A bolha autonomista e a ‘Questione della Lingua’

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Por Carlos C. Varela

Apesar do (ou precisamente graças ao) culturalismo dominante na nossa comunidade nacional, nom há nem o menor rasto de algo assim como um espaço público, de debate a sério, para além da troca ritual de narcisismos ou o barulho cibernético. E, as exceçons, som tam honrosas quanto minoritárias. Isto é especialmente óbvio numha questom fundacional e estruturante do ‘campo galeguista’: a da língua e a sua ortografia. Se Guillem Fernández tentasse adaptar o seu conceito de Cultural de Transiçom à especificidade galega, seguramente bateria com um pacto de silêncio arredor da ortografia do galego; quando se tem o poder, a melhor maneira de ganhar um debate é proibindo-o (ora literalmente, ora ridicularizando-o por reduçom ao absurdo). A unidade prática entre o galego e o português é um autêntico tabu estrutural, intocável sem abalar todo o edifício construído sobre eles porquanto quebra os moldes do Estado.

Por todo isto o livro de Carlos Taibo e Arturo de Nieves é umha magnífica notícia. Três perguntas básicas (1ª. É adequada a normativa ortográfica “oficial”?; 2ª. O galego e o português som a mesma língua?; 3ª. Qual deveria ser a nossa relaçom com a lusofonia?) fôrom postas perante um cento de pessoas destacadas da cultura galega. Que aceitassem responder à entrevista pouco mais da metade (56), e até nalgum caso parece que a contragosto, é a melhor prova do necessário que era propor o debate. Mas três décadas de silêncio aos berros começam a saltar polo ar junto com a explosom da “bolha autonomista”: o pacto autonómico –ameaçado de ruptura antes bem polo lado da ré-espanholizaçom– já nom tem a capacidade de outrora para repartir prebendas e comprar consensos. Espera-se entom que a cultura nacional volte a pôr os pés na terra e regresse à autogestom popular, onde as placas da política lingüística nom mandam, senom a qualidade das propostas valorizadas em comum e horizontalmente. O degelo é tam rápido que quando o livro saiu do prelo algumhas entrevistas já ultrapassavam na prática as opinions previamente dadas.

Umha panorámica das respostas mostraria, mais ou menos, o esperável. Quanto à ortografia, sob o suposto consenso “cordial”, detecta-se umha grande contestaçom –praticante ou nom–às normas ILG-RAG. Muitas respostas, dadas de umha perspetiva académica, som logicamente filhas das teorias em boga no ensino da época: conceçom meramente técnica da ortografia, adequaçom da escrita à fala… E outro tanto nas respostas à segunda pregunta, onde as árvores, troncos e ponlas da lingüística decimonónica crescem por toda a parte, colocando cada quem os enxertos ou bifurcaçons onde melhor corresponder a cada prática particular. Quanto à última, há significativamente umha disposiçom unánime a intensificar relaçons com a lusofonia.

Muito mais interessantes som as linhas de fuga que abrem algumhas respostas. Por exemplo a de Mercedes Peón à segunda pregunta: “o debate, ao meu entender é, se é mais conveniente para a sobrevivência da língua galega” umha ortografia ou outra. Ou as de Claudio Rodríguez Fer, ao focar a atençom na fala e na escrita como espaços em que se realizam relaçons de poder, assunto ao qual Celso Á. Cáccamo ou Mário Herrero já realizárom importantes achegas, embora de umha perspetiva mui diferente e à margen de qualquer oficialidade. Também as respostas que vam além da língua e apontam, por exemplo, a potencialidade descolonizadora do reintegracionismo pola sua projeçom (inter)nacional.

De resto, repetem-se os sintomáticos lugares comuns de intelligentsia galega, reveladora de todo um ethos galeguista. Como no abuso do imperativo impessoal -que diria Heidegger- do ‘se’: “de producir-SE umha mudança…”, “quando SE faga algo…”. O testa-de-ferro mitológico do intelectual rebelde e transformador parece esconder, antes bem, umha disposiçom de telespetador claramente à retaguarda do movimento popular. Isso que Bourdieu chama o “conformismo do inconformismo”. Bastantes reaçons face às possibilidades da Lusofonia e o relacionamento com Portugal som as da raposa face às uvas altas, umha sorte de unamuniano “que se galeguizem eles!” que nom nos podemos permitir. Ainda, muitas críticas que se fam às ressonâncias neocoloniais do movimento lusófono som demasiado necessárias como para rebaixá-las a simples pretexto para nos mantermos num autismo suicida. Sobre o sempre polémico ajustamento entre o dito e o feito, que neste tema produziu as circunvalaçons mais acrobáticas, som de agradecer declaraçons tam sinceras como as de María Xosé Queizán, que reconhece ser reintegracionista de prática “oficialista” para nom perder oportunidades no mercado literário.

O formato do livro, enfim, é umha boa ideia que se poderia aproveitar para tomar o pulso de outras questons chave para a Galiza que se move. Esta obra nasce, aliás, dessa comunidade nacional sustentável e autogerida que nom depende dos avatares do mercado eleitoral. O trabalho militante destas duas pessoas com vocaçom de serviço ao movimento; a editora de umha AGAL que leva décadas a trabalhar por umha língua sustentável; ou a cooperativa Sacauntos que o levou ao papel, som exemplos destes cimentos sólidos de país que, à vez, som semente.

Arturo de NIEVES e Carlos TAIBO (Coor.). Galego, português, galego-português. Falam 56 figuras da cultura galega. Através, 2013.