimento ou habilidade) saber que é português popular ou culto, que é brasileiro dialetal ou angolano literário…

          • Luis Trigo

            Eu compreendo Ernesto, por isso também o explícito. É claro que tudo isto está ancorado em tradições que se vão cristalizando e em muitas tensões que não são muito óbvias. E quando se tem como pilar de sobrevivência uma internacionalização, convém perceber as tradições daqueles que queremos como parceiros. Um exemplo dessas tensões teve um marco há poucos dias com a comemoração dos 200 anos da revolução liberal no Porto – uma das motivações foi tornar Portugal independente do Brasil, onde se tinha instalado a máquina de poder. E libertar também dos nossos aliados ingleses… Por outro lado, o Brasil só instalou universidades a partir de 1911 – um dos efeitos colaterais da instauração da república em pt. No mesmo ano surgiram as universidades do Porto e de Lisboa. Até aí as elites pt e br formavam-se em Coimbra…
            Explicitar alguns fenómenos não tem de ser um ataque. Em termos de mover massas gravitacionais, ter como referência outra grande massa castelhana que é estranha não ajuda muito. Por isso é importante algum esforço de contextualização para facilitar o contacto 🙂

          • Ernesto Vazquez Souza

            tudo bem… e coincido …
            obrigado 😉

    • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

      Nom é «uma discussão superada». Pola contra, a escolha ortográfica coloca um assunto que nengum lusista (= defensor do padrão português pro galego) tivo a CORAGEM e a HONESTIDADE de responder pam por pam, e CLARAMENTE.

      Como expliquei num comentário acima, o uso da «soluiçom –çom» é como umha válvula de segurança, que permite conservarmos, no nosso padrom escrito, o léxico, a morfo-sintaxe (especialmente a flexom pronominal) e a fraseologia especificamente galegas (mas igualmente «lusófonas»).

      Ponhamos os problemas pedagogicos da ortografia, em que o Venâncio tanto insiste, de lado, por enquanto. A questom agora, é explicardes como a perda desse património diferencial galego paga a pena.

  • https://pgl.gal Valentim R. Fagim

    Muito obrigado, Gamalho. As línguas estão muito ligadas às identidades mas estou certo que estes dados podem ajudar para que pessoas que aspiram a que o galego cresça socialmente, mudem a perspetiva a respeito da estratégia reintegracionista.

  • Paulo Gamalho

    Obrigado polos comentários. Se me permitem reconduzir a discussão e voltando ao objectivo do artigo, queria saber quais são os argumento do ILG-RAG para não aceitar o sufixo patrimonial -zon/çom/son e sim -bel. No artigo, os dados mostram que -ción é um castelanismo muito mais evidente que -ble. Há alguma argumentação filológica para a decisão do ILG-RAG? Não é uma pergunta retórica. Estou mesmo à procura dessa argumentação. Obrigado.

    • Ernesto Vazquez Souza

      Não há… e nisso foram contra a letra do próprio Hino e contra a tradição galeguista…

      E também contra a propria RAG… na ÚNICA publicação oficial da RAG a respeito de como escrever a língua antes da década de 1980 foi o Diccionario gallego castelhano, publicado por fascículos lá entre 1918 e 1923… ficou incompleto na entrada CATIVO; mas é muito interessante por ser de autoridades, com o qual emprega citas modelo de textos literários ou documentais contemporâneos e medievais para exemplificar as palavras…

      a forma escolhida nele, como não podia ser outra é -ZON

      e também escolhe “Ñ” mas “J”, “G” e “X”…

      • Paulo Gamalho

        Obrigado, Ernesto! Aliás, levas razão no tema do çom/çon. Em geral, o ‘m’ final (tamém em -avam/-avan) é muito mais comum nos textos de Portugal que nos da Galiza. Como o explicas?

        • Ernesto Vazquez Souza

          Já… de feito teria sido muito mais lógico, com critérios linguísticos ou filológicos, em 1980: ou manter o -zon (-za) que se empregou sistematicamente desde 1916 e maioritariamente na longa noite ou dar o salto restaurador ao -çon… (como propunha a AGAL, e aí ou não o regular com -M)

          Como explico que a forma -OM seja portuguesa e mais seródia… Porque -N é a etimológica latina e os textos galegos foram sempre mais conservadores… De conversas velhas com Corredoira e da própria leitura eu diria que é uma regularização já própria do Português, uma primeira fase (que Portugal tinha rei, reino e portanto leis, crónicas escritos e tabeliões…. )

          Por outra banda eu diria que a muita da casuística (e daí a impressão canônica que levou à escolha) é posterior à data consignada, dado que muitos textos medievais são re-transcritos a posteriori depois de fixada a convenção ortográfica o mesmo que nas edições portuguesas do XIX de Textos medievais.

          p.s No caso galego há que se deixar de histórias… o que define tudo, a partir de Afonso X, é a evolução da escrita nas cortes castelhanas… o longo abandono de programa até os borbões e a RAE e depois desde a criação da RAE… as polêmicas na Galiza espelham na realidade a evolução da escrita do castelhano…

          – abandona o -ç e o -ss-, restringe o -X- regulariza g-j e escolhe empregar -h e -y antes da década do 1840… desaparecem no galego escrito…

          – A RAE pega uma virada regularizadora e conservadora contra as Associações de Mestres e jornalistas que se posicionavam com as teorias e reforma americanistas de Bello y Cuervo… publicando a reforma fundamental para entendermos o galego de SACO Y ARCE (gramática 1865) o “Prontuariode ortografía de la lengua castellana (1844) dentro claro das reformas escolares e educativas da promulgaçao da Orden Real de Isabel II, de 25 de abril de 1844, “la cual declaraba oficial y obligatoria la norma ortográfica académica en las escuelas.”

          • Ernesto Vazquez Souza

            Fica também por historiar politicamente que aconteceu entre 1971 e 1982… e como afetou a língua e a ortografia

            Quer dizer historiar também em relação à Construção do estado español atual…

            Tudo começa com a :

            Ley 14/1970, de 4 de agosto, General de Educación y Financiamiento de la Reforma Educativa estableció la enseñanza obligatoria hasta los 14 años, cursando la EGB, Educación General Básica, estructurada en dos etapas. Tras esta primera fase de ocho cursos el alumno accedía al BUP, Bachillerato Unificado Polivalente, o a la recién creada FP, Formación Profesional.
            Con esta ley se reformó todo el sistema educativo, desde la educación
            preescolar hasta la universitaria, adaptándolo a las necesidades de
            escolarización.

            a questão é que nela por vez Primeira se dá entrada “a las lenguas regionales”…

            e posteriormente com a fixação das autonomias… estabeleceu-se dentro dela aquelas reformas (v.g. estudo de optativa de literatura galega em 3º BUP) e usos de língua por parte do professorado nas que estudamos …

            https://es.wikipedia.org/wiki/Ley_General_de_Educaci%C3%B3n_(Espa%C3%B1a)

            é na implantação desta lei espanhola que re-aparece como urgência o debate sobre a ortografia do galego… e no decurso da transição é que se termina de cozer o bolo…

            e aí o sentido da chamada de atenção e proposta URGENTE de LAPA, que tinha ouvidos…

            e aí a reação de Carvalho Calero a seguir…

      • Joám Lopes Facal

        Ernesto, agradeço o enlace. É impressionante a paixom lexicográfica dos padres fundadores; estám todos!
        Falta porém um estudo demorado dos sucessivos intentos e fórmulas ortográficas ensaiadas (incluídos sufixos e sinais diacríticos) para tentar incorporar a grafia medieval depois de redescobertos os Cancioneiros. Umha arqueologia ortográfica, em suma

        • Ernesto Vazquez Souza

          Pois… está tudo por fazer… um dos problemas fundamentais é que tanto Galáxia como depois o ILG agiram como verdadeiras peneiras apagando toda tradição (política e linguística) que não ajustava os seus propósitos e programas…

          eu muitas cousas das que digo não as invento nem são fantasias… é apenas que tomei a moléstia de suspeitar – antes de me passar ao reintegracionismo e em certa medida por isso – e ir ver, fotocopiar e muito ler as propostas, recomendações, gramáticas e dicionários galegos, e não poucas das polêmicas arredor das propostas de escrita de 1800 a 1936…

          falta-nos orientação, libertar-nos da historiografia espanhola e galega de depois de 1936, e volver a ler com os próprios olhos, como recomendavam o Padre Feijó e Sarmiento…

        • Ernesto Vazquez Souza

          Por acaso, um livro muito interessante, neste sentido é aquele já clássico da Teresa López: Névoas de Antano… é mágoa que não continuasse esta linha que apontas como ampliações ao breve ensaio

          Teresa López – Névoas de antano : Ecos dos cancioneiros galego-portugueses no século XIX, Santiago: Laiovento, 1991

          • Joám Lopes Facal

            Mágoa da descontinuidade da primeira Agália antes da sua deriva cosmopolita que prologou o seu final.
            Renovar o empenho de manter umha revista de investigaçom e crítica cultural, sólida e socialmente empática, acabará por tornar-se imperativo…quando os efeitos das divergências tribais fiquem superados como vestígios manifestos de umha doença infantil provocada por umha infecçom de militantismo épico pretérito e superado…

          • Ernesto Vazquez Souza

            Difícil… eu estou convencido de que a oportunidade de ter feito algo bem, consensualizado, digno, coerente entre a tradição e com critérios linguísticos, de futuro e nacional, perdeu-se (para sempre) nos anos 1970-1990… esse era o momento de ter restaurado a língua e as instituições… de ter as bases…

            o que temos é o resultado, e as cicatrizes, do que aconteceu nesses anos… e de muito deixar fazer, de muito amadorismo aproveitado, de muito colaboracionismo, de muita covardia, de muito seitarismo e de muita indignidade e falta de honestidade intelectual e crítica…

            perdemos essa batalha… a da Transição espanhola e a da Autonomia galega… talvez ganhemos outras…

          • Joám Lopes Facal

            Os físicos denominan-na entropia, a medida da desordem, a flecha do tempo…Heráclito sabia-o…
            Mas, que sabe, a história é essencialmente contingente e nunca diz a sua última palavra; somos poucos e é inevitável que sigamos tropeçando.

    • https://pglingua.org/index.php abanhos

      Que a Doma e Castração não acabou e só se permite agir no campo da língua com os limites que coloca o dominador (as Universidades reproduzem o modelo de espanha gerado centralmente).
      Se se agir de outro jeito, para o dominador, na Galiza teria-se que voltar ao terror de outra Doma e Castração, mas com a ação das autoridades a cousa vai guiada para o esquecimento…igual que o dominador – as suas universidades nunca fizeram nenhuma investigação sobre o processo terrorista contra o nosso povo- pois reproduzem a história e programa dos vencedores…O culpável ladrão agacha de este jeito bem fácil os seus latrocínios.

  • Paulo Gamalho

    Desculpai o comentário tão longo que vou fazer. Ramón Mariño deu-me mui amavelmente a referência deste artigo:

    R. Mariño Paz (1998): “Notas sobre a historia das terminacións -ión / -ón en galego”, in D. Kremer (ed.): Homenaxe a Ramón Lorenzo. Vigo: Galaxia, vol. 2, pp. 735-760.

    Ali aparece o argumento de Ramón Lorenzo para a escolha de -ción:

    “No galego, polo contrario, sempre apareceron en xogo dúas tendendencias: unha mais popular, coa supresión do iode, e outra mais culta, coa conservación ou reposición. Na lingua moderna, coa penetración dos cultismos, triunfou sempre a forma culta”.

    Por outro lado, Ramón Mariño desbota que a terminação “culta”, com iode, seja um castelanismo porque há “fluctuación -ión / -ón xa na Idade Media, e mesmo xa nas Cantigas de Santa María”. E depois argumenta que se trata duma evolução interna do galego porque “documentáronse no galego medieval con terminación -ión (a miúdo alternando con -ón) as seguintes: absolucion – absoluçiõ, comision, condjçion – condiçiõs – condictiom”, etc).

    Também afirma que “A meirande parte das palabras procedentes de formas latinas cabadas en -IONEM que penetraron en galego despois da Idade Media ou no seu período final fixérono mantendo o iode”.

    E acaba por concluir que “Aínda que, como tendencia xeral, sexa lícito falar do triunfo da solución “culta” en galego, creo que no estudio desta e doutras cuestións (como por exemplo as terminacións -cio / -zo / -za) convén proceder palabra por palabra, observando individualmente o comportamento de cada unha delas ó longo da historia”.

    Resumindo, o argumento para rejeitar a hipótese de que -ción é um castelanismo é que se trata duma tendência culta que já existia na Idade Media e acabou consolidando-se na maioria das vozes, embora não em todas.

    Ora bem, os indícios de que é um castelanismo são bastante evidentes:

    – Muita maior proporção de casos em -çon frente a -cion na Idade Media. Mariño dá exemplos de casos medievais em -cion mas sem quantificar.
    – Quanto mais avançarmos nos séculos menor é essa proporção.
    – Nos excertos em castelám dos textos medievais galegos, há maior proporção de -ción.

    Por outro lado, deixo ao sociolinguista que todos levamos dentro para que explique por que todas as vozes cultas derivadas das formas latinas -IONEM que entraram após a Idade Media estám em -ción. De facto, se acontecesse o contrário, deveríamos deduzir que a Galiza tinha daquela um Estado autónomo com capacidade normativa, cousa que duvido que fosse o caso após o medievo. Não se pode soster com nenguma argumentação racional que entraram as novas formas em -ción porque a tendência culta ganhasse à popular.

    Por último, se houvo desde a Idade Media um registo culto interno e próprio do galego que favoreceu as formas em -cion, então como é possível que a forma “popular” apareça em vozes de registo culto, como ‘absoluçon’, ‘alegaçon’, ‘anexaçon’, ‘comutaçon’, ‘disençon’, ‘diçon’, ‘encarnaçon’, ‘encorporaçon’, ‘interposiçom’, ‘precisson’, ‘procuraçom’, ‘restituyçon’, ‘validaçón’, etc?

    Se na hipótese de Ramón Lorenzo e Ramón Mariño mudar-mos “culto” por “castelanismo”, deixa de haver incoerências e tudo fico bem esclarecido:

    “No galego, polo contrario, sempre apareceron en xogo dúas tendendencias: unha mais popular, coa supresión do iode, e outra castelanizadora, coa conservación ou reposición. Na lingua moderna, coa penetración dos cultismos, triunfou sempre a forma castelán“.

    • Ernesto Vazquez Souza

      homem claro… e gerações de filólogos de Santiago se examinaram disto… era doutrina da fé…

      • Paulo Gamalho

        Pois é alucinante…

        • Ernesto Vazquez Souza

          Lembro perfeitamente a respeito, estudarmos na Crunha, em 4º de Carreira em História da Língua, as terminações (-Za -ZON /ça çom e -cion) e vermos essas teorias da evolução “culta”, já questionadas na altura (1992) nesse caso pelo Manuel Ferreiro e também nas aulas de língua de 5º pelo X. R. Freixeiro… questionadas… é dizer apresentadas entre as explicações possíveis mas com reticências e clara suspeita de serem castelhanismos…

          Os da Crunha tínhamos quando menos até 2003 (em que assumiram a reforminha por igual que os de Laiovento) sérias discrepâncias com o que se estudava em Compostela… depois fomos pagando em forma de exclusão em bolsas, concursos, trabalhos para dar cursos de galego… etc…

          E pouco depois, a partir de 1998 até nos faziam abjurar que não íamos meter na cabeça dos alunos teses lusistas e reintegracionismos antes de nos darem algum trabalho desses… XD

          • Paulo Gamalho

            Que triste, Ernesto. Estivem fora desde o 92 até ao 2005 totalmente desligado do mundo universitário galego. Vejo que por aqui houvo purga sem tomar em conta o talento.

          • Ernesto Vazquez Souza

            a Universidade espanhola não tem remédio… há raros acasos… o resto, enfim… acho que de dizê-lo com as palavras precisas censuraria o sistema de comentários…

            Saúde

        • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

          Acho que a crítica do isolacionismo castelanizante partindo da defesa do padrão português culto como legítimo prò galego é um algo incoerente, pois esse padrom tamém leva à perda de muito léxico, fraseologia e morfo-sintaxe inteiramente galegos.

          Emporisso, acho que com efeito o isolacionismo agochou à mantenta a ideia da castelanizaçom do galego, e com má vontade. Merece a pena explicar isto: num livro de texto de língua galega de C.O.U (Colectivo seitura, Edicións Xerais de Galicia, 1991) reproduz-se um anaco do clássico livro de Paul Teyssier, «História da Língua Portuguesa», no tema tocante à separaçom de galego e português. Cita-se, o primeiro parágrafo da página 34 (pode-se conferir aqui: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/158086/mod_resource/content/1/TEYSSIER_%20HistoriaDaLinguaPortuguesa.pdf ) onde o sub-título «Separação do galego»: “O galego começa a isolar-se do português desde o século XI com obras
          em prosa de que a Cronica Troiana é um dos melhores exemplos. Entre 1350 e 1450 houve na Galícia uma segunda floração lírica, da qual os portugueses não participaram … ”

          Pois bem, nessa citaçom, palavra por palavra, deixá-se de fora, omite-se, a seguinte oraçom do texto original de Paul Teyssier reproduzido: «Ao mesmo tempo, acentuam-se no interior do galego algumas diferenças dialetais, e o vocabulário é invadido de hispanismos.»

          Acho que essa omissom é suspeia de querer agochar a castelanizaçom do projeto educativo isolacionista.

          Aliás, é tendencioso, disonesto.

          • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

            Autores deste livro que sem andar-se com panicadas citou um autor cortando as palavras dele que nom lhe convinham:

            Francisco Fernández Rei
            Henrique Monteagudo
            Gonzalo Navaza Blanco
            Maria Camiño Noia Campos

          • Paulo Gamalho

            Concordo em tudo.
            Obrigado pola informação. Mui interessante.

    • Joám Lopes Facal

      O patronato científico de dom Marcelino e o glotopolítico de dom Constantino marcárom a geraçom de linguístas que agora senhoreiam as instituiçons.
      O labor de interpretaçom dos textos, a hermenéutica, está sempre condicionada pola perspectiva adoptada. Neste caso, transparece a intençom de proteger o statu quo e a primacia da espanholidade, tam gratos aos dous padres fundadores, filhos legítimos de El Cid.

    • José Luís Maceira

      Em minha opinião, é bem fácil de ver que todo o constructo teórico do modelo de língua isolacionista ILG (veja-se a intervenção de Ramón Lorenzo naquele Colóquio de Tréveris) vai dirigido a violentar no mínimo a fala galega popular, por medo de perder os falantes. Ou seja, a razão de existir do isolacionismo (apenas a principal, há outras) é bem intencionada, e seria esta: “Se virmos aos galegos com um modelo muito distanciado da fala habitual e da escrita castelhana habitual, eles não se reconhecerão dele e desertarão da língua.”

      A partir daí, toda a argumentação filológica é construída ex-professo e ad hoc para justificar o fim procurado –um modelo de língua ‘fácil’. De facto, não me estranharia que a oposição cerrada deles do -ZÓN (em comparação com a relativa tolerância do -BEL/-BLE) tenha esse mesmo motivo: 1) O tal sufixo –CIÓN é muitíssimo mais frequente na fala que o -BEL, de modo que mexer nele poderá causar muita maior rejeição nos paleo-falantes; 2) Ainda para mais, está em posição tónica, de jeito que uma modificação para -ZÓN não passará nunca despercebida na fala coloquial normal (-BEL é átono, e não se nota tanto). A missão do modelo ILG é que, na fala coloquial, se note o menos possível.

      Evidentemente, apesar das boas intenções, o isolacionismo é apenas ‘filologia comprometida’.

      E, da nossa parte, teríamos de dizer que, ainda a dia de hoje, os linguístas e sócio-linguístas reintegracionistas ainda não déram resposta satisfatória a estes dous problemas: a) a maior distância entre as falas galegas populares e a língua padrão que propomos, em comparação com o modelo ILG; e b) a dificuldade para substituir na sociedade galega, de vez, o sistema ortográfico castelhano pelo do português moderno.

      • https://descochandoargalhadas.blogspot.com conavirus

        Excelente análise.

      • Ernesto Vazquez Souza

        a 1º resposta está dada por Gil e Rabunhal propondo uma focalização diferente e assumindo a proposta de diglossia interna aplicando as teorias de Ferguson e indicando que a maior proximidade entre as falas populares galegas e o galego ILG é um mito que nem se ajusta à história nem a realidade… ao que se aproxima é ao castelhano no que a gente se alfabetiza desde 1844.

        a 2º é também foi repetidamente respostada neste PGL a partir da década de 2000. O panorama mudou radicalmente com aparição da internet e mudaria radicalmente com a simples aplicação da PAZ Andrade, colocando e promovendo em todo o sistema educativo a língua portuguesa como língua optativa estrangeira… isso mais campanhas de alfabetização de adultos em Português como língua estrangeira…

        não podemos continuar empregando a análise e os campos, os mitos do inimigo… nem o galego ILG é galego oficial nem o galego ILG repressenta mai ou melhor a fala ou a escrita lietrária galega antes de 1982… (para além de que isso é irrelevante)

        • José Luís Maceira

          Eu concordo contigo, Ernesto, na ideia base do último parágrafo. Penso que é um erro imenso o Reintegracionismo perder tempo a ser um movimento ‘CONTRA’, porque isso na prática é acabar sendo um satélite, uma estéril ‘oposição’ perpétua. O Reintegracionismo -os seus dirigentes sobranceiros, os seus linguistas e mesmo os seus apoiantes– deveria funcionar como se o Isolacionismo não existisse. Isto é, deveria gerar iniciativas linguísticas e enfrentar os problemas da fala galega e os seus falantes como se a ÚNICA e exclusiva maneira de codificar a língua de Galiza fosse esta nossa. É por isso que me custa sobremaneira entender como é que se decidiu dessistir de ter um organismo linguístico próprio. Mesmo uma língua menorizada como o aranês tem.

          Pelo contrário, quanto aos dous parágrafos primeiros… talvez eu não explicasse bem o que queria dizer. No vídeo do ‘Decreto Filgueira’ (v, PGL ou YouTube), o Xosé Luís Barreiro –que não é santo da minha devoção–, ele exprime-o mais claro por outras palavras, que penso que espelham o sentir maioritário da sociedade galega. Eu tento (hippoteticamente) interpretar o que ele diz:

          1) “Quanto à ‘norma’ linguística e ao modo de implementá-la em Galiza (sem anestesia ou por etapas), os ‘lusistas’ apresentam um CAOS de propostas” (p.ex.: o Reintegracionismo na Norma Oficial de Freixeiro Mato, os ‘mínimos’, a norma AEG (antiga AGAL), o português-língua-estrangeira…) Eu pergunto: é isto fácil de explicar à sociedade? (tenhamos em conta que o isolacionismo não oferece caos nenhum).

          2) “Uma bem maior distância língua padrão-fala, acrescentada a uma ortografia radicalmente diferente, e implantadas ‘sem anestesia’, faria perder ainda mais falantes”. Eu pergunto: eu, e tu (e os que aqui escrevemos) identificamo-nos e estamos afeitos a esta norma, mas… como é que reagiriam os paleo-falantes habituais, que são o espinhaço da língua? Tanto nos tem perdê-los?

          É por isso que eu digo que o problema do Reintegracionismo é que, tendo uma idea teórica magnífica (incomparavelmente melhor que a do Isolacionismo), não a sabe cristalizar, não a sabe materializar na prática.
          Mas, o bom do conto, é que todas estas eivas podem ser remediadas.

          • Ernesto Vazquez Souza

            I

            Eu estou completamente de acordo em que o reintegracionismo, por igual que o nacionalismo deveria ir criando um Estado paralelo… esquecer a crítica, deixá-los correr e focar-se em trabalhos próprios, modelos, discursos, programas, editoras, sistemas educativos… tudo pago com dinheiros e esforços próprios.. venho dizendo por ativa e passiva desde 2005…

            II

            O isolacionismo já ofereceu esse caos … é ver as propostas e manuais, os primeiros livros de texto, gramáticas, dicionários, métodos… do 70 ao 90…

            e de feito nunca saiu dele é dar uma vista de olho na oralidade e na escrita, de ativistas, jornalistas, políticos mesmo nos escritores quando escrevem espontaneamente pela rede e nos jornais… sem o trabalho normalizador de editores e corretores, das ENL, nas editoras, concelhos, deputaçoes… existiria o mesmo caos que aparentemente existe no reintegracionismo…

            O que tem o isolacionismo é recursos institucionais e propaganda para vender essa dupla falácia:

            a. que é um modelo mais estável
            b. que representa a oralidade

            Mas de feito atendendo a oralidade dialetal galega, tanto serve um como outro, e de feito o português é um modelo mais estável, que garante uma representação comum do dialetal ecuménico e tem uma formalizaçao de séculos que permite detetar os erros…

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito bom artigo é bem interessante.

    Mas quero fazer um pequeno apontamento.

    O modelo de língua escrita medieval, sobre todo nos documentos de tabeliões, porém nem tão só esses, não reflete em determinada altura simplesmente o modelo de língua que se gasta e se fala (isso que afirma o ILG), se não que reflete os modelos que se vão impondo socialmente sobre o jeito de se fazer bem esses documentos, que tem uma grande especificidade, e ao escrever tende-se a correção, que é sempre um modelo de referência. Castelhanizar os documentos não quer dizer que esse for o estado da fala.

    Galiza foi submetida a uma guerra terrorista por Castela conhecida por Doma e Castração, e não o foi por apoiar a rainha Joana (A Beltraneja), cousa que também fizeram muitos de Castela, foi arrasada por querer a unidade com Portugal, por querer de rei a quem já fora proclamado rei da Galiza Afonso V. Quer dizer isso, que o povo identificava-se totalmente sendo um só com o português. Não fizera Castela 15 anos de razzias teroristas, se a cousa não fosse um sentimento bem firme.

    O modelo que se projeta de língua polas instituições ad hoc, (ILG ao serviço de reconhecimento dos galegos (Galiza) como parte única e exclusiva de se ser espanhol, não se pode ser galego se não se é espanhol), tende a projetar um afastamento desde bem cedo, não fazendo nunca nenhuma diferença e analise, sobre qual era a situação social da fala, a que se pode fazer algumas achegas com os textos literários de mais sucesso e circulação, e o modelo escrito de muitos textos bem formais seguindo modelos da corte (toledanos)

    Quando eu escrevia aguantar, frente a forma que apreendera de cativo, aguentar, em realidade estava-me a corrigir seguindo uns modelos que em realidade refletiam a imposição do modelo castelhano, porém disso, eu não era consciente, achava que aquilo era uma peculiaridade dialetal, e o modelo que me chegava e assumia estava construído sobre o castelhano, norma de correção do cento por cento dois galegos e galegas, (polo menos nalguma altura). Cousa que o modelo de língua autoanêmica reforça, para se ir escorregando sem trabalho e deixar de ter lllíngua, pois língua autêntica na Galiza só funciona uma, o castelhano.