David Canto – Um parêntese, um breve parêntese, aguardamos. Há uns meses que o Aberto por Reformas fechou e, com ele, umha etapa de zénite para a música do país.
Quando Xurxo Souto (Monte Alto, A Corunha, 1966) fai umha parada parece que algo vai acabar… Por enésima vez deixa o caminho marcado, e bem marcado. Esta vez deixa umha geraçom de músicos e umha audiência que dificilmente teria vivido umha obra tam longa e tam curta, tanto que haverá que «continuá-la noutra praça», como rezava a repichoca final, no dia 1 de Junho na Rádio Galega.
Como valorizas estes três anos de Aberto por reformas? Cumpriste as expectativas ou superaste-as?
À margem das expectativas, foi umha experiência fascinante. A minha sensaçom pessoal é que foi umha grande avalancha de música a eito. Eu pensava que conhecia a música galega, mas descobrim que é muitíssimo mais ampla. Foi mui bonita a relaçom com umha audiência que demandava esse tipo de música e também o descobrimento de toda umha geraçom de músicos sem passado. Eu gosto de chamar este último ano, o ano do lampejo, do lóstrego, porque véu umha fornada de grupos que estám a marcar um fito na história da música galega.
A efervescência musical que se está a produzir tem as suas raízes no espaço que oferecestes aos grupos que vemos agora nos festivais.
Estám a acontecer cousas extraordinárias na música galega. Em Vigo, Aid, a rapeira de Valadares, é fascinante. Na Corunha está a passar o momento ‘Corunhento’, nunca houvo tantos grupos em galego e de gente nova: Chama-lhe Xis, de Bluesoms, Chotoko eu, Trapalhada…
Todos eles tenhem um elemento comum, a presença da mulher como parte importante. Terra adentro, em Ourense, encontramos um dos lugares mais cosmopolitas do mundo, com toda essa música mestiça. Por outro lado, também estám a acontecer cousas na aldeia. Sempre se fala de que o rock é algo urbano, mas o outro dia estivo Zenzär em Cerzeda, 20 anos de Rock& Roll, e o rapaz que controlava o som era de Cerzeda!
E o resto da programaçom? Os resultados de audiência também te respaldavam, estás satisfeito?
Ponho em questom todos os índices de audiências porque é um sistema que sabemos que é mau e que se converteu na balança de medir para favorecer projectos ou para tombá-los. Mesmo assim, a publicidade aumentava constantemente.
O projecto consistia em tentar que a Rádio Galega fosse mais galega. Este país tem um problema, que é a grande incomunicaçom, umha pessoa de Burela sabe pola rede o que acontece em Berlim, mas nom sabe o que acontece em Verim, e um de Verim… Quem tinha que criar esse espaço de comunicaçom era a Rádio Galega, e nós caminhamos para conseguirmos isso. Nom o conseguimos totalmente, mas dérom-se esses primeiros passos. Encontramos umha rádio em estado de hibernaçom que, de algum jeito, começou a latejar.
Aguardavas um fecho tam drástico?
Entrou umha nova direcçom e é normal que eu tivesse de sair. Aí nom tenho nada que dizer. Mas, quanto a “Aberto por reformas”, pudérom-se cuidar um pouco mais as formas, no sentido de que era um programa significado como elemento ligado às músicas galegas emergentes, e essa mudança radical de conteúdos foi umha torpeza.
Após o feche de Aberto por reformas geriu-se umha resposta popular organizada em defesa da música galega na CRTVG com o teu programa como bandeira. Esperavas umha reacçom assim?
O importante disto todo é que estas músicas tenhem umha audiência e que há um público mui amplo que as demanda. Todos e todas devemos continuar a demandar umha programaçom em que essas músicas tenham um lugar importante. Por imperativo legal, como di nos primeiros artigos da Lei de Criaçom da Companhia, essa rádio está criada para a difusom da língua e da cultura galega. Se isto nom se fai, está-se a incumprir a lei.
A defesa e difusom da música galega e a ligaçom com a lusofonia fazia-se com total naturalidade. Resultava fácil estabelecer nexos entre elas?
A relaçom é natural. Antes da dimensom “científica” do debate filológico, está a realidade da comunicaçom, das emoçons. A música é emoçom, portanto a música cantada em português é música nossa, é parte das nossas emoçons. A música cantada em português, já seja na variante brasileira, moçambicana ou angolana, é umha música que imediatamente sentes dentro de ti, estám a falar na tua língua emocional, e isso é o mais importante.
Agora colaboras em Radio Coruña, que explora a tua faceta literária. Está fechado o Xurxo Souto músico-radiofónico e é o momento do teu alter-ego propriamente literário?
Eu sinto-me comunicador, sempre que tivem um meio a mao empreguei-no. Tanto se era umha caneta como se era um microfone… De facto, é o que levo fazendo toda a minha vida, com os grupos de música, a Tropa da Tralla ou em Radio Coruña… Estes últimos anos, o volume de trabalho que implicava estar na Rádio Galega impedia-me fazer outras cousas. Agora estou, digamos assim, de ano sabático, voltando ao rego das minhas emoçons. Dedicarei-me a escrever outra vez…
Tiveste algum oferecemento para continuar de algum jeito o labor que fazias estes anos?
Por enquanto nom. Neste momento, aspiro, por motivos pessoais, a ter um ano sabático, quero fazer um parêntese, a ver se som capaz de consegui-lo. Mais adiante claro que sim, a rádio é um meio absolutamente maravilhoso, mas agora tentarei fazer umha pausa.
Estás nos cenários com Os Tres Trebóns, com um espírito bravú mui marcado. Com umha gira tam intensa como a deste ano… podemos aguardar umha entrega ao labor musical similar à da época dos Diplomáticos?
Nom. Como músico, a felicidade que sinto sobre um cenário nom é comparável a nada, as sensaçons som plenas. É lógico que queiramos subir aos cenários e experimentar essa sensaçom. Os Tres Trebóns é um conjunto de baixa intensidade, por assim dizê-lo, aberto, em que vam entrando amigos, vam-se incorporando, e tem esse objectivo. Estes anos estamos a tocar muito, mas nom se trata de criar um novo projecto musical sólido.
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 81 do Novas da Galiza.
+ Ligaçons relacionadas:

