As comunidades imaginadas de Harari e Anderson



e24f71f59d5d6aff73c15d598f40ebf4-500x500Espero que este seja o primeiro duma série de artigos onde abordarei alguns conceitos controversos dum ponto de vista académico. Começo com os conceitos de comunidade imaginada e nação.

Um dos livros científicos com mais impato social nos últimos 10 anos é, sem dǘvida, Sapiens: A Brief History of Humankind, do historiador israelita Yuval Noah Harari, publicado em 2011. Vendeu até agora mais de 16 milhões de exemplares e foi traduzido a mais de 60 línguas. Trata-se dum livro de agradável leitura que, entre outras ideias, desenvolve o conceito de comunidades imaginadas. Uma comunidade imaginada, segundo Harari, é uma comunidade de pessoas que não se conhecem entre elas, mas imaginam que sim, sendo a nação a comunidade imaginada polos membros dum Estado. Estas comunidades são o resultado da habilidade do Sapiens para cooperar de jeito muito flexível com um grande número de desconhecidos/as. Segundo Harari, a nação, junto com o dinheiro, a justiça ou a religião, são construtos da mais poderosa das capacidades cognitivas do Sapiens: a imaginação. Estes mitos, que só existem na imaginação colectiva dos humanos, permitem a colaboração a grande escala. E foi esta habilidade a colaborar com estranhos/as, e não a inteligência nem a capacidade para modificar o meio ambiente, o que permitiu o Sapiens controlar o planeta. O conceito de comunidades imaginadas é fulcral para entender as teses de Harari.

Segundo Harari, a nação, junto com o dinheiro, a justiça ou a religião, são construtos da mais poderosa das capacidades cognitivas do Sapiens: a imaginação. Estes mitos, que só existem na imaginação colectiva dos humanos, permitem a colaboração a grande escala. E foi esta habilidade a colaborar com estranhos/as, e não a inteligência nem a capacidade para modificar o meio ambiente, o que permitiu o Sapiens controlar o planeta.

Ora bem, entre as 153 obras citadas no livro, nenguma é para Imagined Communities, do historiador estado-unidense de origem irlandesa Benedict Anderson, publicado em 1983 e onde se teoriza sobre o conceito de comunidade imaginada. Para Anderson, a nação é uma comunidade construída socialmente e imaginada polas pessoas que se sentem parte dessa comunidade. Segundo Anderson, uma nação é imaginada porque os seus membros, que nunca poderão se conhecerem uns aos outros, têm na mente uma imagem estereotipada e esquemática da comunidade da que são membros. Mesmo havendo estruturas sociais hierarquizadas com grandes desigualdades, uma nação, que é uma comunidade imaginada, é composta de relações de camaradagem percebidas como horizontais e que são transversais às classes sociais. Estas relações permitem construir projetos de cooperação entre desconhecidos/as. À diferença de Harari, Anderson estuda a fundo o conceito de nação e teoriza sobre a genealogia do nacionalismo, dando uma importância fulcral aos meios de comunicação, que perpetuam os estereótipos e imagens que permitem aos membros da comunidade se reconhecerem. Destaca o papel da estandarização das línguas, que retarda as mudanças e cria a percepção de imutabilidade, dando lugar a uma língua nacional que existe, na percepção dos seus falantes, desde a fundação da nação. Tamém achega argumentos que explicam como o nacionalismo dos territórios colonizados em América e África, com fronteiras totalmente arbitrárias sem base étnica, se desenvolveu antes que o dos próprios estados-nação europeus.

Destaca o papel da estandarização das línguas, que retarda as mudanças e cria a percepção de imutabilidade, dando lugar a uma língua nacional que existe, na percepção dos seus falantes, desde a fundação da nação.

andersonÉ incompreensível e mesmo inadmissível que o autor de Sapiens não tenha citado a obra do seu colega Anderson, tamém historiador e falecido pouco depois da publicação de Sapiens. A citação a Imagined Communities, não só faria justiça à ideia original e ao seu criador, mas também ajudaria a que mais pessoas tiverem acesso a uma leitura mais aprofundada do conceito de comunidade imaginada. Harari, que admite que a humanidade será exposta a dilemas éticos importantes, não cumpre ele próprio o código ético básico de qualquer cientista. Por outro lado, é também inadmissível que nengum/a jornalista científico/a tenha feito esta observação nos artigos críticos sobre o livro, e é mesmo surpreendente que nunca se perguntasse a Harari por esta carência nas dúzias de entrevistas que se lhe figérom. Se eu estiver errado e alguém encontrar algum contra-exemplo do que afirmo, por favor, fagam o correspondente comentário. É preciso termos em conta que o livro de Anderson, com mais de 120 mil citações, teve e ainda tem um forte impato no mundo académico, o que contrasta com o pequeno número de citações em termos relativos, 3113 segundo Google Scholar, do livro de Harari. Estes números mostram que Sapiens está a ter um impato muito menor no mundo académico e científico que no âmbito da imprensa e da comunicação de massas.

É incompreensível e mesmo inadmissível que o autor de Sapiens não tenha citado a obra do seu colega Anderson, tamém historiador e falecido pouco depois da publicação de Sapiens. A citação a Imagined Communities, não só faria justiça à ideia original e ao seu criador, mas também ajudaria a que mais pessoas tiverem acesso a uma leitura mais aprofundada do conceito de comunidade imaginada.

Harari tamém perdeu uma boa oportunidade para mencionar as criptomoedas quando definiu a moeda como uma realidade intersubjetiva que só existe no imaginário coletivo e que depende unicamente da confiança e o consenso dos seus usuários/as. Quando o livro foi publicado, o Bitcoin já fora criado havia 2 anos. Quem quiser saber mais sobre criptomoedas e consensos na Blockchain, aconselho ler a secção de Isaac González em GCiencia.

Tanto Harari como Andenson compartilham uma opinião mais bem positiva do conceito de comunidade imaginada: o primeiro presenta-a como o resultado duma habilidade cognitiva para cooperar com eficiência e resiliência, e o segundo como um princípio social básico de fraternidade que ajuda a construir estruturas de estado de jeito eficiente. No entanto, esta visão otimista contrasta com os argumentos do antropólogo James C. Scott em Against the grain, publicado em 2017 na Yale University Press. Este autor estado-unidense, destinatário de cerca de 200 mil citações às suas publicações académicas de grande impato, e conhecido polo seu fantástico livro “Seeing Like a State”, pergunta-se que levou o Homo Sapiens no último 5% da sua longa vida no planeta a viver concentrado em estados policiais e hierárquicos depois de ser coletor-cazador durante dezenas de miles de anos. No seu último livro desmonta a narrativa tradicional que sugere que os humanos escolheram viver sedentariamente baixo a agricultura intensiva para terem uma vida mais próspera, saudável e segura. Scott argumenta que os primeiros estados eram estruturas hierárquicas onde a maioria dos habitantes foram forçados a viver em condições de malnutrição e expostos a doenças e terríveis pandemias. Estes estados nasceram arredor do cultivo de cereais, a domesticação dos animais e o trabalho escravo. Os cereais e o grão em geral, à diferença doutros produtos, permitem a produção concentrada, o armazenamento durante longos períodos de tempo e, por conseguinte, a cobrança de impostos, que é a base para a criação de estruturas de estado. Na atualidade, não houvo uma mudança de paradigma. Continuamos a estar organizados em estruturas que oprimem as classes desfavorecidas, com uma produção concentrada de alimentos e perenemente expostos a pandemias de origem humana ou/e animal. Lembrem que o livro foi escrito 3 anos antes de conhecermos a COVID-19.

Scott argumenta que os primeiros estados eram estruturas hierárquicas onde a maioria dos habitantes foram forçados a viver em condições de malnutrição e expostos a doenças e terríveis pandemias. Estes estados nasceram arredor do cultivo de cereais, a domesticação dos animais e o trabalho escravo.

O livro de Scott foi louvado polo célebre arqueólogo Barry Cunliffe, que é o pai das recentes teorias sobre o celtismo e que será, se consigo arranjar tempo, o autor do que fale no próximo artigo.

Paulo Gamalho
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