A Condessa do Vimieiro e a Obra Inédita e Esquecida de Carré Alvarellos

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Dous livros bem interessantes e recomendáveis, realizados com bom gosto editorial, e que realçam umha jovem pesquisadora de agora, e um pioneiro de iniciativas para o relacionamento galego-português do século XX.

J. M. A. – Os dous livros que na continuaçom se comentam tenhem em comum a sua ediçom no ano 2006 e tratarem-se de volumes de excepcional feitio: um deles, um estudo que consolida umha jovem pesquisadora galega, Raquel Bello Vázquez, como referência nos campos dos estudos Culturais e Literários de Portugal, sobretodo nos respeitantes ao século XVIII; e o outro, por recuperar Leandro Carré Alvarellos, umha figura das Letras Galegas do século XX, que se empenhou em diversas empresas de interesse, situando entre os seus objectivos principais o relacionamento galego-português através de empreendimentos como a revista Quatro Ventos ou o Dicionário de Literatura Portuguesa, Galega e Brasileira da editora portuense Figueirinhas, entre outras iniciativas. Dous livros que também partilham o terem passado quase despercebidos na Galiza, apesar dos seus muitos merecimentos, que os fazem recomendáveis, sem reservas.

1.- A Condessa do Vimieiro: A recuperaçom desde a Galiza de umha figura central do século XVIII português.

Este novo livro de Raquel Bello Vázquez1 é mais um contributo de um trabalho académico iniciado por esta especialista galega na Universidade de Santiago de Compostela nos finais da década de 90 e que deu outros valiosos frutos2, polos quais já atingiu ser valorizada como umha referência3 nos campos dos estudos culturais e literários do século XVIII português, e muito em especial da figura de Teresa de Mello Breyner, a Condessa do Vimieiro.

Este volume pertence a umha colecçom que inclui mais cinco títulos4, em que se estuda a actuação das mulheres no século XVIII português. A sua origem foi o colóquio Mulheres do Século XVIII, realizado na Biblioteca-Museu República e Resistência de Lisboa, no mesmo ano 2006.

Já no início deste livro, Bello Vázquez insiste na defesa do conceito de “Ilustração” em lugar do mais frequente em Portugal de “Iluminismo”, por entender –e justificar– aquele melhor para aplicar ao século XVIII5. Divide o trabalho em cinco capítulos: “Introdução” (pp. 9-15), “Objectivos e objecto de estudo” (pp. 15-18), “Origem social de Teresa de Mello Breyner: trajectória e intervenção até 1777” (pp. 19-72), “Trajectória e intervenção de Teresa de Mello Breyner no sistema durante os primeiros anos do reinado de D. Maria (1777-1788)” (pp. 73-122), e “Síntese conclusiva” (pp. 123-126). Acrescenta a relaçom de “Manuscritos” (pp. 127-128) citados6, e finaliza com as bibliografias metodológica e geral de que se valeu para materializar o estudo.

O principal contributo dos estudos de Bello Vázquez é deitar luz sobre o importante papel que certas mulheres, sobretodo do ámbito da nobreza, realizárom no Portugal do XVIII, e a influência delas para a consecuçom de determinados objectivos políticos, sociais e culturais, sendo a Condessa do Vimieiro um muito valioso exemplo. Esse papel nom está reconhecido de regra na historiografia oficial portuguesa, que reduz a intervençom das damas a (p. 37) “uma imagem de inactividade e passividade que, parece evidente, não corresponde à realidade”. As pesquisas desta estudiosa galega resultárom e resultan umha novidade pola maneira como aplica a essa centúria metodologias com perspectiva sociológica e sistémica, que permitem outras visons mais abrangentes, e menos reducionistas, que as oferecidas de regra pola maior parte dos estudos existentes sobre esse tempo.

De facto, neste livro que se está a comentar nota a ausência de pesquisas respeitantes ao século XVIII português, pois (p. 54) “nem sequer existem investigações que analisem rigorosamente as trajectórias sociais dos membros das academias mais importantes do século (particularmente a Academia da História, a Arcádia Lusitana e a Academia das Ciências de Lisboa), as relações entre as três, ou que informem sobre quais as pessoas que assistiam às suas reuniões públicas e/ou privadas”7.

Apesar dessa carência, Raquel Bello consegue reconstruir a actuaçom da Condessa do Vimieiro, e demonstra como resultou de relevo para essa actuaçom o capital que possuia através da sua formaçom na casa familiar (pertencia a umha das famílias mais ilustradas de Portugal), com amplas preocupaçons no terreno da cultura, o que facilitou que ela realizasse estudos orientados por Cândido Lusitano da Arcádia, umha das principais figuras do século; ou as circunstáncias que envolvêrom o seu casamento com Sancho de Faro em 1767.

Desde 1777, com o reinado de D. Maria I, Teresa de Mello Breyner terá (p. 73) “uma forte presença e promoção do seu discurso de um modelo austríaco para Portugal, tanto no político como no cultural”, que levará à sua ascensom social e a desempenhar um protagonismo importante, com participaçom em iniciativas como a fundaçom da Academia das Ciências de Lisboa.

Raquel Bello defende a existência de luitas entre grupos ideológicos no tempo de D. Maria I, que tivérom entre os seus resultados (p. 94) “a criação e promoção de determinadas instituições claramente vinculadas à Ilustração, e até com a promoção de determinadas pessoas (como podem ser a própria Teresa de Mello Breyner, a condessa de Oyenhausen, o duque de Lafões e outras relacionadas com estas ou com a Academia de Ciências de Lisboa) com uma trajectória ligada à fabricação de ideias ilustradas”.

Numha demorada análise da correspondência de Teresa de Mello Breyner com outra pessoa coeva de posiçom relevante, a Condessa de Oyenhausen, evidencia Bello Vázquez como o papel da Condessa do Vimieiro nom foi subalterno; antes polo contrário, ela, como outras mulheres da primeira nobreza portuguesa, conformárom (pp. 124-125) “um poder na sombra com grandes possibilidades de actuação tanto no campo intelectual como no campo do poder. A habilitação para este tipo de intervenções não vem legitimada por nenhuma instituição académica como podem ser os colégios ou a Universidade, mas unicamente pelo capital simbólico da família a que pertencem”.

Além dos condicionantes das mudanças e intervençons do campo do poder político, Raquel Bello estuda a sociedade da altura e conclui como a oposiçom contra esses grupos de poder feminino se alicerçárom no desenho de (p. 126) “uma educação orientada para tornar atractivo e natural o papel exclusivo de esposas a mães; acabando com a educação exemplar de determinadas damas nobres, desactivava-se o capital que as habilitava para a intervenção no campo, e, em troca, oferecia-se um novo papel na sociedade”.

Assim, o estudo da trajectória de umha figura do Campo Literário e da nobreza leva a pesquisadora galega a tirar conclusons importantes a respeito do papel das mulheres e dos condicionantes que influírom para a sua mudança e evoluçom. Ideias que hoje podem parecer “naturais” a respeito da consideraçom social das mulheres no ámbito familiar, ainda vigentes em certas ideologias, tenhem o seu antecedente nas luitas desse século XVIII, umha centúria certamente de relevo para poder compreender acontecimentos dos séculos posteriores, e mesmo algumhas realidades do nosso tempo.

Umha centúria que, no caso da Galiza, está enquadrada, ainda, dentro dos denominados “séculos escuros”, pendentes de iluminar com trabalhos semelhantes a este, e sobre os quais nos últimos anos se começa a deitar luz, muitas vezes favorecida pola comemoraçom de efemérides sobre personagens8 ou acontecimentos. A procura e análise de novos materiais e dos condicionantes sociopolíticos e culturais desse tempo ajudará para um melhor conhecimento de um século também porventura fulcral para o futuro da Galiza e da sua cultura.

Este livro de Raquel Bello Vázquez evidencia como desde a Galiza se pode atingir repercussom internacional e influir na conformaçom do conhecimento no exterior, ultrapassando a visom quadriprovincial, tam predominante e reducionista (como também tam anestesiante), e tam vigorante na “naçom de Breogám”. Poucos exemplos há na Galiza actual de pesquisadores que, no ámbito das Humanidades, atingissem um impacte exterior como esta investigadora, cujo bom trabalho merece um melhor reconhecimento no próprio país, mesmo de exemplaridade, polo seu rigor e bom fazer.

2.-Obra inédita e esquecida. Teatro, Contos, Ensaios e Lendas, 1915-1972, de Leandro Carré Alvarellos.

Este volume9 principia com um (pp. 9-10) “Apunte biográfico” de Leandro Carré, assinado polo editor; continua um “Limiar” (pp. 11-22), intitulado “Carré na senda do galeguismo máis fecundo: íntegro, activista e polígrafo”, de Xosé Manuel Maceira Fernández; e depois seguem-se os produtos de Carré Alvarellos, parte deles inéditos, distribuídos em quatro epígrafes: “Ensaios” (pp. 22-94), “Contos” (pp. 95-120), “Teatro” (pp. 121-248) e finalmente “Lendas” (pp. 249-269). No cólofon informa-se de coincidir esta ediçom “aos trinta anos xustos do pasamento do ilustre polígrafo e galeguista coruñés”.

O livro, de ediçom bela e cuidada, inclui-se na colecçom “Rescate” da editora compostelana. Contém interessante iconografia, entre a qual merece destaque um autógrafo em que Leandro Carré fala do seu labor na direcçom de A Nosa Terra ou da secçom artística da Irmandade da Fala da Corunha: “fixen que se representaran obras de todol-os escritores galegos, abranguendo no ano un número de 100 representazons”, segundo assinala nesse escrito, reproduzido entre as páginas 94 e 95 do volume.

O editor de Alvarellos intervém directamente –algo nom habitual na Galiza– com um breve texto de apresentaçom biográfica, em que ressalta alguns dos principais contributos de Leando Carré Alvarellos em acontecimentos como a cofundaçom das Irmandades da Fala em 1916, a ediçom (foi director-proprietário de Lar), o teatro, a lexicografia ou o dinamismo cultural galego; bem como a repressom a que foi submetido polo franquismo, concluindo: (p. 10) “gozaba dun considerábel prestixio internacional, tanto no campo filolóxico, lingüístico ou literario, como no eido etnográfico. A correspondencia que se garda no seu arquivo persoal proba esa excelsa consideración que contrasta con certo esquecemento interior”. Salienta nessa breve apresentaçom o sucesso das suas lendas tradicionais galegas, de que se levam vendidos milhares de exemplares desde 1977 em traduçom para língua espanhola (p. 9) “pois no país non atopou quen llo publicara10“.

Xosé Manuel Maceira Fernández, quem no ano 2005 se doutorou na Universidade de Santiago de Compostela com um estudo sobre Leandro Carré11, salienta como este produtor (p. 12) “intentou cubrir todos os espazos culturais que faltaban” e defendeu a (p. 13) “vella consigna de facer unha literatura galega á europea”. A respeito das suas lendas tradicionais galegas, lembra como apresentou um estudo sobre estes materiais (p. 15) “no Colóquio de Estudos Etnográficos ‘D. José Leite de Vasconcelos’ en xuño de 1958. Na intervención congresual tratou as diferenzas entre as lendas galegas e as castelás, detallou as peculiaridades culturais das lendas tradicionais galegas e fixo unha clasificación segundo os seus ciclos temáticos”, um trabalho que alicerçou o seu bem conhecido livro, tam bem sucedido editorialmente. Maceira Fernández oferece esclarecimentos para entender melhor os textos que agora se editam e pom em destaque a importáncia que outorgava Carré ao (p. 19) “humor e a intelixencia”, definindo-o como um autor (p. 21) “tan prolífico, significado do nacionalismo, herdeiro ideolóxica e vitalmente da mellor tradición liberal do galeguismo” e que “traballou a maioría dos espazos da cultura galega, estudou os compoñentes da identidade nacional e creou unha abundante obra literaria”, muita dela inédita, e a que se contribui a deitar luz com este maravilhoso volume incluído no catálogo da editora Alvarellos.

Inclui o livro 4 ensaios, intitulados “Consellos sobre arte dramática”, de 1922; “Pol-a creación d’un teatro galego do noso tempo”, de 1964; “Conceito de literatura galega”, de 1957; e “Limiar ao libro de relatos Contos de Pantasmas“, de 1972. Estes trabalhos evidenciam, na concepçom de um teatro galego, a influência que tivo em Leandro Carré o português Almeida Garrett. O primeiro destes ensaios reúne várias entregas que publicou inicialmente n’A Nosa Terra, embora se completem agora com (p. 25) “pasaxes inéditas”, segundo se indica em acertada nota de rodapé. Neste trabalho defende Carré o ano 1882 como o do início da dramática galega, julgando que a sua (p. 27) “consagración acaeceu em 1903, cando os entusiasmos do primeiro actor Eduardo Sánchez Miño”, e assinala que no tempo dele escrever este contributo o que ele denomina “teatro rexional galego” contava com uns 200 textos. Também oferece indicaçons sobre (pp. 30 e passim) “o que se precisa para ser actor12“, talvez o primeiro trabalho sobre esta questom redigido na Galiza.

Todo vale a pena neste livro, mas por citar outro parágrafo significativo da ideologia deste autor, no ensaio “Conceito da literatura galega”, com o que Carré ganhou em 1957 o prémio Padre Feijoo do Centro Galego de Buenos Aires, e que se encontrava também inédito, escreve13 (pp. 84-85):

Pola semellanza que hai entre a nosa língua galega e mais a portuguesa, que como é ben sabido teñen unha orixe común e no comezo foron só unha e a mesma, leio con relativa frecuenza obras literarias do país irmán. Camilo Castelo Branco e mais Eça de Queiroz son os meus preferidos, inda que coñezo tamén outros escritores lusitanos de mérito indiscutíbele.

¡Así quixera eu que fose a nosa literatura romancesca! E o noso teatro emparellado ao de Marcelino Mezquita ou Julio Dantas; e os nosos contos equivalentes aos de Raúl Brandão, Trindade Coelho ou João Grave…

Se os novelistas ou contistas galegos; em xêral todos aqueles que fan ou tencionan facer Literatura, lêran no idioma orixinal os escritores portugueses, adeprenderían moito, pois que adeprenderían a usar a nosa fala esgreviamente”.

Na continuaçom, e no que constitui a principal parte do volume, incluem-se textos ficcionais: seis contos (“A volta do emigrante”, de 1915; “Neboeiro”, de 1917; “Orfo”, de 1917 também; “A serea”, de 1953; “Duas rosas de amor”, de 1972, que ficou excluído dos Contos de Pantasmas; e “As duas amigas”, sem datar, um conto infantil dedicado para a sua filha Adela Carré e também inédito); cinco textos para teatro (“Trabucamento”, sem datar; “Un home doente”, de 1934; “A foliada”, de 1944; “Ao rolar da vida”, de 1929; e “Margarida-Rosa”, também sem datar); e mais cinco lendas (“A peita das cen doncelas”, “O namorado desditoso” e “A doniña cerva”, de 1955; “O Lobishome”, de 1956; e “As cunchas de Sant-Iago”, de 1958, esta última de temática jacobeia, difundida inicialmente em Buenos Aires). Estas cinco lendas som exemplos das cinco temáticas14 que diferencia Carré para as lendas tradicionais galegas, e estám escolhidas entre as primeiras publicadas por Carré.

Em definitivo, um belo volume, de muito proveito para conhecer umha figura de grande relevo das Letras Galegas do século XX; um membro da Real Academia Galega que nom tivo toda a atençom que merecia dessa instituiçom nem em vida, nem depois da morte, nem na actualidade.

3.-Conclusom.

Dous livros, portanto, bem interessantes e recomendáveis, realizados com bom gosto editorial e que realçam umha jovem pesquisadora de agora; e um autor do século XX, de muito valor ambos.

Dous nomes, enfim, os de Raquel Bello Vázquez e Leandro Carré Alvarellos, que confluem nesta década inicial do século XXI polo imerecido esquecimento dos seus valiosos contributos, um mal ao que oxalá se ponha remédio quanto antes polo que suporia de “normalizaçom cultural” (e nom só) do país.

Compostela, Dezembro de 2009.

Notas:

1 BELLO VÁZQUEZ, Raquel, (2006), Mulheres do Século XVIII. A Condessa do Vimieiro, Lisboa, Ela por Ela, 136 páginas.

2 Os primeiros resultados da pesquisa, realizada no Grupo de Investigaçom dos Sistemas Culturais Galego, Luso, Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa (Galabra) da Universidade de Santiago de Compostela, fôrom defendidos na sua Tese de Licenciatura, apresentada na Faculdade de Filologia de Santiago de Compostela em Junho de 2001, sob orientaçom do Professor Elias Torres Feijó e com o título Mulher e Ilustraçom na Segunda Metade do Século XVIII em Portugal; e começárom a ser difundidos no ano 2004 por esta investigadora em duas prestigiosas publicaçons: a revista Portuguese Studies (Volume 20, pp. 89-107), do King`s College londrino, no artigo “Lisbon and Vienna: the correspondence of the Countess of Vimieiro and her circle”; e no volume colectivo Mulheres Más. Percepção e Representações da Mulher Transgressora no Mundo Luso-Hispânico, publicado pola Universidade Fernando Pessoa do Porto, sob organizaçom de Ana Maria da Costa Toscano e Shelley Godsland, em que contribuiu com (pp. 159-175) “Dá uma risada quando ouvires… transgressão e ocultamento em Teresa de Mello Breyner”.

No ano 2005 a Universidade de Santiago de Compostela editou a sua Tese de Doutoramento, defendida na instituiçom, intitulada “Uma Certa Ambição de Glória”. Trajectória, Redes e Estratégias de Teresa de Mello Breyner nos Campos Intelectual e do Poder em Portugal (1770-1798); também em 2005 a editora Laiovento publicou, na Galiza, o seu livro Mulher, Nobre, Ilustrada, Dramaturga. Osmia de Teresa de Mello Breyner no Sistema Literário Português (1788-1795), de 384 páginas, que atingira no Ferrol o prémio Carvalho Calero e que se alicerça na sua Tese de Doutoramento; e ainda nesse mesmo ano, em Portugal, no volume Correspondência (Usos da Carta no Século XVIII), publicado pola editora lisbonense Colibri em ediçom da Professora Vanda Anastácio, incluiu, nas pp. 71-83 o seu trabalho “Privacidade e publicidade: a correspondência pessoal como forma de intervenção nos campos intelectual e do poder”.

Além disso, no mesmo ano 2006 a editora brasileira Nova Prova, de Porto Alegre, no volume Questões de Crítica e Historiografia Literária, organizado por Maria Eunice Moreira e Luiz Roberto Velloso Cairo, incluiu nas páginas 193-200 o artigo “Luz no Ángulo Obscuro da Cultura: Revisom Sistémica da Historiografia Literária”, em que Raquel Bello Vázquez se ocupa também deste mesmo assunto, trabalho este que tinha defendido anteriormente no Congresso da Associação Brasileira de Literatura Comparada; por citar só os principais contributos até a ediçom deste livro em Portugal, a que seguíron outros nos anos seguintes.

Também em algum trabalho na revista Agália, em que tem colaborado e de que formou parte do Conselho de Redacçom, Raquel Bello Vázquez tem oferecido trabalhos de valor sobre os seus estudos do século XVIII.

Para além desta pesquisa altamente especializada respeitante ao tempo da Ilustraçom Portuguesa, Raquel Bello Vázquez difundiu vários trabalhos devotados sobre a Galiza, com semelhante perspectiva metodológica.

3 Essa referencialidade foi publicamente reconhecida com ensejo da ediçom deste volume em Portugal. Assim, num primeiro “Prefácio” do livro (p. 5-6), a Professora Ana Duarte Rodrigues qualifica o estudo de Raquel Bello de “trabalho exemplar de investigação e de análise”; num segundo “Prefácio” (pp. 7-8), Nuno Gonçalo F. Monteiro, do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, afirma que “Este pequeno livro de Raquel Bello Vázquez, no qual se retomam e sistematizam muitas perspectivas desenvolvidas em trabalhos mais extensos, constitui, a vários títulos, não apenas uma leitura sedutora, mas também a apresentação em edição portuguesa de um percurso intelectual e de investigação marcadamente inovador. Desde logo, porque procura uma articulação pouco frequente entre o terreno da história literária e o da história social e política”.

Numa crítica do livro assinada pola Professora Teresa Almeida, no semanário lisbonense Expresso, esta prestigiosa especialista do século XVIII do campo universitário português afirma que o livro de Bello Vázquez (pp. 56-57) “ilumina o percurso da condessa do Vimieiro, estudando, paralelamente, a actuação das mulheres da primeira nobreza na segunda metade do século XVIII tanto no campo do poder como no campo intelectual. No entanto, não deixa de ser sintomático que não tenha chegado até nós uma imagem desta figura, agora revelada em Portugal”.

4 Som eles: O Belo Ideal, de Ana Duarte Rodrigues; Os Retratos, de Bruno Marques; Pintoras Portuguesas, de Luísa Capucho Arruda e Aline Gallasch Hall; O Aborto, de Regina Marques; e Conventos de Freiras, de Filipe Costa, todos publicados pola editora Ela por Ela, e no mercado ao preço de 7,65 euros cada.

5 Já fizera essa diferenciaçom em trabalhos precedentes, nomeadamente no livro publicado na Galiza por Laiovento, onde esclarece a sua preferência por “Ilustraçom”, ao valorizar “Iluminismo” como a transferência de umha palavra italiana, nunca utilizada no período ilustrado em Portugal, com o intuito de reafirmar o tópico generalizado de ser a Ilustraçom portuguesa um movimento de raiz basicamente italiana, quando Bello Vázquez o define como (2005: 45) “um movimento ideológico de âmbito internacional que se desenvolve ao longo do século XVIII em todos os países colocados na órbita europeia. Este movimento tem como base fundamental e definitória o Racionalismo e, embora se verifiquem diferentes tendências dentro das diferentes Ilustraçons europeias e americanas, entendemos que é a aplicaçom da Razom, apoiada nos avanços científicos e nas suas cada vez maiores aplicaçons técnicas, às formulaçons políticas, éticas, artísticas, lingüísticas, e mesmo comportamentais o que confere unidade a todas estas correntes ideológicas, por outra parte, tam diferentes”.

6 Refere 42 cartas autógrafas de Teresa de Mello Breyner, cujo estudo desvenda informaçons valiosas sobre a vida, os movimentos sociais e a produçom desta dama da nobreza portuguesa, e que permitírom que a investigadora pudesse inferir muitas das importantes revelaçons e conclusons do seu trabalho.

7 Outras dificuldades que aponta para o estudo deste século som (p. 74) “a perda e deterioração de documentação, dificuldades para reconstruir o campo político, social e intelectual, a confusão entre a reconstrução historiográfica e a intervenção ideológica, etc.” para além de “os escassos trabalhos sobre o reinado de D. Maria I”, a rainha que ocupa o trono português após a morte de D. José I (acontecida em 24 de Fevereiro de 1777) e da conseqüente destituiçom do Marquês de Pombal como ministro. Essa mudança representou umha nova situaçom para os condes de Vimieiro e outros grupos, que passárom a ocupar posiçons centrais e deixavam outras mais periféricas desenvolvidas até a altura.

8 Assim aconteceu, v. gr. há ainda poucos anos, com ensejo de lhe ter dedicado o Dia das Letras Galegas ao padre Sarmiento.

9 Carré Alvarellos, Leandro, (2006), Obra Inédita e Esquecida. Teatro, Contos, Ensaios e Lendas, 1915-1972, Santiago de Compostela, Alvarellos, 270 páginas.

10 Um livro editado com antecedência em Portugal, no Porto, em 1969, com o título As lendas tradizionaes galegas, como indica Xosé Manuel Maceira (p. 15).

11 Esse estudo, em dous tomos, intitula-se “Leandro Carré Alvarellos na Literatura Galega”, e nele reproduz numerosos textos inéditos de Carré Alvarellos.

12 A primeira condiçom para conseguir esse fim é ter vocaçom; e isso consiste, segundo Carré, que entre outras peculiaridades se tem de ter (p. 30) “cobiza de groria”. Esta afirmaçom permite colocar em diálogo o produtor galego com a portuguesa Teresa de Mello Breyner, quem defendia a necessidade de “uma certa ambição de glória” geradora de energia na procura dos fins propostos.

13 Reproduz-se textualmente a grafia de Carré, que foi respeitada neste volume, segundo se avisa no mesmo.

14 Som elas, segundo esclarece Maceira Fernández: a fábula popular, o carácter religioso, a lenda fantástica, o relato histórico. e os temas cabaleirescos e amorosos.