Quando nos referimos a sondagens sobre conhecimento e uso duma língua, pensamos imediatamente nas que realiza o Instituto Galego de Estatística (IGE) ou o Euskobarómetro da Universidade do País Basco, onde se pergunta às pessoas sobre o seu conhecimento e uso da língua. São, portanto, inquéritos sobre a percepção linguística que cada pessoa tem em relação a si própria. Nestas sondagens, os dados linguísticos no se medem directamente mediante exames de competência ou observações de usos, senão que o acesso a esta informação passa polo filtro da percepção do/a falante. No entanto, é importante termos em conta que toda percepção pode estar submetida a vieses ou desvios cognitivos, como acontece com a percepção social sobre a presença de imigrantes. Um relatório da Fundação Iseak, intitulado “De onde vem o sentimento anti-imigração em Espanha?”, revela que a população nativa em Espanha tende a sobrestimar a proporção de imigrantes, o seu nível de desemprego e os apoios públicos que recebem, o que gera desvios significativos entre a perceção da cidadania e os dados oficiais sobre imigração. Nomeadamente, no Reino de Espanha, a população nativa pensa que a população imigrante chega a 27,8 % da população total, o que está muito longe do dado real, que é de 16%. No caso das línguas, para saber se há um desvio entre a percepção e o conhecimento e uso reais, seria preciso comparar os dados actuais, que estão baseados em percepções, com os resultados de medições directas, que consistiriam, por um lado, em perguntas sobre a língua para conhecer a competência e, por outro, em observações empíricas do uso em diferentes contextos.
Como os resultados das últimas sondagens do IGE continuam a confirmar o estado calamitoso do uso do galego, o conselleiro de Cultura, Lingua e Xuventude, José López Campos, encomendou à empresa Sondaxe um estudo chamado de “Enquisa sobre a percepción social do galego“ para conhecer, a partir de 1.200 familias residentes na Galiza con crianças en idade escolar, qual é a percepção que os pais e mães têm, não do seu próprio conhecimento e uso do galego, mas das crianças. É dizer, em vez de minimizar o desvio cognitivo do inquérito do IGE, centrado na percepção interna, o novo estudo visa amplificar este desvio ao perguntar por uma percepção muito menos fiável, focada no que um indivíduo pensa que acontece no âmbito doutras pessoas. Deste jeito, quando o conselheiro di que “é fundamental conhecer a percepção da sociedade galega e o seu grau de preocupação” sabe bem que o viés cognitivo da nossa sociedade tende a sobreestimar o uso do galego.
À diferença do governo galego, o Estudo do Euskera e Uso Social impulsado polo Governo Basco [Euskal Herriko Kale Erabileraren Neurketa, Medição do Uso das Línguas na Rua] foca-se na medição directa do uso na rua do éuscaro. Este estudo está orientado a minimizar os desvios cognitivos das sondagens baseadas em percepções subjectivas à volta do uso e conhecimento da língua. Foram feitos oito estudos desde 1989, sendo o último de 2021. As medições realizadas nas ruas quantificam a presença de diferentes línguas, com base nas conversas informais ouvidas nas ruas. A ampla recolha de dados permite obter resultados gerais ao nível de Euskal Herria, das suas capitais e concelhos, e analisar o impacto em função da idade, do sexo e da presença de crianças. O método de medição empírica baseado na observação foi criado em 1983 polo Grupo de Investigação Siadeco, liderado polo pioneiro sociolinguista Iñaki Larrañaga. O estudo recolhe dados reais sobre o uso oral das línguas, a partir da observação de conversas espontâneas nas ruas e espaços públicos. O objetivo metodológico é medir quantitativamente o uso do euskera no espaço exterior, através duma técnica de observação direta e discreta. As falantes não se dão conta de que estão a ser observadas, garantindo assim a naturalidade das interações. O estudo é de carácter descritivo e quantitativo, e toda a informação é recolhida de forma anónima, sem dados pessoais nem conteúdos das conversas. Em toda a Euskal Herria, 336 medidoras profissionais dedicaram-se à recolha de dados na última edição de 2021. Foram recolhidas amostras em 145 municípios de todos os territórios da Euskal Herria, de todas as zonas sociolinguísticas e com diferentes números de habitantes. En total, em toda Euskal Herria foram observadas e anotadas neste último estudo 215.396 conversas com 603.497 interlocutores/as. Estes elevados números de observações directas contrastam com as mais bem modestas 9.200 entrevistas do IGE (ou as 1.200 de Sondaxe) sobre percepções linguísticas. Só por curiosidade, pois não é o objecto do presente artigo, a sondagem sobre o uso do euskera em Euskal Herria indica que, a partir de 1989, o uso desta língua nas ruas aumentou em todas as faixas etárias (especialmente entre crianças e jovens), com excepção das pessoas idosas. Trata-se, em consequência, duma realidade linguística em perfeita oposição à galega. Se calhar, algo terá que ver o sistema linguístico na educação obrigatória onde o modelo D, que consiste no ensino totalmente em euskera, excepto a matéria de língua castelhana, é o maioritário no país, pois é o que tem mais prestígio entre a população basca e o único que assegura plenas competências na língua própria.
Neste sentido, seria interessante que a actualização do Plano Geral de Normalização recolhesse a sugestão de reservar recursos para a elaboração de estudos e sondagens baseados na recolha de dados observáveis, em complemento aos inquéritos tradicionais baseados em percepções susceptíveis de sofrer os desvios cognitivos já citados. De facto, existe um leque amplo de estudos empíricos que podem ser promovidos para, não só conhecer a realidade linguística do país, mas também para incitar a população a mudar as inercias em relação ao uso da língua própria. Estou a pensar em estudos sobre qual é a língua usada por defeito de cara ao público em organismos públicos e comércios, assegurando sempre o anonimato das entidades da amostra. Também seria mui interessante conhecer a evolução da “paixagem linguística”, entendida como o conjunto de cartazes e mensagens escritas no espaço público, estudos que já se estão a realizar no âmbito académico mediante projectos de investigação como os das professoras Gabriela Prego e Luz Zas, da Universidade de Santiago de Compostela.
Finalmente, quando a IA generativa e os modelos de linguagem multilíngues tiverem um conhecimento profundo do galego, graças a projectos como NÓS, onde se promove a elaboração de tecnologias linguísticas livres para o galego-português, será possível fazer um seguimento sistemático dos usos e prácticas comunicativas nas redes sociais, webs públicas e mesmo jornais electrónicos. Este seguimento permitirá medirmos a evolução da língua galega escrita nos diferentes registos e assim conhecermos quantitativamente a sua presença frente a outras línguas.
Da mesma forma, também será possível traçar as mudanças e a evolução da língua oral nos seus diferentes registos através da análise automática de gravações, tanto da televisão como da rádio. Este seguimento sistemático permitirá observar com precisão que castelhanismos lexicais e sintáticos, assim como outros fenómenos de interesse, são os mais habituais em todos os âmbitos estudados. A publicação regular dos resultados destas análises, concebida como uma monitorização da evolução da língua em tempo real, pode ter um efeito positivo entre as falantes quebrando inércias negativas que travem a queda no uso do galego.
Frente às medições de percepções que só alimentam pré-conceitos já existentes, as observações directas permitem termos um conhecimento real do que está a acontecer com a língua, o que pode ajudar a criarmos uma maior consciência da nossa competência linguística de maneira a incentivar a mudança de comportamentos e usos comunicativos. E se já nada funciona porque não há solução possível, polo menos teremos uma radiografia final de como uma língua desaparece dum território, ao vivo, diante dos nossos olhos.
